Friday, October 09, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE VII

 

VII

 

 

O meu leitor já deve estar a perguntar-se e, com carradas de razão se o narrador não tem memórias da família da sua progenitora e dos seus ancestrais por que até aqui não há referências aos seus antepassados maternos. Sem falsa modéstia devo informar que a descrição até aqui narrada se fez ao correr da pena sem cuidar das regras literárias tão caras aos nossos escritores. Somos autênticos em todos os actos da nossa vida, sem subterfúgios ou manipulações. Por tal consideramos que a narração até agora não dava espaço a este meu lado materno, que prezo da mesma maneira e com o mesmo orgulho do lado paterno, sem que se perdesse o fio à meada. Chegou a hora e, repetimos o que já afirmámos: voltamos ao princípio da narrativa.

Estávamos no início da segunda metade do século XIX quando a esta aldeia remota do concelho de Penamacor aportou uma personagem oriunda da Vila de Touro, concelho de Sabugal, que aqui constituiu família. Não era vulgar, na época pois até existia o ditado popular de que “quem fora da terra vai casar ou vai enganado ou quer enganar”.

Desse tronco nasceu José Pina, pedreiro de profissão, meu avô materno casado com Teresa Rainha, minha avó materna que não tive a dita de conhecer.

Meu avô José Pina tinha a quarta classe. É um privilégio ter tido os dois avôs com a quarta classe. Naquele tempo, estamos a falar do final do século XIX e início do século passado, onde o índice de analfabetismo literal rondava os 80%. Era um monárquico, mais por influência e amizade com uma viúva rica do que por convicção. Até porque era gente que a sua política era o trabalho duro.

Através da oralidade escutada em casa soube que a minha avó Teresa com pouco mais de 30 anos partiu uma perna e, esse facto foi o princípio do fim. Esteve acamada alguns anos e faleceu perto dos 40. A minha mãe ainda era solteira e tinha, na altura, cerca dos dezanove anos. Porém, desde os 12 ou 13 que tivera que tomar conta da casa pois era necessário cozer o pão, semanalmente, para sustento da família. Era necessário lavar roupa, passar a ferro, passajar roupa rota ou descosida, fazer as refeições para uma família de oito pessoas se incluirmos o pai dela. Tinha dois irmãos mais velhos, o meu tio José e o meu tio António, solteiros e a viver na casa do pai. Depois era a minha mãe, Adozinda, a minha tia Maria, o meu tio Manuel, o meu tio Joaquim e por fim a minha tia Iria. Recordo com lembranças muito nítidas dos casamentos dos meus tios Manuel, Joaquim e Iria.

O meu avô José Pina faleceu tinha eu seis anos e, estou convicto de que serei o único neto a ter reminiscências suas, já que sou o neto mais velho. As recordações dele são de uma pessoa velhinha, muito bondosa, carinhosa e extremamente meiga. Porém a minha mãe e o meu pai relatavam-me factos de uma enorme grandeza. Ao contrário do que era costume à época quando o meu avô bebia uns copos aos domingos ou dias de festa naquela casa não havia zaragata como era geral e corriqueiro nas demais famílias. Havia cantoria, récitas e todo um conjunto de actividades culturais mesmo junto da cama da minha avó que, era voz corrente, cantava fantasticamente. Sabia todas as modas saídas daqueles romances de cordel muito em voga que apareciam nas feiras e romarias, para além daquelas que a tradição lhes tinha transmitido.

Lembro-me que o meu avô era uma pessoa muito respeitada. Um artista muito requisitado e posso dizer que muitas das casas existentes na Meimoa tiveram o seu cunho e são fruto do seu suor.

Este ramo familiar materno, talvez por que se começou a diluir muito cedo, não teve, na minha vida, a mesma influência e a mesma preponderância do ramo paterno. Mesmo assim recordo com muita saudade as visitas às casas dos meus tios, principalmente em épocas festivas, Natal, Carnaval e Páscoa.

Apesar destas limitações e de, na altura em que escrevo, apenas estar ainda entre nós a minha mãe, todos os meus tios e respectivos cônjuges já terem falecido, lembro-me de ser apaparicado por todos e recordo com saudade todos eles.

O mais velho era o meu tio José que teve quatro filhos - o Joaquim, o Francisco, a Rosa e o Victor - faleceu muito jovem era o Victor bebé. Tinha, segundo creio, 42 anos. Faleceu por causa de uma dor de dentes e um inchaço, na cara o que demonstra bem a miséria e o abandono a que as pessoas eram votadas. Infelizmente também o meu primo Chico já faleceu e era, igualmente muito jovem.

O meu tio António (Ferreiro), ainda hoje não sei por que tinha a alcunha de ferreiro sendo ele um extraordinário pedreiro nunca casou. Era beberrão e um tanto desordeiro. Teve o azar de ainda novo vazar o olho direito num bico de arame farpado. Morreu só e abandonado, porque toda a família estava fora do país.

A minha tia Maria, minha madrinha de baptismo tivera três filhos, o José, a Maria Teresa e o Luís e fez vida, até à aposentação, em França, mais concretamente em Tours para onde foi na grande leva de emigração clandestina na década de sessenta do século passado.

O meu tio Manuel casou, não teve filhos, e morreu com 39 anos com doença desconhecida.

O meu tio Joaquim também um pedreiro exímio, de horizontes mais vastos, passou alguns anos da vida dele na França mas nunca quis que os seus filhos deixassem Portugal onde os educou. Também teve quatro filhos, o José Manuel, a Amélia, a Joaquina e a Teresa Maria. Este, também já faleceu, mas no conforto do lar sempre apoiado pela inestimável esposa, a tia Rosa.

A tia Iria, a mais nova, faleceu com 62 anos, no Hospital de Castelo Branco, não por falta de assistência médica mas, porventura, por doença incurável. Teve cinco filhos, o Joaquim, que eu levei para Angola para ver se lhe proporcionava um serviço militar obrigatório mais facilitado em tempo de guerra, a Albertina, a Elisabete e a Manuela. Esta tia trabalhou imenso, ela e o marido no Luxemburgo e arranjou um bom pé-de-meia mas o seu falecimento foi calamitoso para toda a família, particularmente para os seus filhos já que, o viúvo o “Justa” assim chamado por alcunha revelou-se um ser humano execrável. Arranjou uma mulher, segundo dizem de má-vida, através de um anúncio numa revista e num acto de puro desajuste psicológico deserdou os filhos, até da parte que lhes pertencia por morte da mãe, há anos que o assunto anda em Tribunal mas o facto é que a piranha é usufrutuária de todo o pecúlio e os meus primos estão sem nada. Qualquer dos meus primos estão bem na vida e não necessitam da herança dos pais mas é revoltante verem estranhos que os roubam e ainda os ofendem. Uma tristeza quando o senso não existe.

Sou amigo de todos os meus primos, quer de um ramo quer de outro, que eu considero como irmãos que eu não tive e, como o patriarca da família, preocupo-me com todos eles e eles fazem a gentileza de me demonstrar a sua amizade, o seu amor.

 

 

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