VII
O
meu leitor já deve estar a perguntar-se e, com carradas de razão se o narrador
não tem memórias da família da sua progenitora e dos seus ancestrais por que
até aqui não há referências aos seus antepassados maternos. Sem falsa modéstia
devo informar que a descrição até aqui narrada se fez ao correr da pena sem
cuidar das regras literárias tão caras aos nossos escritores. Somos autênticos
em todos os actos da nossa vida, sem subterfúgios ou manipulações. Por tal
consideramos que a narração até agora não dava espaço a este meu lado materno,
que prezo da mesma maneira e com o mesmo orgulho do lado paterno, sem que se
perdesse o fio à meada. Chegou a hora e, repetimos o que já afirmámos: voltamos
ao princípio da narrativa.
Estávamos
no início da segunda metade do século XIX quando a esta aldeia remota do
concelho de Penamacor aportou uma personagem oriunda da Vila de Touro, concelho
de Sabugal, que aqui constituiu família. Não era vulgar, na época pois até
existia o ditado popular de que “quem fora da terra vai casar ou vai enganado
ou quer enganar”.
Desse
tronco nasceu José Pina, pedreiro de profissão, meu avô materno casado com
Teresa Rainha, minha avó materna que não tive a dita de conhecer.
Meu
avô José Pina tinha a quarta classe. É um privilégio ter tido os dois avôs com
a quarta classe. Naquele tempo, estamos a falar do final do século XIX e início
do século passado, onde o índice de analfabetismo literal rondava os 80%. Era
um monárquico, mais por influência e amizade com uma viúva rica do que por
convicção. Até porque era gente que a sua política era o trabalho duro.
Através
da oralidade escutada em casa soube que a minha avó Teresa com pouco mais de 30
anos partiu uma perna e, esse facto foi o princípio do fim. Esteve acamada
alguns anos e faleceu perto dos 40. A minha mãe ainda era solteira e tinha, na
altura, cerca dos dezanove anos. Porém, desde os 12 ou 13 que tivera que tomar
conta da casa pois era necessário cozer o pão, semanalmente, para sustento da
família. Era necessário lavar roupa, passar a ferro, passajar roupa rota ou
descosida, fazer as refeições para uma família de oito pessoas se incluirmos o
pai dela. Tinha dois irmãos mais velhos, o meu tio José e o meu tio António,
solteiros e a viver na casa do pai. Depois era a minha mãe, Adozinda, a minha
tia Maria, o meu tio Manuel, o meu tio Joaquim e por fim a minha tia Iria.
Recordo com lembranças muito nítidas dos casamentos dos meus tios Manuel,
Joaquim e Iria.
O
meu avô José Pina faleceu tinha eu seis anos e, estou convicto de que serei o
único neto a ter reminiscências suas, já que sou o neto mais velho. As
recordações dele são de uma pessoa velhinha, muito bondosa, carinhosa e
extremamente meiga. Porém a minha mãe e o meu pai relatavam-me factos de uma
enorme grandeza. Ao contrário do que era costume à época quando o meu avô bebia
uns copos aos domingos ou dias de festa naquela casa não havia zaragata como
era geral e corriqueiro nas demais famílias. Havia cantoria, récitas e todo um
conjunto de actividades culturais mesmo junto da cama da minha avó que, era voz
corrente, cantava fantasticamente. Sabia todas as modas saídas daqueles
romances de cordel muito em voga que apareciam nas feiras e romarias, para além
daquelas que a tradição lhes tinha transmitido.
Lembro-me
que o meu avô era uma pessoa muito respeitada. Um artista muito requisitado e
posso dizer que muitas das casas existentes na Meimoa tiveram o seu cunho e são
fruto do seu suor.
Este
ramo familiar materno, talvez por que se começou a diluir muito cedo, não teve,
na minha vida, a mesma influência e a mesma preponderância do ramo paterno.
Mesmo assim recordo com muita saudade as visitas às casas dos meus tios,
principalmente em épocas festivas, Natal, Carnaval e Páscoa.
Apesar
destas limitações e de, na altura em que escrevo, apenas estar ainda entre nós
a minha mãe, todos os meus tios e respectivos cônjuges já terem falecido,
lembro-me de ser apaparicado por todos e recordo com saudade todos eles.
O
mais velho era o meu tio José que teve quatro filhos - o Joaquim, o Francisco,
a Rosa e o Victor - faleceu muito jovem era o Victor bebé. Tinha, segundo
creio, 42 anos. Faleceu por causa de uma dor de dentes e um inchaço, na cara o
que demonstra bem a miséria e o abandono a que as pessoas eram votadas.
Infelizmente também o meu primo Chico já faleceu e era, igualmente muito jovem.
O
meu tio António (Ferreiro), ainda hoje não sei por que tinha a alcunha de
ferreiro sendo ele um extraordinário pedreiro nunca casou. Era beberrão e um
tanto desordeiro. Teve o azar de ainda novo vazar o olho direito num bico de
arame farpado. Morreu só e abandonado, porque toda a família estava fora do
país.
A
minha tia Maria, minha madrinha de baptismo tivera três filhos, o José, a Maria
Teresa e o Luís e fez vida, até à aposentação, em França, mais concretamente em
Tours para onde foi na grande leva de emigração clandestina na década de
sessenta do século passado.
O
meu tio Manuel casou, não teve filhos, e morreu com 39 anos com doença
desconhecida.
O
meu tio Joaquim também um pedreiro exímio, de horizontes mais vastos, passou
alguns anos da vida dele na França mas nunca quis que os seus filhos deixassem
Portugal onde os educou. Também teve quatro filhos, o José Manuel, a Amélia, a
Joaquina e a Teresa Maria. Este, também já faleceu, mas no conforto do lar
sempre apoiado pela inestimável esposa, a tia Rosa.
A
tia Iria, a mais nova, faleceu com 62 anos, no Hospital de Castelo Branco, não
por falta de assistência médica mas, porventura, por doença incurável. Teve
cinco filhos, o Joaquim, que eu levei para Angola para ver se lhe proporcionava
um serviço militar obrigatório mais facilitado em tempo de guerra, a Albertina,
a Elisabete e a Manuela. Esta tia trabalhou imenso, ela e o marido no
Luxemburgo e arranjou um bom pé-de-meia mas o seu falecimento foi calamitoso
para toda a família, particularmente para os seus filhos já que, o viúvo o “Justa”
assim chamado por alcunha revelou-se um ser humano execrável. Arranjou uma
mulher, segundo dizem de má-vida, através de um anúncio numa revista e num acto
de puro desajuste psicológico deserdou os filhos, até da parte que lhes
pertencia por morte da mãe, há anos que o assunto anda em Tribunal mas o facto
é que a piranha é usufrutuária de todo o pecúlio e os meus primos estão sem
nada. Qualquer dos meus primos estão bem na vida e não necessitam da herança
dos pais mas é revoltante verem estranhos que os roubam e ainda os ofendem. Uma
tristeza quando o senso não existe.
Sou
amigo de todos os meus primos, quer de um ramo quer de outro, que eu considero
como irmãos que eu não tive e, como o patriarca da família, preocupo-me com
todos eles e eles fazem a gentileza de me demonstrar a sua amizade, o seu amor.
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