Wednesday, December 09, 2020

ATENÇÃO!

 ATENÇÃO!!!    

Vamos explicar a terceira vaga da pandemia para ver se nos entendemos:

Vives com a tua mulher e os teus dois filhos. Os teus pais são idosos e tens pena de deixá-los sozinhos no Natal, então vais passá-lo com eles.

Resulta que o teu colega de trabalho com quem bebes o “cafezinho” todas as manhãs, liga-te no dia 26: és COVID Positivo. Liga-te a equipa rasteadora, ainda não tens sintomas mas fazem-te a PCR no dia 26 de Dezembro de tarde.

Avisam-te de que és positivo no dia 27 e tens que identificar quem esteve contigo nas últimas 48 horas.

“Fod... os meus pais!!!” A tua mãe tem 76 anos e é boa onda mas tem tem uma cardiopatia. O teu pai tem 82 e está a iniciar uma demência senil, acresce que durante todo o ano 2020 estiveste a negar essa evidência. Precisa de ajuda para tudo excepto para comer e tem uma alteração da marcha.

No dia 28 inicia a febre. Já estás isolado e não podes ajudar aos teus pais, que também estão isolados e à espera do resultado da PCR. No dia 29... os dois estão positivo. Os dois!

As enfermeiras fazem-te videochamadas mas está desorientado pela febre, a falta de oxigénio e não te reconhece. Morre sozinho no dia 9, ninguém pode ir vê-lo porque também estão infectados.

No dia 7 de Janeiro a tua mãe, boa onda, começa a deteriorar no seu estado hemodinâmico, apresenta uma pneumonia bilateral por COVID-19 e está com insuficiência cardíaca. Ela sim tem critério para entrar na UCI. É entubada e entra na UCI. Mas não podem visitá-la.

Os intensivistas informam-vos diariamente, mas tu já perdeste ao teu pai e não entendes nem o que te dizem. Passa uma semana, duas, três.

A tua mãe continua entubada, ventilada em posição decúbito (ou seja, barriga para abaixo) e está sedada. Tens medo que não acorde nunca mais. Acorda no dia 12 de Fevereiro, depois de 5 semanas na UCI. Não consegue andar, tem perda de massa corporal. Fadiga, só de virar-se na cama, porque a sua capacidade pulmonar está muito reduzida. Terá entre 6 meses a 1 ano de reabilitação.

Os teus filhos nem se apercebem do COVID, a tua mulher (que não gostava dos teus pais) não andou aos beijos e abraços na Consoada e sentou-se na ponta mais afastada da mesa. Levou a máscara excepto para comer e vocês apelidaram-na de histérica.

Como não sabia com quem tinha andado a tua mãe, que era tão boa onda que saia todos os dias a passear e aos recados, não se aproximou dela e, por isso, não se contagiou.

Ela, que queria comer só uns ovos estrelados com batata frita na vossa casa e que nem visitou os seus pais, tem que cuidar dos teus filhos assintomáticos mas isolados, a ti e todo o problema dos teus pais. Não gostava muito deles mas foram 20 anos de convivência e sempre havia alguma estima. Tem ansiedade e angústia, não consegue dormir e está sempre a chorar, tem pânico de te perder também a ti.

Está de baixa por assistência à família apesar de receber ameaças de ser despedida, mas está a ver que toda família vai por água abaixo.

Tudo por um Jantar, por um Madeiro...

Ah, o funeral ainda não se fez. Como vão a fazer o funeral ao teu pai com a tua mãe nos intensivos?!

Por favor fiquem cada um na vossa casa, digam o que digam, seja a tradição que seja.

Cuidem-se aí fora!

(Texto de uma médica anónima, espanhola)


Friday, November 20, 2020

ESTÓRIAS DE VIDA - Conclusão

 

CONCLUSÃO

 

Este arrazoado de estórias de vida não tem pretensões de género nenhum. Não pretende ser um livro, não pretende divulgação, não pretende ser um acto de saudosismo, de auto elogio, de comiseração ou outra coisa qualquer excepto deixar às minhas filhas uma herança de vida.

Tal como pretendo deixar-lhe alguns dos poucos bens materiais que consegui angariar ao longo desta vida de setenta e sete anos também lhe quero deixar este testemunho de vida para que um dia, se tiverem oportunidade e quiserem lembrarem o pai, a mãe e, complementarmente, os avós e bisavós.

Por isso me fiquei pelo início dos anos oitenta porque, acredito que, a minha Lena e a minha Raquel, a partir dessa data, quando assentámos arraiais em Cantanhede, em Setembro de 1982, para lhes proporcionar a elas as melhores condições, a nível de formação, já tinham consciência das tomadas de decisão dos pais e com eles viveram todas as aventuras que fizeram delas grandes mulheres.

Óptimas profissionais. Insatisfeitas com os seus conhecimentos e por isso continuam, todos os dias e sempre, a procurar conhecimento, saber para, preservando os valores que lhes foram incutidos desde crianças, possam subir na vida a pulso, como os seus pais fizeram, porventura como mais algumas ferramentas mas, certamente, com desafios iguais ou superiores em tenacidade e valentia.

Portanto toda a restante estória de vida é uma herança conhecida e não precisa de ser escrita. Quem sabe possa ser reescrita com as suas histórias pessoais, seus anseios, seus projectos, suas conquistas, suas desilusões mas, sobretudo, o orgulho de serem quem são e donde vieram sem mancha que as possa envergonhar.

Estas estórias de vida ficam por aqui. Gostei de as escrever.

Agradeço tudo o que sou aos meus maiores, pais, avós, à minha mulher e às minhas filhas. Não posso esquecer os amigos que, em muitas circunstâncias da vida foram os irmãos que não tive.

Até sempre.

 

José Rainho Caldeira

Tuesday, October 27, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE XII

 

XII

 

 

O regresso a uma terra, que sendo a nossa, pouco ou nada tinha para nos oferecer foi traumático e extremamente difícil.

As notícias procuravam denegrir os compatriotas que viveram no ultramar apontando-lhes o dedo como se criminosos fossem. Até em famílias houve casos de um dramatismo incalculável. Tudo devido a uma intoxicação feita pela comunicação social dominada pela extrema esquerda portuguesa com principal destaque para o Partido Comunista Português.

Havia falta de trabalho e a maioria das pessoas que vieram pela primeira vez – não podemos esquecer os muitos que nasceram lá e nunca tinha vindo à Metrópole – e os muitos que retornaram ao seu país não estavam dispostos a trabalhar no campo por uma côdea como era quando de cá saíram à procura de vidas melhores.

Mas, como diz o ditado, “em terra de cegos quem tem um olho é rei” os que regressaram, ainda que sem um tostão furado, tinham uma bagagem, um conhecimento e uma capacidade inventiva e empreendora muita acima da que os locais estavam habituados e então foi ver, em pouco tempo, uma mudança social fantástica. Mudança nos hábitos. Nos comportamentos, nas atitudes e na dedicação ao trabalho. Foi a criação de pequenas empresas familiares, com maior destaque para a Restauração que fez com que as pessoas que sempre estiverem habituadas a levar farnel para todas as deslocações passassem a ir comer a restaurantes. A sociologia demonstra, ainda que haja pouca gente a dar-lhe eco, que foi a vinda dos residentes do Ultramar que desenvolveram este país nas décadas de setenta e oitenta do século passado.

Nós começámos a orientar a nossa vida em família. A Teresa com o seu emprego fixo e garantido pois, ao fim de um ano ou dois ficou efectiva na Meimoa. Eu comecei por trabalhar de forma precária na Câmara Municipal de Penamacor. Mas, prevendo um futuro pouco promissor decidi ir tirar o curso do Magistério Primário para o Fundão para, em conjunto com a minha mulher, podermos projectar um futuro condigno para as nossas filhas. Pensava que ao fim de dois anos estaria em condições de abraçar nova carreira mas não foi assim. No ano lectivo de 1976/77, o então ministro da Educação, Sotto Mayor Cardia, decidiu que a classe docente do ensino primário deveria ter uma formação mais aprofundada no domínio teórico-prático passando o curso de dois para três anos, sendo que o terceiro ano seria, acentuadamente, de estágio com turma e um número residual de disciplinas teóricas. Isto, aparentemente, foi uma contrariedade mas o tempo veio a demonstrar que valeu a pena. A formação foi muito mais apurada e consentâneas com a época que atravessávamos.

Acabado o curso no ano lectivo 1979/80 fomos colocados em regime de substituição na telescola de Vilar Barroco no concelho de Oleiros. Uma terra só com mulheres e crianças. Os homens estavam todos emigrados. As colegas do sexo feminino eram tratadas como rainhas. Davam-lhes tudo. Comida, casa, até lhe lavavam a roupa. Sendo um lugar remoto no meio do Pinhal Interior não deixava de ser atractivo pela poupança que podiam fazer num lugar onde não tinham despesas.

Connosco o problema foi, precisamente, o contrário. Sendo eu e o padre os únicos homens que trabalhavam na povoação, nomeadamente na telescola, ele dava letras e eu dava ciências, as mães dos alunos sendo extremamente simpáticas não se atreviam a hospedar nenhum de nós pois arriscavam-se a ser faladas na aldeia. Por isso nós os dois tínhamos que ficar alojados numa pensão existente a nove quilómetros de distância e deslocávamo-nos todos os dias para a escola de carro. A pensão era explorada pela mãe de um colega nosso, o Xavier, que, entretanto tinha ficado viúva e situava-se no Orvalho, ponto de passagem para quem viajava de Castelo Branco para Coimbra. Ao fim-de-semana vinha para casa, na Meimoa, passando pelo Fundão para recolher a nossa Lena que estudava naquela cidade.

Só ali estive colocado até às férias de Natal. Como a minha sogra tinha falecido em Junho anterior a Teresa, minha mulher, andava numa depressão tão grande que não comia, nem dormia, a sua saúde deteriorava-se a cada pé de passada. Tive que a levar a um Psiquiatra que a ajudou a superar o trauma da perda da mãe. Ficou por isso de atestado médico durante seis meses para fazer uma espécie de cura de sono e para eu poder tomar conta dela e da nossa outra filha a Raquel fui colocado no lugar dela em substituição. Até ao fim do ano lectivo.

A situação política tinha-se alterado substancialmente. Tinha ganho as eleições a Aliança Democrática – coligação partidária de três partidos, p PSD, o CDS e o PPM – e as consequências foram algumas mudanças no sentido da estabilidade e do desenvolvimento. O Primeiro Ministro de então. Francisco Sá Carneiro, com o Ministro da Educação Seabra, decidiram que o desenvolvimento do país tinha de assentar na educação. Como a educação só produz efeitos depois de passada uma geração teria de haver algo que se pudesse fazer pelos milhões de analfabetos existentes no país. Daí terem criado a Educação de Adultos, de forma organizada, com aulas nocturnas, com ensino adaptado, para capacitar a maioria dos portugueses para a mudança de paradigma até então vigente. Deixar de ser, fundamentalmente, rural para passar a ser no campo da indústria e da prestação de serviços.

No ano de 1980/81 foi então aberto concurso para professores primários para serem colocados, três ou quatro por concelho rural, para alfabetizar o maior número de pessoas possível. Concorri para estes lugares que, no concelho de Penamacor se situavam em Aranhas, Aleia do Bispo, e Pedrógão de São Pedro. Fiquei logo colocado em Aranhas. Não tinha muito tempo de Serviço mas tinha a maior nota do Curso, 17 valores, numa média por Escola de Magistério que não podia, segundo as regras do Ministério da Educação, ultrapassar os 13,14 valores. Isso fazia com estivesse no topo da tabela em concursos para professores agregados, era esta a designação, para se diferenciarem de professores do Quadro. O que só havia diferença na continuidade e segurança do lugar. Enquanto os agregados poderiam saltar de terra em terra, consoante as vagas anuais, os do Quadro eram efectivos numa escola e só de lá saíam por vontade própria. O resto, vencimento, férias, faltas e licenças eram precisamente iguais.

Foi um ano de muito trabalho e muita inovação porque a par da alfabetização havia toda uma educação de base que se pautava pela preservação da cultura, das tradições, dos usos e costumes. Foi igualmente muito gratificante.

No ano lectivo de 1981/82 fiquei colocado na Meimoa onde dei continuidade ao trabalho que desenvolvi nas Aranhas.

Entretanto o meu pai teve um problema de saúde, uma hérnia discal, que o estava a imobilizar e, através do nosso primo Fajé, médico neurocirurgião foi internado no Hospital dos Covões e operado com muito sucesso. Mas a cirurgia foi delicada e nós tivemos que ir alguma vezes a Coimbra visitar o meu pai. A minha mãe tinha ficado em casa do meu amigo Joaquim Gomes que residia em Coimbra para poder ir visitar o meu pai todos os dias.

Nesse ano já a minha Lena frequentava o nono ano no Liceu de Castelo Branco e isso era muito caro. Pagava uma mensalidade que era, praticamente, o ordenado de um de nós. E, em casal já tínhamos equacionado a nossa saída da Meimoa para proporcionar às nossas filhas as melhores condições de estudo. A Raquel já anda no quarto ano e, no ano seguinte, também teria que sair de casa.

Tivemos a possibilidade de ir para Lisboa. O meu pai tinha dois apartamentos na Reboleira que só lhe davam prejuízo e assim nós poderíamos ir para a zona da Grande Lisboa e não pagar renda de casa mas a Teresa não quis. Não gostava da confusão de Lisboa.

Numa dessas visitas ao meu pai que estava no Hospital sobrou-nos algum tempo o que nos permitiu ir à Delegação Escolar de Coimbra pedir informações sobre a possibilidade de colocação naquela cidade. O Delegado, simpaticamente, disse que ainda não tínhamos suficiente tempo de serviço para arranjarmos colocação na cidade mas, que o que era vulgar, era os professores fixarem-se em Coimbra e deslocarem para a periferia e que aí sim, já tínhamos possibilidade. Deu-nos uma lista de concelhos dos arredores e das potencialidades de cada um e viemos para casa pensar no assunto.

Pesámos os prós e os contras. Não tínhamos dinheiro para suportar o aumento de despesas mas contávamos poupar aquele que teríamos que pagar para os internatos das duas filhas e, cumulativamente, ficámos com as filhas ao pé de nós pois a nossa Lena teve um ano infelicíssimo nas freiras de Castelo Branco e eu, que sempre fui contra os internatos de toda e qualquer espécie, ficava muito feliz para poder libertar a minha filha daquele tormento.

Quando abriram os concursos a Teresa, como era efectiva, concorreu primeiro e ficou colocada no concelho de Cantanhede do distrito de Coimbra. Eu já tinha o destacamento para continuar na Meimoa mas desisti dele e fiz concurso em Julho e fiquei também colocado numa aldeia a cinco quilómetros de Cantanhede.

Em Setembro de 1982 fomos apalpar terreno. Deslocámo-nos à Delegação Escolar e o Delegado que, tem má fama, foi extremamente simpático para nós, deu-nos alguns conselhos, nomeadamente quanto à residência. Demonstrou-nos que, em vez de residirmos em Coimbra e deslocarmo-nos para Cantanhede faríamos muito melhor se alugássemos casa em Cantanhede e as filhas tinham todas as condições para estudar naquela cidade pois tinham duas boas escolas oficiais, uma para o ciclo preparatório e outra para o ensino unificado e secundário. A vida era muito mais barata. Rendas mais económicas. Produtos hortícolas muito mais baratos devido à produção local. Agradecemos o conselho e aceitámo-lo. Ficámos amigos do Delegado, o Eduardo, que verificamos ter má fama injustamente. Ele apenas era rigoroso e exigente e os incumpridores não gostavam. Nós, que nos pautámos sempre por padrões de excelência no nosso trabalho, aquilo que os outros entendiam como defeitos nós víamos como virtudes. Daí a amizade e até o convite para subdelegado passados cinco anos a trabalhar no concelho. Aceitámos o convite mas, por cunhas do Director Distrital, nunca ocupámos o lugar porque o despacho nunca veio.

É uma história um pouco bizarra mas que importa referir para ilustrar um pouco como funciona o nosso povo, e os que desempenham funções de chefia ou governação que, no fundo, são filhos do povo.

O Eduardo fez a proposta e o Director deu parecer favorável mandando para a Direcção Geral em Lisboa. Entre os meses de Maio, data da proposta e o despacho da Secretaria de Estado que deveria acontecer até 31 de Agosto, um amigo do Director Escolar, delegado de Santa Maria da Feira pediu ao director se lhe arranjava um lugar de delegado no distrito de Coimbra. Dizer que tanto o directos como esse delegado eram do distrito de Aveiro, tinham trabalhado juntos e eram amigos. Dizer também que o delegado andava com problemas no seu casamento e queria afastar-se do distrito de Aveiro e vir para Coimbra. O Director disse-lhe que não tinha vagas mas se ele não se importasse de deixar de ser delegado e passar a ser subdelegado que conseguia colocá-lo em Cantanhede. O outro aceitou. O Director dirigiu-se ao Eduardo e pediu-lhe para retirar a proposta com o meu nome e substitui-la por outra com o nome do seu amigo. O Eduardo era um Homem com agá grande e disse: eu não senhor director. Então fui eu que fui convidar o professor por saber que ele é competentíssimo, ele, relutantemente, aceitou e agora vou dizer-lhe que já não o quero a trabalhar comigo? Eu não faço isso. Ao que o Director respondeu: Digo-lhe eu. Chamou-me e, de caras, disse-me que não tinha nada contra mim mas que o outro era amigo dele e eu tivesse paciência. Perdi a cabeça e disse-lhe uma data de verdades na cara. Disse-lhe que não precisava do lugar para nada. Que não pedira nada a ninguém e que ele me fazia a mim e ao delegado aquela cachorrada por causa de um amigo teria, a partir daí, em mim um inimigo. Virei-lhe as costas e vim-me embora.

O homem deve ter pensado duas vezes e concluído que eu seria capaz de o entalar junto do Ministério da Educação e o que é que aconteceu? Deixou a vaga no concelho de Cantanhede por preencher e o individuo de Santa Maria da Feira não ocupou aquele lugar. Nem foi para mim nem para ele.

Mas o que está reservado para nós a casa nos vem a ter. Em Agosto sou convidado para ocupar um lugar na DEE (Divisão do Ensino Especial) dependente directamente da Direcção Geral de Lisboa em Setembro desse ano. Eu gosto de experiências novas e aceitei o desafio. Tudo isto se deve ao facto de naqueles cinco anos ter granjeado junto de todos os colegas, inspectores e delegado, o respeito pelo trabalho rigoroso, competente e inovador que, graças a Deus tinha desenvolvido.

Assim aconteceu, em Setembro tomo posse do Lugar na DEE e fui para Coimbra. Em meados do mês fomos integrados na Direcção Regional de Educação do Centro, criada de raíz, nos finais de Agosto desse mesmo ano.

Uma experiência fantástica. Como fora fantástica a Educação de Adultos a educação das crianças até aos dez anos. Nos cinco anos que trabalhei com as crianças levei dois grupos de cerca de quinze alunos cada do primeiro ao quarto ano com 100% de aproveitamento o que foi um feito naquela escola. Tive sempre o apoio e o cafrinho dos alunos e a admiração dos pais das crianças.

Um ano passei no Ensino Especial, também esta estrutura em iniciação trabalhando sob as ordens da Directora Regional Fernanda Mota Pinto. Pessoa frontal e rigorosa. Ao fim do ano a Directora Regional entendeu dever estruturar a Direcção Regional segundo o seu padrão e não manter os serviços descentralizados da Direcção Geral. Pediu-me então para deixar o ensino especial e pôr a minha experiência ao serviço da Educação de Adultos, cargo que desempenhei quase vinte anos.

Neste intervalo de tempo de vinte anos as minhas filhas fizeram o Liceu, entraram na Faculdade e tiraram os seus cursos superiores que, na altura, tinham a duração de cinco anos. A Lena licenciou-se em Matemática com especialização em computação gráfica, desempenha, desde aí cargos nessa área. A Raquel licenciou-se em Biologia, ainda fez a parte curricular do mestrado em ecologia e depois começou a dar aulas na Escola Superior Agrária de Castelo Branco.

A Lena foi para Lisboa local onde arranjou emprego. A Raquel para Castelo Branco. Ambas fizeram pós-graduação em gestão de projectos e, por isso, a Raquel entrou numa empresa privada como Gestora de Projectos e chefe de departamento. A Lena entrou para o Ministério das Finanças para a Direcção Geral de Informática onde se mantém e é gestora de redes.

Com as filhas fora de casa nós, o casal, fomos dois anos para Viseu onde fizemos a nossa licenciatura em Educação Especial. A Teresa, como tinha tempo de serviço, reformou-se depois de ter atingido o topo da carreira docente, o décimo escalão. Eu, porque me faltavam seis anos, fiz um mestrado em educação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tendo, por essa razão, beneficiado de um bónus no tempo de serviço de quatro anos no tempo de serviço, atingindo assim, o topo da carreira docente o tal décimo escalão. Demorei dois anos a fazer o mestrado. Um na parte teórica e outro a elaborara a tese depois de efectuar a devida investigação. Deu um imenso trabalho. Na altura já tinha 58 anos e andava cansado mas tudo se conseguiu com imenso esforço. Aos sessenta anos reformei-me. A Teresa reformou-se dois anos antes, aos cinquenta e oito.

Sozinhos, em Cantanhede, uma terra onde não criámos raízes apesar de termos criado amigos, decidimos que o melhor era regressar à Meimoa onde tínhamos os meus pais e o meu sogro, já na casa dos oitenta e a precisarem do nosso apoio. Já os perdemos a todos e nós cá continuamos sozinhos. Vamos frequentemente ver as filhas a Lisboa. Mas é a sina de quem é velho residir no interior abandonado de um país assimétrico.

 

Jornalismo!

 


Sou um leitor compulsivo. Leio tudo o que me aparece à frente. Jornais, revistas, livros. Vejo televisão, notícias, debates, filmes e séries. É o gosto por aprender até morrer e, nestas fontes aprende-se muita coisa. Aprende-se, por exemplo, que há Jornalistas e jornalistas. Os primeiros são profissionais sérios que têm da profissão a noção de missão e por isso são rigorosos, verticais, independentes. Os segundos é gente menor que se limita a digitar no computador www mais qualquer coisa para fazer uns escritos mais ou menos inócuos, mais ou menos supérfluos, mais ou menos lisonjeiros para com quem lhe paga ou lhe pode fazer favores, mais ou menos rasteiros na abordagem de temas da actualidade ou de temas de vacuidade.

Vi no Público um artigo do João Miguel Tavares sobre a D. Hortense de Castelo Branco, mulher do ex-presidente da Câmara, que é demonstrativo de jornalismo de qualidade. Informa, escalpeliza, mostra com evidências como os poderosos são protegidos neste país, mas deixa que cada um tire as suas ilações. Como, aliás, há mais uns, poucos, que merecem ser lidos e analisados. O Miguel Sousa Tavares, o João Vieira Pereira, o Pedro Santos Guerreiro, a Ana Leal, a Clara de Sousa, a Alexandra Borges o Nuno Rogeiro, o Camilo Lourenço e poucos mais. Posso estar a esquecer-me de alguns, perdoem-me. Mas a esmagadora maioria é de uma pobreza franciscana. Não só não sabem articular meia dúzia de linhas como não procuram assunto ou notícia de relevo e importância. Até gastam muito papel e tinta mas espremido o conteúdo, não deita xerume.

Se passarmos para os cronistas então nem se fala. Quase todos são de facção. Opinam pondo à frente do interesse do público a sua base ideológica. São pretensos catequistas morais que pretendem educar, condicionar e manipular o leitor.

E a arrogância de algumas figuras da televisão, já se deram conta? Donos do saber. Donos do público que lhe dá audiência. E o que fazem? Escalpelizam, até ao tutano, a desgraça alheia. A miséria moral e material. A violência e a calamidade natural ou provocada.

Faça-se uma passagem pelos canais televisivos, de manhã à noite e que vemos, em todos sem excepção, a coscuvilhice levada à náusea.

Não há um programa de cultura. Não há um programa de, verdadeiro, entretenimento. Há umas entrevistas manhosas e, no intervalo, sempre longo e entediante, o apelo, que é quase coacção, aos telefonemas de valor acrescentado para os pobres pagarem os ordenados chorudos e as extravagâncias das empresas de televisão.

 

 

 

Sunday, October 25, 2020

A SAGA MILITAR

 

Cumpri com honra o serviço militar obrigatório em época de guerra. Não é fácil para um jovem de vinte anos adiar os seus sonhos e partir para uma vida desconhecida, perigosa, exigente sabendo, à partida, que começava ali uma etapa que, a correr bem, demoraria mais de três anos.

Para quem desde os doze anos trabalhava e tinha construído uma carreira profissional, mesmo no campo operariado, um interregno de, cerca de três anos, no seu projecto de vida era um abalo, um obstáculo, um impedimento, um atraso no percurso. Tendo consciência de um dever patriótico, nem por isso, deixa de ser um sobressalto que não se resume à perigosidade da situação. Vai para além disso. Na época qualquer jovem considerado normal ambicionava casar, constituir família, ter filhos, até aos vinte cinco anos de idade. Um tempo militar longo e mal remunerado, não era atraente, era mais um castigo. Mas o dever falava mais alto e não passava pela cabeça de ninguém – quase ninguém – a deserção até porque esta traria consigo mais atraso do que aquele que era provocado pela tropa. Por isso, passados mais de meio século, continuo a pensar que os que optaram pela deserção não o fizeram por altruísmo nem pela concretização do seu projecto de vida, mas sim, por cobardia e por falta de valores morais, éticos, patrióticos e sentido de identidade e nacionalidade.

No dia onze de Maio do longínquo ano de mil novecentos e sessenta e quatro, convocado para tal, lá me apresentei na Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA) sita em Nova Lisboa, de então, hoje Huambo, em Angola.

Levava uma guia de marcha passada pelo distrito de recrutamento militar de Luanda onde estava escrito que iria frequentar o Curso de Sargentos Milicianos, curso esse que era composto por dois ciclos.

O primeiro ciclo comum a todas as armas do exército português, composto por exercícios de Ordem Unida, procedimentos militares em parada, ginástica com educação física normal para moldar e tonificar o físico para o esforço e ginástica de aplicação militar composta por exercícios de guerra, tiro e privação de necessidades básicas, com vista a reforçar o espírito combativo, mas também de resiliência e fortaleza psicológica para em teatro de guerra não haver vacilações ou medo.

O segundo ciclo era de formação específica, consoante a arma que era destinado. Este curso destinava-se a formar graduados com capacidades de liderança e conhecimentos nos diversos campos e actividades militares do Exército. Assim, alguns mancebos eram destinadas à cavalaria que lhes permitia entrar na guerra com armamento pesado como tanques e obuses. Outros em engenharia para a construção de estradas, mas principalmente, pontes de pequena monta mas indispensáveis para o atravessamento de rios ou declives que facilitassem a mobilidade das demais tropas. Outras à Artilharia e por último os de Infantaria que eram a maioria. Havia, também, especialidades mais refinadas e que careciam de menos homens mas mais especializados como eram os casos das Transmissões onde se aprendia o morse, o cripto e também a montagem, reparação e utilização de rádios para comunicação entre as diferentes entidades e unidades militares, bem como as de organização e gestão militar, onde pontificavam os serviços administrativos, administração militar e até correio em papel – na época não havia correio electrónico – embora houvesse telex, telegrama.

Na nossa guia ia mencionada a unidade a que nos destinávamos que era o BTM 361, mais tarde designado por Batalhão de Transmissões de Angola sedeado em Luanda e que coordenava todas as comunicações militares dentro do território Angolano e fazia a ponte com o Estado-maior do Exército com sede em Lisboa. Diga-se que, na altura, não havia telefones civis entre Angola e Portugal continental a não ser nas grandes estações dos Correios e qualquer telefonema exigia a intervenção de uma telefonista. Porém, no Batalhão de Transmissões era possível estabelecer ligações directas com a Metrópole sem passar por qualquer interlocutor. Daí ser o ponto de encontro de excelência, dos oficiais superiores, com o posto de Major para cima, Tenente Coronel, Coronel e General, que se socorriam dessa ferramenta, com a aquiescência do Comandante do Batalhão, também ele um Tenente Coronel, para falarem de viva voz com a sua família muito esporadicamente.

Isto queria dizer que, depois de concluída a recruta, o tal primeiro ciclo, em Nova Lisboa teríamos de nos apresentar em Luanda para concluirmos o curso de sargentos milicianos. É claro que nós nada sabíamos deste pormenor e na tal informação passou-nos completamente despercebida.

Viajámos num autocarro velho, sem grandes cómodos, como eram todos os autocarros da altura que percorriam picadas, não estradas como hoje as conhecemos.

Saímos de Luanda pelas sete horas da manhã. Éramos cerca de quarenta rapazes, muitos deles desconhecidos, outros amigos de infância.

Ainda que tristes, todos, por termos deixado família e, alguns, namorada, cabisbaixos, percorremos os primeiros cem quilómetros num silêncio sepulcral. Mas depois, estas idades são de alegria e, porventura, de alguma irresponsabilidade, começaram as conversas com o companheiro do lado que se foram alargando a todo o autocarro depressa passando para a galhofa e o anedotário em voga.

Dizer que a distância entre Luanda e Nova Lisboa eram cerca de setecentos quilómetros. Que a estrada só tinha sessenta de asfalto e que o restante era picada em terra batida. Também dizer que o autocarro não conseguia fazer média de velocidade superior a sessenta quilómetros horários, isto se não chovesse, porque se tal acontecesse poderíamos ter de passar várias horas parados até que o Sol, abrasador, secasse a picada e, assim pudéssemos prosseguir viagem. Talvez por isso estivesse previsto que saindo de Luanda no dia dez de Maio nos pudéssemos apresentar na EAMA até às dezoito horas do dia treze do mesmo mês.

Os grupos são o diabo e o espírito de grupo é, muitas vezes, incontrolável. Isto vê-se nos grupos de bairro, nos grupos de estudantes, no futebol, nos militares e em muitos outros grupos societários. Naquela viagem começou a surgir o espírito de grupo de muitos jovens que, a partir daquele momento, iriam partilhar muitas situações convivenciais, nem sempre as mais agradáveis.

Desta feita, quando nos aproximávamos da localidade, Quibala, onde deveríamos pernoitar e que ficava mais ou menos a meio do caminho, já o Sol se ia escondendo para lá do horizonte quando começou a surgir a ideia, propagada, de banco em banco que, déssemos uma gorjeta ao motorista, em vez de dormirmos ali, no meio de nenhures, talvez pudéssemos chegar de madrugada a Nova Lisboa, cidade com alguns equipamentos de diversão onde iríamos passar cerca de cinco meses e que nenhum de nós conhecia, poderia ser muito mais agradável para todos esta alteração de programa.

Se fora pensado, rapidamente se pôs em prática, já que nos dispusemos a contribuir para a tal gorjeta, que teria de ser substancial, para que o motorista abdicasse do seu merecido descanso e arriscasse, eventuais problemas, com a entidade patronal.

Assim se fez. Na localidade onde deveríamos jantar e pernoitar apenas fizemos uma refeição ligeira, para não perdermos tempo e chegarmos o mais rapidamente possível à Cidade de Nova Lisboa, onde poderíamos descansar durante o dia, para nos irmos divertir pela noite dentro, naquela cidade desconhecida.

O nosso grupo de amigos, de longa data, era composto por meia dúzia de rapazes e havia um, porventura o mais sensato de todos, o Mário Duarte lembrou-se, quase ao findar do dia, que iríamos ter cinco meses pela frente sem ganhar praticamente nada, o pré era de sessenta escudos por mês, o que não dava sequer para comprar os produtos para engraxar as botas, que quanto mais tempo estivéssemos na pensão mais dinheiro das poupanças que levávamos iríamos gastar e que tal dinheiro nos poderia fazer falta.

Começámos a pensar no assunto reconhecendo, de imediato, que o assunto era avisado e que merecia a ponderação de todos.

Havia obstáculos. No que a nós nos diz respeito, tínhamos planeado só cortar o cabelo no último dia, retirar as patilhas à Elvis Presley para entrar na tropa com um mínimo de anticorpos que, pelos mais velhos sabíamos acontecer. Uma espécie de praxe académica abrutalhada. Esta situação merecia-me bastantes reservas para a incorporação se fazer no primeiro dos três dias aprazados mas o Mário era bastante persuasivo e convenceu-me a ir mesmo assim correndo o risco de ser alvo de alguma patifaria.

É o que tem de ser e, como não houve outras vozes dissonantes e todos os meus melhores amigos estiveram de acordo, lá apanhámos dois táxis e fomo-nos apresentar à EAMA, onde sabíamos que tínhamos dormida e alimentação gratuita.

Chegámos pelas dezassete horas e picos. Não sendo os primeiros recrutas a entrar fomos alguns de entre os primeiros.

O Mário foi à nossa frente e apresentou a guia de marcha. Como ia todo arranjadinho, cabelo cortado rente, barba bem aparada entro directamente no gabinete médico para a pesagem e a medida e receber uma nova guia para levantar fardamento e arma de instrução.

Fui o terceiro do grupo e estava confiante já que, até mim, não houve qualquer desaguisado.

Apresentei-me entregando a guia a um cabo miliciano que, conjuntamente, com um com um furriel, um alferes e um tenente fazia parte da comissão de recepção e, como eu temia, logo ele começou a embirrar como o meu cabelo comprido e as minhas patilhas. Olhou para a guia e verificou que estava destinado a ir frequentar o segundo ciclo no Batalhão de Transmissões que, até dois anos atrás se chamava transmissões de engenharia e ali começou a embirração dizendo: “chegaram os engenheiros e este tem a mania que é bom. Olhai para as patilhas dele”. Eu já ia contrariado e, na circunstância, fiquei pior que estragado e franzi o sobrolho ao que o dito elemento retorquiu: “Olhai que o gajo tem a mania que tem tomates, temos que os ver”. Sem qualquer palavra da minha parte, não me fiz rogado e comecei a desapertar a braguilha. Talvez devido à ousadia e, eventualmente, com receio de que os superiores hierárquicos presentes que, até aí não tiveram qualquer intervenção disse: “ feche lá isso seu porco”. Fiz o que me disse sem sequer abrir a boca. Importa fazer aqui um parêntesis para dizer que o meu saudoso pai antes de se despedir de mim me disse: “Filho, eu também fui tropa e sei do que a casa gasta. Há muitas partidas, muitas brincadeiras estúpidas, muitas punições por dá cá aquela palha. Segue este conselho. Na tropa a gente só se deve oferecer como voluntário se for para passar à disponibilidade, para ir para casa. Quanto menos se falar mais se acerta. Cumprir as ordens superiores sem recalcitrar e, se houver razões de queixa apresenta-la sempre ao comandante de pelotão ou da companhia, em regra um Alferes, Tenente e Capitão”.

Sempre considerei o meu pai como um homem íntegro e muito sabedor nas suas poucas habilitações académicas e, na circunstância, veio-me à memória este conselho e não abri a boca.

Estava a ferver por dentro até porque quem se mostrava mais atrevido era aquele que tinha menos categoria e era o mais novo militar. Era do curso anterior ao meu. Mas calei-me e fiz o que me mandaram. Recebi a tal requisição de fardamento e calçado e dirigi-me, sem mais problemas para o despenseiro da primeira companhia de instrução onde recebi o material, sendo acompanhado por um cabo até à camarata e ao beliche que me estava destinado e o armário para guardar a minha roupa civil e todo o material.

Meti o material dentro do armário sem qualquer organização ou arrumo porque começou a tocar para o jantar.

Ainda vestido com a roupa civil, tal como os outros companheiros que nos apresentámos lá nos dirigimos para o refeitório. Já tinha sentido nova contrariedade pois do meu grupo de amigos só dois ficámos na mesma companhia os outros foram dispersos pelas outras duas companhias de instrução. Naquele ano fomos cerca de seiscentos mancebos incorporados para frequentar o curso de sargento miliciano.

As contrariedades não se ficavam por aqui e, apesar de eu ir mentalizado para um tempo difícil e, completamente, diferente daquele a que estava habituado as coisas que se sucederiam não deixavam dúvidas de que era preciso crescer e amadurecer rapidamente. Deixava de ser um rapaz para passar a ser um homem.

Rapidamente chegou a ordem para nos deslocarmos ao refeitório para jantar. A comida era pior que má, principalmente, para quem era tão esquisito na alimentação quanto eu.

Lá mastiguei umas coisas e sujei o prato como era da praxe, para evitar mal entendidos e esperei que todos os companheiros acabassem de comer. Veio o sargento de dia dar algumas orientações acrescentando que no fim da refeição todos teríamos que descascar uma saca, pequena, de batatas uma vez que a máquina tinha avariado e ainda não havia ordem para a mandar reparar. Coisas incompreensíveis para quem nunca estivera perante tais burocracias e regras tão apertadas.

Ainda estávamos vestidos à civil e esta experiência, não por ser difícil mas por ser insólita, não deixou de ser traumática. Acresce o facto de, nenhum de nós estar habituado a descascar batatas e, por esse facto, serem retiradas cascas demasiado grossas sendo um absurdo desperdício do tubérculo. Finalizado o trabalho o oficial da messe concluiu que aquela forma de descascar batatas não era viável vindo, desde logo a ordem, de que não haveria batatas descascadas para ninguém. A partir daí, sempre que a ementa incluísse batatas, estas era cozidas com casca e cada um descascava as que comia na mesa.

Como é facilmente entendível a vida militar não podia ter começado pior. Daí em diante foi sempre a piorar.

Os exercícios de ordem unida, de ginástica e ginástica de aplicação militar eram puxados, para não dizer violentos.

Uns meses antes de iniciarmos o cumprimento do serviço militar obrigatório eu e o Mário tínhamo-nos inscrito num ginásio de halterofilismo para desenvolvermos os músculos e ganharmos resistência física para este embate mas, mesmo assim, tudo era duro naquele curso.

A ginástica ou educação física constava, entre outras provas, de exercícios de luta e defesa pessoal e, como já se adivinha, o dito cabo miliciano que me fez a recepção acima descrita escolheu-me logo num dos primeiros dias para parceiro e espelho de técnicas de encaixe de murros no estômago e neutralização do adversário. E lá veio mais uma das suas picardias. A exemplificação, ainda sem eu estar devidamente preparado, foi um murro no estômago que fiquei sem ar.

Não foi só a dor foi a humilhação e chacota dele e dos restantes companheiros. Também se deve dizer, em abono da verdade, que em forma de ligeira admoestação o tenente, comandante do pelotão, com um sorriso mais ou menos sarcástico, foi dizendo ao cabo que não era necessário tal violência.

Os primeiros oito dias foram dias de verdadeiro inferno. Não comia praticamente nada excepto ao pequeno-almoço onde me enchia de pão ensopado no café com leite. As restantes refeições limitava-me a comer a sopa e o pão e o resto, porque continha sempre muita cebola e tomate, produtos que nunca comi nem me habituei a comer ao longo da vida, impediam-me de saborear qualquer tipo de comida. Como já previra que tal poderia acontecer escrevi uma carta para os meus pais a pedir que me enviassem a minha moto que tinha ficado em Luanda para me poder deslocar à cidade entre as dezoito e as vinte uma horas para poder ir comer a um restaurante e me encher com um bife de vaca com batatas fritas e um ovo a cavalo, prato predilecto.

O Mário foi ao médico e, como tinha uma úlcera estomacal que já trouxera de Luanda, conseguiu ser desarranchado e jantar e dormir numa pensão da cidade. Mais uma contrariedade para mim que não conseguia tal, porque, felizmente, não tinha nenhuma doença e também não a queria adquirir pois uma perda de mais de oito dias lectivos implicava a perda da recruta e voltar no ano seguinte a iniciar a recruta.

Dormia mal, levantava-me cedo, sem barulho e estudava o que fez com que me destacasse dos meus companheiros quer no conhecimento do armamento em uso, montagem, desmontagem e limpeza quer na parte escrita sobre guerra de guerrilha em que o tenente, um cabo-verdiano, veterano de guerra era um mestre.

Esforçava-me ao máximo para ser bom em todos os exercícios quer, se tratasse de corrida, ordem unida em parada, marcha ou ginástica de aplicação militar, rastejando debaixo do arame farpado, saltando vala ou muro, subindo ao pórtico e descendo pelo slide. Tudo isto exigia força, destreza e até alguma temeridade. Mas compreende-se, ali se preparavam homens que iriam comandar outros homens, em cenário guerra a sério.

Ao fim dos oito dias a boa notícia: chegara a moto acompanhada com uma nota de quinhentos escudos e mais alguns conselhos do pai que se revelarem de muita utilidade.

A chegada da moto possibilitou um pedido de dispensa de refeição, o jantar, para ir à cidade comer bem e beber uma cerveja. Se tal foi revigorante para o físico foi um excelente lenitivo para o espírito. Comecei a ver as dificuldades com outros olhos. A saudade do meu amor é que apertava sem cessar o que fazia com que escrevesse diariamente uma carta à minha amada e, também, quase diariamente, recebia uma carta de volta o que me dava alento e força para porfiar na luta para alcançar o meu objectivo que era, em última análise, fazer o curso com boa classificação, porque isso trazia alguns benefícios e ser promovido a furriel, para me poder casar.

Como atrás referi as picardias do cabo miliciano é que não cessavam e, paralelamente, a minha raiva contra ele subia a cada patifaria e ao respectivo recalcamento já que, tinha a consciência, que se ripostasse de forma desabrida poderia ter que arcar com as consequências de desobediência a um superior hierárquico o que, com a disciplina reinante na instituição, deitaria por terra todos os meus sonhos.

Há um velho ditado popular que diz que a vingança serve-se fria e a minha sede de vingança subia vertiginosamente. Já tinha interiorizado que esperaria para ser promovido a caba miliciano ainda antes de ele ser promovido a furriel e, nessa altura, com patente igual, poder dar-lhe uma carga de pancada mas, o destino tem destas coisas, não foi preciso esperar tanto.

Um dia, num dos tais exercícios de defesa pessoal era necessário neutralizar o adversário procurando levantá-lo do chão e depois deitá-lo de costas no chão. Como era habitual lá voltei a ser o seu bode expiatório na exemplificação. Como já estava prevenido com as atitudes do crápula dei jeito e balanço ao corpo para ir ao chão sem me magoar. Não satisfeito e para uma demonstração de aprendizagem disse-me a mim com recado para todo o pelotão: agora fazes-me o mesmo a mim para ver se apreendeste.

Num fervilhar de emoções e num relampejar de sentimentos veio-me à ideia de que estava ali a oportunidade de demonstrar ao cretino que eu não era o saco de pancada que ele julgava que eu era. Fiz a preparação, avisei-o do que ia fazer tentando demonstrar que aprendera bem os truques e a lição, e peguei nele com tal intensidade e tal força que puxando-lhe o braço e pegando-lhe numa perna o levantei no ar e, em vez de o deixar cair no chão flecti o meu joelho e deixei-o cair com as costas na minha coxa sentindo-se logo um estalo. A coluna dele deu de si e ficou ali como que paralisado. Ainda me assustei com medo de lhe ter partido alguma vértebra mas foi só dor muito forte e ainda lhe disse: desculpe, só o quis amparar para não o deitar com força ao chão.

Toda a gente ficou boquiaberto pensando que o indivíduo que não tinha boa fama junto de nenhum dos instruendos, que me poderia fazer a vida mais negra, dai para a frente. Ele ficou muito dorido e já não conseguiu exemplificar mais nenhum exercício passando o furriel a fazê-lo e a aula continuou como se nada se tivesse passado. Não fui repreendido por ninguém e o exercício foi considerado como bem assimilado e boa resposta ao ataque do adversário. Nunca soube qual a razão desta atitude. Desconfio bem que os dois superiores do pelotão, o furriel e o tenente, não concordavam nada com as atitudes provocatórias do cabo miliciano e acharam que ele recebera uma lição merecida.

Foi remédio santo. A partir daí nunca mais servi de cobaia para os exercícios. Nunca mais senti provocação de ninguém. Julgo até que todos os companheiros e superiores me passaram a respeitar mais.

Simultaneamente começaram os exercícios escritos, provas classificadas que eram publicadas para toda a companhia e, o meu nome passou a constar sempre dentro dos cinco primeiros instruendos melhor classificados de toda a companhia, que era constituída por quatro pelotões. Isto deu-me algum estatuto de respeito e admiração o que me facilitou muito a vida durante os restantes quatro meses de recruta.

Ao mesmo tempo muita da instrução passava-se fora do quartel quer em marcha e corrida pela cidade numa distância de quinze quilómetros quer na mata que circundava o quartel atravessando rios, escalando montes, escutando os ruídos nocturnos, uma verdadeira preparação para a guerra que, embora muito desgastante fisicamente, era muito mais gratificante psicologicamente.

O tempo passa muito depressa e a quinze de Setembro de 1964 iniciámos a nossa semana de mato de exercícios finais que, sendo muito esforçada, foi igualmente muito alegre. Comíamos ração de combate ou alguma galinha que comprávamos aos residentes na redondeza. Dormíamos em tendas de campanha e, sobretudo, víamos o final da recruta a poucos dias de distância e o juramento de bandeira com a presença de familiares e amigos que era e sempre foi uma festa.

A vinte e oito de Setembro entrámos no autocarro que nos levava a Luanda deixando para trás alguns amigos pois, do grupo de mais de uma dúzia de amigos que tínhamos saído de Luanda em Maio só regressámos uma meia dúzia e apenas dois para a mesma unidade. Os restantes foram colocados em diferentes unidades espalhadas por todo o território angolano, ficando a maior parto no regimento de infantaria de Nova Lisboa para acabarem o curso. Eu e o Pipas fomos para o Batalhão 361 que ficava muito perto do aeroporto de Luanda onde aprendemos morse, cripto, comunicações no sentido lato e restrito do termo. Conhecemos rádios, respectivas avarias tipo e sua reparação para, em contexto de guerra, podermos assegurar as comunicações entre todas as unidades operacionais e o quartel de comando e mesmo o quartel-general.

Em Dezembro desse ano fomos promovidos a cabo miliciano depois de terminado o curso e, como já vinha do ciclo anterior, ficámos nos primeiros classificados do curso e colocados na secção auto do Batalhão. Esta secção era comandada por um alferes miliciano, tinha um furriel miliciano e um cabo miliciano para administrar toda a frota de viaturas do Batalhão e disponibilizá-las para os serviços requeridos pelas três Companhias e um destacamento. Dependia da Companhia de Comando e Serviços chefiada por um Capitão com a supervisão do 2º Comandante do Batalhão que era Major.

Os três responsáveis imediatos, alferes, furriel e cabo miliciano, tinham de fazer escalas de motoristas, mecânicos, electricistas para além de requisitar todo o tipo de material para reparação das viaturas e até a substituição das mesmas. Para além dessas funções tinham ainda de cuidar que o parque de viaturas estava sempre, devidamente apetrechado, bem lavado e com a manutenção em dia, para que desse resposta a todas as solicitações desde o Comando do Batalhão até às diferentes Companhias. As viaturas iam desde o jeep Willis, o mais usado para transporte individual e até 4 passeiros, passando pelas viaturas de transporte de pessoal como Unimogs, ou materiais as enormes Berliet que para além da carga eram viaturas para todo o terreno.

A secção auto, quando lá entrámos, já tinha fama de um funcionamento muito profissional e eficaz. Com a minha entrada e, passados dois meses, a rendição do alferes Costa que foi substituído pelo alferes Abrantes não perdeu essa auréola, porventura, reforçou-a. A equipa de trabalho era fantástica, muito responsável e muito unida tornando-se todos muito amigos. A amizade estendia-se ao pessoal operacional, mecânicos, electricistas, motoristas que nessa operacionalidade eram comandados por um sargento mecânico, igualmente um grande profissional. Talvez por isso funcionasse tão bem.

Este bom ambiente de trabalho permitia grande liberdade e essa liberdade era bem aceite pela hierarquia. O Comandante da Companhia, o capitão Viana, até ao Comandante do Batalhão o Coronel Sales Grade e mais tarde o Coronel Morais Leitão.

Numa palavra, fazíamos o que queríamos. Quando lá entrei o furriel Caetano disse-me como estava habituado a trabalhar, que tinha um trabalho no rádio clube de Angola que começava às seis da manhã e terminava às nove e que não queria abandonar por isso me propunha: - Ele só ia trabalhar da parte de tarde, às 14 horas e eu devia entrar às oito e sair ao meio dia. Quando fizéssemos serviço de Sargento de dia à Companhia e/ou ao Batalhão trabalhávamos 24 horas e depois folgávamos as 24 horas seguintes. Aceitei de bom grado e implementámos a estratégia de deixar a documentação que era necessário tratar acompanhada de um memorando do que tinha sido feito e o que era preciso completar nesta mudanças de turno, digamos assim.

Tudo correu maravilhosamente durante cerca de dois anos. Pode-se dizer que aquilo não era um trabalho, muito menos uma missão e foram dois anos de férias.

O motorista ia-me buscar a casa às oito menos um quarto chegava sempre dois ou três minutos antes das oito, começava a trabalhar até por volta das dez e depois íamos para a sala de sargentos e oficiais, que era comum, para tomar o pequeno-almoço que, em regra, era uma sandes de presunto e duas cucas (a cerveja mais usada). Dávamos dois dedos de conversa aos companheiros e amigos de outras secções e serviços e voltávamos à carga com o trabalho, íamos a despacho ao major e assim chegava a hora do motorista nos levar a casa.

Almoçávamos e pegávamos no nosso carro íamos até à praia com amigos que tinham a mesma disponibilidade que nós. O Abrantes, o tal alferes que substituiu o Costa e esteve connosco os dois anos ia sempre até porque tinha pouco ou nada que fazer já que eu e o Caetano, o furriel mais antigo, fazíamos todo o trabalho.

Uma única coisa me apoquentava. A saudade da minha noiva que eu queria desposar e que já estava aprazado para Setembro de 1966. Passava noites a escrever-lhe, fazendo projectos e dando conta do dia-a-dia.

A JOC continuava a fazer parte da minha vida e da minha actividade diária e, pelo meio, meteu-se uma miúda que, sem falsas modéstias, se me ofereceu e eu não resisti a um namorico sem consequências, não passou disso, e mesmo assim, ia-me dando cabo da vida porque a minha noiva quando soube não gostou nada da situação. Para mim nunca passou de um divertimento mas sei que para ela foi uma paixão de jovem imatura. Talvez por isso eu fosse sempre o marido mais fiel do mundo. Nunca me passou pela cabeça ter outra mulher que não a minha até porque foi sempre e é o grande amor da minha vida.

Em Setembro de 1965 fui promovido a furriel, passou à disponibilidade o Caetano e entrou o cabo miliciano Roque, com o qual se manteve a mesma equipa coesa e funcional e a amizade que hoje, depois dos setenta anos ainda perdura. Com o Abrantes também durou até à sua morte prematura. Do Caetano perdi o rasto desde muito cedo.

Este posto militar, na época, tinha um salário de 4.600$00. Era bastante dinheiro. Dava para eu deixar na Conta, em nome do meu pai, no Banco Português do Atlântico, em Lisboa 2.500$00 todos os meses e eu viver à grande com os outros 2.100$00. Foi com esse dinheiro que o meu pai pagou dois apartamentos que tinha comprado ao J. Pimenta na Reboleira, em Lisboa que rendiam 3.100$00 todos os meses.

Que mais se poderia pedir à vida. Nada, a não ser a companhia do ser amado. A minha noiva, a Teresinha, entretanto, depois de concluído o 5º ano do Liceu concorreu para os correios e foi viver para Almada, trabalhando em Lisboa. Ambos contávamos os dias nas nossas cartas diárias até que chegasse o dia do casamento. Em Maio de 1966 ela começou a tratar da documentação junto do cartório civil de Almada e do Pároco e, para tal eu mandei fotocópias autenticadas dos documentos de identificação e uma procuração para que me representasse em todos os actos. Entretanto mandei uma carta ao meu sogro a dar conta da situação e a pedir-lhe autorização para casar com a filha. Foi uma mera formalidade já que tanto ela como eu éramos maiores de idade e podíamos fazer o que entendêssemos mas, a nossa educação, obrigava-nos a seguir estes procedimentos.

Chegado o mês de Agosto daquele ano meti um mês de licença a que tinha direito, ao abrigo do artigo 109 do RDM, mais cinco dias da alínea a) do mesmo artigo e Regulamento de Disciplina Militar e, no dia 27 cheguei a Lisboa onde me esperava a minha noiva e os meus tios.

Chegado o dia 14 de Setembro de 1966, um dos dias mais felizes da minha vida, casei na capelinha de Nossa Senhora do Incenso, Penamacor. Cerimónia presidida pelo Reverendo Padre Manuel Toscano, na altura coadjutor do Arcipreste do concelho.

Noite de núpcias passada em Castelo Branco na casa de uma pessoa amiga que fora passar uns dias fora e deixara a moradia disponível para nós os dois.

Só lá dormimos. Pelas nove da manhã do dia seguinte pegámos no Volkswagen 1300 que tínhamos alugado em Lisboa no dia seguinte à chegada e lá vamos nós em Direcção a Lisboa para resolver problemas relacionadas com o emprego da Teresinha, os CTT.

Tomámos o pequeno-almoço numa aldeia nos arredores de Nisa e a Teresinha estava deveras mal disposta pelo que, poucos quilómetros andados tivemos que parar para ela vomitar.

Naquele tempo a minha mulher era extramente franzina e queixava-se, frequentemente, do estômago. Não era enjoo pois estava muito habituada a andar de um pequeno autocarro quando frequentava o Colégio de Penamacor e se deslocava todos os dias da Meimoa para Penamacor e vice-versa.

Mas, porque dormimos pouco e mal, nenhum de nós estava habituado a dormir acompanhado estávamos terrivelmente cansados e, dentro de Santarém, eu ia a dormitar ao volante e a Teresa dormia profundamente. Valeu-nos, na circunstância, um auto tanque dos Bombeiros que vinha em sentido contrário que vinha a assinalar a marcha com a sirene. Acordei repentinamente e encostei logo que encontrei uma sombra à saída da cidade. Dormi cerca de dez minutos e acordei como novo metendo-me de novo à estrada. Estamos a falar de um tempo que uma viagem de Castelo Branco a Lisboa demorava umas boas quatro horas. Hoje é cerca de metade desse tempo.

Thursday, October 22, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE XI

 

 XI

 

 

Em finais de Janeiro de 1973 o meu colega de trabalho na 13ª Repartição da Câmara Municipal de Luanda questionou-me se não me causava muito transtorno eu gozar a minha licença graciosa no ano corrente porque, ao contrário do que estava combinado ele não podia gozar a sua nesse ano porque necessitava de casar uma filha, sem que isso estivesse programado. Acedi sem qualquer dificuldade, até pela amizade que me unia a ele. Homem bastante mais velho do que eu, mas com quem aprendi muito e que muito me estimava.

Como éramos dois técnicos na Repartição não poderíamos gozar seis meses de licença graciosa ao mesmo tempo. Ambos tínhamos já adquirido o direito a essa Licença. Ele tinha projectado gozá-la em 1973 e eu gozaria em 1974. E, só por isso, gastei bastante dinheiro com a ida em 1972, por pouco tempo, para que a Teresa não estivesse tantos anos sem ver os pais e as irmãs. Mas a vida, muitas vezes troca as voltas a toda a gente e foi o que aconteceu com o meu colega e eu, não o podia deixar na mão. Acedi antecipar a graciosa para 1973. Convenci o meu cunhado António para vir connosco para dar uma grande alegria aos meus sogros.

Entretanto nascera a nossa Raquel. Com quinze dias mas com autorização do médico viajou connosco para a Metrópole de avião.  

Viemos no dia 30 de Junho de 1973. Esperava levantar o meu carro novo no concessionário Ford no dia 1 de Julho como estava contratado. Quando lá cheguei foi um balde de água fria porque o carro só viria daí a um mês. Problemas no transporte que, na altura era de barco. Ainda não havia os TIR de hoje. Aborrecido tive de aguentar.

Passámos o mês de Junho na Meimoa e isso foi uma festa para a minha Lena e para as minhas cunhadas que lhe mostravam tudo aquilo que ela desconhecida de uma vida rural pura. A minha é que passou mais dificuldades porque a Raquel teve uma otite e isso tornou-a mais rabugenta.

Finais de Junho fomos todos para Lisboa. Levámos os meus cunhados e fomos ter com a Maria Alice, irmã da Teresa já casada e que atravessava um momento de grande sofrimento. Ela e o Honorato, o marido, pois perderam uma filha com dois anos e meio devido a doença súbita segundo alguns ou de causas desconhecidas, segundo outros que tinham deixado ir passar férias à Meimoa com os Padrinhos de Baptismo. O tenente Romão e mulher. 

Fomos levantar o carro. Já tinha chegado. Um Ford Capri 1600 GT, amarelo, que era uma bomba na época.

Combinámos sair, nós, a Lena e o António. A Raquel era tão frágil que seria um risco levá-la. A Alice comprometeu-se a ficar com ela. Foi bom para as duas. Para a Raquel porque não passou por grandes viagens e temperaturas diversas e para a Maria Alice que voltou a ter o colo cheio depois de um vazio de morte.

Fomos, então, dar uma volta pela Europa. Espanha, França, Luxemburgo, Andorra com a última passagem por Barcelona. Regressámos no dia 21 de Agosto, dia de anos da Teresa que comemorámos em Casa da Alice com todos os irmãos.

Levei as minhas cunhadas, Rosa e Carmito ao Jardim zoológico, estufa-fria e a um museu para que também tivessem hipótese de alargar os seus horizontes para além da Meimoa.

Demos uma volta pelo país, do Minho ao Algarve e depois recolhemo-nos outra vez à Meimoa para a Minha sogra poder desfrutar da presença das netas, que na altura eram únicas.

Finais de Setembro fui levar a Lisboa o meu cunhado António para regressar ao seu trabalho a Luanda. Directamente da Meimoa ao aeroporto só nós e mais os meus sogros. Os meus sogros não podiam estar fora de casa muito tempo por causa dos animais e dos trabalhos no campo que, na altura eram de vulto. Fomos e viemos no mesmo dia. Em velocidades algo exageradas, própria de quem tinha trinta anos. A minha sogra veio todo o caminho, apavorada e calada. O meu sogro igualmente. Compreensível tinham-se despedido do filho por tempo indeterminado.

Nós continuámos as nossas férias até Janeiro de 1974 altura em que a Teresa recebeu uma carta da directora da Escola a dizer que havia uma vaga mas que tinha de a ocupar até ao dia 14 de Janeiro, caso contrário, iria novamente a concurso.

Decidimos que era boa solução irem de avião, ela e as filhas, eu iria logo que arranjasse passagem de navio para levar o carro. Sendo viatura de passageiro tinha prioridade sobre as que iam como bagagem.

O meu primo Joaquim Pina, o Pina como é conhecido por toda a família estava apurado para todo o serviço militar e iria ser incorporado durante o ano de 1974. Qualquer incorporação na Metrópole sujeitava-se a ser mobilizada para qualquer dos territórios ultramarinos, desde a Guiné a Timor, passando por Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. A guerra tinha intensidades diferentes logo, perigos diferentes. A Guiné é que representava maior perigosidade e a ambição de qualquer militar, mesmo sabendo que teria de ir para um teatro de guerra, gostaria de escapar ao terror da Guiné. Por essa razão e a seu pedido e a da minha Tia Iria, sua mãe, levei-o para Luanda para ser incorporado no contingente local com a certeza de que faria todo o serviço militar obrigatório naquele território. Havia melhores locais, como Timor e São Tomé e Príncipe mas Angola não era mau.

Meti os três num avião que saiu à meia-noite de Lisboa com destino a Luanda, um Boing 747, o maior avião de passageiros do mundo, pertencente à TAP e eu fui tratar da minha viagem de Navio que teria lugar no dia 28 de Janeiro.

Neste dia, depois de ter embarcado o carro entrei no Principe Perfeito, um dos navios mais modernos da marinha mercante portuguesa e dirigi-me ao meu camorote de 1ª classe. O camarote tinha duas camas, uma casa da banho privativa e um pequena sala com dois sofás individuais.

Calhou-me, como companheiro de viagem, um individuo mais ou menos da minha idade, 30 anos, que estabeleceu logo um bom entendimento e uma boa relação comigo. Confidenciou-me ser um dos seguranças do navio, pertencia à PIDE e estava ali para evitar situações como as que aconteceram com o Santa Maria que fora desviado da rota para o Brasil para a Comunicação Social dar eco à campanha contra o regime político vigente.

Parámos apenas em São Tomé e Príncipe e demorámos nove dias na viagem. Um ganho de tempo considerável relativamente a outras viagens que, no mínimo, levavam onze dias. 

Foi uma viagem fantástica, sem nenhum sobressalto, com bom tempo e bom mar. Diverti-me imenso nos concertos, nos bailes e no casino.

Chegado a Luanda voltámos à nossa vida de trabalho e de convivio familiar ao fim de semana até ao dia 25 de Abril.

Importa dizer que, Angola em 1974 não tinha focos de guerra significativos. Em todo o território se andava à vontade, de noite e de dia, sem constrangimentos. Algumas escaramuças aconteciam junta à fronteira Norte e Leste, mas a quantidade e a qualidade dos militares nesta altura tinham a situação perfeitamente dominada. Mesmo assim, aqueles que gostávamos de Angola e tínhamos alguma consciência política tínhamos a noção de que a independência era inevitável, mais tarde ou mais cedo. Para estarmos informados sem o crivo da censura ouvíamos a rádio Brazaville, uma rádio que pensávamos ser livre e que mais tarde viemos a descobrir que era um veiculo de propaganda do MPLA.

No dia 25 de Abril ouvimos na rádio que tinha havido um golpe de estado em Portugal.

Nos dias seguintes foi uma constante e permanente preocupação para saber o que nos reservava o futuro já que, não era segredo para ninguém, que o Partido Comunista Português e outros apêndices anarco-sindicalistas, tinha uma campanha em que exigia que nem mais um soldado fosse para o Ultramar.

Todos nós queríamos uma independência pacífica com uma transição de poderes que englobasse todos os Movimentos de Libertação e as populações com as suas instituições, as Igrejas, católica e protestante, que tinham muita representatividade com o poder a quem tivesse currículo capaz de o desempenhar em favor do povo e, na circunstância, o povo era de toas as raças e crenças.

Quando o General Spínola, militar prestigiado que no seu livro “Portugal e o Futura” preconizava uma independência deste tipo foi nomeado Presidente da República descansámos um pouco a nossa inquietação. Pensávamos que haveria uma transição democrática em todo o PaÍs, incluindo os territórios ultramarinos.

Com a nomeação do Almirante vermelho, assim era conhecido o Rosa Coutinho as coisas começaram a complicar-se. A nossa própria tropa começou a desarmar os brancos e a permitir abusos de bandidos, criminosos de delito comum, sem qualquer tipo de repressão.

Durante os meses de Maio, Junho e Julho, todas as semanas havia relatos de desacatos contra os brancos. Mortes de taxistas, vingança destes contra musseques onde as mortes dos seus camaradas aconteceram e coisas similiares.

A ansiedade e a insegurança quanto ao futuro foi-se apoderando de muitos de nós a ponto de eu exigir à minha mulher que deixasse de dar aulas nas escolas do musseque. Pôs-se a questão: ou arranjava colocação nas escolas do centro da cidade o que não seria fácil ou, pura e simplesmente, deixaria de tabalhar.

O Mês de Agosto veio trazer mais indicações de que o melhor era antecipar saida para lugares mais seguros e a minha mulher regressou à Metrópole no dia 14 de Agosto. Não pode trazer as filhas dad a escassez de passagens de avião devido à imensa procura. Foi preciso a influência de um amigo meu dono de uma agência de viagens. Foi angustiante para todos mas foi uma decisão que se revelou acertada.

Dia 26 de Agosto a minha mãe com as minha filhas apanharam o avião para Portugal e o meu pai embarcou no dia 30 de Agosto.

Fiquei eu, o meu cunhado e o meu primo. Mas comecei a pensar na possibilidade de ter de sair de um lugar que eu amava e onde esperava morrer.

Como a minha mulher ficou colocada na Escola da Meimoa, depois de várias peripécias, consegui vir para Portugal no dia 5 de Oubro de 1974. O meu cunhado, apesar da minha insistência, não quis vir porque viria no ano seguinte de licença graciosa. Quando em Janeiro de 1975 começou a tratar da licença graciosa as coisas começaram a agravar-se na Repartição de Finanças onde trabalhava. Começou a sentir-se pressionado a tomar partido por um dos Movimentos de Libertação, MPLA, FNLA ou UNITA. Como não anuisse a ser de nenhum passou a ser olhado com desconfiança e como reaccionário ao ponto de em Junho de 1975 ter pedido a exoneração e vir para Portugal deixando carro e tudo o mais. Apostou no cavalo errado como a maioria dos brancos que quiseram ficar em Angola. Muitos foram mortos. Outros passaram as passas do Algarve como se costuma dizer.

Por fim a família passou a viver na Meimoa.

Friday, October 16, 2020

VIDAS E SANTIDOS - PARTE X

 

X

 

 

Por que as condições de vida melhoraram substancialmente viemos à metrópole nos anos de 1972 e 1973. No primeiro, a minha mulher e a minha Lena, por três meses e eu apenas por um mês. Elas tinham as férias escolares alargadas e eu apenas a licença normal de trinta dias. Viagens e estadia por conta própria. A Teresa tinha imensas saudades dos pais, das irmãs e restante família. Já tinha sofrido um imenso desgosto de não ter podido estar presente aquando da morte do seu avô muito querido.

Nesse mesmo ano tinham vindo de licença graciosa os meus pais, a tia Paulina e família e a tia Elisa.

O Mês de Agosto, desde meados da década de sessenta com a legalização de muitos emigrantes clandestinos tornou esta aldeia mais cosmopolita. Chegavam, quase em massa, os emigrantes em França para passar as suas férias na terra natal. Traiam automóveis, uns melhores e outros nem tanto, mas uma demonstração inequívoca de que tinham melhorado a sua vida. Introduziam algumas palavras em francês pouco ortodoxo, o que nem era de admirar, já que a maioria era pouco mais do que analfabeta, como forma de afirmação e de ascensão social tão cara ao ser humano. Não se quer sentir bem quer-se que o outro veja que está bem.

Nós viemos quase no final de Agosto altura em que os emigrantes estavam a regressar ao país de acolhimento. E, coincidência, o meu primo Joaquim Pina prestava-se para regressar, quando em conversa lhana se aflorou a hipótese de ir a Paris comprar um carro em segunda mão para que os meus pais tivessem meio de locomoção mais barato e, se houvesse justificação para pagar o imposto de importação levá-lo depois para Luanda onde se poderia ganhar algum dinheiro com a transacção já que, tanto nós como os meus pais tínhamos carros novos adquirido no ano anterior.

Metemo-nos num autocarro directo para Paris com o meu primo num sábado de madrugada. Chegámos já noite alta a Paris. Dormimos em casa do meu primo nos arredores de Paris.

No dia seguinte levantámo-nos cedo e fomos a Bicêtre, subúrbios a sul de Paris, onde todos os domingos se levava a efeito uma feira de viaturas usadas e onde se podia comprar um utilitário por pouco mais de cinco contos ou um topo de gama que ultrapassava os cem. Nós tínhamos decidido que tentaríamos arranjar um seminovo que rondasse os cinquenta contos.

Começámos a percorrer a feira que tinha quilómetros de extensão. Pouco tempo passado e poucas centenas e metros andadas encontrámos um fiat 124 coupé fantástico por cerca de trinta contos. Ficámos fascinados e muitíssimo agradados com a possível aquisição. Começámos a analisá-lo, por fora e por dentro, por baixo e por cima até que o vendedor o tentou por a trabalhar e o motor não pegou. Não ficámos muito desiludidos, pensámos em bateria fraca ou coisa similar mas o proprietário com um sentido de honestidade que nos deixou boquiabertos disse que já não nos vendia o carro por dinheiro nenhum.

Custou-nos este contratempo e, como acontece muitas vezes quando gostamos de algo que não nos serve e depois não encontramos nada que nos agrada, por mais lojas que frequentemos, não havia maneira de encontrar outro automóvel que nos agradasse no meio daqueles milhares.

Até que, por fim, depois de palmilharmos quilómetros vimos um Renault 16, com vidros eléctricos – uma modernice e alta tecnologia na época – num estado fantástico e com quarenta mil quilómetros que nos encheu as medidas. Custava sessenta contos, um pouco mais do que a nossa premissa, mas comprámo-lo. Sinalizámos a compra. No dia seguinte, segunda-feira fomos ao Banco fazer o câmbio do dinheiro, trocar escudos por francos, pagar e tratar do seguro, único documento necessário para transitar em França e poder trazer o carro para Portugal. Cerca das 14 horas estávamos a sair da casa do meu primo em direcção à Nacional 10, a estrada que conduzia directa a Portugal.

Saímos de Paris, eu e o meu pai, sem um mapa apenas com informações orais dadas pelo meu primo. Não admira que passados pouco mais de quinze minutos já não reconhecíamos os pontos de referência que nos foram dados. Pensámos alugar um táxi para ir à nossa frente até ao início da Nacional 10. Parámos numa praça de táxis e tentámos que assim fosse mas o taxista que abordámos disse-nos com simplicidade e franqueza que era uma má ideia porque era cara e encorajou-nos a prosseguir com outros pontos de referência. Assim fizemos. Continuámos a rodar pelas ruas de Paris e, para nos certificarmos que estávamos na rota certa parei encostado a uma peanha de um Polícia sinaleiro. Simpaticamente o agente da autoridade informou-nos que íamos bem e que deveríamos continuar seguindo os referidos pontos de referência. Quase à entrada da Nacional 10 íamos muito devagar porque não estávamos seguros de que estávamos na rota certa quando nos apareceram dois polícias de trânsito nas suas motas que nos fizeram sinal para encostar. Cumprimos a ordem prontamente pensando que nos iriam pedir documentos ou fazer alguma advertência mas não. Perguntaram-nos porque íamos tão devagar. Explicámos a razão e responderam com prontidão vem atrás de nós. Segui-os cerca de cinco minutos e já estava na Estrada que nos havia de trazer a Portugal e aí chegados fizeram-me sinal para seguir. Fiquei admirado. Aliás houve algumas coisas em Paris que me deixaram atónito. A primeira uma jovem a vender o Jornal do Partido Comunista à porta do Metro sem que ninguém a importunasse. A segunda, a honestidade do vendedor de automóveis usados que, pelo simples facto do motor não pegar já não me quis vender o carro. Depois as peripécias com o taxista e com os polícias. Era uma cultura diferente daquela que eu sentia em Portugal. Muito parecida com a vivida em Luanda, já não posso dizer o mesmo em toda a Angola. Honestidade, bonomia, simpatia, liberdade.

Boa estrada, muito movimento, bom carro, velocidade significativa, poucas paragens e de madrugada estava em Hendaia, fronteira de França com a Espanha. Aí a polícia civil espanhola, muito parecida com a polícia portuguesa, foi muito fiscalizadora e muito burocrática tendo demorado cerca de uma hora para obtenção do visto de saída Não estavam muito habituados a que as viaturas automóveis pudessem viajar, em trânsito, e só no fim do percurso pagar os direitos alfandegários. Por fim tudo correu bem.

Percorremos a Espanha de uma tirada e, pelas 14 horas, já estávamos na Meimoa. Foi uma aventura mas que valeu a pena por várias razões. Primeiro porque nos permitiu a nós dar uma boa volta pelo País que mal conhecíamos e depois dar a possibilidade aos meus pais de se movimentarem sem peias. Por fim e já em Angola, trocarmos o Renault 16 por um Ford Capri, carro da moda, novo a receber a Lisboa no ano seguinte só com o acréscimo dos direitos alfandegários, cerca de vinte e cinco contos. Foi um bom negócio. Negócios que eu não estava habituado a fazer e nem tinha e nem tenho grandes propensões para os fazer.

As férias propiciam descuidos e a minha mulher ficou grávida de novo, o que não constituiu nenhum constrangimento. A Lena já tinha cinco anos e outro filho sempre esteve no nosso horizonte.

Vinte e sete de Setembro de 1972 regressámos a Luanda, eu, minha mulher e a minha filha, os meus pais, tios e primos ainda ficaram até Novembro e retomámos a nossa vida felizes como nos sentíamos.

 

Monday, October 12, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE IX

 

IX

 

No dia 1 de Abril apresentei-me no novo emprego e em nova forma de vida. Ingressei naquilo que hoje se denomina a Função Pública.

Dei-me muito bem neste serviço e aprendi muitas coisas que não sabia. Comecei a interessar-me por este meio e a ler o Diário Oficial onde se publicavam os concursos para os diferentes organismos e demais legislação.

Apareceu um concurso para auxiliar de obras públicas, serviço onde trabalhava o Tio Zé e onde granjeou muitos e variados conhecimentos, que iam do Governador-geral até aos Secretários Provinciais, Directores Gerais, Reitores de Liceu, Directores de Hospitais, já que a sua missão era distribuir uma equipa, pequena mas especializada de artistas, que iam do serralheiro ao canalizador, do pedreiro ao pintor, para pequenas reparações em edifícios públicos e ele disse-me que deveria concorrer porque o lugar era bom. Assim fiz mas, prontamente esqueci o assunto. Estava satisfeito no lugar que desempenhava.

Em Agosto nasceu a minha primeira filha, a nossa Lena, como a tratamos cá em casa. O trabalho e o apaparicar da nossa filha fazia o tempo passar quase sem darmos por isso.

Entretanto o meu cunhado António não andava satisfeito com a vida que levava na Meimoa e escreveu-nos uma carta a dar conta disso mesmo. Propusemos-lhe que fosse para Luanda. Se quisesse trataríamos da passagem de navio e tudo se resolveria. Na altura ele tinha dezoito para dezanove anos. Gostou da ideia e lá tratámos de ele ir ter connosco. Chegou em Outubro desse ano. No início do ano seguinte já estava colocado na Fazenda Pública como aspirante.

Em Agosto do ano seguinte, 1968 apareceu a colocação nas Obras Públicas lugar para o qual tinha concorrido e do qual me tinha esquecido. Veio uma carta a informar-me que tinha um mês para me apresentar.

Em família decidimos que era uma boa opção mudar de emprego. Era um lugar do Quadro, com carreira própria, carreira técnica com benefícios diferentes daqueles que havia nos serviços administrativos. Aceitámos o lugar e apresentámo-nos ao serviço na Direcção Provincial.

Novas aprendizagens, novas funções a maior parte, completamente desconhecidas. Um senão: passado um mês, por necessidade e interesse do serviço fui colocado em Silva Porto, planalto do Bié a 700 quilómetros de Luanda. Não me agradou mas fazia parte da carreira e até da possibilidade de promoção e lá tive que aceitar.

Cheguei a Silva Porto de Comboio a partir do Lobito tendo feito a viagem de Luanda até ao Lobito de navio. Foi a primeira e única viagem de navio que a minha mulher fez. Cheguei, como dizia, no dia 28 de Setembro de 1968 e, mal instalei a família no único hotel da cidade, o hotel Girão, desloquei-me até à Repartição das Obras Públicas e Transportes para me apresentar ao serviço. Cheguei lá e encontrei a Repartição fechada, apenas estava de guarda um contínuo que me disse que havia tolerância de ponto devido à tomada de posse como Presidente do Conselho de Ministros o Professor Doutor Marcelo Caetano em substituição de Salazar que se encontrava extremamente doente. Dizia-se até que estava em coma mas, como era segredo de Estado, só se sabia o que a censura deixava passar. Regressei ao Hotel para, em seguida, com a minha mulher e a minha filha passearmos pela cidade. Fomos a pé por que a cidade era muito pequena, acessível, plana e com ruas quase rectas e respectivas perpendiculares, igualmente em linha recta.

Aqui passei três anos e meio da minha vida onde fiz aprendizagens profissionais e de vida fantásticas. Amigos extraordinários que fiz.

A minha mulher tirou lá o curso do Magistério Primário com a melhor nota do curso. Fez um esforço extraordinário mas conseguiu o respeito e admiração colegas, de professores e até dos alunos que teve no seu estágio.

Mas eu nunca me senti pleno naquela terra. Faltava-me o mar de Luanda. Faltava-me o calor húmido a que me habituei desde a infância. Faltava-me a minha família alargada, pais, tios, primos. Faltava-me ainda a corte de amigos que cultivei desde a minha adolescência pois todos se encontravam a trabalhar em Luanda por isso disse à minha mulher para concorrer para Luanda por que, após a colocação, eu pressionaria a minha transferência que já tinha solicitado várias vezes mas que tinha sido recusada por motivos de serviço. A Lei dos cônjuges facilitava essa transferência.

Isto aconteceu em Setembro de 1971. A minha mulher e a minha filha foram para Luanda e eu fiquei sozinho em Silva Porto. Solicitei a transferência e, cumulativamente, fiz dois concursos para a Câmara Municipal de Luanda. A carreira profissional de um funcionário público tinha vantagens se não houvesse interrupções de serviço e, desta feita, assegurava, caso fosse admitido na Câmara e não fosse transferido para as Obras Públicas esse desiderato.

Fiz os concursos em Novembro desse mesmo ano. Um deles era para fiscal municipal cujo ordenado era de cerca de cinco contos mas a percentagem sobre as multas chegava, muitos meses, aos cem. O outro era para Chefe de Trabalhos principal que tinha um ordenado de seis mil e quatrocentos escudos mais dois mil e quinhentos de subsídio técnico. Não chegava aos dez contos. De qualquer forma era um ordenado significativamente superior ao que ganhava nas Obras Públicas que rondava os cinco contos mensais.

No dia 18 de Janeiro de 1972 apareceu a transferência para a Direcção Geral de Obras Públicas de Luanda e eu, ansioso que estava, pus-me a caminho no dia seguinte.

Falta-me aqui dizer que nos cerca de três anos e meio que estive em Silva Porto o desenvolvimento socioeconómico de Angola foi explosivo em todos os sectores da economia mas um, extremamente relevante, foi a construção de estradas asfaltadas em todo o território. E, se a primeira viagem foi necessário fazê-la de Navio e depois de Comboio passado menos de um ano fazia os setecentos e vinte quilómetros de carro em menos de oito horas de viagem. Por isto, mal recebi a guia de marcha pus-me a caminho levando as poucas coisas que cabiam no carro e pedindo a colegas e amigos que enviassem o restante recheio de casa por Camião.

No dia 20 de Janeiro apresentei-me nas Obras Públicas. E, no dia seguinte, fui chamado para uma entrevista na Câmara Municipal.

Do que constou a entrevista: Uma pergunta relativa ao lugar que pretendia ocupar, pois tinha ficado em terceiro lugar no concurso para fiscal e seriam admitidos dez ou no lugar de chefe de trabalhos onde ficara em primeiro lugar e havia apenas outro concorrente aprovado. Fui apanhado de surpresa e não sabia o que havia de decidir. Em poucos segundo polvilharam os meus pensamentos os cerca de cem contos mensais do lugar de fiscal o que daria para fazer, em pouco tempo, uma pequena fortuna em contra balanço com os menos de dez contos mensais do lugar de Chefe de Trabalhos mas, no turbilhão de pensamentos atravessaram-se imagens que tinha visto muitas vezes. Crianças andrajosas, pais esfarrapados e a trabalhar de noite e de dia para construir uma pequena casa clandestina para a família viver e o fiscal da Câmara a aplicar-lhe uma multa mínima de vinte e cinco contos. Decidi de imediato: quero o lugar de chefe de trabalhos. O Engenheiro director, por que era uma pessoa bem-educada e muito polida fez-me notar que eu estava a ser parvo, dada a diferença de rendimentos. Eu, agradeci o aviso mas respondi: não tenho coragem, senhor engenheiro, de multar uma família numa quantia para ela exorbitante para eu receber a percentagem dessa desgraça. Prefiro menos dinheiro mas o sossego de consciência. Deu-me um abraço demonstrando a nobreza de carácter ali exposta a nu.

Apresentei-me neste novo local de trabalho em 1 de Fevereiro de 1972.

Novas aprendizagens. Novas amizades. Muita gratificação e muitas Graças a Deus por mais esta oportunidade de melhorar as condições de vida e a acensão social que tal representava.

A minha mulher trabalhava numa escola em regime triplo, tal a quantidade de alunos, para onde levava a minha filha Lena já que esta não quis ficar no infantário onde foi matriculada e, em nossa casa, toda a gente tinha trabalho fora. Meu pai, minha mãe que seria quem poderia ajudar. O ambiente de colegas da minha mulher que era muito bom permitiu que a minha Lena com apenas 5 anos de idade fosse para uma sala de pré-escola que já existia no território naquele tempo. Uma novidade em todo o País. Em Portugal Continental nem em tal se falava quanto mais executar.