IV
Por divergências relacionadas com atrasos em pagamentos entre o patrão e o meu pai este resolveu despedir-se e vir para Luanda reiniciar a vida.
Foi um momento difícil, porque a empregabilidade para quem só estava habituado a lidar com as tarefas da terra com falta de certificação académica mesmo ao nível da quarta classe, embora sabendo ler e escrever com algumas dificuldades, agravavam a situação quando a arranjar um emprego digno de um branco. Sim porque para servente ou outros trabalhos indiferenciados havia mão-de-obra indígena que dava e sobrava e era quase de borla. Apesar disso e depois de três ou quatro meses desempregado e já numa situação de quase desespero o meu pai lá arranjou um emprego como cobrador das quotas sindicais do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio e Indústria. Percorria quilómetros a pé, o mártir. Por desconhecimento da Cidade, por não haver mapas de localização, por um conjunto de circunstâncias inenarráveis.
Entretanto eu, no dia seguinte à chegada a Luanda, fui imediatamente admitido numa loja do bairro operário, próximo da casa onde residíamos e partilhávamos com o meu tio Zé. Fora acordado um vencimento mensal de cento e cinquenta escudos por mês – escudos angolanos, já se vê, sem cotação nos mercados mas dinheiro circulante por meio do Banco de Angola – comidos e bebidos o que, sendo pouco dava, pelo menos para pagar a renda da casa e era menos uma boca a comer no agregado familiar.
O trabalho era duro para uma criança que ainda não tinha 13 anos. Iniciava às cinco horas da madrugada e terminava por volta das nove horas da noite sem interrupções ou folgas. Mesmo sentado à mesa das refeições se chegasse um cliente lá ia eu atendê-lo e só quando não houvesse ninguém regressava à mesa para concluir a refeição, quase sempre fria e perdendo todo o interesse.
Levei neste emprego cinco meses seguidos trabalhando todos os dias incluindo sábados e domingos, sempre com o mesmo horário.
O patrão era um rapaz novo, dos seus vinte e cinco anos, casado e com um filho recém-nascido e em princípio de vida que queria enriquecer em pouco tempo.
A esposa, senhora bondosa e extremamente carinhosa comigo, sempre que estávamos sozinhos, normalmente em alturas que o marido se dirigia a revendedores para adquirir bens para a loja, conversava imenso comigo e tratava-me como se de um adulto se tratasse e dizia-me: o que está aqui a fazer? Porque não arranja outro tipo de emprego? Vê a vida que eu levo sempre encafuada aqui em casa que comunicava com a parte comercial, sem a atenção do marido, sem um passeio ou qualquer outro divertimento? É isso que você ambiciona para quando se tornar num homem? Olhe que não há mulher que aguente este tipo de vida por muito tempo. E eu tenho discussões constantes com o meu marido para me libertar desta vida e ele promete-me que mal tenha uns tostões amealhados dará novo rumo à vida.
Este facto objectivo, ainda que eu fosse uma criança não deixava de me martelar o pensamento.
Por sua vez o patrão na sua desmedida ambição o que queria era roubar o mais possível para aumentar os proventos reduzidos da loja, que tinha como principais clientes os pretos que, em regra compravam diariamente fiado e pagavam ao fim da semana ou do mês ficando sem um tostão e, se porventura sobrava algum era para uma bebedeira fenomenal. Por isso ensinava-me uns truques de fazer com que a balança parecendo estar afinada apresentava sempre mais peso do que, a massa, que o produto tinha. Mas havia pretos mais espertos que reclamavam comigo e lá vinha o patrão dar-me um descompostura dizendo que queria os clientes bem servidos e contentes e lá lhes dava alguma migalhas de ginguba (amendoim) ou açúcar ou qualquer outro produto, ainda que continuasse a beneficiar do muito que me mandava subtrair nas pesagens.
Ora eu ficava ofendidíssimo com esta postura do patrão e sozinho rebelava-me contra a sua atitude ao que ele, passando-me a mão pela cabeça e dizendo-me que o ralhete era apenas para que o preto ficasse satisfeito não era nada contra mim e que deveria continuar a fazer o mesmo. Todas estas circunstâncias fizeram com que eu fosse pedindo ao meu pai para sair daquele emprego e ir procurar outro. Ele acalmava-me e dizia que ia tratar com um amigo dele para me arranjar outro emprego e depois então saía daquele.
Assim foi e passados os tais cinco meses
saí da tasca para ir trabalhar como aprendiz de mecânico numa firma multinacional
chamada Robert Hudson & Sons onde me pagavam 15 escudos por dia útil de
trabalho e trabalhava das oito da manhã ao meio dia, e das duas da tarde às
seis. Ao sábado saímos às treze horas e só voltámos na Segunda-feira.
Era outra vida ainda que não fosse
dinheiro que valesse a pena. Trabalhei lá um ano quando me foi oferecido por um
amigo meu – na altura já começava a estar integrado socialmente e já tinha
amigos – um emprego para trabalhar na Fábrica de Tabacos a ganhar 25 escudos diários.
O meu pai já tinha arranjado emprego como encarregado de uma secção na Fábrica de Plásticos e Borracha Macambira e ganhava dois contos e quinhentos e com um horário semelhante ao meu.
Já tínhamos mudado de casa e vivíamos sozinhos. Enfim já era outra vida. Mas voltemos ao assunto: esse meu amigo disse-me que se quisesse ir trabalhar para a SITAL, fábrica de cigarros, iria ganhar 25 escudos diários e tinha direito a roupa de trabalho. Ora, a diferença era considerável e eu combinei com os meus pais a vontade que tinha de ir experimentar esta nova actividade, até porque era mais limpa não andava lá debaixo dos tractores a arranjar caixas de velocidades ou outro tipo de avarias. Com a concordância familiar lá vou eu para a SITAL.
Os primeiros meses até foram engraçados pois trabalhavam lá umas miúdas mais ou menos da nossa idade treze catorze anos onde começavam a despontar as maminhas e o corpo a tomar forma visível através das roupas muito leves que todas usavam e a nós rapazes começava a despertar a libido e a própria sexualidade. Daí que acompanhar as meninas ao fim do dia até próximo da casa onde moravam e regressarmos à nossa já era gozo suficiente para nos sentirmos quase homens.
O trabalho era rotineiro e todo mecanizado com as tecnologias de ponta na época daí que pouco mais tinha que fazer do que orientar os pretos que trabalhavam comigo para não deixarem acabar o tabaco moído na tremonha da máquina nem a cola que era distribuída por um disco que passava pela mortalha que vinha em rolos de cem metros e depois de cheio o cigarro, enrolado e colado passava por uma guilhotina de dois gumes que cortava os cigarros todos à mesma medida e os atirava para um tapete rolante que os levava até outro servente que os acondicionava numas caixas de madeira que depois eram introduzidas numa outra máquina onde eram empacotados em maços de vinte cada um.
Trabalhei lá um ano e picos mas decidi que aquilo era uma vida. Sem aprendizagens novas, demasiado rotineira e com pouco futuro. Daí até voltar à multinacional foi uma decisão rápida e actuação quase instantânea. Fui à Robert Hudson pedir trabalho e foi-me concedido, mas agora a ganhar os mesmos 25 escudos diários e com uma abertura de aprender os necessários conhecimentos para vir a ser um bom mecânico.
Fui recebido de braços abertos e todos os amigos que lá deixei ficaram muito satisfeitos. Por sua vez o subchefe da oficina, o senhor Marques, um solteirão de trinta e muitos anos e de uma experiência inigualável, logo me levou para junto dele e começou a entregar-me alguns trabalhos de responsabilidade, já que ele tinha que intervir noutras áreas, mas que estava sempre disponível para me ensinar e retirar dúvida sempre que eu as tivesse. Desde o simples afinar de travões ou substituir o ferôdo das placas dos travões, passando pela limpeza e afinação de carburadores tudo eu fazia agora com catorze anos.
Comecei a estudar à noite depois do trabalho. Era estudo mas também divertimento. Havia um Clube de Bairro, o Vila Clotilde onde jogávamos matraquilhos nos intervalos e nas gazetas que fazíamos a algumas aulas, o que se traduziu num valente chumbo no fim do ano.
Isso foi uma lição de vida que jamais posso esquecer. A partir daí nunca mais chumbei. Pelo contrário, no emprego com os ensinamentos do Marques fui ganhando prestígio entre colegas aprendizes mas também entre mecânicos, torneiros, bate-chapas, pintores electricistas, entre outros empregados de escritório e de fornecimento de peças, adultos e já profissionais.
O prestígio foi tal que a Empresa comprou uma das primeiras, se não mesmo a primeira máquina de afinar bombas injectoras e desentupir e afinar injectores dos primeiros motores a gasóleo que apareceram naquela cidade e naquele território e, o senhor engenheiro Pelikington, um dos homens do poder na Empresa, se lembrou de mim para eu ir tomar conta de um gabinete previamente preparado com azulejos até ao tecto, com bancadas em aço inoxidável e todo vedado em vidro e rede.
O Engenheiro falou com o Marques, meu grande mestre, e disse-lhe que eu era a pessoa na qual a empresa devia apostar em conhecimentos, verdadeiramente, revolucionários para a época, pois estavam a chegar constantemente camionetas de maior tonelagem e cujos motores eram a gasóleo.
A ideia não agradou muito ao Marques, não só porque eu era o seu braço direito e, se calhar era os dois braços, mas meu amigo que era e sempre demonstrou ser, viu que se me abriam portas que ele não se julgava com direito de obstaculizar e até disse ao engenheiro que a escolha não poderia calhar em mais ninguém se não na minha pessoa.
Assim iniciei funções no gabinete diesel, sozinho com a ajuda preciosa do engenheiro, que traduzia para mim algumas instruções básicas, que só vinham em Inglês, língua que eu não dominava, na altura e com um aumento substancial de 35 escudos por dia para 60 escudos diários.
É evidente que esta promoção também causou alguns engulhos aos invejosos dos quais se destacava o Resende, chefe da oficina mas, incompetente, até dizer chega. Só que, a partir daquele dia eu deixava de estar sob as suas ordens e trabalhava directamente e em consonância com o engenheiro que, cada dia que passava, me demonstrava provas de apreço pelo meu trabalho e meu esforço de aprender.
Passei a ter um estatuto dentro da Empresa que ultrapassava, em muito, as funções de que estava investido. Daí que, como grande empresa que era, estava sempre atenta a inovações e a colocar no mercado os melhores produtos. Desde os Ford de importação dos Estados Unidos, que era o dois em um, topo de gama, com capota e descapotável, todo em metal, inclusive a capota que era fixa e levantada através de sistemas hidráulicos e muita tecnologia eléctrica – ainda não existia a electrónica – passando pelos leites e azeites enlatados, até às máquinas de grandes lavandarias e de máquinas de descascar, cortar e fritar batatas fritas do tipo “pala-pala”. E, em cada uma destas aquisições e montagens, nos diferentes estabelecimentos, lá ia eu acompanhado do Sr. Engenheiro e, com mais um ajudante ou dois, para tornar a cidade de Luanda uma das mais evoluídas e desenvolvidas de toda a África.
Passaram-se anos a trabalhar, a aprender, a estudar, a frequentar tertúlias, mais ou menos conspirativas, contra o anterior regime, sempre com discrição, quer na JOC (Juventude Operária Católica) quer na Liga dos Amigos de Angola, locais onde se reunia, perdoe-se –me a imodéstia, a nata da população mais politizada da década de cinquenta e até meados da década de sessenta do século passado. Por estes meandros passaram pessoas de alto gabarito intelectual e político quer se tratasse de brancos ou de pretos, pois todos estávamos irmanados numa multiculturalidade e multirracialidade que a cor da pele não tinha qualquer importância.
Por ali passou o meu amigo Dr. Diógenes
Boavida e irmão, o primeiro advogado e, que espero que ainda esteja vivo, o
irmão Médico, morreu ao serviço do seu ideal de independência de Angola em 1963
e que, por ter sido no mato não tive a oportunidade de ir ao funeral. A família
Van Dunen todos os irmãos e, eram muitos, todos pretos mas que comigo e com
outros meus amigos brancos, o saudoso Pipas que nunca mais vi, o Mário, o
Ramos, o Jacinto, o Roque e, tantos outros que seria fastidioso enumerar,
confraternizavam, falávamos, jogávamos snooker, bilhar, matraquilhos, ping-pong
etc.
Mas, fundamentalmente aprendíamos, uns
com os outros, a ser socialmente activos, a intervir na sociedade dentro dos
limites impostos pela PIDE/DGS, a sonharmos com um País de Liberdade, de
Igualdade e, principalmente de Prosperidade para todos.
Neste contexto me fiz homem, cidadão,
cristão, filho obediente, amigo do meu amigo, solidário com todos.
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