Sunday, August 09, 2020

Agosto de 1967/2020

 Depois de ter passado por muito, em trabalho, guerra e outras vicissitudes, faz hoje cinquenta e três anos que me senti mais homem. Nasceu a minha primeira filha, a minha Lena. Foi um dia muito aflitivo. 

Apesar de estar tudo organizado com tempo e com pessoas responsáveis a aflição começou pelas seis horas da manhã. Dois dias antes tinha levado a minha mulher ao médico assistente que nos disse: caso a criança não nasça até dia nove tem de se deslocar à maternidade para ser internada. Como atrás se disse estava tudo organizado para a criança nascer em casa. Parteira diplomada contratada tudo como deveria ser para salvaguardar a segurança da minha mulher e da criança que iria nascer, com mais atenção e comodidade do que na maternidade, já que ali, a escassez de recursos e a complicação de alguns partos as condições não eram as melhores que eu queria para a pessoa que eu mais amava. Tudo articulado com o médico assistente. 

Mas, dizia eu que o dia começou com aflição porque a minha mulher começou a sentir dores e eu tinha de ir trabalhar. Não era possível, de maneira nenhuma, faltar ao trabalho pois era o único funcionário numa repartição pública que tinha, necessariamente, estar aberta ao público das nove ao meio-dia e das catorze às dezassete. Tinha vinte e três anos. Totalmente inexperiente. Não sabia o que fazer. Telefonei à parteira. Acordei-a e disse-lhe o que se estava a passar. Perguntou-me a que horas tinham começado as dores e qual era o espaço entre as dores. As dores tinham começado de madrugada mas julgando ser da ansiedade porque não queria ir para a maternidade não se prestou muita atenção. A parteira desvalorizou dizendo que o parto ainda deveria demorar horas mas que mesmo assim ela já vinha ver como estavam as coisas. Assim fez. Pouco tempo depois lá estava em casa e, devido à grande experiência, disse que ainda muitas horas pela frente antes do nascimento. Eu é que não fiquei descansado e, meti-me no carro e corri a casa dos pais para pedir à minha mãe para não ir trabalhar e ficar com a minha mulher pois não a queria deixar sozinha, naquela situação. 

Assim aconteceu e eu, entretanto, lá fui para o meu trabalho. Ninguém imagina o que foram aquelas três horas de trabalho. Uma angústia que, ainda hoje, não consigo descrever. 

Saí ao meio-dia em ponto e quase voei para casa. Estava tudo na mesma excepto a violência das dores que tinham aumentado, para mim extraordinariamente, para a profissional de saúde, tudo dentro da normalidade. 

Tentei comer alguma coisa mas o nó na garganta não deixava passar nada. Deixei a comida no prato e abraçava a minha mulher procurando dar-lhe o ânimo que eu não tinha. 

Voltei para o trabalho, em cima da hora, para passar mais duas horas de puro terror. Pelas cinco da tarde sai outra vez voando para casa e vi a minha mulher desesperada com dores e a parteira não havia maneira de aparecer. 

Passei de ansioso a furioso. Telefonei à senhora que me disse estar de serviço na maternidade mas que vinha uma colega substituí-la. A espera tornou-se tão dramática que já não sabia o que havia de fazer. Os nervos à flor da pele, o medo, pavor mesmo, a aumentar a cada minuto. Pelas seis e meia da tarde chegou a senhora parteira que eu não conhecia. Não me contive e comecei a invectivá-la sem ter consciência do que lhe disse mas acho que fui inconveniente. A senhora com toda a calma disse-me que me acalmasse que tudo iria correr bem. 

De facto começou a preparar a minha mulher e, pelas sete da tarde, em Luanda, já noite, nasceu a minha filha. Ía estourando de alegria e alívio.

Senti-me mais homem nesse dia. Aumentaram as responsabilidades. 

Hoje passados estes cinquenta e três anos sou um homem feliz. A minha filha é uma mulher autêntica, profissional competente e respeitada, realizada e feliz. Sempre com uma gargalhada franca e bem disposta que alegra todos os que a rodeiam. 

Estamos com ela e vamos partilhar esta vontade de viver e esta felicidade. Damos graças a Deus por tudo o que nos aconteceu e nos acontece no dia-a-dia. 

P

No comments: