IX
No
dia 1 de Abril apresentei-me no novo emprego e em nova forma de vida. Ingressei
naquilo que hoje se denomina a Função Pública.
Dei-me
muito bem neste serviço e aprendi muitas coisas que não sabia. Comecei a
interessar-me por este meio e a ler o Diário Oficial onde se publicavam os
concursos para os diferentes organismos e demais legislação.
Apareceu
um concurso para auxiliar de obras públicas, serviço onde trabalhava o Tio Zé e
onde granjeou muitos e variados conhecimentos, que iam do Governador-geral até
aos Secretários Provinciais, Directores Gerais, Reitores de Liceu, Directores
de Hospitais, já que a sua missão era distribuir uma equipa, pequena mas
especializada de artistas, que iam do serralheiro ao canalizador, do pedreiro
ao pintor, para pequenas reparações em edifícios públicos e ele disse-me que
deveria concorrer porque o lugar era bom. Assim fiz mas, prontamente esqueci o
assunto. Estava satisfeito no lugar que desempenhava.
Em
Agosto nasceu a minha primeira filha, a nossa Lena, como a tratamos cá em casa.
O trabalho e o apaparicar da nossa filha fazia o tempo passar quase sem darmos
por isso.
Entretanto
o meu cunhado António não andava satisfeito com a vida que levava na Meimoa e
escreveu-nos uma carta a dar conta disso mesmo. Propusemos-lhe que fosse para
Luanda. Se quisesse trataríamos da passagem de navio e tudo se resolveria. Na
altura ele tinha dezoito para dezanove anos. Gostou da ideia e lá tratámos de
ele ir ter connosco. Chegou em Outubro desse ano. No início do ano seguinte já
estava colocado na Fazenda Pública como aspirante.
Em
Agosto do ano seguinte, 1968 apareceu a colocação nas Obras Públicas lugar para
o qual tinha concorrido e do qual me tinha esquecido. Veio uma carta a
informar-me que tinha um mês para me apresentar.
Em
família decidimos que era uma boa opção mudar de emprego. Era um lugar do
Quadro, com carreira própria, carreira técnica com benefícios diferentes
daqueles que havia nos serviços administrativos. Aceitámos o lugar e
apresentámo-nos ao serviço na Direcção Provincial.
Novas
aprendizagens, novas funções a maior parte, completamente desconhecidas. Um
senão: passado um mês, por necessidade e interesse do serviço fui colocado em
Silva Porto, planalto do Bié a 700 quilómetros de Luanda. Não me agradou mas
fazia parte da carreira e até da possibilidade de promoção e lá tive que
aceitar.
Cheguei
a Silva Porto de Comboio a partir do Lobito tendo feito a viagem de Luanda até
ao Lobito de navio. Foi a primeira e única viagem de navio que a minha mulher
fez. Cheguei, como dizia, no dia 28 de Setembro de 1968 e, mal instalei a
família no único hotel da cidade, o hotel Girão, desloquei-me até à Repartição
das Obras Públicas e Transportes para me apresentar ao serviço. Cheguei lá e
encontrei a Repartição fechada, apenas estava de guarda um contínuo que me
disse que havia tolerância de ponto devido à tomada de posse como Presidente do
Conselho de Ministros o Professor Doutor Marcelo Caetano em substituição de
Salazar que se encontrava extremamente doente. Dizia-se até que estava em coma
mas, como era segredo de Estado, só se sabia o que a censura deixava passar.
Regressei ao Hotel para, em seguida, com a minha mulher e a minha filha
passearmos pela cidade. Fomos a pé por que a cidade era muito pequena,
acessível, plana e com ruas quase rectas e respectivas perpendiculares,
igualmente em linha recta.
Aqui
passei três anos e meio da minha vida onde fiz aprendizagens profissionais e de
vida fantásticas. Amigos extraordinários que fiz.
A
minha mulher tirou lá o curso do Magistério Primário com a melhor nota do
curso. Fez um esforço extraordinário mas conseguiu o respeito e admiração
colegas, de professores e até dos alunos que teve no seu estágio.
Mas
eu nunca me senti pleno naquela terra. Faltava-me o mar de Luanda. Faltava-me o
calor húmido a que me habituei desde a infância. Faltava-me a minha família
alargada, pais, tios, primos. Faltava-me ainda a corte de amigos que cultivei
desde a minha adolescência pois todos se encontravam a trabalhar em Luanda por
isso disse à minha mulher para concorrer para Luanda por que, após a colocação,
eu pressionaria a minha transferência que já tinha solicitado várias vezes mas
que tinha sido recusada por motivos de serviço. A Lei dos cônjuges facilitava
essa transferência.
Isto
aconteceu em Setembro de 1971. A minha mulher e a minha filha foram para Luanda
e eu fiquei sozinho em Silva Porto. Solicitei a transferência e,
cumulativamente, fiz dois concursos para a Câmara Municipal de Luanda. A
carreira profissional de um funcionário público tinha vantagens se não houvesse
interrupções de serviço e, desta feita, assegurava, caso fosse admitido na
Câmara e não fosse transferido para as Obras Públicas esse desiderato.
Fiz
os concursos em Novembro desse mesmo ano. Um deles era para fiscal municipal
cujo ordenado era de cerca de cinco contos mas a percentagem sobre as multas
chegava, muitos meses, aos cem. O outro era para Chefe de Trabalhos principal
que tinha um ordenado de seis mil e quatrocentos escudos mais dois mil e
quinhentos de subsídio técnico. Não chegava aos dez contos. De qualquer forma
era um ordenado significativamente superior ao que ganhava nas Obras Públicas
que rondava os cinco contos mensais.
No
dia 18 de Janeiro de 1972 apareceu a transferência para a Direcção Geral de
Obras Públicas de Luanda e eu, ansioso que estava, pus-me a caminho no dia
seguinte.
Falta-me
aqui dizer que nos cerca de três anos e meio que estive em Silva Porto o
desenvolvimento socioeconómico de Angola foi explosivo em todos os sectores da
economia mas um, extremamente relevante, foi a construção de estradas
asfaltadas em todo o território. E, se a primeira viagem foi necessário fazê-la
de Navio e depois de Comboio passado menos de um ano fazia os setecentos e
vinte quilómetros de carro em menos de oito horas de viagem. Por isto, mal
recebi a guia de marcha pus-me a caminho levando as poucas coisas que cabiam no
carro e pedindo a colegas e amigos que enviassem o restante recheio de casa por
Camião.
No
dia 20 de Janeiro apresentei-me nas Obras Públicas. E, no dia seguinte, fui
chamado para uma entrevista na Câmara Municipal.
Do
que constou a entrevista: Uma pergunta relativa ao lugar que pretendia ocupar,
pois tinha ficado em terceiro lugar no concurso para fiscal e seriam admitidos
dez ou no lugar de chefe de trabalhos onde ficara em primeiro lugar e havia
apenas outro concorrente aprovado. Fui apanhado de surpresa e não sabia o que
havia de decidir. Em poucos segundo polvilharam os meus pensamentos os cerca de
cem contos mensais do lugar de fiscal o que daria para fazer, em pouco tempo,
uma pequena fortuna em contra balanço com os menos de dez contos mensais do
lugar de Chefe de Trabalhos mas, no turbilhão de pensamentos atravessaram-se
imagens que tinha visto muitas vezes. Crianças andrajosas, pais esfarrapados e
a trabalhar de noite e de dia para construir uma pequena casa clandestina para
a família viver e o fiscal da Câmara a aplicar-lhe uma multa mínima de vinte e
cinco contos. Decidi de imediato: quero o lugar de chefe de trabalhos. O
Engenheiro director, por que era uma pessoa bem-educada e muito polida fez-me
notar que eu estava a ser parvo, dada a diferença de rendimentos. Eu, agradeci
o aviso mas respondi: não tenho coragem, senhor engenheiro, de multar uma
família numa quantia para ela exorbitante para eu receber a percentagem dessa
desgraça. Prefiro menos dinheiro mas o sossego de consciência. Deu-me um abraço
demonstrando a nobreza de carácter ali exposta a nu.
Apresentei-me
neste novo local de trabalho em 1 de Fevereiro de 1972.
Novas
aprendizagens. Novas amizades. Muita gratificação e muitas Graças a Deus por
mais esta oportunidade de melhorar as condições de vida e a acensão social que
tal representava.
A
minha mulher trabalhava numa escola em regime triplo, tal a quantidade de
alunos, para onde levava a minha filha Lena já que esta não quis ficar no
infantário onde foi matriculada e, em nossa casa, toda a gente tinha trabalho
fora. Meu pai, minha mãe que seria quem poderia ajudar. O ambiente de colegas
da minha mulher que era muito bom permitiu que a minha Lena com apenas 5 anos
de idade fosse para uma sala de pré-escola que já existia no território naquele
tempo. Uma novidade em todo o País. Em Portugal Continental nem em tal se
falava quanto mais executar.
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