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Por que as condições de vida melhoraram
substancialmente viemos à metrópole nos anos de 1972 e 1973. No primeiro, a
minha mulher e a minha Lena, por três meses e eu apenas por um mês. Elas tinham
as férias escolares alargadas e eu apenas a licença normal de trinta dias. Viagens
e estadia por conta própria. A Teresa tinha imensas saudades dos pais, das
irmãs e restante família. Já tinha sofrido um imenso desgosto de não ter podido
estar presente aquando da morte do seu avô muito querido.
Nesse mesmo ano tinham vindo de licença graciosa
os meus pais, a tia Paulina e família e a tia Elisa.
O Mês de Agosto, desde meados da década
de sessenta com a legalização de muitos emigrantes clandestinos tornou esta
aldeia mais cosmopolita. Chegavam, quase em massa, os emigrantes em França para
passar as suas férias na terra natal. Traiam automóveis, uns melhores e outros
nem tanto, mas uma demonstração inequívoca de que tinham melhorado a sua vida.
Introduziam algumas palavras em francês pouco ortodoxo, o que nem era de
admirar, já que a maioria era pouco mais do que analfabeta, como forma de
afirmação e de ascensão social tão cara ao ser humano. Não se quer sentir bem
quer-se que o outro veja que está bem.
Nós viemos quase no final de Agosto
altura em que os emigrantes estavam a regressar ao país de acolhimento. E,
coincidência, o meu primo Joaquim Pina prestava-se para regressar, quando em
conversa lhana se aflorou a hipótese de ir a Paris comprar um carro em segunda
mão para que os meus pais tivessem meio de locomoção mais barato e, se houvesse
justificação para pagar o imposto de importação levá-lo depois para Luanda onde
se poderia ganhar algum dinheiro com a transacção já que, tanto nós como os
meus pais tínhamos carros novos adquirido no ano anterior.
Metemo-nos num autocarro directo para Paris
com o meu primo num sábado de madrugada. Chegámos já noite alta a Paris.
Dormimos em casa do meu primo nos arredores de Paris.
No dia seguinte levantámo-nos cedo e
fomos a Bicêtre, subúrbios a sul de Paris, onde todos os domingos se levava a
efeito uma feira de viaturas usadas e onde se podia comprar um utilitário por
pouco mais de cinco contos ou um topo de gama que ultrapassava os cem. Nós
tínhamos decidido que tentaríamos arranjar um seminovo que rondasse os
cinquenta contos.
Começámos a percorrer a feira que tinha
quilómetros de extensão. Pouco tempo passado e poucas centenas e metros andadas
encontrámos um fiat 124 coupé
fantástico por cerca de trinta contos. Ficámos fascinados e muitíssimo
agradados com a possível aquisição. Começámos a analisá-lo, por fora e por
dentro, por baixo e por cima até que o vendedor o tentou por a trabalhar e o
motor não pegou. Não ficámos muito desiludidos, pensámos em bateria fraca ou
coisa similar mas o proprietário com um sentido de honestidade que nos deixou
boquiabertos disse que já não nos vendia o carro por dinheiro nenhum.
Custou-nos este contratempo e, como
acontece muitas vezes quando gostamos de algo que não nos serve e depois não
encontramos nada que nos agrada, por mais lojas que frequentemos, não havia maneira
de encontrar outro automóvel que nos agradasse no meio daqueles milhares.
Até que, por fim, depois de palmilharmos
quilómetros vimos um Renault 16, com vidros eléctricos – uma modernice e alta
tecnologia na época – num estado fantástico e com quarenta mil quilómetros que
nos encheu as medidas. Custava sessenta contos, um pouco mais do que a nossa
premissa, mas comprámo-lo. Sinalizámos a compra. No dia seguinte, segunda-feira
fomos ao Banco fazer o câmbio do dinheiro, trocar escudos por francos, pagar e
tratar do seguro, único documento necessário para transitar em França e poder
trazer o carro para Portugal. Cerca das 14 horas estávamos a sair da casa do
meu primo em direcção à Nacional 10, a estrada que conduzia directa a Portugal.
Saímos de Paris, eu e o meu pai, sem um
mapa apenas com informações orais dadas pelo meu primo. Não admira que passados
pouco mais de quinze minutos já não reconhecíamos os pontos de referência que
nos foram dados. Pensámos alugar um táxi para ir à nossa frente até ao início
da Nacional 10. Parámos numa praça de táxis e tentámos que assim fosse mas o
taxista que abordámos disse-nos com simplicidade e franqueza que era uma má
ideia porque era cara e encorajou-nos a prosseguir com outros pontos de
referência. Assim fizemos. Continuámos a rodar pelas ruas de Paris e, para nos
certificarmos que estávamos na rota certa parei encostado a uma peanha de um
Polícia sinaleiro. Simpaticamente o agente da autoridade informou-nos que íamos
bem e que deveríamos continuar seguindo os referidos pontos de referência.
Quase à entrada da Nacional 10 íamos muito devagar porque não estávamos seguros
de que estávamos na rota certa quando nos apareceram dois polícias de trânsito
nas suas motas que nos fizeram sinal para encostar. Cumprimos a ordem prontamente
pensando que nos iriam pedir documentos ou fazer alguma advertência mas não.
Perguntaram-nos porque íamos tão devagar. Explicámos a razão e responderam com
prontidão vem atrás de nós. Segui-os cerca de cinco minutos e já estava na
Estrada que nos havia de trazer a Portugal e aí chegados fizeram-me sinal para
seguir. Fiquei admirado. Aliás houve algumas coisas em Paris que me deixaram
atónito. A primeira uma jovem a vender o Jornal do Partido Comunista à porta do
Metro sem que ninguém a importunasse. A segunda, a honestidade do vendedor de
automóveis usados que, pelo simples facto do motor não pegar já não me quis
vender o carro. Depois as peripécias com o taxista e com os polícias. Era uma
cultura diferente daquela que eu sentia em Portugal. Muito parecida com a
vivida em Luanda, já não posso dizer o mesmo em toda a Angola. Honestidade,
bonomia, simpatia, liberdade.
Boa estrada, muito movimento, bom carro,
velocidade significativa, poucas paragens e de madrugada estava em Hendaia,
fronteira de França com a Espanha. Aí a polícia civil espanhola, muito parecida
com a polícia portuguesa, foi muito fiscalizadora e muito burocrática tendo
demorado cerca de uma hora para obtenção do visto de saída Não estavam muito
habituados a que as viaturas automóveis pudessem viajar, em trânsito, e só no
fim do percurso pagar os direitos alfandegários. Por fim tudo correu bem.
Percorremos a Espanha de uma tirada e,
pelas 14 horas, já estávamos na Meimoa. Foi uma aventura mas que valeu a pena
por várias razões. Primeiro porque nos permitiu a nós dar uma boa volta pelo
País que mal conhecíamos e depois dar a possibilidade aos meus pais de se
movimentarem sem peias. Por fim e já em Angola, trocarmos o Renault 16 por um
Ford Capri, carro da moda, novo a receber a Lisboa no ano seguinte só com o
acréscimo dos direitos alfandegários, cerca de vinte e cinco contos. Foi um bom
negócio. Negócios que eu não estava habituado a fazer e nem tinha e nem tenho
grandes propensões para os fazer.
As férias propiciam descuidos e a minha
mulher ficou grávida de novo, o que não constituiu nenhum constrangimento. A
Lena já tinha cinco anos e outro filho sempre esteve no nosso horizonte.
Vinte e sete de Setembro de 1972
regressámos a Luanda, eu, minha mulher e a minha filha, os meus pais, tios e
primos ainda ficaram até Novembro e retomámos a nossa vida felizes como nos
sentíamos.
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