PODRIDÃO!
O termo é forte, é violento, mas é verdadeiro e a verdade é
como punhos, como muitas vezes ouvi dizer aos meus maiores. As verdades podem doer,
mas são preferíveis às mentiras, mesmo que piedosas.
Neste país vive-se uma conjuntura de podridão, de impunidade,
de injustiça, de compadrio, de amiguismo, de partidocracia. Quase como no tempo
de “sem rei nem roque” ou o “rei vai nu”. E o povo assiste a esta degradação numa
modorra, numa apatia, num desinteresse, numa atitude conformada, que se está a
tornar alarmante.
Nenhuma sociedade se desenvolve e se concentra no que é
essencial num pântano assim. Sem águas que se agitam de vez em quando. Sem
crítica. Sem escrutínio. Sem vozes dissonantes. Sempre foi assim e agora não
será diferente.
Quando se instala a acomodação, mesmo nas horas mais difíceis,
mais aflitivas, isso só quer dizer que o vulcão adormecido está a concentrar na
profundidade o gás que o irá fazer explodir. E quando se der a explosão os
efeitos colaterais serão sempre devastadores.
Assistimos a actos de vandalismo inaceitáveis. Uns dias, ou
noites, é num bairro periférico de um grande centro urbano. Outros em vilas
pacatas de gente simples. Outros em aldeias remotas e quase desertas. Há sempre
grupelhos desordeiros que tudo destroem, que atentam à vida do seu semelhante,
muitas vezes vizinho, com o descaso de quem tem rigorosa obrigação de velar pela
segurança dos cidadãos, que é quem lhe paga, principescamente, o seu ordenado e
demais alcavalas.
É fácil apontar o dedo a uma patrulha de polícia ou da GNR
com dois homens apenas, na maior parte das vezes, pela incapacidade de pôr
cobro a situações de conflito. Mas, se é fácil é, também, muito injusto. O que
é que podem fazer dois homens ou mulheres mal-armados, mal apetrechados,
desautorizados pelo poder político, perante grupos altamente violentos,
armados, que sabem que nada lhes pode acontecer, além de serem apresentados a
um juiz que os liberta mais cedo do que dispensa os agentes da autoridade que têm
de justificar a ocorrência em relatório pormenorizado? Não podem fazer nada e,
mesmo assim, qual pião das nicas, são quem vai sofrer o ricochete das eventuais
consequências, se as houver.
Ontem foi em Reguengos, que um grupo onde pontificava um
potencial assassino, que quis assassinar várias pessoas atirando para cima delas
um carro em elevada aceleração, mas hoje, ou amanhã, será noutra localidade
qualquer e não se passa nada. O Ministro da tutela assobia para o lado como
assobiou quando o carro onde seguia matou um trabalhador, quando um emigrante
foi assassinado nas instalações de um corpo policial de si dependente. Mas
indigna-se com a presença de guardas da sua segurança pessoal que fazem ladrar
e incomodam os seus cãezinhos de estimação.
Já o disse mais do que uma vez e volto a lembrar que a definição,
mais antiga e mais correcta de ministro é que se trata de um servidor. Um
individuo que é nomeado para servir as pessoas e não para ser o dono delas. Mas
este ministro da Administração Interna se não fosse uma anedota malparida só
poderia ser um caso de polícia.
Mas a podridão não se confina a este ministro alastra-se,
como bolha de azeite, a toda a cúpula governativa não deixando de enodar o
Presidente da República e os próprios tribunais porque calam as suas vozes,
autorizadas, perante dislates destes.
O Estado Novo caiu de maduro, de podre e não, como muito boa
gente nos quer fazer crer, pela audácia e arrojo de umas dezenas de capitães.
Qualquer pessoa que se interesse minimamente pela História recente de Portugal descobrirá
este facto. O tal vulcão adormecido acordou naquele dia 25 de Abril de 1974.
Não sei se não estaremos mais perto do que pensamos numa nova
ebulição.
18/07/2021
Zé Rainho
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