XI
Em finais de Janeiro de 1973 o meu
colega de trabalho na 13ª Repartição da Câmara Municipal de Luanda
questionou-me se não me causava muito transtorno eu gozar a minha licença
graciosa no ano corrente porque, ao contrário do que estava combinado ele não
podia gozar a sua nesse ano porque necessitava de casar uma filha, sem que isso
estivesse programado. Acedi sem qualquer dificuldade, até pela amizade que me
unia a ele. Homem bastante mais velho do que eu, mas com quem aprendi muito e
que muito me estimava.
Como éramos dois técnicos na Repartição
não poderíamos gozar seis meses de licença graciosa ao mesmo tempo. Ambos
tínhamos já adquirido o direito a essa Licença. Ele tinha projectado gozá-la em
1973 e eu gozaria em 1974. E, só por isso, gastei bastante dinheiro com a ida
em 1972, por pouco tempo, para que a Teresa não estivesse tantos anos sem ver
os pais e as irmãs. Mas a vida, muitas vezes troca as voltas a toda a gente e
foi o que aconteceu com o meu colega e eu, não o podia deixar na mão. Acedi
antecipar a graciosa para 1973. Convenci o meu cunhado António para vir
connosco para dar uma grande alegria aos meus sogros.
Entretanto nascera a nossa Raquel. Com
quinze dias mas com autorização do médico viajou connosco para a Metrópole de
avião.
Viemos no dia 30 de Junho de 1973.
Esperava levantar o meu carro novo no concessionário Ford no dia 1 de Julho
como estava contratado. Quando lá cheguei foi um balde de água fria porque o
carro só viria daí a um mês. Problemas no transporte que, na altura era de
barco. Ainda não havia os TIR de hoje. Aborrecido tive de aguentar.
Passámos o mês de Junho na Meimoa e isso
foi uma festa para a minha Lena e para as minhas cunhadas que lhe mostravam
tudo aquilo que ela desconhecida de uma vida rural pura. A minha é que passou
mais dificuldades porque a Raquel teve uma otite e isso tornou-a mais
rabugenta.
Finais de Junho fomos todos para Lisboa.
Levámos os meus cunhados e fomos ter com a Maria Alice, irmã da Teresa já casada
e que atravessava um momento de grande sofrimento. Ela e o Honorato, o marido,
pois perderam uma filha com dois anos e meio devido a doença súbita segundo
alguns ou de causas desconhecidas, segundo outros que tinham deixado ir passar
férias à Meimoa com os Padrinhos de Baptismo. O tenente Romão e mulher.
Fomos levantar o carro. Já tinha
chegado. Um Ford Capri 1600 GT, amarelo, que era uma bomba na época.
Combinámos sair, nós, a Lena e o
António. A Raquel era tão frágil que seria um risco levá-la. A Alice
comprometeu-se a ficar com ela. Foi bom para as duas. Para a Raquel porque não
passou por grandes viagens e temperaturas diversas e para a Maria Alice que
voltou a ter o colo cheio depois de um vazio de morte.
Fomos, então, dar uma volta pela Europa.
Espanha, França, Luxemburgo, Andorra com a última passagem por Barcelona.
Regressámos no dia 21 de Agosto, dia de anos da Teresa que comemorámos em Casa
da Alice com todos os irmãos.
Levei as minhas cunhadas, Rosa e Carmito
ao Jardim zoológico, estufa-fria e a um museu para que também tivessem hipótese
de alargar os seus horizontes para além da Meimoa.
Demos uma volta pelo país, do Minho ao
Algarve e depois recolhemo-nos outra vez à Meimoa para a Minha sogra poder
desfrutar da presença das netas, que na altura eram únicas.
Finais de Setembro fui levar a Lisboa o
meu cunhado António para regressar ao seu trabalho a Luanda. Directamente da
Meimoa ao aeroporto só nós e mais os meus sogros. Os meus sogros não podiam
estar fora de casa muito tempo por causa dos animais e dos trabalhos no campo
que, na altura eram de vulto. Fomos e viemos no mesmo dia. Em velocidades algo
exageradas, própria de quem tinha trinta anos. A minha sogra veio todo o
caminho, apavorada e calada. O meu sogro igualmente. Compreensível tinham-se
despedido do filho por tempo indeterminado.
Nós continuámos as nossas férias até
Janeiro de 1974 altura em que a Teresa recebeu uma carta da directora da Escola
a dizer que havia uma vaga mas que tinha de a ocupar até ao dia 14 de Janeiro,
caso contrário, iria novamente a concurso.
Decidimos que era boa solução irem de
avião, ela e as filhas, eu iria logo que arranjasse passagem de navio para
levar o carro. Sendo viatura de passageiro tinha prioridade sobre as que iam
como bagagem.
O meu primo Joaquim Pina, o Pina como é
conhecido por toda a família estava apurado para todo o serviço militar e iria
ser incorporado durante o ano de 1974. Qualquer incorporação na Metrópole
sujeitava-se a ser mobilizada para qualquer dos territórios ultramarinos, desde
a Guiné a Timor, passando por Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Cabo
Verde. A guerra tinha intensidades diferentes logo, perigos diferentes. A Guiné
é que representava maior perigosidade e a ambição de qualquer militar, mesmo
sabendo que teria de ir para um teatro de guerra, gostaria de escapar ao terror
da Guiné. Por essa razão e a seu pedido e a da minha Tia Iria, sua mãe, levei-o
para Luanda para ser incorporado no contingente local com a certeza de que
faria todo o serviço militar obrigatório naquele território. Havia melhores
locais, como Timor e São Tomé e Príncipe mas Angola não era mau.
Meti os três num avião que saiu à
meia-noite de Lisboa com destino a Luanda, um Boing 747, o maior avião de
passageiros do mundo, pertencente à TAP e eu fui tratar da minha viagem de
Navio que teria lugar no dia 28 de Janeiro.
Neste dia, depois de ter embarcado o
carro entrei no Principe Perfeito, um dos navios mais modernos da marinha
mercante portuguesa e dirigi-me ao meu camorote de 1ª classe. O camarote tinha
duas camas, uma casa da banho privativa e um pequena sala com dois sofás
individuais.
Calhou-me, como companheiro de viagem,
um individuo mais ou menos da minha idade, 30 anos, que estabeleceu logo um bom
entendimento e uma boa relação comigo. Confidenciou-me ser um dos seguranças do
navio, pertencia à PIDE e estava ali para evitar situações como as que
aconteceram com o Santa Maria que fora desviado da rota para o Brasil para a
Comunicação Social dar eco à campanha contra o regime político vigente.
Parámos apenas em São Tomé e Príncipe e
demorámos nove dias na viagem. Um ganho de tempo considerável relativamente a
outras viagens que, no mínimo, levavam onze dias.
Foi uma viagem fantástica, sem nenhum
sobressalto, com bom tempo e bom mar. Diverti-me imenso nos concertos, nos
bailes e no casino.
Chegado a Luanda voltámos à nossa vida
de trabalho e de convivio familiar ao fim de semana até ao dia 25 de Abril.
Importa dizer que, Angola em 1974 não
tinha focos de guerra significativos. Em todo o território se andava à vontade,
de noite e de dia, sem constrangimentos. Algumas escaramuças aconteciam junta à
fronteira Norte e Leste, mas a quantidade e a qualidade dos militares nesta
altura tinham a situação perfeitamente dominada. Mesmo assim, aqueles que gostávamos
de Angola e tínhamos alguma consciência política tínhamos a noção de que a
independência era inevitável, mais tarde ou mais cedo. Para estarmos informados
sem o crivo da censura ouvíamos a rádio Brazaville, uma rádio que pensávamos
ser livre e que mais tarde viemos a descobrir que era um veiculo de propaganda
do MPLA.
No dia 25 de Abril ouvimos na rádio que
tinha havido um golpe de estado em Portugal.
Nos dias seguintes foi uma constante e
permanente preocupação para saber o que nos reservava o futuro já que, não era
segredo para ninguém, que o Partido Comunista Português e outros apêndices
anarco-sindicalistas, tinha uma campanha em que exigia que nem mais um soldado
fosse para o Ultramar.
Todos nós queríamos uma independência
pacífica com uma transição de poderes que englobasse todos os Movimentos de
Libertação e as populações com as suas instituições, as Igrejas, católica e
protestante, que tinham muita representatividade com o poder a quem tivesse
currículo capaz de o desempenhar em favor do povo e, na circunstância, o povo
era de toas as raças e crenças.
Quando o General Spínola, militar
prestigiado que no seu livro “Portugal e o Futura” preconizava uma
independência deste tipo foi nomeado Presidente da República descansámos um
pouco a nossa inquietação. Pensávamos que haveria uma transição democrática em
todo o PaÍs, incluindo os territórios ultramarinos.
Com a nomeação do Almirante vermelho,
assim era conhecido o Rosa Coutinho as coisas começaram a complicar-se. A nossa
própria tropa começou a desarmar os brancos e a permitir abusos de bandidos,
criminosos de delito comum, sem qualquer tipo de repressão.
Durante os meses de Maio, Junho e Julho,
todas as semanas havia relatos de desacatos contra os brancos. Mortes de
taxistas, vingança destes contra musseques onde as mortes dos seus camaradas
aconteceram e coisas similiares.
A ansiedade e a insegurança quanto ao
futuro foi-se apoderando de muitos de nós a ponto de eu exigir à minha mulher
que deixasse de dar aulas nas escolas do musseque. Pôs-se a questão: ou
arranjava colocação nas escolas do centro da cidade o que não seria fácil ou,
pura e simplesmente, deixaria de tabalhar.
O Mês de Agosto veio trazer mais
indicações de que o melhor era antecipar saida para lugares mais seguros e a
minha mulher regressou à Metrópole no dia 14 de Agosto. Não pode trazer as
filhas dad a escassez de passagens de avião devido à imensa procura. Foi
preciso a influência de um amigo meu dono de uma agência de viagens. Foi
angustiante para todos mas foi uma decisão que se revelou acertada.
Dia 26 de Agosto a minha mãe com as
minha filhas apanharam o avião para Portugal e o meu pai embarcou no dia 30 de
Agosto.
Fiquei eu, o meu cunhado e o meu primo.
Mas comecei a pensar na possibilidade de ter de sair de um lugar que eu amava e
onde esperava morrer.
Como a minha mulher ficou colocada na
Escola da Meimoa, depois de várias peripécias, consegui vir para Portugal no
dia 5 de Oubro de 1974. O meu cunhado, apesar da minha insistência, não quis
vir porque viria no ano seguinte de licença graciosa. Quando em Janeiro de 1975
começou a tratar da licença graciosa as coisas começaram a agravar-se na
Repartição de Finanças onde trabalhava. Começou a sentir-se pressionado a tomar
partido por um dos Movimentos de Libertação, MPLA, FNLA ou UNITA. Como não
anuisse a ser de nenhum passou a ser olhado com desconfiança e como
reaccionário ao ponto de em Junho de 1975 ter pedido a exoneração e vir para
Portugal deixando carro e tudo o mais. Apostou no cavalo errado como a maioria
dos brancos que quiseram ficar em Angola. Muitos foram mortos. Outros passaram
as passas do Algarve como se costuma dizer.
Por fim a família passou a viver na
Meimoa.
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