OS RECADOS!
Quando em criança era necessário dizer algo a alguém,
familiares, amigos, vizinhos, os meus pais mandavam-me dar os recados
necessários e pertinentes. Ou seja, ir comunicar o que os meus pais tinham de
dizer e não tinham oportunidade de o fazer. Não por vergonha, receio, ou
qualquer prurido de enfrentar as pessoas, mas, por serem coisas simples, banais,
ainda que úteis, para ambas as partes.
O tempo que passou desde a minha meninice é muito e muita
coisa mudou na minha vida pessoal e na vida em sociedade. Não admira, pois, que
os recados hoje tenham outro cariz. Outra importância e outros meios de
propagar. Já não são as crianças que fazem os recados, mas são as televisões,
os jornais, a rádio e todos os demais meios de comunicação social e até as
artes, como seja o teatro, o cinema, o audiovisual. Quem manda os recados é
quem tem o poder para determinar o veículo do mesmo.
Hoje assistimos à tomada de posse do Senhor Presidente da
República Portuguesa e, como é hábito e protocolar, há discursos de vários
protagonistas e, como é bom de ver, cada um à sua maneira, lá se encarrega de
mandar recados a este, àquele e aqueloutro, uns de forma mais directa, outros
mais subtilmente, uns mais contundentes, outros mais melífluos, mas todos com
destinatários bem definidos.
Mas aqui, ao contrário de quando eu era criança, o mandador
de recados, ou emissor, não tem a coragem de dizer na cara do receptor o que
precisa, sente ou quer e, por isso, escuda-se em metáforas ou subentendidos.
Como não podia deixar de ser, todos aproveitaram o seu tempo
de antena para enviar os recados que entenderam. Não vamos analisar aqui os
recados menores, quer por serem reproduções de cassetes demasiadas vezes
ouvidas, quer pela importância ou conteúdo dos mesmos.
Vamos, pois, àqueles que, em nossa opinião são os mais
relevantes. Nem positivos nem negativos, apenas mais substanciais.
Comecemos então pelo do Presidente da Assembleia da
República. Um discurso com recados para o Chega onde este é o mau da fita e
todos os outros são muito bons e recomendáveis, como se houvesse inocentes na
política portuguesa e, nomeadamente, no parlamento. Como é costume o senhor
Ferro a fazer juízos de valor e a ser pouco independente dos partidos que o
apoiaram na sua eleição para o cargo. É um recado pouco credível e menos recomendável.
Já o Presidente da República, num discurso eloquente, dispara
recados em todas as direcções. São para o Governo que, nas suas palavras, fez o
possível, mas não o suficiente e por isso é preciso fazer muito mais daqui para
a frente. No que respeita aos sem-abrigo, aos pobres, aos desempregados, às empresas,
numa palavra, às pessoas, aos portugueses. Para os partidos da direita dizendo
que não contem com ele para ser o líder da oposição ao governo. Para o Chega
que acusa de populista. Para a esquerda, no seu todo, que tem de apoiar o
governo porque não quer crises políticas. Para o ex-Presidente Cavaco, numa
resposta directa a acusações de mordaça, de falta de escrutínio, de decisões
contra órgãos de soberania, como a Procuradoria-Geral da República, Tribunal de
Contas e outras diatribes do governo, com a bênção do Presidente Marcelo, dizendo
que não tem de se meter em política porque a democracia está de boa saúde,
recomenda-se e que funciona em pleno. Com rasgado elogio à Assembleia da
República.
Cavaco, que não se ficou e deixou Marcelo a falar sozinho na
altura dos cumprimentos protocolares. Não foi lá ao beija-mão. Não foi um
recado bonito na forma, mas que o Presidente mereceu, lá isso mereceu, porque
Cavaco apontou problemas existentes na democracia portuguesa que são actuais e
são muito preocupantes.
Os líderes partidários debitaram os seus recados em forma de apreciação
da qualidade do discurso do Presidente. Cada um viu-o de maneira diferente e de
acordo com as posições que são a cartilha do partido de cada um e não foram
mais que repositórios de ideias muito debatidas em sucessivas campanhas
eleitorais. Recados inconsequentes e sem qualquer interesse.
09/03/2021
Zé Rainho
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