PODER!
O Poder quase nunca se conquista, apenas cai de maduro ou de
podre. Há exemplos próximos e remotos que confirmam esta tese. Os Impérios
Romano, Otomano, Persa são bons exemplos. Mas os europeus, Inglês, Francês,
Holandês, Espanhol e Português, também não deslustram.
Mais próximo de nós, e mais caseiro, temos o exemplo de um
Poder de Estado que não se renovou, que não acompanhou os tempos e os ventos da
História. O Estado Novo começou por ser um projecto de salvação nacional para
remediar os efeitos nefastos de um regime republicano caótico, sem líderes, sem
objectivos e com muita carência de meios económico-financeiros. Com o passar
dos anos enquistou, criou vícios, fechou-se em círculo e o projecto que era de
dignificação nacional passou a ser de divisão e, sobretudo, de autismo,
particularmente no desenvolvimento escolar dos portugueses e no diálogo com as
ex-colónias.
Temos presente que, na década de cinquenta, do século
passado, apesar dos perigos e do quase tráfico humano, era mais fácil emigrar
para França do que para qualquer colónia portuguesa. Quem não tivesse alguém
nas colónias quem lhe enviasse uma carta de chamada, que era um verdadeiro
contracto de trabalho, não conseguia ir para lá. Não se podia ir clandestino, ou
assalto, como é óbvio.
Depois da descolonização, da maior parte das possessões de
outros países europeus, o regime vigente não teve um vislumbre do que se
projectava para o futuro e o resultado foi uma guerra cruel, injusta, tanto
para os autóctones como para a juventude portuguesa.
O mal-estar e o descontentamento generalizado, era
indisfarçável e só o Poder não o via nem o sentia. O tal poder de fim de ciclo.
O tal poder abúlico e próximo do apodrecimento.
Mesmo assim, se nos ativermos aos factos e não às narrativas,
sabemos que um regime musculado, que vigorou 48 anos, não caía às mãos de umas
centenas de jovens ingénuos, inexperientes, zangados, porque estavam fartos da
vida que levavam, apesar de ser a vida que escolheram.
Fala-se muito que foi o Movimento dos capitães e no 25 de
Abril que derrubou o regime. Talvez se devesse falar mais de um Movimento
Militar que, desde a primeira hora teve o apoio da esmagadora maioria do povo
português. Talvez fosse interessante falar-se de uma massa enorme de anónimos,
jovens, principalmente, que arriscaram tudo, porque não tinham nada a perder.
Os jovens daquela época tinham como destino certo, três ou quatro
anos de serviço militar obrigatório e uma comissão nos territórios ultramarinos,
onde tudo podia acontecer. Morte, estropiação, traumas físicos e psicológicos.
Entrar na aventura de derrubar o regime não alterava em nada este cenário. Se
corresse mal podia haver morte, prisão e traumas diversos. Qual era então a
diferença de risco? Pouca ou nenhuma.
Já aos capitães, principalmente estes e alguns Majores,
tinham tudo a ganhar. Todos estavam fartos de fazer comissões no Ultramar,
quase sem descanso. Regressavam de uma e poucos meses depois eram mobilizados
para outra. Viam a sua carreira paralisar e, em alguns casos, serem
ultrapassados por Milicianos com um curso intensivo de apenas um ano. Medida
administrativa que não teve em conta a carreira militar a que alguns jovens se
dedicaram desde muito cedo. Arriscar uma emboscada na mata de um qualquer
território ultramarino ou serem eles os protagonistas a emboscar um regime
podre, sem apoio militar e muito menos popular, poucas dúvidas surgiriam nas
cabeças de jovens de 30 anos de idade, mais ou menos.
Mas, se os capitães tiveram o mérito de despoletar a acção,
os demais militares sem patentes e o povo anónimo foram decisivos no êxito desta
aventura.
Os capitães ganharam alguma coisa, pouca. O pilar importante
de qualquer sociedade que é o Poder Militar perdeu quase tudo. Perdeu o
respeito dos cidadãos. Perdeu a importância que lhe é devida, no seu dever de
assegurar a independência e os valores da Nação. Foi e é menorizado pelo poder
político, desde as situações de maior relevância, até às simples contas de
merceeiro, como sejam as dotações orçamentais para os seus serviços de saúde.
Enquanto isso o Poder de Estado que eles almejaram, rapidamente lhes fugiu das
mãos. Uma esquerda internacionalista, organizada e oportunista, depressa
abocanhou todo o poder de decisão incluindo o de cerceamento das liberdades
individuais, da propriedade privada, do direito à opinião livre e sem peias.
Não nos esquecemos das brigadas de energúmenos arregimentados
pelo PCP e outras forças políticas antidemocráticas a fazer barricadas nas
estradas e a revistarem quem nelas transitava, sem qualquer poder legítimo ou
legitimado, sem qualquer mandato. Armados até aos dentes com armas automáticas
que, eventualmente, nem saberiam manejar, mas que dava para assustar os mais
incautos e menos prevenidos.
Grupos de gente sem ideais apropriaram-se do Estado, no seu
todo, da propriedade privada, do tesouro, da banca, das empresas rentáveis para,
apenas, satisfazerem o seu ego, o seu poder individual e de grupo e, em último
caso, para enriquecerem, como aconteceu com muitos maltrapilhos.
Já passaram quase tantos anos de democracia como de ditadura
e ao que assistimos, ainda hoje? Qualquer pessoa que discorde da narrativa
esquerdista é logo mimoseado com o epíteto de fascista. Qualquer cidadão que
expresse as suas ideias sobre uma sociedade diferente, mais livre, mais
democrática, mais soberana é alguém que quer voltar ao passado de miséria e de
fome do tempo do Estado Novo, como se hoje não houvesse miséria, fome, sem-abrigo,
sem emprego e sem dignidade, dependendo da caridade alheia, para sobreviver.
Desconhecemos se o regime está em fim de ciclo, mas temos a
certeza de que está podre e que cairá de maduro, mais cedo do que tarde. Temos
receio que caia em mãos que com matizes diferentes, mas que tenham como
objectivo oprimir mais este povo tão desgraçado.
Preocupa-nos, de igual forma, que a juventude não se
interesse pela política e, principalmente, pelo dever cidadania, o que pode
conduzir a que apenas os medíocres, nesta espécie de arremedo de democracia,
tomem conta do Poder e o usem mal.
17/05/2021
Zé Rainho
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