Wednesday, December 09, 2020

ATENÇÃO!

 ATENÇÃO!!!    

Vamos explicar a terceira vaga da pandemia para ver se nos entendemos:

Vives com a tua mulher e os teus dois filhos. Os teus pais são idosos e tens pena de deixá-los sozinhos no Natal, então vais passá-lo com eles.

Resulta que o teu colega de trabalho com quem bebes o “cafezinho” todas as manhãs, liga-te no dia 26: és COVID Positivo. Liga-te a equipa rasteadora, ainda não tens sintomas mas fazem-te a PCR no dia 26 de Dezembro de tarde.

Avisam-te de que és positivo no dia 27 e tens que identificar quem esteve contigo nas últimas 48 horas.

“Fod... os meus pais!!!” A tua mãe tem 76 anos e é boa onda mas tem tem uma cardiopatia. O teu pai tem 82 e está a iniciar uma demência senil, acresce que durante todo o ano 2020 estiveste a negar essa evidência. Precisa de ajuda para tudo excepto para comer e tem uma alteração da marcha.

No dia 28 inicia a febre. Já estás isolado e não podes ajudar aos teus pais, que também estão isolados e à espera do resultado da PCR. No dia 29... os dois estão positivo. Os dois!

As enfermeiras fazem-te videochamadas mas está desorientado pela febre, a falta de oxigénio e não te reconhece. Morre sozinho no dia 9, ninguém pode ir vê-lo porque também estão infectados.

No dia 7 de Janeiro a tua mãe, boa onda, começa a deteriorar no seu estado hemodinâmico, apresenta uma pneumonia bilateral por COVID-19 e está com insuficiência cardíaca. Ela sim tem critério para entrar na UCI. É entubada e entra na UCI. Mas não podem visitá-la.

Os intensivistas informam-vos diariamente, mas tu já perdeste ao teu pai e não entendes nem o que te dizem. Passa uma semana, duas, três.

A tua mãe continua entubada, ventilada em posição decúbito (ou seja, barriga para abaixo) e está sedada. Tens medo que não acorde nunca mais. Acorda no dia 12 de Fevereiro, depois de 5 semanas na UCI. Não consegue andar, tem perda de massa corporal. Fadiga, só de virar-se na cama, porque a sua capacidade pulmonar está muito reduzida. Terá entre 6 meses a 1 ano de reabilitação.

Os teus filhos nem se apercebem do COVID, a tua mulher (que não gostava dos teus pais) não andou aos beijos e abraços na Consoada e sentou-se na ponta mais afastada da mesa. Levou a máscara excepto para comer e vocês apelidaram-na de histérica.

Como não sabia com quem tinha andado a tua mãe, que era tão boa onda que saia todos os dias a passear e aos recados, não se aproximou dela e, por isso, não se contagiou.

Ela, que queria comer só uns ovos estrelados com batata frita na vossa casa e que nem visitou os seus pais, tem que cuidar dos teus filhos assintomáticos mas isolados, a ti e todo o problema dos teus pais. Não gostava muito deles mas foram 20 anos de convivência e sempre havia alguma estima. Tem ansiedade e angústia, não consegue dormir e está sempre a chorar, tem pânico de te perder também a ti.

Está de baixa por assistência à família apesar de receber ameaças de ser despedida, mas está a ver que toda família vai por água abaixo.

Tudo por um Jantar, por um Madeiro...

Ah, o funeral ainda não se fez. Como vão a fazer o funeral ao teu pai com a tua mãe nos intensivos?!

Por favor fiquem cada um na vossa casa, digam o que digam, seja a tradição que seja.

Cuidem-se aí fora!

(Texto de uma médica anónima, espanhola)