XII
O regresso a
uma terra, que sendo a nossa, pouco ou nada tinha para nos oferecer foi traumático
e extremamente difícil.
As notícias
procuravam denegrir os compatriotas que viveram no ultramar apontando-lhes o
dedo como se criminosos fossem. Até em famílias houve casos de um dramatismo
incalculável. Tudo devido a uma intoxicação feita pela comunicação social
dominada pela extrema esquerda portuguesa com principal destaque para o Partido
Comunista Português.
Havia falta de
trabalho e a maioria das pessoas que vieram pela primeira vez – não podemos
esquecer os muitos que nasceram lá e nunca tinha vindo à Metrópole – e os
muitos que retornaram ao seu país não estavam dispostos a trabalhar no campo
por uma côdea como era quando de cá saíram à procura de vidas melhores.
Mas, como diz
o ditado, “em terra de cegos quem tem um olho é rei” os que regressaram, ainda
que sem um tostão furado, tinham uma bagagem, um conhecimento e uma capacidade
inventiva e empreendora muita acima da que os locais estavam habituados e então
foi ver, em pouco tempo, uma mudança social fantástica. Mudança nos hábitos.
Nos comportamentos, nas atitudes e na dedicação ao trabalho. Foi a criação de
pequenas empresas familiares, com maior destaque para a Restauração que fez com
que as pessoas que sempre estiverem habituadas a levar farnel para todas as
deslocações passassem a ir comer a restaurantes. A sociologia demonstra, ainda
que haja pouca gente a dar-lhe eco, que foi a vinda dos residentes do Ultramar
que desenvolveram este país nas décadas de setenta e oitenta do século passado.
Nós começámos
a orientar a nossa vida em família. A Teresa com o seu emprego fixo e garantido
pois, ao fim de um ano ou dois ficou efectiva na Meimoa. Eu comecei por
trabalhar de forma precária na Câmara Municipal de Penamacor. Mas, prevendo um
futuro pouco promissor decidi ir tirar o curso do Magistério Primário para o
Fundão para, em conjunto com a minha mulher, podermos projectar um futuro
condigno para as nossas filhas. Pensava que ao fim de dois anos estaria em
condições de abraçar nova carreira mas não foi assim. No ano lectivo de
1976/77, o então ministro da Educação, Sotto Mayor Cardia, decidiu que a classe
docente do ensino primário deveria ter uma formação mais aprofundada no domínio
teórico-prático passando o curso de dois para três anos, sendo que o terceiro
ano seria, acentuadamente, de estágio com turma e um número residual de
disciplinas teóricas. Isto, aparentemente, foi uma contrariedade mas o tempo
veio a demonstrar que valeu a pena. A formação foi muito mais apurada e
consentâneas com a época que atravessávamos.
Acabado o
curso no ano lectivo 1979/80 fomos colocados em regime de substituição na
telescola de Vilar Barroco no concelho de Oleiros. Uma terra só com mulheres e
crianças. Os homens estavam todos emigrados. As colegas do sexo feminino eram
tratadas como rainhas. Davam-lhes tudo. Comida, casa, até lhe lavavam a roupa.
Sendo um lugar remoto no meio do Pinhal Interior não deixava de ser atractivo
pela poupança que podiam fazer num lugar onde não tinham despesas.
Connosco o
problema foi, precisamente, o contrário. Sendo eu e o padre os únicos homens
que trabalhavam na povoação, nomeadamente na telescola, ele dava letras e eu
dava ciências, as mães dos alunos sendo extremamente simpáticas não se atreviam
a hospedar nenhum de nós pois arriscavam-se a ser faladas na aldeia. Por isso
nós os dois tínhamos que ficar alojados numa pensão existente a nove
quilómetros de distância e deslocávamo-nos todos os dias para a escola de
carro. A pensão era explorada pela mãe de um colega nosso, o Xavier, que,
entretanto tinha ficado viúva e situava-se no Orvalho, ponto de passagem para
quem viajava de Castelo Branco para Coimbra. Ao fim-de-semana vinha para casa,
na Meimoa, passando pelo Fundão para recolher a nossa Lena que estudava naquela
cidade.
Só ali estive
colocado até às férias de Natal. Como a minha sogra tinha falecido em Junho
anterior a Teresa, minha mulher, andava numa depressão tão grande que não
comia, nem dormia, a sua saúde deteriorava-se a cada pé de passada. Tive que a
levar a um Psiquiatra que a ajudou a superar o trauma da perda da mãe. Ficou
por isso de atestado médico durante seis meses para fazer uma espécie de cura
de sono e para eu poder tomar conta dela e da nossa outra filha a Raquel fui
colocado no lugar dela em substituição. Até ao fim do ano lectivo.
A situação política tinha-se alterado substancialmente. Tinha ganho as eleições a Aliança
Democrática – coligação partidária de três partidos, p PSD, o CDS e o PPM – e
as consequências foram algumas mudanças no sentido da estabilidade e do
desenvolvimento. O Primeiro Ministro de então. Francisco Sá Carneiro, com o
Ministro da Educação Seabra, decidiram que o desenvolvimento do país tinha de
assentar na educação. Como a educação só produz efeitos depois de passada uma
geração teria de haver algo que se pudesse fazer pelos milhões de analfabetos
existentes no país. Daí terem criado a Educação de Adultos, de forma
organizada, com aulas nocturnas, com ensino adaptado, para capacitar a maioria
dos portugueses para a mudança de paradigma até então vigente. Deixar de ser,
fundamentalmente, rural para passar a ser no campo da indústria e da prestação
de serviços.
No ano de
1980/81 foi então aberto concurso para professores primários para serem
colocados, três ou quatro por concelho rural, para alfabetizar o maior número
de pessoas possível. Concorri para estes lugares que, no concelho de Penamacor
se situavam em Aranhas, Aleia do Bispo, e Pedrógão de São Pedro. Fiquei logo
colocado em Aranhas. Não tinha muito tempo de Serviço mas tinha a maior nota do
Curso, 17 valores, numa média por Escola de Magistério que não podia, segundo
as regras do Ministério da Educação, ultrapassar os 13,14 valores. Isso fazia
com estivesse no topo da tabela em concursos para professores agregados, era
esta a designação, para se diferenciarem de professores do Quadro. O que só
havia diferença na continuidade e segurança do lugar. Enquanto os agregados
poderiam saltar de terra em terra, consoante as vagas anuais, os do Quadro eram
efectivos numa escola e só de lá saíam por vontade própria. O resto,
vencimento, férias, faltas e licenças eram precisamente iguais.
Foi um ano de
muito trabalho e muita inovação porque a par da alfabetização havia toda uma
educação de base que se pautava pela preservação da cultura, das tradições, dos
usos e costumes. Foi igualmente muito gratificante.
No ano lectivo
de 1981/82 fiquei colocado na Meimoa onde dei continuidade ao trabalho que
desenvolvi nas Aranhas.
Entretanto o
meu pai teve um problema de saúde, uma hérnia discal, que o estava a imobilizar
e, através do nosso primo Fajé, médico neurocirurgião foi internado no Hospital
dos Covões e operado com muito sucesso. Mas a cirurgia foi delicada e nós
tivemos que ir alguma vezes a Coimbra visitar o meu pai. A minha mãe tinha
ficado em casa do meu amigo Joaquim Gomes que residia em Coimbra para poder ir
visitar o meu pai todos os dias.
Nesse ano já a
minha Lena frequentava o nono ano no Liceu de Castelo Branco e isso era muito
caro. Pagava uma mensalidade que era, praticamente, o ordenado de um de nós. E,
em casal já tínhamos equacionado a nossa saída da Meimoa para proporcionar às
nossas filhas as melhores condições de estudo. A Raquel já anda no quarto ano
e, no ano seguinte, também teria que sair de casa.
Tivemos a
possibilidade de ir para Lisboa. O meu pai tinha dois apartamentos na Reboleira
que só lhe davam prejuízo e assim nós poderíamos ir para a zona da Grande
Lisboa e não pagar renda de casa mas a Teresa não quis. Não gostava da confusão
de Lisboa.
Numa dessas
visitas ao meu pai que estava no Hospital sobrou-nos algum tempo o que nos
permitiu ir à Delegação Escolar de Coimbra pedir informações sobre a
possibilidade de colocação naquela cidade. O Delegado, simpaticamente, disse
que ainda não tínhamos suficiente tempo de serviço para arranjarmos colocação
na cidade mas, que o que era vulgar, era os professores fixarem-se em Coimbra
e deslocarem para a periferia e que aí sim, já tínhamos possibilidade. Deu-nos
uma lista de concelhos dos arredores e das potencialidades de cada um e viemos
para casa pensar no assunto.
Pesámos os
prós e os contras. Não tínhamos dinheiro para suportar o aumento de despesas
mas contávamos poupar aquele que teríamos que pagar para os internatos das duas
filhas e, cumulativamente, ficámos com as filhas ao pé de nós pois a nossa Lena
teve um ano infelicíssimo nas freiras de Castelo Branco e eu, que sempre fui
contra os internatos de toda e qualquer espécie, ficava muito feliz para poder
libertar a minha filha daquele tormento.
Quando abriram
os concursos a Teresa, como era efectiva, concorreu primeiro e ficou colocada
no concelho de Cantanhede do distrito de Coimbra. Eu já tinha o destacamento
para continuar na Meimoa mas desisti dele e fiz concurso em Julho e fiquei também
colocado numa aldeia a cinco quilómetros de Cantanhede.
Em Setembro de
1982 fomos apalpar terreno. Deslocámo-nos à Delegação Escolar e o Delegado que,
tem má fama, foi extremamente simpático para nós, deu-nos alguns conselhos,
nomeadamente quanto à residência. Demonstrou-nos que, em vez de residirmos em
Coimbra e deslocarmo-nos para Cantanhede faríamos muito melhor se alugássemos
casa em Cantanhede e as filhas tinham todas as condições para estudar naquela
cidade pois tinham duas boas escolas oficiais, uma para o ciclo preparatório e
outra para o ensino unificado e secundário. A vida era muito mais barata.
Rendas mais económicas. Produtos hortícolas muito mais baratos devido à
produção local. Agradecemos o conselho e aceitámo-lo. Ficámos amigos do Delegado,
o Eduardo, que verificamos ter má fama injustamente. Ele apenas era rigoroso e
exigente e os incumpridores não gostavam. Nós, que nos pautámos sempre por
padrões de excelência no nosso trabalho, aquilo que os outros entendiam como
defeitos nós víamos como virtudes. Daí a amizade e até o convite para subdelegado passados cinco anos a trabalhar no concelho. Aceitámos o convite
mas, por cunhas do Director Distrital, nunca ocupámos o lugar porque o despacho
nunca veio.
É uma história
um pouco bizarra mas que importa referir para ilustrar um pouco como funciona o
nosso povo, e os que desempenham funções de chefia ou governação que, no fundo,
são filhos do povo.
O Eduardo fez
a proposta e o Director deu parecer favorável mandando para a Direcção Geral em
Lisboa. Entre os meses de Maio, data da proposta e o despacho da Secretaria de
Estado que deveria acontecer até 31 de Agosto, um amigo do Director Escolar,
delegado de Santa Maria da Feira pediu ao director se lhe arranjava um lugar de
delegado no distrito de Coimbra. Dizer que tanto o directos como esse delegado
eram do distrito de Aveiro, tinham trabalhado juntos e eram amigos. Dizer
também que o delegado andava com problemas no seu casamento e queria afastar-se
do distrito de Aveiro e vir para Coimbra. O Director disse-lhe que não tinha
vagas mas se ele não se importasse de deixar de ser delegado e passar a ser
subdelegado que conseguia colocá-lo em Cantanhede. O outro aceitou. O Director
dirigiu-se ao Eduardo e pediu-lhe para retirar a proposta com o meu nome e
substitui-la por outra com o nome do seu amigo. O Eduardo era um Homem com agá
grande e disse: eu não senhor director. Então fui eu que fui convidar o
professor por saber que ele é competentíssimo, ele, relutantemente, aceitou e
agora vou dizer-lhe que já não o quero a trabalhar comigo? Eu não faço isso. Ao
que o Director respondeu: Digo-lhe eu. Chamou-me e, de caras, disse-me que não
tinha nada contra mim mas que o outro era amigo dele e eu tivesse paciência.
Perdi a cabeça e disse-lhe uma data de verdades na cara. Disse-lhe que não
precisava do lugar para nada. Que não pedira nada a ninguém e que ele me fazia
a mim e ao delegado aquela cachorrada por causa de um amigo teria, a partir
daí, em mim um inimigo. Virei-lhe as costas e vim-me embora.
O homem deve
ter pensado duas vezes e concluído que eu seria capaz de o entalar junto do
Ministério da Educação e o que é que aconteceu? Deixou a vaga no concelho de
Cantanhede por preencher e o individuo de Santa Maria da Feira não ocupou
aquele lugar. Nem foi para mim nem para ele.
Mas o que está
reservado para nós a casa nos vem a ter. Em Agosto sou convidado para ocupar um
lugar na DEE (Divisão do Ensino Especial) dependente directamente da Direcção
Geral de Lisboa em Setembro desse ano. Eu gosto de experiências novas e aceitei
o desafio. Tudo isto se deve ao facto de naqueles cinco anos ter granjeado
junto de todos os colegas, inspectores e delegado, o respeito pelo trabalho
rigoroso, competente e inovador que, graças a Deus tinha desenvolvido.
Assim aconteceu,
em Setembro tomo posse do Lugar na DEE e fui para Coimbra. Em meados do mês
fomos integrados na Direcção Regional de Educação do Centro, criada de raíz,
nos finais de Agosto desse mesmo ano.
Uma
experiência fantástica. Como fora fantástica a Educação de Adultos a educação
das crianças até aos dez anos. Nos cinco anos que trabalhei com as crianças
levei dois grupos de cerca de quinze alunos cada do primeiro ao quarto ano com
100% de aproveitamento o que foi um feito naquela escola. Tive sempre o apoio e
o cafrinho dos alunos e a admiração dos pais das crianças.
Um ano passei
no Ensino Especial, também esta estrutura em iniciação trabalhando sob as
ordens da Directora Regional Fernanda Mota Pinto. Pessoa frontal e rigorosa. Ao
fim do ano a Directora Regional entendeu dever estruturar a Direcção Regional
segundo o seu padrão e não manter os serviços descentralizados da Direcção
Geral. Pediu-me então para deixar o ensino especial e pôr a minha experiência
ao serviço da Educação de Adultos, cargo que desempenhei quase vinte anos.
Neste
intervalo de tempo de vinte anos as minhas filhas fizeram o Liceu, entraram na
Faculdade e tiraram os seus cursos superiores que, na altura, tinham a duração
de cinco anos. A Lena licenciou-se em Matemática com especialização em
computação gráfica, desempenha, desde aí cargos nessa área. A Raquel
licenciou-se em Biologia, ainda fez a parte curricular do mestrado em ecologia
e depois começou a dar aulas na Escola Superior Agrária de Castelo Branco.
A Lena foi
para Lisboa local onde arranjou emprego. A Raquel para Castelo Branco. Ambas
fizeram pós-graduação em gestão de projectos e, por isso, a Raquel entrou numa
empresa privada como Gestora de Projectos e chefe de departamento. A Lena entrou
para o Ministério das Finanças para a Direcção Geral de Informática onde se
mantém e é gestora de redes.
Com as filhas
fora de casa nós, o casal, fomos dois anos para Viseu onde fizemos a nossa
licenciatura em Educação Especial. A Teresa, como tinha tempo de serviço,
reformou-se depois de ter atingido o topo da carreira docente, o décimo
escalão. Eu, porque me faltavam seis anos, fiz um mestrado em educação na
Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa tendo, por essa razão,
beneficiado de um bónus no tempo de serviço de quatro anos no tempo de serviço,
atingindo assim, o topo da carreira docente o tal décimo escalão. Demorei dois
anos a fazer o mestrado. Um na parte teórica e outro a elaborara a tese depois
de efectuar a devida investigação. Deu um imenso trabalho. Na altura já tinha
58 anos e andava cansado mas tudo se conseguiu com imenso esforço. Aos sessenta
anos reformei-me. A Teresa reformou-se dois anos antes, aos cinquenta e oito.
Sozinhos, em
Cantanhede, uma terra onde não criámos raízes apesar de termos criado amigos,
decidimos que o melhor era regressar à Meimoa onde tínhamos os meus pais e o
meu sogro, já na casa dos oitenta e a precisarem do nosso apoio. Já os perdemos
a todos e nós cá continuamos sozinhos. Vamos frequentemente ver as filhas a
Lisboa. Mas é a sina de quem é velho residir no interior abandonado de um país
assimétrico.
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