Thursday, October 22, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE XI

 

 XI

 

 

Em finais de Janeiro de 1973 o meu colega de trabalho na 13ª Repartição da Câmara Municipal de Luanda questionou-me se não me causava muito transtorno eu gozar a minha licença graciosa no ano corrente porque, ao contrário do que estava combinado ele não podia gozar a sua nesse ano porque necessitava de casar uma filha, sem que isso estivesse programado. Acedi sem qualquer dificuldade, até pela amizade que me unia a ele. Homem bastante mais velho do que eu, mas com quem aprendi muito e que muito me estimava.

Como éramos dois técnicos na Repartição não poderíamos gozar seis meses de licença graciosa ao mesmo tempo. Ambos tínhamos já adquirido o direito a essa Licença. Ele tinha projectado gozá-la em 1973 e eu gozaria em 1974. E, só por isso, gastei bastante dinheiro com a ida em 1972, por pouco tempo, para que a Teresa não estivesse tantos anos sem ver os pais e as irmãs. Mas a vida, muitas vezes troca as voltas a toda a gente e foi o que aconteceu com o meu colega e eu, não o podia deixar na mão. Acedi antecipar a graciosa para 1973. Convenci o meu cunhado António para vir connosco para dar uma grande alegria aos meus sogros.

Entretanto nascera a nossa Raquel. Com quinze dias mas com autorização do médico viajou connosco para a Metrópole de avião.  

Viemos no dia 30 de Junho de 1973. Esperava levantar o meu carro novo no concessionário Ford no dia 1 de Julho como estava contratado. Quando lá cheguei foi um balde de água fria porque o carro só viria daí a um mês. Problemas no transporte que, na altura era de barco. Ainda não havia os TIR de hoje. Aborrecido tive de aguentar.

Passámos o mês de Junho na Meimoa e isso foi uma festa para a minha Lena e para as minhas cunhadas que lhe mostravam tudo aquilo que ela desconhecida de uma vida rural pura. A minha é que passou mais dificuldades porque a Raquel teve uma otite e isso tornou-a mais rabugenta.

Finais de Junho fomos todos para Lisboa. Levámos os meus cunhados e fomos ter com a Maria Alice, irmã da Teresa já casada e que atravessava um momento de grande sofrimento. Ela e o Honorato, o marido, pois perderam uma filha com dois anos e meio devido a doença súbita segundo alguns ou de causas desconhecidas, segundo outros que tinham deixado ir passar férias à Meimoa com os Padrinhos de Baptismo. O tenente Romão e mulher. 

Fomos levantar o carro. Já tinha chegado. Um Ford Capri 1600 GT, amarelo, que era uma bomba na época.

Combinámos sair, nós, a Lena e o António. A Raquel era tão frágil que seria um risco levá-la. A Alice comprometeu-se a ficar com ela. Foi bom para as duas. Para a Raquel porque não passou por grandes viagens e temperaturas diversas e para a Maria Alice que voltou a ter o colo cheio depois de um vazio de morte.

Fomos, então, dar uma volta pela Europa. Espanha, França, Luxemburgo, Andorra com a última passagem por Barcelona. Regressámos no dia 21 de Agosto, dia de anos da Teresa que comemorámos em Casa da Alice com todos os irmãos.

Levei as minhas cunhadas, Rosa e Carmito ao Jardim zoológico, estufa-fria e a um museu para que também tivessem hipótese de alargar os seus horizontes para além da Meimoa.

Demos uma volta pelo país, do Minho ao Algarve e depois recolhemo-nos outra vez à Meimoa para a Minha sogra poder desfrutar da presença das netas, que na altura eram únicas.

Finais de Setembro fui levar a Lisboa o meu cunhado António para regressar ao seu trabalho a Luanda. Directamente da Meimoa ao aeroporto só nós e mais os meus sogros. Os meus sogros não podiam estar fora de casa muito tempo por causa dos animais e dos trabalhos no campo que, na altura eram de vulto. Fomos e viemos no mesmo dia. Em velocidades algo exageradas, própria de quem tinha trinta anos. A minha sogra veio todo o caminho, apavorada e calada. O meu sogro igualmente. Compreensível tinham-se despedido do filho por tempo indeterminado.

Nós continuámos as nossas férias até Janeiro de 1974 altura em que a Teresa recebeu uma carta da directora da Escola a dizer que havia uma vaga mas que tinha de a ocupar até ao dia 14 de Janeiro, caso contrário, iria novamente a concurso.

Decidimos que era boa solução irem de avião, ela e as filhas, eu iria logo que arranjasse passagem de navio para levar o carro. Sendo viatura de passageiro tinha prioridade sobre as que iam como bagagem.

O meu primo Joaquim Pina, o Pina como é conhecido por toda a família estava apurado para todo o serviço militar e iria ser incorporado durante o ano de 1974. Qualquer incorporação na Metrópole sujeitava-se a ser mobilizada para qualquer dos territórios ultramarinos, desde a Guiné a Timor, passando por Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. A guerra tinha intensidades diferentes logo, perigos diferentes. A Guiné é que representava maior perigosidade e a ambição de qualquer militar, mesmo sabendo que teria de ir para um teatro de guerra, gostaria de escapar ao terror da Guiné. Por essa razão e a seu pedido e a da minha Tia Iria, sua mãe, levei-o para Luanda para ser incorporado no contingente local com a certeza de que faria todo o serviço militar obrigatório naquele território. Havia melhores locais, como Timor e São Tomé e Príncipe mas Angola não era mau.

Meti os três num avião que saiu à meia-noite de Lisboa com destino a Luanda, um Boing 747, o maior avião de passageiros do mundo, pertencente à TAP e eu fui tratar da minha viagem de Navio que teria lugar no dia 28 de Janeiro.

Neste dia, depois de ter embarcado o carro entrei no Principe Perfeito, um dos navios mais modernos da marinha mercante portuguesa e dirigi-me ao meu camorote de 1ª classe. O camarote tinha duas camas, uma casa da banho privativa e um pequena sala com dois sofás individuais.

Calhou-me, como companheiro de viagem, um individuo mais ou menos da minha idade, 30 anos, que estabeleceu logo um bom entendimento e uma boa relação comigo. Confidenciou-me ser um dos seguranças do navio, pertencia à PIDE e estava ali para evitar situações como as que aconteceram com o Santa Maria que fora desviado da rota para o Brasil para a Comunicação Social dar eco à campanha contra o regime político vigente.

Parámos apenas em São Tomé e Príncipe e demorámos nove dias na viagem. Um ganho de tempo considerável relativamente a outras viagens que, no mínimo, levavam onze dias. 

Foi uma viagem fantástica, sem nenhum sobressalto, com bom tempo e bom mar. Diverti-me imenso nos concertos, nos bailes e no casino.

Chegado a Luanda voltámos à nossa vida de trabalho e de convivio familiar ao fim de semana até ao dia 25 de Abril.

Importa dizer que, Angola em 1974 não tinha focos de guerra significativos. Em todo o território se andava à vontade, de noite e de dia, sem constrangimentos. Algumas escaramuças aconteciam junta à fronteira Norte e Leste, mas a quantidade e a qualidade dos militares nesta altura tinham a situação perfeitamente dominada. Mesmo assim, aqueles que gostávamos de Angola e tínhamos alguma consciência política tínhamos a noção de que a independência era inevitável, mais tarde ou mais cedo. Para estarmos informados sem o crivo da censura ouvíamos a rádio Brazaville, uma rádio que pensávamos ser livre e que mais tarde viemos a descobrir que era um veiculo de propaganda do MPLA.

No dia 25 de Abril ouvimos na rádio que tinha havido um golpe de estado em Portugal.

Nos dias seguintes foi uma constante e permanente preocupação para saber o que nos reservava o futuro já que, não era segredo para ninguém, que o Partido Comunista Português e outros apêndices anarco-sindicalistas, tinha uma campanha em que exigia que nem mais um soldado fosse para o Ultramar.

Todos nós queríamos uma independência pacífica com uma transição de poderes que englobasse todos os Movimentos de Libertação e as populações com as suas instituições, as Igrejas, católica e protestante, que tinham muita representatividade com o poder a quem tivesse currículo capaz de o desempenhar em favor do povo e, na circunstância, o povo era de toas as raças e crenças.

Quando o General Spínola, militar prestigiado que no seu livro “Portugal e o Futura” preconizava uma independência deste tipo foi nomeado Presidente da República descansámos um pouco a nossa inquietação. Pensávamos que haveria uma transição democrática em todo o PaÍs, incluindo os territórios ultramarinos.

Com a nomeação do Almirante vermelho, assim era conhecido o Rosa Coutinho as coisas começaram a complicar-se. A nossa própria tropa começou a desarmar os brancos e a permitir abusos de bandidos, criminosos de delito comum, sem qualquer tipo de repressão.

Durante os meses de Maio, Junho e Julho, todas as semanas havia relatos de desacatos contra os brancos. Mortes de taxistas, vingança destes contra musseques onde as mortes dos seus camaradas aconteceram e coisas similiares.

A ansiedade e a insegurança quanto ao futuro foi-se apoderando de muitos de nós a ponto de eu exigir à minha mulher que deixasse de dar aulas nas escolas do musseque. Pôs-se a questão: ou arranjava colocação nas escolas do centro da cidade o que não seria fácil ou, pura e simplesmente, deixaria de tabalhar.

O Mês de Agosto veio trazer mais indicações de que o melhor era antecipar saida para lugares mais seguros e a minha mulher regressou à Metrópole no dia 14 de Agosto. Não pode trazer as filhas dad a escassez de passagens de avião devido à imensa procura. Foi preciso a influência de um amigo meu dono de uma agência de viagens. Foi angustiante para todos mas foi uma decisão que se revelou acertada.

Dia 26 de Agosto a minha mãe com as minha filhas apanharam o avião para Portugal e o meu pai embarcou no dia 30 de Agosto.

Fiquei eu, o meu cunhado e o meu primo. Mas comecei a pensar na possibilidade de ter de sair de um lugar que eu amava e onde esperava morrer.

Como a minha mulher ficou colocada na Escola da Meimoa, depois de várias peripécias, consegui vir para Portugal no dia 5 de Oubro de 1974. O meu cunhado, apesar da minha insistência, não quis vir porque viria no ano seguinte de licença graciosa. Quando em Janeiro de 1975 começou a tratar da licença graciosa as coisas começaram a agravar-se na Repartição de Finanças onde trabalhava. Começou a sentir-se pressionado a tomar partido por um dos Movimentos de Libertação, MPLA, FNLA ou UNITA. Como não anuisse a ser de nenhum passou a ser olhado com desconfiança e como reaccionário ao ponto de em Junho de 1975 ter pedido a exoneração e vir para Portugal deixando carro e tudo o mais. Apostou no cavalo errado como a maioria dos brancos que quiseram ficar em Angola. Muitos foram mortos. Outros passaram as passas do Algarve como se costuma dizer.

Por fim a família passou a viver na Meimoa.

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