AZEDUME!
Anda por aí muita gente ressabiada, zangada, desconfiada,
insegura, melindrada com a vida e por isso estrebucha por todos os lados.
A raiva não é boa conselheira. Quando temos os nervos à flor
da pele tendemos a exagerar nos nossos procedimentos. Falo por mim que, muitas
vezes, tenho o coração ao pé da boca e digo o que devo e não devo.
Vem isto a propósito da percepção que, se não anda tudo doido,
parece. Anda toda a gente muito agastada, porventura com razão, mas depois
actua da pior maneira possível. Todos os dias somos confrontados com notícias de
zaragatas sem sentido junto de discotecas, nas bombas de gasolina e até em
cinemas e isto não é normal. Não pode ser normal. Já sei que há para aí muito bem-pensante
que vai dizer que isto é resultado da pandemia, que o isolamento e o
confinamento tiveram implicações na psique colectiva, mas a pandemia não pode
ser a panaceia para justificar tudo o que está a acontecer no país.
Talvez seja bom meditarmos sobre o que está a acontecer e que
não é bom para ninguém.
Comecemos então por coisas importantes:
A carestia dos combustíveis é extremamente preocupante. Os
combustíveis vão ao bolso de toda a gente, rico e pobre, patrão e empregado, alto
quadro ou simples trabalhador indiferenciado. Os agricultores queixam-se do
aumento dos custos de produção. As petrolíferas lastimam-se por causa dos
preços na origem. As cadeias de distribuição dizem que é preciso aumentar os
produtos alimentares porque os transportes encarecem os produtos. Algum
comércio sente falta de produtos e, quando não sente diz que houve aumentos que
chegam aos trinta por cento.
A crise política, artificial, calculista, devido à não
aprovação do Orçamento de Estado é mais uma fonte de ressabiamento e de azedume.
As eleições autárquicas deixaram um rasto de insatisfação e
ressabiamento, mais do que de júbilo e alegria.
É ver que está a acontecer nos partidos políticos, na sua
esmagadora maioria. No PSD é a luta interna com acusações de parte a parte sem
uma ideia para fazer face à crise, do ponto de vista do país. No CDS, então, é
uma peixeirada desbragada, com a debandada dos barões que, na maioria, só o são
porque foi o CDS que os promoveu. No Bloco de Esquerda a líder tem a cabeça a
prémio porque ao longo destes últimos anos tem demonstrado ser uma perdedora.
Nos últimos anos perdeu todos os actos eleitorais em que se meteu. Ganha nos
corredores e na secretaria, mas perde junto do povo eleitor. No PCP o líder
está a prazo há meia dúzia de anos porque apesar da bonomia e simpatia perde,
sistemática e consistentemente a sua força eleitoral e nem a correia de
transmissão CGTP consegue disfarçar esta realidade. O PAN está apavorado com o
espectro de extinção porque já entendeu que o povo não gosta de proibições e
este partido é o rei das proibições e do condicionamento da vida das pessoas
reduzindo-as a coisas e os bobis e os tarecos ainda não votam. O PS está a
lutar pela sobrevivência porque já entendeu que se pode enganar pouca gente
durante muito tempo e nunca enganar muita gente para sempre. Já entendeu que
não pode dizer uma coisa e fazer outra completamente diferente. Ter um discurso
europeu em Bruxelas e um discurso Venezuelano em Portugal. Não pode ser, como
diz um destacado militante socialista e ex-ministro da saúde de António Costa,
que até dizia que “somos todos Centeno” que não quer que o PS seja um BE 2.0. Saem desta roda o Chega e a Iniciativa Liberal,
porque sendo partidos de protesto, se encaixam nesta voragem de ressabiamento
da sociedade portuguesa. Vamos ver o que resulta desta embrulhada.
Uma coisa temos como certa, o ressabiado não tem capacidade
de encaixe. Não sabe perder e a vida, de toda a gente, nunca é só de vitórias,
há obstáculos e desaires. É preciso encará-los com bonomia e com humildade.
Mas temos com adquirido que só em conjunto, todos e sem
deixar ninguém para trás, é que podemos levar a bom porto a Nau que anda em mar
revolto.
Apesar de já ser longa a dissertação vou pedir-vos mais um
bocadinho de paciência e atentem numa história que me apareceu e que julgo
pertinente:
“Havia um grupo de pessoas que se reunia periodicamente para
comunicar, conviver e parodiar. Um dia um elemento do grupo saiu deste sem dar
justificação. Depois de algumas faltas aos encontros um dos elementos resolver
visitar o desertor na sua casa, encontrando-o junto de uma lareira bem acesa,
com a lenha crepitando, dando luz e calor. O visitante, em vez de questionar, acercou-se
da lareira e retirou, com uma tenaz, a brasa mais incandescente e mais brilhante
do meio da lenha a arder e pô-la de lado. Pouco tempo depois a brasa era apenas
carvão. Então o visitante voltou a colocar o carvão no meio da lareira e este
reacendeu, voltando a ser brasa viva e aquecedora. O visitado percebeu a
mensagem e ali prometeu voltar ao grupo para fazer parte deste fogo que aquece
os corações”.
Todos sabemos que ninguém pode ser feliz sozinho. É altura de
deixarmos o azedume e o ressabiamento.
3/11/2021
Zé Rainho