Tuesday, March 09, 2021

RECADOS!

 

OS RECADOS!

Quando em criança era necessário dizer algo a alguém, familiares, amigos, vizinhos, os meus pais mandavam-me dar os recados necessários e pertinentes. Ou seja, ir comunicar o que os meus pais tinham de dizer e não tinham oportunidade de o fazer. Não por vergonha, receio, ou qualquer prurido de enfrentar as pessoas, mas, por serem coisas simples, banais, ainda que úteis, para ambas as partes.

O tempo que passou desde a minha meninice é muito e muita coisa mudou na minha vida pessoal e na vida em sociedade. Não admira, pois, que os recados hoje tenham outro cariz. Outra importância e outros meios de propagar. Já não são as crianças que fazem os recados, mas são as televisões, os jornais, a rádio e todos os demais meios de comunicação social e até as artes, como seja o teatro, o cinema, o audiovisual. Quem manda os recados é quem tem o poder para determinar o veículo do mesmo.

Hoje assistimos à tomada de posse do Senhor Presidente da República Portuguesa e, como é hábito e protocolar, há discursos de vários protagonistas e, como é bom de ver, cada um à sua maneira, lá se encarrega de mandar recados a este, àquele e aqueloutro, uns de forma mais directa, outros mais subtilmente, uns mais contundentes, outros mais melífluos, mas todos com destinatários bem definidos.

Mas aqui, ao contrário de quando eu era criança, o mandador de recados, ou emissor, não tem a coragem de dizer na cara do receptor o que precisa, sente ou quer e, por isso, escuda-se em metáforas ou subentendidos.

Como não podia deixar de ser, todos aproveitaram o seu tempo de antena para enviar os recados que entenderam. Não vamos analisar aqui os recados menores, quer por serem reproduções de cassetes demasiadas vezes ouvidas, quer pela importância ou conteúdo dos mesmos.

Vamos, pois, àqueles que, em nossa opinião são os mais relevantes. Nem positivos nem negativos, apenas mais substanciais.

Comecemos então pelo do Presidente da Assembleia da República. Um discurso com recados para o Chega onde este é o mau da fita e todos os outros são muito bons e recomendáveis, como se houvesse inocentes na política portuguesa e, nomeadamente, no parlamento. Como é costume o senhor Ferro a fazer juízos de valor e a ser pouco independente dos partidos que o apoiaram na sua eleição para o cargo. É um recado pouco credível e menos recomendável.

Já o Presidente da República, num discurso eloquente, dispara recados em todas as direcções. São para o Governo que, nas suas palavras, fez o possível, mas não o suficiente e por isso é preciso fazer muito mais daqui para a frente. No que respeita aos sem-abrigo, aos pobres, aos desempregados, às empresas, numa palavra, às pessoas, aos portugueses. Para os partidos da direita dizendo que não contem com ele para ser o líder da oposição ao governo. Para o Chega que acusa de populista. Para a esquerda, no seu todo, que tem de apoiar o governo porque não quer crises políticas. Para o ex-Presidente Cavaco, numa resposta directa a acusações de mordaça, de falta de escrutínio, de decisões contra órgãos de soberania, como a Procuradoria-Geral da República, Tribunal de Contas e outras diatribes do governo, com a bênção do Presidente Marcelo, dizendo que não tem de se meter em política porque a democracia está de boa saúde, recomenda-se e que funciona em pleno. Com rasgado elogio à Assembleia da República.

Cavaco, que não se ficou e deixou Marcelo a falar sozinho na altura dos cumprimentos protocolares. Não foi lá ao beija-mão. Não foi um recado bonito na forma, mas que o Presidente mereceu, lá isso mereceu, porque Cavaco apontou problemas existentes na democracia portuguesa que são actuais e são muito preocupantes.

Os líderes partidários debitaram os seus recados em forma de apreciação da qualidade do discurso do Presidente. Cada um viu-o de maneira diferente e de acordo com as posições que são a cartilha do partido de cada um e não foram mais que repositórios de ideias muito debatidas em sucessivas campanhas eleitorais. Recados inconsequentes e sem qualquer interesse.

09/03/2021

Zé Rainho

No comments: