Como já referimos, o ciúme e a
inveja dos irmãos do avô Ricardo e a personalidade dúbia da bisavó, aliados a
um grande e devotado amor do avô à sua mãe fizeram com que a frequência do
Liceu terminasse abruptamente no primeiro ano.
Tal circunstância fez do avô um
“nem, nem” da época. Nem estudava nem trabalhava. Primeiro por ainda não ter
idade para trabalhar. Segundo porque a fartura não exigia tal esforço e isto
fez dele um irreverente, um insatisfeito e transformou-o num adolescente e
jovem que se realizava na procura de saber, de conhecer, de viver em total e
desbragada liberdade.
Inteligente como era apreendia dos
mais conhecedores todo o saber. Lia todos os dias o único jornal que havia na
terra e era enviado gratuitamente para a Junta de Freguesia. Aliás, era o único
habitante que lia o dito jornal. Assim cresceu a ler, escrever poesia –brejeira
na maior parte das vezes, mas também de crítica social – e aprender todos os
trabalhos inerentes à agricultura, ainda que a não praticasse. Tornou-se exímio
gadanheiro – cortador de fenos – ensinamento que transmitiu aos filhos. Já não
lhes transmitiu o saber literário porque, sendo muito exigente e, porque não
dizê-lo, até truculento, ninguém queria aprender com ele. Ninguém, não é bem
verdade, por que eu sempre adorei os seus contos, as suas histórias e os seus
ensinamentos apesar de um belo dia, andava eu na terceira classe, ter dito que
me doía o “estômado, como era dito popularmente” em vez de estômago, o que me
valeu um ralhete de burro para baixo.
Mas voltemos ao tempo da sua
juventude. Como atrás se disse era um jovem irreverente e, chegado aos seus
dezassete anos enamorou-se da mulher da sua vida, a avó Maria. Moçoila bonita e
prendada na arte de boa dona de casa e boa mãe, educada para tal como era
habitual na altura e, intempestivamente, engravida-a e propõe-se casar, apesar
da tenra idade.
Ainda não dissemos mas temos que o
afirmar que o avô era um homem de bem e com valores morais e éticos invulgares.
Logo, quando soube que a sua namorada estava grávida tratou de dizer à mãe que
queria casar rapidamente para evitar falatórios e difamações tão comuns nas
aldeias e meios pequenos. Mas a mãe não quis e foi peremptória. “ Não casas a
não ser que os pais da Maria lhe dêem um dote equivalente à tua fortuna”.
Naquele tempo a maioridade só se
atingia ao vinte e um anos e, antes disso, o casamento e outras formalidades só
eram permitidas com a emancipação ou autorização explícita dos progenitores.
Foi uma atitude mesquinha da nossa
bisavó Lourença, comparada com outras que sempre teve para connosco e com
algumas das manias ridículas a que já fiz referência – ter uma tosse especial
para tossir na Igreja, na missa, botas com alma metálica a roçar na parte crua
do cabedal para que ao andar fizesse uma chiadeira diferente daquela que os
sapatos das outras mulheres faziam – que era bem o símbolo do viver de
aparências, do chá e canasta das senhoras da alta. Eu não convivi com ela, pois
tinha três anos quando ela morreu, mas os nossos maiores nunca tiveram dela um
carinho, uma atenção, uma prenda. Já da bisavó Isabel tiveram o apoio possível,
apesar de esta não gostar do nosso avô, como deixava bem claro em todas as
circunstâncias. E diga-se em abono da verdade, tinha boas razões para isso. Um
dia conto-vos algumas dessas razões que me foram explicitadas pela própria
bisavó Isabel.
Como já referi a bisavó Lourença
era cunhada, por parte do primeiro marido, da bisavó Isabel e, mesmo assim, não
se coibiu de praticar a cachorrada que relatei atrás, prejudicando gravemente a
reputação da nossa avó Maria. Tanto que a nossa tia Joaquina nasceu ainda antes
do casamento o que foi, como se calcula, um escândalo de todo o tamanho. A
irredutibilidade da Bisavó Lourença e o sentido de Justiça da Bisavó Isabel que
não queria prejudicar as outras três filhas deram este resultado e, por fim, a
Bisavó Isabel cedeu à chantagem por ver o amor da filha e o desgosto de não
poder casar com o homem da sua vida, de tal sorte que houve dote e casamento
quando o avô fez dezoito anos. O meu pai já nasceu dentro de um casamento
“normal” quando o avô fez vinte anos.
Por aqui se vê como, por força de
condicionantes externas o avô foi um homem não realizado, nem quanto aos
estudos nem quanto ao amor da sua vida. Sim porque não foi sua culpa não honrar
a sua mulher. A culpa pode ser integralmente assacada à sua mãe e irmãos que
viviam bem e não queriam perder mordomias com a autonomia do nosso avô.
Isto são factos. Não há aqui nenhum
tipo de invenção ou manipulação de acontecimentos.
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