Sunday, October 25, 2020

A SAGA MILITAR

 

Cumpri com honra o serviço militar obrigatório em época de guerra. Não é fácil para um jovem de vinte anos adiar os seus sonhos e partir para uma vida desconhecida, perigosa, exigente sabendo, à partida, que começava ali uma etapa que, a correr bem, demoraria mais de três anos.

Para quem desde os doze anos trabalhava e tinha construído uma carreira profissional, mesmo no campo operariado, um interregno de, cerca de três anos, no seu projecto de vida era um abalo, um obstáculo, um impedimento, um atraso no percurso. Tendo consciência de um dever patriótico, nem por isso, deixa de ser um sobressalto que não se resume à perigosidade da situação. Vai para além disso. Na época qualquer jovem considerado normal ambicionava casar, constituir família, ter filhos, até aos vinte cinco anos de idade. Um tempo militar longo e mal remunerado, não era atraente, era mais um castigo. Mas o dever falava mais alto e não passava pela cabeça de ninguém – quase ninguém – a deserção até porque esta traria consigo mais atraso do que aquele que era provocado pela tropa. Por isso, passados mais de meio século, continuo a pensar que os que optaram pela deserção não o fizeram por altruísmo nem pela concretização do seu projecto de vida, mas sim, por cobardia e por falta de valores morais, éticos, patrióticos e sentido de identidade e nacionalidade.

No dia onze de Maio do longínquo ano de mil novecentos e sessenta e quatro, convocado para tal, lá me apresentei na Escola de Aplicação Militar de Angola (EAMA) sita em Nova Lisboa, de então, hoje Huambo, em Angola.

Levava uma guia de marcha passada pelo distrito de recrutamento militar de Luanda onde estava escrito que iria frequentar o Curso de Sargentos Milicianos, curso esse que era composto por dois ciclos.

O primeiro ciclo comum a todas as armas do exército português, composto por exercícios de Ordem Unida, procedimentos militares em parada, ginástica com educação física normal para moldar e tonificar o físico para o esforço e ginástica de aplicação militar composta por exercícios de guerra, tiro e privação de necessidades básicas, com vista a reforçar o espírito combativo, mas também de resiliência e fortaleza psicológica para em teatro de guerra não haver vacilações ou medo.

O segundo ciclo era de formação específica, consoante a arma que era destinado. Este curso destinava-se a formar graduados com capacidades de liderança e conhecimentos nos diversos campos e actividades militares do Exército. Assim, alguns mancebos eram destinadas à cavalaria que lhes permitia entrar na guerra com armamento pesado como tanques e obuses. Outros em engenharia para a construção de estradas, mas principalmente, pontes de pequena monta mas indispensáveis para o atravessamento de rios ou declives que facilitassem a mobilidade das demais tropas. Outras à Artilharia e por último os de Infantaria que eram a maioria. Havia, também, especialidades mais refinadas e que careciam de menos homens mas mais especializados como eram os casos das Transmissões onde se aprendia o morse, o cripto e também a montagem, reparação e utilização de rádios para comunicação entre as diferentes entidades e unidades militares, bem como as de organização e gestão militar, onde pontificavam os serviços administrativos, administração militar e até correio em papel – na época não havia correio electrónico – embora houvesse telex, telegrama.

Na nossa guia ia mencionada a unidade a que nos destinávamos que era o BTM 361, mais tarde designado por Batalhão de Transmissões de Angola sedeado em Luanda e que coordenava todas as comunicações militares dentro do território Angolano e fazia a ponte com o Estado-maior do Exército com sede em Lisboa. Diga-se que, na altura, não havia telefones civis entre Angola e Portugal continental a não ser nas grandes estações dos Correios e qualquer telefonema exigia a intervenção de uma telefonista. Porém, no Batalhão de Transmissões era possível estabelecer ligações directas com a Metrópole sem passar por qualquer interlocutor. Daí ser o ponto de encontro de excelência, dos oficiais superiores, com o posto de Major para cima, Tenente Coronel, Coronel e General, que se socorriam dessa ferramenta, com a aquiescência do Comandante do Batalhão, também ele um Tenente Coronel, para falarem de viva voz com a sua família muito esporadicamente.

Isto queria dizer que, depois de concluída a recruta, o tal primeiro ciclo, em Nova Lisboa teríamos de nos apresentar em Luanda para concluirmos o curso de sargentos milicianos. É claro que nós nada sabíamos deste pormenor e na tal informação passou-nos completamente despercebida.

Viajámos num autocarro velho, sem grandes cómodos, como eram todos os autocarros da altura que percorriam picadas, não estradas como hoje as conhecemos.

Saímos de Luanda pelas sete horas da manhã. Éramos cerca de quarenta rapazes, muitos deles desconhecidos, outros amigos de infância.

Ainda que tristes, todos, por termos deixado família e, alguns, namorada, cabisbaixos, percorremos os primeiros cem quilómetros num silêncio sepulcral. Mas depois, estas idades são de alegria e, porventura, de alguma irresponsabilidade, começaram as conversas com o companheiro do lado que se foram alargando a todo o autocarro depressa passando para a galhofa e o anedotário em voga.

Dizer que a distância entre Luanda e Nova Lisboa eram cerca de setecentos quilómetros. Que a estrada só tinha sessenta de asfalto e que o restante era picada em terra batida. Também dizer que o autocarro não conseguia fazer média de velocidade superior a sessenta quilómetros horários, isto se não chovesse, porque se tal acontecesse poderíamos ter de passar várias horas parados até que o Sol, abrasador, secasse a picada e, assim pudéssemos prosseguir viagem. Talvez por isso estivesse previsto que saindo de Luanda no dia dez de Maio nos pudéssemos apresentar na EAMA até às dezoito horas do dia treze do mesmo mês.

Os grupos são o diabo e o espírito de grupo é, muitas vezes, incontrolável. Isto vê-se nos grupos de bairro, nos grupos de estudantes, no futebol, nos militares e em muitos outros grupos societários. Naquela viagem começou a surgir o espírito de grupo de muitos jovens que, a partir daquele momento, iriam partilhar muitas situações convivenciais, nem sempre as mais agradáveis.

Desta feita, quando nos aproximávamos da localidade, Quibala, onde deveríamos pernoitar e que ficava mais ou menos a meio do caminho, já o Sol se ia escondendo para lá do horizonte quando começou a surgir a ideia, propagada, de banco em banco que, déssemos uma gorjeta ao motorista, em vez de dormirmos ali, no meio de nenhures, talvez pudéssemos chegar de madrugada a Nova Lisboa, cidade com alguns equipamentos de diversão onde iríamos passar cerca de cinco meses e que nenhum de nós conhecia, poderia ser muito mais agradável para todos esta alteração de programa.

Se fora pensado, rapidamente se pôs em prática, já que nos dispusemos a contribuir para a tal gorjeta, que teria de ser substancial, para que o motorista abdicasse do seu merecido descanso e arriscasse, eventuais problemas, com a entidade patronal.

Assim se fez. Na localidade onde deveríamos jantar e pernoitar apenas fizemos uma refeição ligeira, para não perdermos tempo e chegarmos o mais rapidamente possível à Cidade de Nova Lisboa, onde poderíamos descansar durante o dia, para nos irmos divertir pela noite dentro, naquela cidade desconhecida.

O nosso grupo de amigos, de longa data, era composto por meia dúzia de rapazes e havia um, porventura o mais sensato de todos, o Mário Duarte lembrou-se, quase ao findar do dia, que iríamos ter cinco meses pela frente sem ganhar praticamente nada, o pré era de sessenta escudos por mês, o que não dava sequer para comprar os produtos para engraxar as botas, que quanto mais tempo estivéssemos na pensão mais dinheiro das poupanças que levávamos iríamos gastar e que tal dinheiro nos poderia fazer falta.

Começámos a pensar no assunto reconhecendo, de imediato, que o assunto era avisado e que merecia a ponderação de todos.

Havia obstáculos. No que a nós nos diz respeito, tínhamos planeado só cortar o cabelo no último dia, retirar as patilhas à Elvis Presley para entrar na tropa com um mínimo de anticorpos que, pelos mais velhos sabíamos acontecer. Uma espécie de praxe académica abrutalhada. Esta situação merecia-me bastantes reservas para a incorporação se fazer no primeiro dos três dias aprazados mas o Mário era bastante persuasivo e convenceu-me a ir mesmo assim correndo o risco de ser alvo de alguma patifaria.

É o que tem de ser e, como não houve outras vozes dissonantes e todos os meus melhores amigos estiveram de acordo, lá apanhámos dois táxis e fomo-nos apresentar à EAMA, onde sabíamos que tínhamos dormida e alimentação gratuita.

Chegámos pelas dezassete horas e picos. Não sendo os primeiros recrutas a entrar fomos alguns de entre os primeiros.

O Mário foi à nossa frente e apresentou a guia de marcha. Como ia todo arranjadinho, cabelo cortado rente, barba bem aparada entro directamente no gabinete médico para a pesagem e a medida e receber uma nova guia para levantar fardamento e arma de instrução.

Fui o terceiro do grupo e estava confiante já que, até mim, não houve qualquer desaguisado.

Apresentei-me entregando a guia a um cabo miliciano que, conjuntamente, com um com um furriel, um alferes e um tenente fazia parte da comissão de recepção e, como eu temia, logo ele começou a embirrar como o meu cabelo comprido e as minhas patilhas. Olhou para a guia e verificou que estava destinado a ir frequentar o segundo ciclo no Batalhão de Transmissões que, até dois anos atrás se chamava transmissões de engenharia e ali começou a embirração dizendo: “chegaram os engenheiros e este tem a mania que é bom. Olhai para as patilhas dele”. Eu já ia contrariado e, na circunstância, fiquei pior que estragado e franzi o sobrolho ao que o dito elemento retorquiu: “Olhai que o gajo tem a mania que tem tomates, temos que os ver”. Sem qualquer palavra da minha parte, não me fiz rogado e comecei a desapertar a braguilha. Talvez devido à ousadia e, eventualmente, com receio de que os superiores hierárquicos presentes que, até aí não tiveram qualquer intervenção disse: “ feche lá isso seu porco”. Fiz o que me disse sem sequer abrir a boca. Importa fazer aqui um parêntesis para dizer que o meu saudoso pai antes de se despedir de mim me disse: “Filho, eu também fui tropa e sei do que a casa gasta. Há muitas partidas, muitas brincadeiras estúpidas, muitas punições por dá cá aquela palha. Segue este conselho. Na tropa a gente só se deve oferecer como voluntário se for para passar à disponibilidade, para ir para casa. Quanto menos se falar mais se acerta. Cumprir as ordens superiores sem recalcitrar e, se houver razões de queixa apresenta-la sempre ao comandante de pelotão ou da companhia, em regra um Alferes, Tenente e Capitão”.

Sempre considerei o meu pai como um homem íntegro e muito sabedor nas suas poucas habilitações académicas e, na circunstância, veio-me à memória este conselho e não abri a boca.

Estava a ferver por dentro até porque quem se mostrava mais atrevido era aquele que tinha menos categoria e era o mais novo militar. Era do curso anterior ao meu. Mas calei-me e fiz o que me mandaram. Recebi a tal requisição de fardamento e calçado e dirigi-me, sem mais problemas para o despenseiro da primeira companhia de instrução onde recebi o material, sendo acompanhado por um cabo até à camarata e ao beliche que me estava destinado e o armário para guardar a minha roupa civil e todo o material.

Meti o material dentro do armário sem qualquer organização ou arrumo porque começou a tocar para o jantar.

Ainda vestido com a roupa civil, tal como os outros companheiros que nos apresentámos lá nos dirigimos para o refeitório. Já tinha sentido nova contrariedade pois do meu grupo de amigos só dois ficámos na mesma companhia os outros foram dispersos pelas outras duas companhias de instrução. Naquele ano fomos cerca de seiscentos mancebos incorporados para frequentar o curso de sargento miliciano.

As contrariedades não se ficavam por aqui e, apesar de eu ir mentalizado para um tempo difícil e, completamente, diferente daquele a que estava habituado as coisas que se sucederiam não deixavam dúvidas de que era preciso crescer e amadurecer rapidamente. Deixava de ser um rapaz para passar a ser um homem.

Rapidamente chegou a ordem para nos deslocarmos ao refeitório para jantar. A comida era pior que má, principalmente, para quem era tão esquisito na alimentação quanto eu.

Lá mastiguei umas coisas e sujei o prato como era da praxe, para evitar mal entendidos e esperei que todos os companheiros acabassem de comer. Veio o sargento de dia dar algumas orientações acrescentando que no fim da refeição todos teríamos que descascar uma saca, pequena, de batatas uma vez que a máquina tinha avariado e ainda não havia ordem para a mandar reparar. Coisas incompreensíveis para quem nunca estivera perante tais burocracias e regras tão apertadas.

Ainda estávamos vestidos à civil e esta experiência, não por ser difícil mas por ser insólita, não deixou de ser traumática. Acresce o facto de, nenhum de nós estar habituado a descascar batatas e, por esse facto, serem retiradas cascas demasiado grossas sendo um absurdo desperdício do tubérculo. Finalizado o trabalho o oficial da messe concluiu que aquela forma de descascar batatas não era viável vindo, desde logo a ordem, de que não haveria batatas descascadas para ninguém. A partir daí, sempre que a ementa incluísse batatas, estas era cozidas com casca e cada um descascava as que comia na mesa.

Como é facilmente entendível a vida militar não podia ter começado pior. Daí em diante foi sempre a piorar.

Os exercícios de ordem unida, de ginástica e ginástica de aplicação militar eram puxados, para não dizer violentos.

Uns meses antes de iniciarmos o cumprimento do serviço militar obrigatório eu e o Mário tínhamo-nos inscrito num ginásio de halterofilismo para desenvolvermos os músculos e ganharmos resistência física para este embate mas, mesmo assim, tudo era duro naquele curso.

A ginástica ou educação física constava, entre outras provas, de exercícios de luta e defesa pessoal e, como já se adivinha, o dito cabo miliciano que me fez a recepção acima descrita escolheu-me logo num dos primeiros dias para parceiro e espelho de técnicas de encaixe de murros no estômago e neutralização do adversário. E lá veio mais uma das suas picardias. A exemplificação, ainda sem eu estar devidamente preparado, foi um murro no estômago que fiquei sem ar.

Não foi só a dor foi a humilhação e chacota dele e dos restantes companheiros. Também se deve dizer, em abono da verdade, que em forma de ligeira admoestação o tenente, comandante do pelotão, com um sorriso mais ou menos sarcástico, foi dizendo ao cabo que não era necessário tal violência.

Os primeiros oito dias foram dias de verdadeiro inferno. Não comia praticamente nada excepto ao pequeno-almoço onde me enchia de pão ensopado no café com leite. As restantes refeições limitava-me a comer a sopa e o pão e o resto, porque continha sempre muita cebola e tomate, produtos que nunca comi nem me habituei a comer ao longo da vida, impediam-me de saborear qualquer tipo de comida. Como já previra que tal poderia acontecer escrevi uma carta para os meus pais a pedir que me enviassem a minha moto que tinha ficado em Luanda para me poder deslocar à cidade entre as dezoito e as vinte uma horas para poder ir comer a um restaurante e me encher com um bife de vaca com batatas fritas e um ovo a cavalo, prato predilecto.

O Mário foi ao médico e, como tinha uma úlcera estomacal que já trouxera de Luanda, conseguiu ser desarranchado e jantar e dormir numa pensão da cidade. Mais uma contrariedade para mim que não conseguia tal, porque, felizmente, não tinha nenhuma doença e também não a queria adquirir pois uma perda de mais de oito dias lectivos implicava a perda da recruta e voltar no ano seguinte a iniciar a recruta.

Dormia mal, levantava-me cedo, sem barulho e estudava o que fez com que me destacasse dos meus companheiros quer no conhecimento do armamento em uso, montagem, desmontagem e limpeza quer na parte escrita sobre guerra de guerrilha em que o tenente, um cabo-verdiano, veterano de guerra era um mestre.

Esforçava-me ao máximo para ser bom em todos os exercícios quer, se tratasse de corrida, ordem unida em parada, marcha ou ginástica de aplicação militar, rastejando debaixo do arame farpado, saltando vala ou muro, subindo ao pórtico e descendo pelo slide. Tudo isto exigia força, destreza e até alguma temeridade. Mas compreende-se, ali se preparavam homens que iriam comandar outros homens, em cenário guerra a sério.

Ao fim dos oito dias a boa notícia: chegara a moto acompanhada com uma nota de quinhentos escudos e mais alguns conselhos do pai que se revelarem de muita utilidade.

A chegada da moto possibilitou um pedido de dispensa de refeição, o jantar, para ir à cidade comer bem e beber uma cerveja. Se tal foi revigorante para o físico foi um excelente lenitivo para o espírito. Comecei a ver as dificuldades com outros olhos. A saudade do meu amor é que apertava sem cessar o que fazia com que escrevesse diariamente uma carta à minha amada e, também, quase diariamente, recebia uma carta de volta o que me dava alento e força para porfiar na luta para alcançar o meu objectivo que era, em última análise, fazer o curso com boa classificação, porque isso trazia alguns benefícios e ser promovido a furriel, para me poder casar.

Como atrás referi as picardias do cabo miliciano é que não cessavam e, paralelamente, a minha raiva contra ele subia a cada patifaria e ao respectivo recalcamento já que, tinha a consciência, que se ripostasse de forma desabrida poderia ter que arcar com as consequências de desobediência a um superior hierárquico o que, com a disciplina reinante na instituição, deitaria por terra todos os meus sonhos.

Há um velho ditado popular que diz que a vingança serve-se fria e a minha sede de vingança subia vertiginosamente. Já tinha interiorizado que esperaria para ser promovido a caba miliciano ainda antes de ele ser promovido a furriel e, nessa altura, com patente igual, poder dar-lhe uma carga de pancada mas, o destino tem destas coisas, não foi preciso esperar tanto.

Um dia, num dos tais exercícios de defesa pessoal era necessário neutralizar o adversário procurando levantá-lo do chão e depois deitá-lo de costas no chão. Como era habitual lá voltei a ser o seu bode expiatório na exemplificação. Como já estava prevenido com as atitudes do crápula dei jeito e balanço ao corpo para ir ao chão sem me magoar. Não satisfeito e para uma demonstração de aprendizagem disse-me a mim com recado para todo o pelotão: agora fazes-me o mesmo a mim para ver se apreendeste.

Num fervilhar de emoções e num relampejar de sentimentos veio-me à ideia de que estava ali a oportunidade de demonstrar ao cretino que eu não era o saco de pancada que ele julgava que eu era. Fiz a preparação, avisei-o do que ia fazer tentando demonstrar que aprendera bem os truques e a lição, e peguei nele com tal intensidade e tal força que puxando-lhe o braço e pegando-lhe numa perna o levantei no ar e, em vez de o deixar cair no chão flecti o meu joelho e deixei-o cair com as costas na minha coxa sentindo-se logo um estalo. A coluna dele deu de si e ficou ali como que paralisado. Ainda me assustei com medo de lhe ter partido alguma vértebra mas foi só dor muito forte e ainda lhe disse: desculpe, só o quis amparar para não o deitar com força ao chão.

Toda a gente ficou boquiaberto pensando que o indivíduo que não tinha boa fama junto de nenhum dos instruendos, que me poderia fazer a vida mais negra, dai para a frente. Ele ficou muito dorido e já não conseguiu exemplificar mais nenhum exercício passando o furriel a fazê-lo e a aula continuou como se nada se tivesse passado. Não fui repreendido por ninguém e o exercício foi considerado como bem assimilado e boa resposta ao ataque do adversário. Nunca soube qual a razão desta atitude. Desconfio bem que os dois superiores do pelotão, o furriel e o tenente, não concordavam nada com as atitudes provocatórias do cabo miliciano e acharam que ele recebera uma lição merecida.

Foi remédio santo. A partir daí nunca mais servi de cobaia para os exercícios. Nunca mais senti provocação de ninguém. Julgo até que todos os companheiros e superiores me passaram a respeitar mais.

Simultaneamente começaram os exercícios escritos, provas classificadas que eram publicadas para toda a companhia e, o meu nome passou a constar sempre dentro dos cinco primeiros instruendos melhor classificados de toda a companhia, que era constituída por quatro pelotões. Isto deu-me algum estatuto de respeito e admiração o que me facilitou muito a vida durante os restantes quatro meses de recruta.

Ao mesmo tempo muita da instrução passava-se fora do quartel quer em marcha e corrida pela cidade numa distância de quinze quilómetros quer na mata que circundava o quartel atravessando rios, escalando montes, escutando os ruídos nocturnos, uma verdadeira preparação para a guerra que, embora muito desgastante fisicamente, era muito mais gratificante psicologicamente.

O tempo passa muito depressa e a quinze de Setembro de 1964 iniciámos a nossa semana de mato de exercícios finais que, sendo muito esforçada, foi igualmente muito alegre. Comíamos ração de combate ou alguma galinha que comprávamos aos residentes na redondeza. Dormíamos em tendas de campanha e, sobretudo, víamos o final da recruta a poucos dias de distância e o juramento de bandeira com a presença de familiares e amigos que era e sempre foi uma festa.

A vinte e oito de Setembro entrámos no autocarro que nos levava a Luanda deixando para trás alguns amigos pois, do grupo de mais de uma dúzia de amigos que tínhamos saído de Luanda em Maio só regressámos uma meia dúzia e apenas dois para a mesma unidade. Os restantes foram colocados em diferentes unidades espalhadas por todo o território angolano, ficando a maior parto no regimento de infantaria de Nova Lisboa para acabarem o curso. Eu e o Pipas fomos para o Batalhão 361 que ficava muito perto do aeroporto de Luanda onde aprendemos morse, cripto, comunicações no sentido lato e restrito do termo. Conhecemos rádios, respectivas avarias tipo e sua reparação para, em contexto de guerra, podermos assegurar as comunicações entre todas as unidades operacionais e o quartel de comando e mesmo o quartel-general.

Em Dezembro desse ano fomos promovidos a cabo miliciano depois de terminado o curso e, como já vinha do ciclo anterior, ficámos nos primeiros classificados do curso e colocados na secção auto do Batalhão. Esta secção era comandada por um alferes miliciano, tinha um furriel miliciano e um cabo miliciano para administrar toda a frota de viaturas do Batalhão e disponibilizá-las para os serviços requeridos pelas três Companhias e um destacamento. Dependia da Companhia de Comando e Serviços chefiada por um Capitão com a supervisão do 2º Comandante do Batalhão que era Major.

Os três responsáveis imediatos, alferes, furriel e cabo miliciano, tinham de fazer escalas de motoristas, mecânicos, electricistas para além de requisitar todo o tipo de material para reparação das viaturas e até a substituição das mesmas. Para além dessas funções tinham ainda de cuidar que o parque de viaturas estava sempre, devidamente apetrechado, bem lavado e com a manutenção em dia, para que desse resposta a todas as solicitações desde o Comando do Batalhão até às diferentes Companhias. As viaturas iam desde o jeep Willis, o mais usado para transporte individual e até 4 passeiros, passando pelas viaturas de transporte de pessoal como Unimogs, ou materiais as enormes Berliet que para além da carga eram viaturas para todo o terreno.

A secção auto, quando lá entrámos, já tinha fama de um funcionamento muito profissional e eficaz. Com a minha entrada e, passados dois meses, a rendição do alferes Costa que foi substituído pelo alferes Abrantes não perdeu essa auréola, porventura, reforçou-a. A equipa de trabalho era fantástica, muito responsável e muito unida tornando-se todos muito amigos. A amizade estendia-se ao pessoal operacional, mecânicos, electricistas, motoristas que nessa operacionalidade eram comandados por um sargento mecânico, igualmente um grande profissional. Talvez por isso funcionasse tão bem.

Este bom ambiente de trabalho permitia grande liberdade e essa liberdade era bem aceite pela hierarquia. O Comandante da Companhia, o capitão Viana, até ao Comandante do Batalhão o Coronel Sales Grade e mais tarde o Coronel Morais Leitão.

Numa palavra, fazíamos o que queríamos. Quando lá entrei o furriel Caetano disse-me como estava habituado a trabalhar, que tinha um trabalho no rádio clube de Angola que começava às seis da manhã e terminava às nove e que não queria abandonar por isso me propunha: - Ele só ia trabalhar da parte de tarde, às 14 horas e eu devia entrar às oito e sair ao meio dia. Quando fizéssemos serviço de Sargento de dia à Companhia e/ou ao Batalhão trabalhávamos 24 horas e depois folgávamos as 24 horas seguintes. Aceitei de bom grado e implementámos a estratégia de deixar a documentação que era necessário tratar acompanhada de um memorando do que tinha sido feito e o que era preciso completar nesta mudanças de turno, digamos assim.

Tudo correu maravilhosamente durante cerca de dois anos. Pode-se dizer que aquilo não era um trabalho, muito menos uma missão e foram dois anos de férias.

O motorista ia-me buscar a casa às oito menos um quarto chegava sempre dois ou três minutos antes das oito, começava a trabalhar até por volta das dez e depois íamos para a sala de sargentos e oficiais, que era comum, para tomar o pequeno-almoço que, em regra, era uma sandes de presunto e duas cucas (a cerveja mais usada). Dávamos dois dedos de conversa aos companheiros e amigos de outras secções e serviços e voltávamos à carga com o trabalho, íamos a despacho ao major e assim chegava a hora do motorista nos levar a casa.

Almoçávamos e pegávamos no nosso carro íamos até à praia com amigos que tinham a mesma disponibilidade que nós. O Abrantes, o tal alferes que substituiu o Costa e esteve connosco os dois anos ia sempre até porque tinha pouco ou nada que fazer já que eu e o Caetano, o furriel mais antigo, fazíamos todo o trabalho.

Uma única coisa me apoquentava. A saudade da minha noiva que eu queria desposar e que já estava aprazado para Setembro de 1966. Passava noites a escrever-lhe, fazendo projectos e dando conta do dia-a-dia.

A JOC continuava a fazer parte da minha vida e da minha actividade diária e, pelo meio, meteu-se uma miúda que, sem falsas modéstias, se me ofereceu e eu não resisti a um namorico sem consequências, não passou disso, e mesmo assim, ia-me dando cabo da vida porque a minha noiva quando soube não gostou nada da situação. Para mim nunca passou de um divertimento mas sei que para ela foi uma paixão de jovem imatura. Talvez por isso eu fosse sempre o marido mais fiel do mundo. Nunca me passou pela cabeça ter outra mulher que não a minha até porque foi sempre e é o grande amor da minha vida.

Em Setembro de 1965 fui promovido a furriel, passou à disponibilidade o Caetano e entrou o cabo miliciano Roque, com o qual se manteve a mesma equipa coesa e funcional e a amizade que hoje, depois dos setenta anos ainda perdura. Com o Abrantes também durou até à sua morte prematura. Do Caetano perdi o rasto desde muito cedo.

Este posto militar, na época, tinha um salário de 4.600$00. Era bastante dinheiro. Dava para eu deixar na Conta, em nome do meu pai, no Banco Português do Atlântico, em Lisboa 2.500$00 todos os meses e eu viver à grande com os outros 2.100$00. Foi com esse dinheiro que o meu pai pagou dois apartamentos que tinha comprado ao J. Pimenta na Reboleira, em Lisboa que rendiam 3.100$00 todos os meses.

Que mais se poderia pedir à vida. Nada, a não ser a companhia do ser amado. A minha noiva, a Teresinha, entretanto, depois de concluído o 5º ano do Liceu concorreu para os correios e foi viver para Almada, trabalhando em Lisboa. Ambos contávamos os dias nas nossas cartas diárias até que chegasse o dia do casamento. Em Maio de 1966 ela começou a tratar da documentação junto do cartório civil de Almada e do Pároco e, para tal eu mandei fotocópias autenticadas dos documentos de identificação e uma procuração para que me representasse em todos os actos. Entretanto mandei uma carta ao meu sogro a dar conta da situação e a pedir-lhe autorização para casar com a filha. Foi uma mera formalidade já que tanto ela como eu éramos maiores de idade e podíamos fazer o que entendêssemos mas, a nossa educação, obrigava-nos a seguir estes procedimentos.

Chegado o mês de Agosto daquele ano meti um mês de licença a que tinha direito, ao abrigo do artigo 109 do RDM, mais cinco dias da alínea a) do mesmo artigo e Regulamento de Disciplina Militar e, no dia 27 cheguei a Lisboa onde me esperava a minha noiva e os meus tios.

Chegado o dia 14 de Setembro de 1966, um dos dias mais felizes da minha vida, casei na capelinha de Nossa Senhora do Incenso, Penamacor. Cerimónia presidida pelo Reverendo Padre Manuel Toscano, na altura coadjutor do Arcipreste do concelho.

Noite de núpcias passada em Castelo Branco na casa de uma pessoa amiga que fora passar uns dias fora e deixara a moradia disponível para nós os dois.

Só lá dormimos. Pelas nove da manhã do dia seguinte pegámos no Volkswagen 1300 que tínhamos alugado em Lisboa no dia seguinte à chegada e lá vamos nós em Direcção a Lisboa para resolver problemas relacionadas com o emprego da Teresinha, os CTT.

Tomámos o pequeno-almoço numa aldeia nos arredores de Nisa e a Teresinha estava deveras mal disposta pelo que, poucos quilómetros andados tivemos que parar para ela vomitar.

Naquele tempo a minha mulher era extramente franzina e queixava-se, frequentemente, do estômago. Não era enjoo pois estava muito habituada a andar de um pequeno autocarro quando frequentava o Colégio de Penamacor e se deslocava todos os dias da Meimoa para Penamacor e vice-versa.

Mas, porque dormimos pouco e mal, nenhum de nós estava habituado a dormir acompanhado estávamos terrivelmente cansados e, dentro de Santarém, eu ia a dormitar ao volante e a Teresa dormia profundamente. Valeu-nos, na circunstância, um auto tanque dos Bombeiros que vinha em sentido contrário que vinha a assinalar a marcha com a sirene. Acordei repentinamente e encostei logo que encontrei uma sombra à saída da cidade. Dormi cerca de dez minutos e acordei como novo metendo-me de novo à estrada. Estamos a falar de um tempo que uma viagem de Castelo Branco a Lisboa demorava umas boas quatro horas. Hoje é cerca de metade desse tempo.

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