A
narrativa, tal como a vida, necessita de revisitar momentos passados, projectos
adiados, emoções sentidas, paixões inacabadas, factos marcantes para ser
autêntica, para ser profícua, para ser entendida, na sua plenitude. Assim temos
que voltar aos tempos em que a casa dos avós, de tão cheia de gente ficou quase
vazia, porque todos os seus filhos tinham, qual bando de passarinhos
emplumados, iniciado o seu próprio voo, o seu percurso de vida, a sua história.
Já
se tinham casado os tios Chico, Joaquim, e Paulina dando por adquirido que há
muito se tinham casado a Tia Joaquina, o meu pai e o Tio Zé. Sobrava o Ti Tó e
a Tia Elisa. O Ti Tó veio a casar em 1 de Junho de 1963 e, praticamente, só me
teve a mim e à família do Tio Joaquim, Tia Alice e Manuel Luís, no casamento
porque este se realizou em Lisboa e, na altura não era fácil e muito menos
cómodo, a família deslocar-se à Capital. Eu, por mero acaso, estava em Portugal
Continental e desloquei-me lá para assistir ao enlace matrimonial. Para além do
mais, o Ti Tó, para mim era quase como um irmão mais velho e, enquanto jovens,
partilhámos muitas das nossas diversões e actividades extra emprego. No dia 3
de Junho deslocámo-nos os três – o casal e eu – à Meimoa para que o Tio
apresentasse a esposa à Tia Joaquina e família. Nessa altura a maior parte da
família já estava em Luanda, incluindo a Eugénia, o Victor e a Rosa, filhos da
Tia Joaquina bem como o avô Ricardo. Dizer ainda que a nossa avó Maria já tinha
partido para o Além após uma morte súbita na Borrada – terreno do avô a Leste
da povoação – onde fora buscar um molho de lenha, sozinha, com o burrito.
O
Ti Chico fazia a sua vida de sapateiro e depois foi para a Covilhã para, sob o
patrocínio de uma tia da Tia Isabel, arranjar emprego no Cine Teatro da
Covilhã.
O
Tio Joaquim estava a preparar-se para ingressar na Guarda Fiscal com a
prestimosa ajuda da madrinha da Tia Alice, a Professora Dona Maria do Resgate
que tinha um irmão que era Capitão naquela força militarizada e policial que
ajudou muitos jovens daquele tempo naturais da nossa terra e da vizinha
Benquerença. Depois de ingressado naquela função calcorreou os chamados pontos
críticos do contrabando passando por Olhão, Vila Nova de Mil Fontes e indo
parar a Cascais onde se reformou como Comandante do Posto de Oitavos instalado
num Forte lindíssimo à beira-mar. Sendo apenas um Cabo Chefe era uma pessoa
muito estimada em toda a região. Tinha amigos bem posicionados na vida que se
socorriam dele para muitas patuscadas de marisco e outras benesses que estavam
ao alcance dele proporcionar. Por sua vez a Tia Alice fora governanta do Vilar,
um artista de cinema nacional com projecção internacional e que tinha uma
mansão na Quinta da Marinha. Local onde os ricos ainda hoje têm luxuosas
moradias e onde o dinheiro abunda. Basta lembrar o dono disto tudo, Ricardo
Salgado, dono e presidente do Banco Espirito Santo.
O
Ti Tó atravessava a pior fase da vida dele com problemas de saúde
complicadíssimos, particularmente para a época que atravessávamos. Sofria de
Epilepsia e tinha convulsões verdadeiramente dramáticas e assustadoras. De tal
sorte que o avô, juntamente com a Tia Joaquina que na altura já tinha três
filhos – a Eugénia, o Victor e a Rosa – prometeram ir a Fátima a pé implorando
a Nossa Senhora de Fátima pela sua cura. Foram as primeiras pessoas a ir a pé
até Fátima numa altura em que, pelo menos nesta região, não era comum nem
normal. Fosse pela Fé ou por outra razão qualquer o facto é que o Tio curou-se.
A
Tia Paulina tinha saído mais o marido para Lisboa. O Tio Joaquim Pixote era
empregado de bar e por lá iniciou a sua vida a dois naquela profissão, muito
trabalhosa e pouco rentável, mas cujas gorjetas aconchegavam o orçamento
mensal, para suprir as despesas de uma casa.
Sobrava
a Tia Elisa que se mantinha solteira e, na altura, cuidava de um paraplégico,
ainda parente por parte da avó Maria, o José Canilho, homem já com mais de 40
anos e que necessitava de ajuda para a mobilidade do dia-a-dia.
Entretanto
o Estado Português, sempre atrasado e fora de tempo, considerou que era
necessário desenvolver as Províncias Ultramarinas -assim designadas para iludir
a comunidade internacional – no dealbar das independências que iam surgindo,
por toda a África, com destaque para a Argélia Francesa e Congo Brazaville e
decidiu abolir o entrave à entrada no território que era a malfadada e pouco
mais do que um embuste carta de chamada. Era um documento que um hipotético
empresário passava a alguém residente na Metrópole garantindo trabalho,
ordenado, sustento e outras garantias. Documento que nunca era cumprido. Mas,
por que quando havia denúncias de incumprimento a administração pública actuava
com severidade só a pessoas amigas e de total confiança os comerciantes e
fazendeiros faziam esse favor. A Carta de Chamada foi, quanto a nós, a decisão
política mais obtusa que um governo poderia ter tomado. Desde logo porque
impedia a povoação de um território imenso e que necessitava, urgentemente, de
desenvolvimento e este só se faz com pessoas. Mas também porque obrigou, nos
finais da década de cinquenta e nos princípios da década de sessenta, muita
força de trabalho a emigrar, clandestinamente, para a França onde as condições
de trabalho e de habitabilidade eram, no mínimo, insalubres. Desta forma a
mão-de-obra portuguesa em vez de desenvolver e enriquecer território nacional
foi fazê-lo no estrangeiro, com redobrado sacrifício dos próprios e do atraso
desenvolvimentista do território nacional.
Com
menos este constrangimento o meu pai e o Ti Zé começaram por mandar ir para
Angola o Ti Tó que também arranjou emprego na empresa em que eu trabalhava,
como empregado de escritório. Mais tarde o Ti Tó começou a estudar chegando a
licenciar-se em ciências sociais e políticas e a ser quadro superior das
Alfândegas. Não foi mais porque se aposentou cedo da Função Pública, depois da
descolonização, e foi para o Brasil onde se embrenhou no mundo dos negócios e,
mesmo depois de ter regressado do Brasil continuou nessa senda, nomeadamente
ligado ao turismo com o seus Parques de Campismo, de Aljezur e, mais tarde o
Pinhal Nono, onde ainda hoje se mantém.
Depois
foi o Ti Chico que, depois de ter perdido um filho recém-nascido, se encontrava
destroçado. Ele e a esposa, como é bom de ver. Já em Luanda nasceu o Carlos e
lá fizeram vida até quase à independência de Angola. Foi, porventura, o que
mais sofreu pois chegou a estar preso na Praça de Touros, antecâmara da morte
para muitos portugueses. Com o auxílio do nosso primo Coronel João Afonso Bento
Soares, na altura em comissão de serviço em Luanda, lá conseguiu a libertação e
o regresso a Portugal. Pouco depois foi ter com o Ti Tó ao Brasil, mais
propriamente a Curitiba onde explorava o restaurante do aeroporto local. Mais
tarde regressou a Portugal e à Meimoa onde se dedicou à apicultura.
Depois
foi a Tia Paulina e o marido e a filha Ana Bela, juntamente com a Tia Elisa. O
Tio Joaquim Pixote, marido da Tia Paulina começou a sua vida em bares e cafés,
bem frequentados, onde as gorjetas eram de alguma monta. O Tio, mais tarde fez
concurso para a Alfândega e, com a ajudinha da Tia Elisa que tinha um grande
amigo que foi seu chefe e depois foi Director Geral da Fazenda Pública, foi
colocado naquele serviço. Primeiro no Ambriz, localidade marítima e porto de
cargas e descargas do Norte de Angola, depois Moçâmedes, igualmente um porto
marítimo, no sul de Angola. Depois de regressar à Metrópole ainda foi para o
Brasil mas por pouco tempo. Quando foi reintegrado veio para Portugal e foi
colocado na fronteira com Espanha, em Vilar Formoso onde os seus filhos jovens
cresceram e se fizeram homens, a Ana Bela e o Luís. Terminou na Costa Nova,
depois de reformado, como empresário de sucesso com o melhor restaurante da
região o Clube de Vela levando consigo a Rosa da Tia Joaquina para trabalhar
com ele. Também os irmãos, depois de deixarem a Guarda, lá se foram juntar em
Ílhavo – neste caso concreto na Gafanha da Nazaré – onde o João e o Frederico
montaram um restaurante. Falta dizer que, ainda em Angola a Eugénia da Tia
Joaquina casou com o João irmão do tio Joaquim e tiveram cinco filhos.
A
Tia Elisa arranjou emprego na Administração Pública como administrativa depois
de ter tirado um curso de dactilógrafa. Ainda foi a tempo de fazer uma carreira
brilhante tendo em conta as habilitações literárias que possuía, apenas a
quarta classe, tendo atingido o posto de Primeiro-oficial do Quadro
Administrativo da Função Pública. Passou pela Câmara de Luanda e terminou a
carreira na Escola Infante Sagres em Paço de Arcos, Lisboa.
Entretanto
eu fui cumprir o Serviço Militar obrigatório para a Escola de Aplicação Militar
de Nova Lisboa onde tirei o curso de sargentos milicianos e, em 1966 voltei à
Metrópole casar-me. A seguir mandei ir o meu cunhado António que foi
funcionário de Finanças e mais alguns familiares de elementos da família
alargada como foram os casos dos irmãos do Tio Joaquim Pixote, o Frederico e o
João e o primo destes o Ricardo.
Como
se pode intuir a comunidade em que nos inseríamos, para além dos amigos locais,
colegas de trabalho, e outros amigos havia a inúmera prole oriunda da Meimoa. A
família do José Cerdeira sua mulher, Teresa, seus filhos, António e José, sua
enteada, Anita e o marido, seu irmão de alcunha o Cadeiras, o cunhado e
sobrinhos nomeadamente o António Romão, mulher, Mécia Andrade, e filhos, Fajé e
Toni. O Francisco Louro ainda solteiro, o Vergílio também solteiro.
A
família Ribeiro Louro, ou vice-versa, onde pontificavam o Joaquim Ribeiro
(Catrocho) e irmão Frederico (Pichau). Também o Joaquim Miguel e esposa, o José
Andrade que depois se perdeu por Cabinda até regressar, definitivamente à
Meimoa, onde veio a desempenhar as funções de Presidente da Junta de Freguesia,
democraticamente, eleito. E na cidade do Planalto do Bié, mais precisamente no
Vouga, concelho a 28 quilómetros de distância de Silva Porto, Capital do
Distrito mas que possuía o melhor hospital civil de toda a Angola e até de toda
a África, um hospital particular construído por missionários católicos, onde
residia a família Manteigas com destaque para o João José que chegou a ser o
maior comerciante da região e vereador da Câmara Municipal do Vouga, seu irmão
Franklim, seus tios, António e Félix e respectivas famílias. Tudo gente com
quem nos relacionávamos muitíssimo bem, como se de família se tratasse.
Mas,
como se disse nó início deste capítulo a narrativa tem de revisitar, repescar
assuntos que se encadeiam, entrelaçam e fazem história na vida de cada um dos
protagonistas. Por isso voltamos aos meus tempos de jovem de 18 anos na Robert
Hudson.
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