Thursday, October 01, 2020

FAMÍLIA 1

 

Como já referimos, o ciúme e a inveja dos irmãos do avô Ricardo e a personalidade dúbia da bisavó, aliados a um grande e devotado amor do avô à sua mãe fizeram com que a frequência do Liceu terminasse abruptamente no primeiro ano.

Tal circunstância fez do avô um “nem, nem” da época. Nem estudava nem trabalhava. Primeiro por ainda não ter idade para trabalhar. Segundo porque a fartura não exigia tal esforço e isto fez dele um irreverente, um insatisfeito e transformou-o num adolescente e jovem que se realizava na procura de saber, de conhecer, de viver em total e desbragada liberdade.

Inteligente como era apreendia dos mais conhecedores todo o saber. Lia todos os dias o único jornal que havia na terra e era enviado gratuitamente para a Junta de Freguesia. Aliás, era o único habitante que lia o dito jornal. Assim cresceu a ler, escrever poesia –brejeira na maior parte das vezes, mas também de crítica social – e aprender todos os trabalhos inerentes à agricultura, ainda que a não praticasse. Tornou-se exímio gadanheiro – cortador de fenos – ensinamento que transmitiu aos filhos. Já não lhes transmitiu o saber literário porque, sendo muito exigente e, porque não dizê-lo, até truculento, ninguém queria aprender com ele. Ninguém, não é bem verdade, por que eu sempre adorei os seus contos, as suas histórias e os seus ensinamentos apesar de um belo dia, andava eu na terceira classe, ter dito que me doía o “estômado, como era dito popularmente” em vez de estômago, o que me valeu um ralhete de burro para baixo.

Mas voltemos ao tempo da sua juventude. Como atrás se disse era um jovem irreverente e, chegado aos seus dezassete anos enamorou-se da mulher da sua vida, a avó Maria. Moçoila bonita e prendada na arte de boa dona de casa e boa mãe, educada para tal como era habitual na altura e, intempestivamente, engravida-a e propõe-se casar, apesar da tenra idade.

Ainda não dissemos mas temos que o afirmar que o avô era um homem de bem e com valores morais e éticos invulgares. Logo, quando soube que a sua namorada estava grávida tratou de dizer à mãe que queria casar rapidamente para evitar falatórios e difamações tão comuns nas aldeias e meios pequenos. Mas a mãe não quis e foi peremptória. “ Não casas a não ser que os pais da Maria lhe dêem um dote equivalente à tua fortuna”.

Naquele tempo a maioridade só se atingia ao vinte e um anos e, antes disso, o casamento e outras formalidades só eram permitidas com a emancipação ou autorização explícita dos progenitores.

Foi uma atitude mesquinha da nossa bisavó Lourença, comparada com outras que sempre teve para connosco e com algumas das manias ridículas a que já fiz referência – ter uma tosse especial para tossir na Igreja, na missa, botas com alma metálica a roçar na parte crua do cabedal para que ao andar fizesse uma chiadeira diferente daquela que os sapatos das outras mulheres faziam – que era bem o símbolo do viver de aparências, do chá e canasta das senhoras da alta. Eu não convivi com ela, pois tinha três anos quando ela morreu, mas os nossos maiores nunca tiveram dela um carinho, uma atenção, uma prenda. Já da bisavó Isabel tiveram o apoio possível, apesar de esta não gostar do nosso avô, como deixava bem claro em todas as circunstâncias. E diga-se em abono da verdade, tinha boas razões para isso. Um dia conto-vos algumas dessas razões que me foram explicitadas pela própria bisavó Isabel.

Como já referi a bisavó Lourença era cunhada, por parte do primeiro marido, da bisavó Isabel e, mesmo assim, não se coibiu de praticar a cachorrada que relatei atrás, prejudicando gravemente a reputação da nossa avó Maria. Tanto que a nossa tia Joaquina nasceu ainda antes do casamento o que foi, como se calcula, um escândalo de todo o tamanho. A irredutibilidade da Bisavó Lourença e o sentido de Justiça da Bisavó Isabel que não queria prejudicar as outras três filhas deram este resultado e, por fim, a Bisavó Isabel cedeu à chantagem por ver o amor da filha e o desgosto de não poder casar com o homem da sua vida, de tal sorte que houve dote e casamento quando o avô fez dezoito anos. O meu pai já nasceu dentro de um casamento “normal” quando o avô fez vinte anos.

Por aqui se vê como, por força de condicionantes externas o avô foi um homem não realizado, nem quanto aos estudos nem quanto ao amor da sua vida. Sim porque não foi sua culpa não honrar a sua mulher. A culpa pode ser integralmente assacada à sua mãe e irmãos que viviam bem e não queriam perder mordomias com a autonomia do nosso avô.

Isto são factos. Não há aqui nenhum tipo de invenção ou manipulação de acontecimentos.

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