Friday, October 16, 2020

VIDAS E SANTIDOS - PARTE X

 

X

 

 

Por que as condições de vida melhoraram substancialmente viemos à metrópole nos anos de 1972 e 1973. No primeiro, a minha mulher e a minha Lena, por três meses e eu apenas por um mês. Elas tinham as férias escolares alargadas e eu apenas a licença normal de trinta dias. Viagens e estadia por conta própria. A Teresa tinha imensas saudades dos pais, das irmãs e restante família. Já tinha sofrido um imenso desgosto de não ter podido estar presente aquando da morte do seu avô muito querido.

Nesse mesmo ano tinham vindo de licença graciosa os meus pais, a tia Paulina e família e a tia Elisa.

O Mês de Agosto, desde meados da década de sessenta com a legalização de muitos emigrantes clandestinos tornou esta aldeia mais cosmopolita. Chegavam, quase em massa, os emigrantes em França para passar as suas férias na terra natal. Traiam automóveis, uns melhores e outros nem tanto, mas uma demonstração inequívoca de que tinham melhorado a sua vida. Introduziam algumas palavras em francês pouco ortodoxo, o que nem era de admirar, já que a maioria era pouco mais do que analfabeta, como forma de afirmação e de ascensão social tão cara ao ser humano. Não se quer sentir bem quer-se que o outro veja que está bem.

Nós viemos quase no final de Agosto altura em que os emigrantes estavam a regressar ao país de acolhimento. E, coincidência, o meu primo Joaquim Pina prestava-se para regressar, quando em conversa lhana se aflorou a hipótese de ir a Paris comprar um carro em segunda mão para que os meus pais tivessem meio de locomoção mais barato e, se houvesse justificação para pagar o imposto de importação levá-lo depois para Luanda onde se poderia ganhar algum dinheiro com a transacção já que, tanto nós como os meus pais tínhamos carros novos adquirido no ano anterior.

Metemo-nos num autocarro directo para Paris com o meu primo num sábado de madrugada. Chegámos já noite alta a Paris. Dormimos em casa do meu primo nos arredores de Paris.

No dia seguinte levantámo-nos cedo e fomos a Bicêtre, subúrbios a sul de Paris, onde todos os domingos se levava a efeito uma feira de viaturas usadas e onde se podia comprar um utilitário por pouco mais de cinco contos ou um topo de gama que ultrapassava os cem. Nós tínhamos decidido que tentaríamos arranjar um seminovo que rondasse os cinquenta contos.

Começámos a percorrer a feira que tinha quilómetros de extensão. Pouco tempo passado e poucas centenas e metros andadas encontrámos um fiat 124 coupé fantástico por cerca de trinta contos. Ficámos fascinados e muitíssimo agradados com a possível aquisição. Começámos a analisá-lo, por fora e por dentro, por baixo e por cima até que o vendedor o tentou por a trabalhar e o motor não pegou. Não ficámos muito desiludidos, pensámos em bateria fraca ou coisa similar mas o proprietário com um sentido de honestidade que nos deixou boquiabertos disse que já não nos vendia o carro por dinheiro nenhum.

Custou-nos este contratempo e, como acontece muitas vezes quando gostamos de algo que não nos serve e depois não encontramos nada que nos agrada, por mais lojas que frequentemos, não havia maneira de encontrar outro automóvel que nos agradasse no meio daqueles milhares.

Até que, por fim, depois de palmilharmos quilómetros vimos um Renault 16, com vidros eléctricos – uma modernice e alta tecnologia na época – num estado fantástico e com quarenta mil quilómetros que nos encheu as medidas. Custava sessenta contos, um pouco mais do que a nossa premissa, mas comprámo-lo. Sinalizámos a compra. No dia seguinte, segunda-feira fomos ao Banco fazer o câmbio do dinheiro, trocar escudos por francos, pagar e tratar do seguro, único documento necessário para transitar em França e poder trazer o carro para Portugal. Cerca das 14 horas estávamos a sair da casa do meu primo em direcção à Nacional 10, a estrada que conduzia directa a Portugal.

Saímos de Paris, eu e o meu pai, sem um mapa apenas com informações orais dadas pelo meu primo. Não admira que passados pouco mais de quinze minutos já não reconhecíamos os pontos de referência que nos foram dados. Pensámos alugar um táxi para ir à nossa frente até ao início da Nacional 10. Parámos numa praça de táxis e tentámos que assim fosse mas o taxista que abordámos disse-nos com simplicidade e franqueza que era uma má ideia porque era cara e encorajou-nos a prosseguir com outros pontos de referência. Assim fizemos. Continuámos a rodar pelas ruas de Paris e, para nos certificarmos que estávamos na rota certa parei encostado a uma peanha de um Polícia sinaleiro. Simpaticamente o agente da autoridade informou-nos que íamos bem e que deveríamos continuar seguindo os referidos pontos de referência. Quase à entrada da Nacional 10 íamos muito devagar porque não estávamos seguros de que estávamos na rota certa quando nos apareceram dois polícias de trânsito nas suas motas que nos fizeram sinal para encostar. Cumprimos a ordem prontamente pensando que nos iriam pedir documentos ou fazer alguma advertência mas não. Perguntaram-nos porque íamos tão devagar. Explicámos a razão e responderam com prontidão vem atrás de nós. Segui-os cerca de cinco minutos e já estava na Estrada que nos havia de trazer a Portugal e aí chegados fizeram-me sinal para seguir. Fiquei admirado. Aliás houve algumas coisas em Paris que me deixaram atónito. A primeira uma jovem a vender o Jornal do Partido Comunista à porta do Metro sem que ninguém a importunasse. A segunda, a honestidade do vendedor de automóveis usados que, pelo simples facto do motor não pegar já não me quis vender o carro. Depois as peripécias com o taxista e com os polícias. Era uma cultura diferente daquela que eu sentia em Portugal. Muito parecida com a vivida em Luanda, já não posso dizer o mesmo em toda a Angola. Honestidade, bonomia, simpatia, liberdade.

Boa estrada, muito movimento, bom carro, velocidade significativa, poucas paragens e de madrugada estava em Hendaia, fronteira de França com a Espanha. Aí a polícia civil espanhola, muito parecida com a polícia portuguesa, foi muito fiscalizadora e muito burocrática tendo demorado cerca de uma hora para obtenção do visto de saída Não estavam muito habituados a que as viaturas automóveis pudessem viajar, em trânsito, e só no fim do percurso pagar os direitos alfandegários. Por fim tudo correu bem.

Percorremos a Espanha de uma tirada e, pelas 14 horas, já estávamos na Meimoa. Foi uma aventura mas que valeu a pena por várias razões. Primeiro porque nos permitiu a nós dar uma boa volta pelo País que mal conhecíamos e depois dar a possibilidade aos meus pais de se movimentarem sem peias. Por fim e já em Angola, trocarmos o Renault 16 por um Ford Capri, carro da moda, novo a receber a Lisboa no ano seguinte só com o acréscimo dos direitos alfandegários, cerca de vinte e cinco contos. Foi um bom negócio. Negócios que eu não estava habituado a fazer e nem tinha e nem tenho grandes propensões para os fazer.

As férias propiciam descuidos e a minha mulher ficou grávida de novo, o que não constituiu nenhum constrangimento. A Lena já tinha cinco anos e outro filho sempre esteve no nosso horizonte.

Vinte e sete de Setembro de 1972 regressámos a Luanda, eu, minha mulher e a minha filha, os meus pais, tios e primos ainda ficaram até Novembro e retomámos a nossa vida felizes como nos sentíamos.

 

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