Sunday, October 11, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE VIII

 

 

VIII

 

 

Mas voltemos um pouco atrás e aos tempos de miúdo que com catorze anos entrou para um Movimento Cristão que foi uma autêntica Escola de Vida que foi a JOC (Juventude Operária Católica).

Comecei por ser um militante de base juvenil e com os anos depressa passou pelas estruturas hierárquicas do Movimento que sendo Cristão, como já se disse, nunca foi beato, mas sempre interventivo no dia a dia de cada um e em qualquer lugar que um jocista se encontrasse. Era um lema, do seu fundador, Cardeal José Cardijn, que iniciou o seu apostolado como padre operário em Bruxelas e depois de paroquiar em várias paróquias Belgas, como era filho de pais operários, e muito empenhado e comprometido com a encíclicas papais “Rerum Novarum” de Leão XIII e Quadragésimo Ano, de Pio XII, decidiu cria um Movimento Cristão Católico, que ajudasse a modificar as pessoas tornando-as mais humanas nos seus locais de trabalho ao mesmo tempo que reivindicativo e lutador contra desigualdades e injustiças. Foi nesta Escola que formei a minha personalidade e foi também nela que ganhei o gosto pela leitura, pela escrita e pelos estudos em geral.

Daí que, depois de oito horas de trabalho, nem sempre fácil, comecei por frequentar a Escola Comercial de Luanda, sita na Vila Clotilde onde se aprendiam os conhecimentos necessários a futuros bons contabilistas – Guarda-livros – como então se designavam. Em boa verdade, ao fim do primeiro trimestre comecei por me dar conta de que não era aquilo que eu pretendia, e a caligrafia com o cursivo inglês, com aparos próprios, não eram o meu forte. E esta era uma disciplina chave do primeiro ano. Vai daí, num intervalo maior cerca das nove horas da noite, lá nos dirigíamos para o Clube que ficava em frente à Escola para comer qualquer coisa e mais do que isso para nos divertirmos a jogar matraquilhos, pingue-pongue e outros jogos. Muitas vezes não voltava às aulas e às vinte e três horas lá regressava a casa com os meus amigos, sem antes passarmos por uma padaria onde fizemos amizade, quer com o patrão, quer com os empregados, e comer pão quentinho à saída do forno. Mas ao fim do ano deu-se o que se esperava, o “chumbo” da ordem.

Deixei de estudar durante um ano, até porque cada vez me embrenhava mais na JOC, nos seus trabalhos, nas suas estruturas, na conquista de mais e mais amigos para este ideal no qual me sentia realizado e queria ver toda a gente com este mesmo espírito. Durante os mais de vinte anos que militei na JOC vivi, porventura, os melhores anos da minha vida e foi também dentro do Movimento que consolidei amizades que perduraram e perduram para além das vicissitudes da Vida. Pelos caminhos que cada um de nós traçou, quer ainda em Angola e muito mais agravada pela descolonização atabalhoada que os políticos do 25 de Abril levaram a cabo, porque influenciados pelas duas grandes potências internacionais na época, a URSS (União da República Socialista Soviética) e pelos EUA (Estados Unidos da América), com uma mãozinha dos chineses e cubanos.

Já com dezassete anos e com algumas vivências apreciáveis, quer em termos sociais, quer profissionais, comecei a ver no horizonte um Serviço Militar Obrigatório, em cenário de guerrilha, como soldado raso e isso começou deveras a preocupar-me. Daí arranjar um explicador particular e com uma força de vontade de derrubar montanhas num só ano candidatei-me ao segundo ano do Liceu, era assim designado o primeiro ciclo do ensino secundário e ter obtido boas notas e obter, desde logo o diploma que me permitia frequentar a Escola Prática Militar e dar-me acesso ao posto de furriel miliciano. Este primeiro objectivo tinha sido atingido mas o bichinho ficou cá e depois, nos dois anos seguintes e antes de entrar para a Tropa, matriculei-me num colégio particular para aprender o necessário que me permitisse obter o grau académico que dava a certificação do segundo ciclo do secundário, antigo quinto ano dos liceus, divido em duas secções (Letras e Ciências) um pouco à imagem do ensino do século XV onde se designavam os estudos por Trivium (Letras) e Quadrívium (Ciências). Também este objectivo foi alcançado tendo prestado provas no Liceu Nacional Salvador Correia de Sá e Benevides, Herói da defesa de Angola contra os Holandeses na Época Napoleónica das Invasões Francesas. Aí conheci muitos dos actuais governantes de Angola pretos e mulatos com quem mantínhamos relações de cordialidade e até de amizade com alguns deles.

Entretanto, em 1963 em Abril, por alturas dos vinte e cinco anos da Acção Católica em Portugal e, nomeadamente, da JOC, deu-se um grande evento em Lisboa ao qual foi dado o nome de “Grande Encontro da Juventude” e eu, porque tinha direito a licença graciosa cá vim à Metrópole para assistir e representar a JOC de Luanda e por cá fiquei sete meses. Porque a seguir ao Encontro e já neste, venho a encontrar aquela que é a minha mulher há mais de 42 anos. Enamorei-me e, se a vontade prevalecesse ao dever, por cá teria ficado até poder ir com a minha namorada, já como minha esposa. Tinha então dezanove anos e prestes a fazer vinte. Um namoro difícil, porque não era muito bem aceite por aquele que viria a ser meu sogro, mas persistente tanto da minha parte como da Teresinha – como carinhosamente é tratada por toda a gente – desde menina, porque o nosso amor era mais forte.

Chegado o dia 7 de Outubro de 1963 a Teresinha reiniciou a suas aulas e eu vou de regresso a Luanda onde, como era habitual na época, no ano seguinte seria incorporado no serviço militar obrigatório.

Tempos difíceis para mim e para a minha namorada, que eu considerava noiva pois, antes de partir, aprazámos a data do nosso casamento para daí a três anos.

O Serviço Militar diga-se, com a frontalidade que nos caracteriza, foi um período de férias prolongadas, com excepção dos meses da recruta em Nova Lisboa onde foi, verdadeiramente duro. Acabado o curso em finais de Novembro de 1964 fomos promovido a cabo-miliciano e colocado na secção auto onde, com o Alferes Costa e o Furriel Caetano formámos uma equipa invejável, até para os restantes camaradas do mesmo quartel. Só trabalhávamos um período do dia, de manhã ou de tarde, revezando-nos nas tarefas.

Mas não há bela sem senão e, em Janeiro de 1967, a minha mulher muito grávida – a minha filha Lena viria a nascer no dia 9 de Agosto, seguinte – tirei férias para passar mais tempo com quem era todo o meu enlevo. Acontece que, pelo Natal, começou a falar-se que toda a minha incorporação que seria suposto passar à disponibilidade em Agosto seguinte, pelo facto de ter iniciado a recruta três meses mais cedo também ia ser desmobilizada mais cedo e até se dizia que podia ser em 31 de Março. Ora, partindo do pressuposto de que poderia ser verdadeiro era forçoso gozar férias o mais rápido possível caso contrário as mesmas eram perdidas.

Em conversa com o 1º Sargento da minha Companhia, meu amigo e meu vizinho, ele sugeriu-me que submetesse o pedido e, no local onde era necessário colocar o sítio onde pretendia gozar as férias em vez de colocar uma morada pusesse todo o território de Angola. Assim fiz. Quem despachou favoravelmente a petição foi o segundo comandante do Batalhão, um major, pessoa pouco abonatória e muito menos profissional, na minha opinião, já se vê. Chegado o dia 15 de Janeiro recebi a guia a permitir o gozo de trinta dias de licença pelo ano anterior de trabalho, como dizia a Lei e mais cinco dias da alínea a) do RDM. Trinta e cinco dias seguidos, ao todo.

Tal como previra o 1º Sargento, logo que o Quartel-general enviasse a comunicação da data da disponibilidade as férias seriam, automaticamente suspensas e, caso estivesse na minha residência habitual seria chamado, caso andasse a passear pelo território poderia gozar a totalidade dos dias.

Ora, ainda não tinha passado uma semana, depois de um dia de praia, quando regressava a casa dei de caras com um motorista meu subordinado que vinha com ordens verbais do Major para eu interromper as férias e me apresentar, no dia seguinte, no quartel. Pedi-lhe então o favor de dizer ao major que eu não me encontrava em casa e que não fora possível contactar-me. O soldado que tinha consideração por mim nem sequer hesitou. “Esteja descansado meu furriel que eu não o vi nem sei onde anda”. E foi esta a resposta dada ao major mas este que não simpatizava comigo porque eu, a partir de determinada altura deixei de lhe aparar a sua verborreia que lhe enchia o ego, decidiu que chegara a altura de exercer a sua vingançazinha. O homem era um pedante. Durante uns tempos chamava-me para me pedir opinião sobre vários assuntos, nomeadamente, sob a forma de exposição diária do parque auto disponível no quartel. Queria que todas as viaturas que não fossem necessárias no dia ficassem em parada para serem vistas de dentro e fora do quartel com aparato e ostentação. Eu, cordialmente, fui-lhe dando a minha visão e apresentando as minhas soluções que ele nunca aceitava pois quando pedia opinião era apenas para poder dizer que auscultou as pessoas mas já tinha formada a sua decisão. Quando me dei conta desta postura deixei de dar palpites e passei a concordar com tudo o que dizia sem qualquer tipo de argumento. Não gostou desta postura e dizia: “consigo não se pode discutir, diz a tudo que sim”.

Este simples desaguisado foi o suficiente para o major me querer prejudicar. Mesmo assim gozei todas as férias e o dia que me apresentei ao serviço o major, com o seu ar arrogante e ameaçador, foi dizendo que eu estava em falta ao serviço e, como tal, iria ser alvo de processo disciplinar. Apresentei um ar seráfico e questionei-o por que razão. Respondeu que tinha de me ter apresentado quando ele me mandou chamar e não estava contactável como era obrigação. Respondi que não estava contactável porque andava a passear pelo território e que tal fora aprovado por ele próprio. Pediu a guia e ficou colérico. Viu que fora ele que autorizara o gozo de férias sem morada fixa e, por isso, não podia fazer nada. Roxo de raiva disse que me ia arrepender. Reafirmei que não tinha cometido nenhuma ilegalidade.

Coincidência, houve substituição de rádios e outros meios de comunicação mais modernos que era necessário instalar no Leste de Angola. Decidiu então que era a forma de me castigar mandando-me para Henrique de Carvalho fazer a testagem desse material. Retorqui que isso era um abuso de poder e que eu não tinha experiência nenhuma para desempenhar aquelas funções já que estava para sair da tropa e nunca tinha exercido a especialidade que só fiz no curso. Mesmo assim insistiu que ele é que sabia. Voltei a dizer-lhe, cordatamente, que aquilo era uma vingança e que me poderia prejudicar pessoalmente impedindo-me de me apresentar no local de trabalho que já tinha para o dia seguinte à passagem à disponibilidade, um de Abril de 1967. Deixei cair um aviso, com ar sério, sisudo, mesmo carrancudo, que poderia ser uma ameaça. Se perder o emprego, o que era possível se não me apresentasse no dia aprazado, viria todos os meses receber o ordenado junto da sua pessoa, até porque tinha uma família para sustentar e que, caso houvesse problemas poderia cometer uma loucura. Estávamos em guerra. Tudo é possível nestas circunstâncias.

Para manter a sua ameaça todas as semanas até ao dia de saída da tropa, cerca de cinco semanas, me mandava entregar a guia de embarque na manhã de Sábado para embarcar às cinco da manhã de Segunda-feira e, pelas 17 horas de todos os Sábados, invariavelmente, mandava o ordenança a dizer que não havia lugar no avião e que iria na Segunda-feira seguinte. Como é bom de ver não saí de Luanda mas pôs-me os nervos em franja.

Por fim terminou em bem e, no dia 31 de Março de 1967 saí à peluda, como se dizia em linguagem de caserna.

 

 

No comments: