Sunday, October 04, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE II

 

Outras vidas geraram seres que marcaram várias épocas e outros tempos.

Comecemos pelo bisavô, Manuel de seu nome, para não alongar no tempo esta história.

Decorriam as duas últimas décadas da Monarquia Portuguesa. Tempos difíceis para o Povo, já que tendo uma Corte numerosa e parasitária, alguns Reis frouxos e mais dados ao divertimento do que à governação, o mundo rural era ainda o espaço onde se produzia aquilo que a Nobreza comia e desbaratava.

O bisavô paterno era, à época, um homem de estatura acima da média. Homem valente com voz tonitruante que impunha respeito sem precisar de utilizar nenhum dos seus dotes da autoridade, que possuía, porque era manso de coração e aquilo que se apelidava, na época, de um Homem Bom. Tinha posses abastadas em terras que, numa altura em que a agricultura, era a única fonte de riqueza nacional, era um cartão-de-visita inestimável junto da população quase desprovida de tudo. E isto servia para ajudar a matar a fome a muita gente e, como também era natural, a manter e até a aumentar o seu pecúlio pessoal.

Como era costume casou na altura própria e, como também era frequente, perdeu a mulher quando esta estava de “esperanças” e preste a nascer o primeiro filho. Ficou o homem sozinho, desalentado e triste, como é bom de ver. Dedicava pois, todo o tempo de que dispunha, ao trabalho, cansativo, do campo e aos negócios a estes ligados.

O tempo foi passando e o viúvo, ainda na flor da idade, sentia que carpir mágoas da perda da sua mulher mais querida, não a faria trazer de volta e a amargura não era boa conselheira para a vida de um Jovem. Passados dois anos após o passamento daquela que fora a sua companheira, que ele queria para a vida inteira, entendeu que seria a altura de tentar refazer a sua situação, sem que isso significasse esquecimento ou menos respeito pela mulher que o destino quisera que o deixasse, prematuramente.

Havendo na povoação uma viúva, de olhos azuis, estatura mediana e rechonchuda, com uma postura de algum requinte e até outra tanta prosápia, de idade mais ou menos semelhante à do Manuel, amiga comum de outras pessoas por quem este tinha muita consideração, lá começaram a partilhar serões e outros convívios.

A Maria, com dois filhos espigadotes para sustentar, mas a quem começavam a faltar as posses para que fosse possível manter o estatuto que tivera enquanto o defunto marido era o sustento da casa, vivaça como poucas, viu no Manuel uma oportunidade que hoje se diria de oiro.

Se o enlace se consumasse poderia continuar a aparentar junto da sociedade todo aquele “status” a que se julgava com direito sem ter que trabalhar no duro do campo, única fonte de rendimento da generalidade da população.

Calculista como sempre fora, tratou de se “embonecar” com os melhores vestidos, saias e blusas que tinha, colocava o, indispensável, pó de arroz para que a sua tez parecesse mais alva do que, de facto era, e passou a fazer-se encontrar, como por acaso, nos lugares que o Manuel frequentava.

O tempo ia passando e, ardilosamente, lá se foi mostrando enamorada do viúvo rico, valente, bem-parecido e respeitado por todos.

Enamorar será, porventura, algo exagerado mas, certamente, algum apreço pelo Homem e, já agora, porque não dizê-lo, pelo que este possuía de seu.

Era, aquilo que hoje se poderia apelidar de um “negócio” satisfatório para ambas as partes. Ele ficava com uma mulher com alguns predicados acima da média, e ela recebia, em troca, a abastança que lhe permitia viver o dia-a-dia com um nível de vida superior à maior parte das mulheres da aldeia.

Desta forma, ela mantinha a prosápia que fora sempre seu apanágio, chegando ao exagero de simular uma tosse especial para se fazer notar na Missa Dominical e mandando fazer sapatos com uma “alma metálica e couro em flor” especial, para que chiasse quando pisava o chão da igreja, conseguindo assim, ser o alvo da atenção daquelas outras mulheres que, muitas vezes, nem sapatos tinham para calçar.

Deste enlace nasce um rebento que é criado com todo o carinho pelos pais, como é óbvio e natural. É igualmente criado com tudo o que de bom havia na época e se destinava às crianças. Vivia então o casal com os três filhos – os dois filhos da esposa eram, para aquele homem bom, como se fossem, naturalmente, seus – e tudo corria na melhor harmonia sem que nada faltasse naquela casa abastada, de Província.

Os filhos do primeiro casamento da bisavó, como era natural e comum nas circunstâncias, trabalhavam no campo já que tinham idade e corpo para tal, tratando das Juntas das Vacas lavrando terras, semeando e colhendo, ao lado dos assalariados e do Padrasto e, sob orientação deste, enquanto o bebé ia crescendo entre as envoltas de lã e os fatinhos de linho fino todos enfeitados com rendas.

O menino, Ricardo de seu nome ia, quase em analogia com os ditames Bíblicos, crescendo em tamanho e sabedoria. Sim, pode dizer-se em sabedoria porque, desde a primeira infância, se interessou por livros, jornais, panfletos e tudo o que à leitura dizia respeito e estava disponível, numa aldeia recôndita do interior de um Portugal rural até à medula. Hoje apelidar-se-ia de Portugal Profundo, para se ser politicamente correcto.

Chegada a altura de o Ricardo ir para a Escola, ainda que esta não fosse obrigatória e funcionasse num pardieiro sem qualquer tipo de condições, o menino teve direito, ao contrário da esmagadora maioria dos seus conterrâneos, com a mesma idade, e dos próprios “meios-irmãos” a frequentá-la. E, diga-se em abono da verdade, era o encanto do seu professor, encanto que se estendia ao pai e à mãe, pela vivacidade, interesse, inteligência e capacidade de aprendizagem que demonstrava a cada pé de passada.

Em pouco mais de dois meses estava o menino a ler a Cartilha Maternal de João de Deus e pouco tempo depois já devorava tudo o que fosse letra de imprensa ou manuscrita. Ao mesmo tempo, também nele se desenvolvia o gosto pelas contas e pelos números, a Aritmética que tanta falta faz aos alunos de hoje, desenvolvendo o cálculo mental e não só, e aprimorando a redacção de textos cujo tema o professor lhe indicava diariamente.

Se estes predicados eram o orgulho do professor, do pai, da mãe e das demais pessoas que com ele conviviam, os mesmos iam criando uma espécie de ciúme e até, da pequena inveja, nos dois irmãos fruto do primeiro casamento da mãe. É que, enquanto o menino brilhava aos olhos dos convivas, os outros, devido ao analfabetismo de que padeciam, não podiam nem se atreviam a intervir nas conversas e, muitas vezes, nas disputas políticas que à época se viviam, enquanto que, a opinião do petiz era ouvida em silêncio, com respeito e até admiração.

Estávamos então em pleno desabrochar da 1ª República e toda a panóplia de controvérsia de que o País padecia. É que, se havia na terra quem, por conservadorismo ou influência eclesial se posicionava a favor da monarquia já o Ricardinho e o Pai eram pela República e defendiam-na com argumentos que, raramente, encontravam adversários à altura de entrar nas discussões políticas, que sempre surgiam quando se juntavam os homens da comunidade – a taberna – sim, por que nesta, não entravam mulheres que, na época, se destinavam apenas, a ser boas esposas e melhores mães.

Quase que se poderia afirmar, com alguma propriedade que, então, “aos homens o que era dos homens e às mulheres o que era das mulheres” na boa tradição da cultura judaico-cristã, que imperava em força na sociedade Portuguesa, até ao 5 de Outubro de 1910 e que, mesmo depois dessa data, ainda que sub-repticiamente, se ia perpetuando sem grandes alaridos ou reivindicações quer de homens quer de mulheres. Vivia-se acomodado, cada um na sua, sem altercações ou ambições que, aos olhos de hoje, eram, apenas e só, miragens fruto da imaginação individual e colectiva.

Mas, como diz o povo: “não há bem que sempre dure, nem mal que ature” e sobre este “menino-prodígio” abateu-se a maior das desgraças que pode acontecer a uma criança, quando ainda frequentava o que, então se designava por ensino primário complementar. Faleceu-lhe o pai, subitamente. Como era vulgar à época a morte súbita era uma situação banal e frequente. Não havia médicos e as mezinhas caseiras nem sempre davam conta da doença mais corriqueira e hoje considerada benigna. As pessoas do mundo rural e, não só, mas sobre tudo, morriam sempre sem assistência clínica científica. A única pessoa que tratava algum ferimento ou uma dor de dentes, era o barbeiro que, a sangue frio, arrancava todos aqueles que apodreciam, por excesso de cárie e por falta de higiene oral.

Apesar desta perda indescritível, o agora quase rapaz, era herdeiro, por força testamentária, de uma pequena (grande, para a época) fortuna e, segundo a vontade do pai, enquanto viveu, o miúdo estava destinado à advocacia e não, como era muito vulgar na altura, ao sacerdócio. Daí que, apesar de órfão, o Ricardo, com a protecção e o incentivo do professor e o seu interesse pelas letras, lá rumou à capital do Distrito, local onde existia a única Escola Pública – o Liceu - onde se ministrava o ensino secundário.

O rapaz, espigadote, de têmpera rija e o espírito de aventura interiorizado, que lhe advinha da genética paterna, lá foi, ora a pé, ora em cima de um burro que carregava, também, os seus pertences, o enxoval como era entendido, até à estação do Caminho-de-ferro mais próximo, para apanhar o comboio, que o transportou até ao destino, que era, como ficou dito, o Liceu.

Ali chegado, vivaço como era, mas ao mesmo tempo, simpático e cordial logo fez várias amizades entre as quais se destacava uma menina linda, de tranças bem arrumadas e feitas com perícia, que depois rematava no cocuruto da cabeça com um travessão de madrepérola. A Sãozinha como a tratavam, era natural de sede do concelho o que facilitou, desde logo, uma grande, sincera e desinteressada amizade que, se cimentava quotidianamente por se ampararem mutuamente, já que ambos estavam longe das respectivas famílias. Amizade que perdurou por dezenas e dezenas de anos.

A menina lá se fez Professora do Ensino Primário, como era apanágio dos tempos, tendo regressado à terra Natal e aí constituído família, sem que esquecesse o pequeno amigo que perdera de vista durante alguns, poucos, anos.

O rapazola não pôde, por fraqueza materna e inveja dos irmãos, seguir o desejo do seu falecido pai. Após o primeiro trimestre as discussões eram tantas e tão graves que o menino, na sua ingenuidade e incapacidade de perceber que os irmãos, já homens feitos, estavam a condicionar o seu destino, já não regressou ao Liceu para prosseguir os estudos. O ciúme, a inveja e a necessidade de mais um braço para os afazeres da lavoura fez abortar a vontade dos pais e o incentivo do professor.

Mas o Ricardo já tinha percebido que não nascera para desbravar terras de enxada na mão e os seus interesses eram outros que não passavam por ser mais um agricultor rico. Queria outra coisa qualquer, não sabendo, ainda bem o quê, como é próprio de qualquer adolescente. Daí que, por vezes, se impunha aos irmãos e logo que começou a ter idade e corpo bastante passava a vida, com os seus maiores e melhores amigos, em namoricos e petiscadas que eram o divertimento de todos aqueles que o podiam fazer.

Os irmãos, entretanto casados e com filhos, começaram a sentir a falta da fortuna do irmão e daí a tentar seduzi-lo, com pedidos de empréstimos que nunca mais repunham, até à cedência de terrenos por rendas que nunca eram pagas foi um pequeno passo. Sabiam, por experiência própria, que o coração bondoso do meio-irmão, sempre seria sensível às suas dificuldades e maiores necessidades. Daí a socorrerem-se, frequentemente, às vezes mais do que seria normal e verdadeiramente necessário, desta “fraqueza”, que no caso era apena bondade, do irmão mais novo e lhe surripiassem sem decoro e pouco dignamente, uns escudos que, alegadamente serviriam para combater a fome aos sobrinhos e que, a maioria das vezes, se destinavam à taberna para se embebedarem e depois criarem as zaragatas costumeiras e o mau viver familiar.

A mãe, não querendo desagradar ao seu menino a quem deixava fazer tudo, mas ao mesmo tempo a querer ver os outros dois filhos viverem com algum desafogo a que estiveram habituados enquanto viveram na casa materna, lá ia convencendo o Ricardo a ser benevolente com os irmãos e, este, como mãos largas que sempre foi e desprendido dos bens materiais, sentindo e tendo consciência plena de que estava a ser espoliado, o seu amor fraternal falava mais alto e permitia que aqueles dois se aproveitassem da sua bondade e, pouco tempo depois, até da sua protecção física perante terceiros que, mais frequentemente do que seria desejável, lhes queriam coçar o pêlo, pelas diatribes em que eram exímios.

O Ricardo, com apenas dezoito anos feitos, já era o retrato do pai. Homem forte e valente a quem não punham o pé na frente, tratasse-se do quê e de quem quer que fosse. E quer o assunto fosse de índole exibicional de força, destreza, de perfeição no trabalho, ou até de conhecimento e mesmo sabedoria, ele estava sempre à frente, no lugar dos que se destacam por feitos que outros, por limitações diversas, jamais conseguiriam alcançar.

Mas, ao mesmo tempo que se impunha aos demais com aquilo que se poderia chamar de feitio algo brigão, que na época até era uma forma de afirmação e de poder, tinha um coração do tamanho do Mundo e estava sempre disponível para defender os mais fracos, os mais humildes, os menos capazes. Nunca usara da sua força e do seu poder para humilhar fosse quem fosse e, muito menos, os que se encontrassem em desvantagem física, material ou psíquica.

Daí que, desde o escrever cartas para namoradas ou namorados que iam servir na tropa, até ser o avaliador de partilhas, aceite plenamente pelas partes, dado o sentido de justiça que todos lhe reconheciam, até ao tratar de documentação nas repartições públicas da sede do concelho, para tudo isto servia e estava sempre disposto o nosso Ricardo.

Como é bom de ver e como refere o ditado popular, “quem o seu não vê o diabo lho leva”, consequentemente, de vez em quando, lá tinha que vender uma propriedade para fazer face às despesas que essas eram certas e ele não queria que faltasse nada à mãezinha do seu coração, que, entretanto, continuava com a sua prosápia a beber chá com as senhoras suas amigas e a confraternizar com a “nata” da sociedade local.

Os irmãos mais velhos o Manuel e o Francisco lá iam vivendo a sua vida de “coitadinhos” que nunca deixaram de ser. O Manuel casou com uma mulher com poucas virtudes e bastantes defeitos, daí a ter criado uma prole bastante alargada, mas quase toda marginal e marginalizada socialmente. Porque desde serem amigos do alheio até à conflitualidade generalizada, eram pródigos em zaragatas e atritos com vizinhos e demais população não sendo aceites pela generalidade das pessoas, sendo sim ostracizados o que, num ciclo vicioso, cada vez os marginalizava mais e eles se sentiam mais marginalizados.

Daí aos conflitos constantes com a generalidade da população e os pequenos furtos, umas vezes para matarem a fome, outras porque se tornara vício de não poderem ver nada a jeito de surripiar, serem o prato do dia, uma constante vivência daquela família, pais e prole incluídos.

O Francisco sendo um homem pouco Homem merecia, apesar de tudo, alguma consideração das pessoas. Tinha casado com uma mulher de muito bom trato e dada a fazer amizades o que lhe facilitou a vida em sociedade. Teve três filhos, sendo uma rapariga que viveu solteirona até aos quarenta e tal anos e mais tarde veio a casar com um viúvo sem filhos. Os rapazes: o mais velho era trabalhador ainda que de porte frágil e tornou-se um bom ganhão que fazia das juntas de vacas o que queria com a sua bonomia e carinho que lhes dedicava, daí merecer o respeito e até a disputa por patrões diversos. O mais novo já nasceu tardiamente e, como geralmente acontece nestas circunstâncias, os pais deixam de o ser para parecerem avós o que, em geral, dá maus resultados. Tornou-se num vadio e num arruaceiro que se juntava aos outros primos, filhos do tio Manuel e, por isso mesmo, andava sempre metido em sarilhos e zaragatas que faziam sofrer o pai, mas principalmente a mãe e a irmã.

O Ricardo, por sua vez, casou cedo, porque engravidou uma Santa de uma rapariga, a Maria, filha de boas famílias mas que a sua mãezinha não julgava estar à altura dos pergaminhos do seu filho que não sendo advogado como sonhara, era um homem culto, inteligente e respeitado. Daí que, sabendo que o filho queria honrar o compromisso que tinha com a sua noiva, mas necessitando, por força da Lei, de autorização para se casar já que dezoito anos de idade, à época era menor e, para tal tinha que ter autorização dos progenitores, na circunstância, da mãezinha. De salientar que a maior idade se atingia apenas aos 21 anos.

Desta feita, com o seu feitiozinho de nariz empinado e com manias de superioridade a mãezinha do Ricardo resolveu fazer-lhe uma maldade não o deixando casar a não ser com a condição de os pais da Maria lhe doarem, em vida, o equivalente à fortuna do Ricardo.

Ora, na época, só o facto de engravidar antes do casamento já era motivo de falatório na aldeia, ser mãe solteira era quase impensável. Mas neste caso, infelizmente, a Maria lá teve uma filha antes de casar apesar de continuar o noivado com o seu Homem de sempre e este, com a sua Mulher de toda a vida. Após o nascimento da primeira filha, e mantendo-se a caturrice da mãe do Ricardo, os pais da Maria lá cederam e fizeram a doação exigida pela mãezinha do Ricardo e este mais a sua noiva lá casaram, pouco tempo depois.

Deste casamento nasceram nove filhos tendo morrido um à nascença e os restantes sobrevivido até ao ano de 2004, ano do falecimento da primeira filha. Os restantes irmãos, na data em que se descreve esta história da vida, ainda são vivos e estão de boa saúde, o mais velho dos quais, com oitenta e oito anos que, por acaso ou destino, é um pai muito querido está ali sentado num sofá enquanto se descarrega para o computador algumas das memórias vividas outras ouvidas, vezes sem fim, por avós, pais e tios.

Ora, o leitor, neste momento já não terá dúvidas de que o narrador destas vidas e estes sentidos de vida, conheceu por dentro as personagens e as personalidades atribuídas a cada uma destas, sempre as viveu e sentiu com sentido crítico e sempre se habituou a destrinçar os diferentes exemplos: de verticalidade, honestidade e sentido de justiça, por quem sempre nutriu uma admiração, um carinho e um amor muito especial e, simultaneamente, a vileza e canalhice dos oportunistas sem escrúpulos. Foi talvez esta vivência que moldou a personalidade da criança, do adolescente, do adulto e quase velho em que se tornou o escrevente.  O Zé, o escrevinhador de agora, fora sempre uma criança feliz, criada com mimos mas também com exigências, que se traduziram sempre num amor ao trabalho honesto e produtivo.

Daí ter sentidos de vida em diversas profissões e adquirido aprendizagens que só as vivências proporcionam, sem que, contudo, possam dispensar a Escola, “stritu senso”, com a dignidade que por estes tempos se lhe vai retirando, quer por políticas erradas, quer por incompetência técnica, quer ainda por incapacidade da sociedade em dar lugar de destaque aquilo que tal merece.

É, e tem sido, uma espécie de Ricardo, visto, sentido e vivido como um mestre exigente, rigoroso, mas carinhoso em simultâneo, e exemplo de vida nos aspectos da Justiça, da Clemência e da Defesa dos mais fracos e desprotegidos da vida, contra a prepotência dos poderosos ou pseudo-poderosos. Da Honestidade na palavra dada, que valia e vale mais que escritura notarial, mas ao mesmo tempo, quando convicto da sua razão jamais se verga(va) perante fosse quem fosse, por mais poderoso que se mostrasse ou se pretendesse arvorar. Desses, em regra, só nutriu e nutre sentimentos de desprezo pelo despotismo, usura, indignidades, roubalheiras e canalhices associadas a todo este tipo de comportamento.

Para ilustrar o que se acaba de afirmar, uma pequena história que foi presenciada, vivida e sentida, ainda o uso da razão era pouco esclarecido, apesar de ter ficado no baú das recordações indeléveis.

“Uma rapariga casadoira, cumpria o desígnio normal e preparava-se para se unir em matrimónio, cerimónia que queria que fosse abençoada por Deus e, como é evidente, a primeira entidade a ser contactada foi o sacerdote residente e pároco da Igreja Matriz da aldeia. Como era costume na Terra, tornava-se necessário doar ao Prior uma galinha dias antes da realização do matrimónio, para além de lhe levar a casa uma fogaça de tudo o que se comia no dia do casamento, que dava para o Prior e a família comerem uma semana inteira.

O Prior, homem culto mas intempestivo, ganancioso e prepotente, todo-poderoso, na subserviência que o Estado Novo, Salazarento, dedicava à Igreja e aos seus agentes mais directos, achava-se no direito de exigir ao Povo, tudo o que lhe apetecia, entrando em contendas, disputas entre vizinhos, politiquices e outras coscuvilhices, que lhe chegavam aos ouvidos pelas tias, irmã, cunhada e outras beatas que tinham acesso ao seu pedestal.

Enquanto devia apascentar e catequizar, com as palavras do Evangelho e os ensinamentos de Jesus Cristo, explicando-as mas e, principalmente, praticando tais ensinamentos, que fossem exemplo para todos os Cristãos, este procurava, apenas, retirar do cargo que exercia, os privilégios que o mesmo lhe concedia deixando, os ensinamentos de um Cristo Humilde e Misericordioso, apenas para os outros cumprirem. Está bem de ver que um Padre com os atributos que se descrevem não suscita simpatias ou amizades e não foram os costumes ancestrais até a religiosidade do povo punha em causa. Não são todos assim, felizmente, nem pouco mais ou menos. Tal Padre havia de embirrar com o pai da noiva já que era dos poucos que o enfrentava e não lhe admitia a arrogância com que tratava a maioria dos paroquianos. Ainda por cima eram mais ou menos da mesma idade e enquanto garotos lá levava umas cambalhotas e umas lambadas dadas por este.

O Padre não era homem de esquecer desaforos e do alto do seu poder muitas vezes vindo do Altar, aproveitava a Homília para achincalhar este ou aquele o que nem sempre acabava bem, chegando a haver vozes do coro – lugar destinado aos homens nas cerimónias de culto – a chamar-lhe burro e outros epítetos igualmente depreciativos mas inteiramente merecidos.

Mas voltando ao princípio da nossa pequena história do casamento, o Padre disse à noiva que a galinha era nova e por isso ainda não tinha o tamanho suficiente, como tal deveria levá-la para casa e depois de crescida e mais gorda a viesse entregar lá a casa. A moça, envergonhada e chorosa, lá voltou para casa com a galinha e à chegada o pai perguntou: - o que se passa rapariga? A noiva soluçando lá foi articulando o que lhe acontecera: - o Senhor Padre disse que a galinha é pequena e que deveríamos criá-la e engordá-la e só depois é que a recebia. Se calhar não me quer casar. Deixa lá rapariga não te aflijas eu vou falar com o Padre.

Chegado à fala o Pai da noiva perguntou ao Prior, se o facto de não aceitar a galinha era prenúncio de não efectuar o casamento? Este, que conhecia bem o feitio e o carácter recto e impoluto do paroquiano respondeu, prontamente, que não se tratava disso, apenas a irmã dele achava que a galinha devia ser maior. Responde então o pai da noiva:- então estamos conversados e amanhã, há hora estipulada, lá estaremos para casar a minha filha que foi daqui toda amargurada como o Senhor Prior deve calcular. Está combinado disse o Padre. O Ricardo como, certamente, o leitor já tinha intuído, que era a personagem pai da noiva, chegado a casa vira-se para a família e para os amigos presentes: - ora vamos lá a ver, o Padre não quis a galinha dizendo que é pequena, mas para nós dá perfeitamente para fazer um petisco e bebermos uns copos. O que é que acham? Era fácil o acordo, como é bom de ver. Comeram a galinha e o Padre, se fosse vivo, ainda hoje estaria à espera de outra galinha porque o Ricardo, jamais permitiu que fosse entregue qualquer outra. Não é porque as não tivesse, já se vê, era por questões de princípio e de não subserviência. O Homem era assim e era desta forma que todos o admiravam e continuam a admirar e a guardar a sua imagem, saudosamente, no seus corações”.

Há quem diga, principalmente os que com ele mais privaram de perto, que o narrador até tem algumas parecenças com ele, no trato, na postura, na vida. Não sabemos se é verdade. Há muitas coisas que ele fazia que nós nunca fizemos nem queremos fazer. Não bebemos, não fumamos, não tratamos a família com agressividade, como ele, quando estava com os copos. Mas, sem pudor e até com orgulho, somos como ele, sendo amigo do nosso amigo. Damos a camisa pelos mais desfavorecidos. Vamos à luta na defesa da Justiça, da Verdade, da Lealdade, da Solidariedade. De qualquer forma não deixa de ser uma satisfação e até uma vaidade, este piropo.

O, agora Ti Ricardo como era tratado pelos seus pares, era um homem destemido e até algo aventureiro e, já com quatro filhos, quando as dificuldades económicas se começaram a sentir, fez-se à vida e emigrou para a França levando consigo a mulher e os filhos, alguns de colo. Ali viveu momentos de muito trabalho mas de abastança e os filhos tinham direito a guloseimas e outras prendas que lhes poderiam ser úteis na vida numa sociedade em que, necessariamente, ainda não estavam integralmente inseridos. Até existe uma fotografia que retrata a partida ou a chegada, já não se pode afirmar com toda a certeza, onde os garotos apareciam de fatinho e “papillon”, todos janotas e a mulher com uma barriga que era demonstrativo do Estado de Graça em que se encontrava e, como tal, era admirada e respeitada por todos. Sim porque o que lá vai la vai e depressa foi esquecido o triste episódio de ser mãe ainda solteira e passou muito rapidamente a ser admirada pela sua bondade, o seu carinho pela família, o seu respeito por todos, a sua capacidade de trabalho e a disponibilidade total para socorrer e ajudar de quem dela precisasse. Até se tornou na parteira da terra e muitos dos sexagenários e septuagenários vivos e naturais desta freguesia ainda hoje se lembram dela com muito carinho, estima e amizade, a quem se habituaram, desde crianças, a chamar a avó Maria e a quem iam pedir, como era hábito, a “bica” – pão de trigo amassado com azeite e espalmado até se transformar num rectângulo de cerca de 40 por 20 centímetros - na Páscoa, chamado folar.

Mas o clima de Guerra por toda a Europa cheirava-se ao longe e, como aconteceu na época e ainda hoje acontece, embora de forma mais mitigada, porque voluntária, os não naturais franceses eram os primeiros a serem recrutados para a Legião Estrangeira. O Ricardo não pensou duas vezes e mandou de regresso a esposa e os filhos, a pretexto de que esta deveria ter o filho que esperava, em Portugal e poucos meses depois cá estava ele de volta, eventualmente, como menos recursos do que aqueles que tinha quando emigrara.

O Ti Ricardo nunca foi homem de guerras, pelo contrário, fora sempre um apaziguador nas situações mais diversas, na comunidade em que se inseria. Isto mesmo se prova pela atitude tomada quando cumpria o Serviço Militar Obrigatório. Se tivesse optado por seguir a vida militar foram-lhe oferecidas as divisas de Sargento, o que na altura não era facto displicente, quer pela honra em servir a Pátria, quer pelas benesses e remunerações que tal cargo carreava. Mesmo assim, porque era um homem de paz não se identificava com a vida militar por mais digna e honrosa que a mesma era ou é e, de imediato, recusou, com as consequências negativas, a nível monetário, que tal atitude implicou. Mas as coisas são como são e as pessoas também. Nem todos querem abraçar profissões só porque elas dão prestigio ou poder. Acima destes atributos põem consciência, integridade, inteligência e sabedoria.

Por causa desta tomada de posição do pai, os filhos mais velhos, ainda pouco mais do que adolescentes, tiverem que deitar as unhas de fora e trabalhar no duro do campo, para poderem andar de cara levantada e viverem sem privações de maior. Racionalmente, alguns deles, homens feitos, ao ouvirem da boca do pai, que admiravam muito para além do respeito que lhe tinham, não concordavam com a atitude tomada e até a consideraram algo imatura e irresponsável mas ao Ti Ricardo não se podia pedir que violentasse a sua consciência e trocasse o seu carácter por “um prato de lentilhas”, isso não seria próprio de quem pautou toda a sua vida por uma coluna vertebral integra, direita e indomável. Mais tarde todos compreenderam e consideraram que fora a atitude correcta pois, desta forma, fizera deles Homens e Mulheres de Bem, respeitados, prestigiados e com uma firmeza de carácter e uma capacidade de trabalho que hoje referem com orgulho: “os nossos primos, quando éramos crianças viviam melhor do que nós, hoje, velhos que somos, todos vivemos melhor do que eles”. E não só agora mas pela vida de adultos fora. 

E cá estamos nós noutras vidas e noutros sentidos de vida, que giram de geração em geração, à volta de uma família digna, prestigiada e respeitada, trabalhadora, inovadora, capaz, competente e lutadora no sentido de ganhar a pulso uma vida melhor, para todos e cada um deste clã. Esta designação não deve, nem pode, ser tomada com eventual significado desprestigiante, no sentido de ser uma família fechada sobre si própria, mas sim por ser uma autêntica família no seu sentido mais puro e autêntico de unidade, de amor, de solidariedade e que honra e prestigia o nome dos seus progenitores, respeitando a educação que receberam no seio do Lar e nos ensinamentos que aprenderam com o exemplo dos seus maiores.

 

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