Monday, October 12, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE IX

 

IX

 

No dia 1 de Abril apresentei-me no novo emprego e em nova forma de vida. Ingressei naquilo que hoje se denomina a Função Pública.

Dei-me muito bem neste serviço e aprendi muitas coisas que não sabia. Comecei a interessar-me por este meio e a ler o Diário Oficial onde se publicavam os concursos para os diferentes organismos e demais legislação.

Apareceu um concurso para auxiliar de obras públicas, serviço onde trabalhava o Tio Zé e onde granjeou muitos e variados conhecimentos, que iam do Governador-geral até aos Secretários Provinciais, Directores Gerais, Reitores de Liceu, Directores de Hospitais, já que a sua missão era distribuir uma equipa, pequena mas especializada de artistas, que iam do serralheiro ao canalizador, do pedreiro ao pintor, para pequenas reparações em edifícios públicos e ele disse-me que deveria concorrer porque o lugar era bom. Assim fiz mas, prontamente esqueci o assunto. Estava satisfeito no lugar que desempenhava.

Em Agosto nasceu a minha primeira filha, a nossa Lena, como a tratamos cá em casa. O trabalho e o apaparicar da nossa filha fazia o tempo passar quase sem darmos por isso.

Entretanto o meu cunhado António não andava satisfeito com a vida que levava na Meimoa e escreveu-nos uma carta a dar conta disso mesmo. Propusemos-lhe que fosse para Luanda. Se quisesse trataríamos da passagem de navio e tudo se resolveria. Na altura ele tinha dezoito para dezanove anos. Gostou da ideia e lá tratámos de ele ir ter connosco. Chegou em Outubro desse ano. No início do ano seguinte já estava colocado na Fazenda Pública como aspirante.

Em Agosto do ano seguinte, 1968 apareceu a colocação nas Obras Públicas lugar para o qual tinha concorrido e do qual me tinha esquecido. Veio uma carta a informar-me que tinha um mês para me apresentar.

Em família decidimos que era uma boa opção mudar de emprego. Era um lugar do Quadro, com carreira própria, carreira técnica com benefícios diferentes daqueles que havia nos serviços administrativos. Aceitámos o lugar e apresentámo-nos ao serviço na Direcção Provincial.

Novas aprendizagens, novas funções a maior parte, completamente desconhecidas. Um senão: passado um mês, por necessidade e interesse do serviço fui colocado em Silva Porto, planalto do Bié a 700 quilómetros de Luanda. Não me agradou mas fazia parte da carreira e até da possibilidade de promoção e lá tive que aceitar.

Cheguei a Silva Porto de Comboio a partir do Lobito tendo feito a viagem de Luanda até ao Lobito de navio. Foi a primeira e única viagem de navio que a minha mulher fez. Cheguei, como dizia, no dia 28 de Setembro de 1968 e, mal instalei a família no único hotel da cidade, o hotel Girão, desloquei-me até à Repartição das Obras Públicas e Transportes para me apresentar ao serviço. Cheguei lá e encontrei a Repartição fechada, apenas estava de guarda um contínuo que me disse que havia tolerância de ponto devido à tomada de posse como Presidente do Conselho de Ministros o Professor Doutor Marcelo Caetano em substituição de Salazar que se encontrava extremamente doente. Dizia-se até que estava em coma mas, como era segredo de Estado, só se sabia o que a censura deixava passar. Regressei ao Hotel para, em seguida, com a minha mulher e a minha filha passearmos pela cidade. Fomos a pé por que a cidade era muito pequena, acessível, plana e com ruas quase rectas e respectivas perpendiculares, igualmente em linha recta.

Aqui passei três anos e meio da minha vida onde fiz aprendizagens profissionais e de vida fantásticas. Amigos extraordinários que fiz.

A minha mulher tirou lá o curso do Magistério Primário com a melhor nota do curso. Fez um esforço extraordinário mas conseguiu o respeito e admiração colegas, de professores e até dos alunos que teve no seu estágio.

Mas eu nunca me senti pleno naquela terra. Faltava-me o mar de Luanda. Faltava-me o calor húmido a que me habituei desde a infância. Faltava-me a minha família alargada, pais, tios, primos. Faltava-me ainda a corte de amigos que cultivei desde a minha adolescência pois todos se encontravam a trabalhar em Luanda por isso disse à minha mulher para concorrer para Luanda por que, após a colocação, eu pressionaria a minha transferência que já tinha solicitado várias vezes mas que tinha sido recusada por motivos de serviço. A Lei dos cônjuges facilitava essa transferência.

Isto aconteceu em Setembro de 1971. A minha mulher e a minha filha foram para Luanda e eu fiquei sozinho em Silva Porto. Solicitei a transferência e, cumulativamente, fiz dois concursos para a Câmara Municipal de Luanda. A carreira profissional de um funcionário público tinha vantagens se não houvesse interrupções de serviço e, desta feita, assegurava, caso fosse admitido na Câmara e não fosse transferido para as Obras Públicas esse desiderato.

Fiz os concursos em Novembro desse mesmo ano. Um deles era para fiscal municipal cujo ordenado era de cerca de cinco contos mas a percentagem sobre as multas chegava, muitos meses, aos cem. O outro era para Chefe de Trabalhos principal que tinha um ordenado de seis mil e quatrocentos escudos mais dois mil e quinhentos de subsídio técnico. Não chegava aos dez contos. De qualquer forma era um ordenado significativamente superior ao que ganhava nas Obras Públicas que rondava os cinco contos mensais.

No dia 18 de Janeiro de 1972 apareceu a transferência para a Direcção Geral de Obras Públicas de Luanda e eu, ansioso que estava, pus-me a caminho no dia seguinte.

Falta-me aqui dizer que nos cerca de três anos e meio que estive em Silva Porto o desenvolvimento socioeconómico de Angola foi explosivo em todos os sectores da economia mas um, extremamente relevante, foi a construção de estradas asfaltadas em todo o território. E, se a primeira viagem foi necessário fazê-la de Navio e depois de Comboio passado menos de um ano fazia os setecentos e vinte quilómetros de carro em menos de oito horas de viagem. Por isto, mal recebi a guia de marcha pus-me a caminho levando as poucas coisas que cabiam no carro e pedindo a colegas e amigos que enviassem o restante recheio de casa por Camião.

No dia 20 de Janeiro apresentei-me nas Obras Públicas. E, no dia seguinte, fui chamado para uma entrevista na Câmara Municipal.

Do que constou a entrevista: Uma pergunta relativa ao lugar que pretendia ocupar, pois tinha ficado em terceiro lugar no concurso para fiscal e seriam admitidos dez ou no lugar de chefe de trabalhos onde ficara em primeiro lugar e havia apenas outro concorrente aprovado. Fui apanhado de surpresa e não sabia o que havia de decidir. Em poucos segundo polvilharam os meus pensamentos os cerca de cem contos mensais do lugar de fiscal o que daria para fazer, em pouco tempo, uma pequena fortuna em contra balanço com os menos de dez contos mensais do lugar de Chefe de Trabalhos mas, no turbilhão de pensamentos atravessaram-se imagens que tinha visto muitas vezes. Crianças andrajosas, pais esfarrapados e a trabalhar de noite e de dia para construir uma pequena casa clandestina para a família viver e o fiscal da Câmara a aplicar-lhe uma multa mínima de vinte e cinco contos. Decidi de imediato: quero o lugar de chefe de trabalhos. O Engenheiro director, por que era uma pessoa bem-educada e muito polida fez-me notar que eu estava a ser parvo, dada a diferença de rendimentos. Eu, agradeci o aviso mas respondi: não tenho coragem, senhor engenheiro, de multar uma família numa quantia para ela exorbitante para eu receber a percentagem dessa desgraça. Prefiro menos dinheiro mas o sossego de consciência. Deu-me um abraço demonstrando a nobreza de carácter ali exposta a nu.

Apresentei-me neste novo local de trabalho em 1 de Fevereiro de 1972.

Novas aprendizagens. Novas amizades. Muita gratificação e muitas Graças a Deus por mais esta oportunidade de melhorar as condições de vida e a acensão social que tal representava.

A minha mulher trabalhava numa escola em regime triplo, tal a quantidade de alunos, para onde levava a minha filha Lena já que esta não quis ficar no infantário onde foi matriculada e, em nossa casa, toda a gente tinha trabalho fora. Meu pai, minha mãe que seria quem poderia ajudar. O ambiente de colegas da minha mulher que era muito bom permitiu que a minha Lena com apenas 5 anos de idade fosse para uma sala de pré-escola que já existia no território naquele tempo. Uma novidade em todo o País. Em Portugal Continental nem em tal se falava quanto mais executar.

 

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