Cumpri com honra o serviço militar obrigatório em época de
guerra. Não é fácil para um jovem de vinte anos adiar os seus sonhos e partir
para uma vida desconhecida, perigosa, exigente sabendo, à partida, que começava
ali uma etapa que, a correr bem, demoraria mais de três anos.
Para quem desde os doze anos trabalhava e tinha construído
uma carreira profissional, mesmo no campo operariado, um interregno de, cerca
de três anos, no seu projecto de vida era um abalo, um obstáculo, um
impedimento, um atraso no percurso. Tendo consciência de um dever patriótico,
nem por isso, deixa de ser um sobressalto que não se resume à perigosidade da
situação. Vai para além disso. Na época qualquer jovem considerado normal
ambicionava casar, constituir família, ter filhos, até aos vinte cinco anos de
idade. Um tempo militar longo e mal remunerado, não era atraente, era mais um
castigo. Mas o dever falava mais alto e não passava pela cabeça de ninguém –
quase ninguém – a deserção até porque esta traria consigo mais atraso do que
aquele que era provocado pela tropa. Por isso, passados mais de meio século,
continuo a pensar que os que optaram pela deserção não o fizeram por altruísmo
nem pela concretização do seu projecto de vida, mas sim, por cobardia e por
falta de valores morais, éticos, patrióticos e sentido de identidade e
nacionalidade.
No dia onze de Maio do longínquo ano de mil novecentos e
sessenta e quatro, convocado para tal, lá me apresentei na Escola de Aplicação
Militar de Angola (EAMA) sita em Nova Lisboa, de então, hoje Huambo, em Angola.
Levava uma guia de marcha passada pelo distrito de
recrutamento militar de Luanda onde estava escrito que iria frequentar o Curso
de Sargentos Milicianos, curso esse que era composto por dois ciclos.
O primeiro ciclo comum a todas as armas do exército
português, composto por exercícios de Ordem Unida, procedimentos militares em
parada, ginástica com educação física normal para moldar e tonificar o físico
para o esforço e ginástica de aplicação militar composta por exercícios de guerra,
tiro e privação de necessidades básicas, com vista a reforçar o espírito
combativo, mas também de resiliência e fortaleza psicológica para em teatro de
guerra não haver vacilações ou medo.
O segundo ciclo era de formação específica, consoante a arma que
era destinado. Este curso destinava-se a formar graduados com capacidades de
liderança e conhecimentos nos diversos campos e actividades militares do
Exército. Assim, alguns mancebos eram destinadas à cavalaria que lhes permitia
entrar na guerra com armamento pesado como tanques e obuses. Outros em
engenharia para a construção de estradas, mas principalmente, pontes de pequena
monta mas indispensáveis para o atravessamento de rios ou declives que
facilitassem a mobilidade das demais tropas. Outras à Artilharia e por último
os de Infantaria que eram a maioria. Havia, também, especialidades mais refinadas
e que careciam de menos homens mas mais especializados como eram os casos das
Transmissões onde se aprendia o morse, o cripto e também a montagem, reparação
e utilização de rádios para comunicação entre as diferentes entidades e
unidades militares, bem como as de organização e gestão militar, onde
pontificavam os serviços administrativos, administração militar e até correio
em papel – na época não havia correio electrónico – embora houvesse telex,
telegrama.
Na nossa guia ia mencionada a unidade a que nos destinávamos
que era o BTM 361, mais tarde designado por Batalhão de Transmissões de Angola
sedeado em Luanda e que coordenava todas as comunicações militares dentro do
território Angolano e fazia a ponte com o Estado-maior do Exército com sede em
Lisboa. Diga-se que, na altura, não havia telefones civis entre Angola e
Portugal continental a não ser nas grandes estações dos Correios e qualquer
telefonema exigia a intervenção de uma telefonista. Porém, no Batalhão de
Transmissões era possível estabelecer ligações directas com a Metrópole sem
passar por qualquer interlocutor. Daí ser o ponto de encontro de excelência,
dos oficiais superiores, com o posto de Major para cima, Tenente Coronel,
Coronel e General, que se socorriam dessa ferramenta, com a aquiescência do
Comandante do Batalhão, também ele um Tenente Coronel, para falarem de viva voz
com a sua família muito esporadicamente.
Isto queria dizer que, depois de concluída a recruta, o tal
primeiro ciclo, em Nova Lisboa teríamos de nos apresentar em Luanda para
concluirmos o curso de sargentos milicianos. É claro que nós nada sabíamos
deste pormenor e na tal informação passou-nos completamente despercebida.
Viajámos num autocarro velho, sem grandes cómodos, como eram
todos os autocarros da altura que percorriam picadas, não estradas como hoje as
conhecemos.
Saímos de Luanda pelas sete horas da manhã. Éramos cerca de
quarenta rapazes, muitos deles desconhecidos, outros amigos de infância.
Ainda que tristes, todos, por termos deixado família e,
alguns, namorada, cabisbaixos, percorremos os primeiros cem quilómetros num
silêncio sepulcral. Mas depois, estas idades são de alegria e, porventura, de
alguma irresponsabilidade, começaram as conversas com o companheiro do lado que
se foram alargando a todo o autocarro depressa passando para a galhofa e o
anedotário em voga.
Dizer que a distância entre Luanda e Nova Lisboa eram cerca
de setecentos quilómetros. Que a estrada só tinha sessenta de asfalto e que o
restante era picada em terra batida. Também dizer que o autocarro não conseguia
fazer média de velocidade superior a sessenta quilómetros horários, isto se não
chovesse, porque se tal acontecesse poderíamos ter de passar várias horas
parados até que o Sol, abrasador, secasse a picada e, assim pudéssemos
prosseguir viagem. Talvez por isso estivesse previsto que saindo de Luanda no
dia dez de Maio nos pudéssemos apresentar na EAMA até às dezoito horas do dia
treze do mesmo mês.
Os grupos são o diabo e o espírito de grupo é, muitas vezes,
incontrolável. Isto vê-se nos grupos de bairro, nos grupos de estudantes, no
futebol, nos militares e em muitos outros grupos societários. Naquela viagem
começou a surgir o espírito de grupo de muitos jovens que, a partir daquele
momento, iriam partilhar muitas situações convivenciais, nem sempre as mais
agradáveis.
Desta feita, quando nos aproximávamos da localidade, Quibala,
onde deveríamos pernoitar e que ficava mais ou menos a meio do caminho, já o
Sol se ia escondendo para lá do horizonte quando começou a surgir a ideia,
propagada, de banco em banco que, déssemos uma gorjeta ao motorista, em vez de
dormirmos ali, no meio de nenhures, talvez pudéssemos chegar de madrugada a
Nova Lisboa, cidade com alguns equipamentos de diversão onde iríamos passar
cerca de cinco meses e que nenhum de nós conhecia, poderia ser muito mais
agradável para todos esta alteração de programa.
Se fora pensado, rapidamente se pôs em prática, já que nos
dispusemos a contribuir para a tal gorjeta, que teria de ser substancial, para
que o motorista abdicasse do seu merecido descanso e arriscasse, eventuais
problemas, com a entidade patronal.
Assim se fez. Na localidade onde deveríamos jantar e
pernoitar apenas fizemos uma refeição ligeira, para não perdermos tempo e
chegarmos o mais rapidamente possível à Cidade de Nova Lisboa, onde poderíamos
descansar durante o dia, para nos irmos divertir pela noite dentro, naquela
cidade desconhecida.
O nosso grupo de amigos, de longa data, era composto por meia
dúzia de rapazes e havia um, porventura o mais sensato de todos, o Mário Duarte
lembrou-se, quase ao findar do dia, que iríamos ter cinco meses pela frente sem
ganhar praticamente nada, o pré era de sessenta escudos por mês, o que não dava
sequer para comprar os produtos para engraxar as botas, que quanto mais tempo
estivéssemos na pensão mais dinheiro das poupanças que levávamos iríamos gastar
e que tal dinheiro nos poderia fazer falta.
Começámos a pensar no assunto reconhecendo, de imediato, que
o assunto era avisado e que merecia a ponderação de todos.
Havia obstáculos. No que a nós nos diz respeito, tínhamos
planeado só cortar o cabelo no último dia, retirar as patilhas à Elvis Presley
para entrar na tropa com um mínimo de anticorpos que, pelos mais velhos
sabíamos acontecer. Uma espécie de praxe académica abrutalhada. Esta situação
merecia-me bastantes reservas para a incorporação se fazer no primeiro dos três
dias aprazados mas o Mário era bastante persuasivo e convenceu-me a ir mesmo
assim correndo o risco de ser alvo de alguma patifaria.
É o que tem de ser e, como não houve outras vozes dissonantes
e todos os meus melhores amigos estiveram de acordo, lá apanhámos dois táxis e
fomo-nos apresentar à EAMA, onde sabíamos que tínhamos dormida e alimentação
gratuita.
Chegámos pelas dezassete horas e picos. Não sendo os
primeiros recrutas a entrar fomos alguns de entre os primeiros.
O Mário foi à nossa frente e apresentou a guia de marcha.
Como ia todo arranjadinho, cabelo cortado rente, barba bem aparada entro
directamente no gabinete médico para a pesagem e a medida e receber uma nova
guia para levantar fardamento e arma de instrução.
Fui o terceiro do grupo e estava confiante já que, até mim,
não houve qualquer desaguisado.
Apresentei-me entregando a guia a um cabo miliciano que,
conjuntamente, com um com um furriel, um alferes e um tenente fazia parte da
comissão de recepção e, como eu temia, logo ele começou a embirrar como o meu
cabelo comprido e as minhas patilhas. Olhou para a guia e verificou que estava
destinado a ir frequentar o segundo ciclo no Batalhão de Transmissões que, até
dois anos atrás se chamava transmissões de engenharia e ali começou a
embirração dizendo: “chegaram os engenheiros e este tem a mania que é bom.
Olhai para as patilhas dele”. Eu já ia contrariado e, na circunstância, fiquei
pior que estragado e franzi o sobrolho ao que o dito elemento retorquiu: “Olhai
que o gajo tem a mania que tem tomates, temos que os ver”. Sem qualquer palavra
da minha parte, não me fiz rogado e comecei a desapertar a braguilha. Talvez
devido à ousadia e, eventualmente, com receio de que os superiores hierárquicos
presentes que, até aí não tiveram qualquer intervenção disse: “ feche lá isso
seu porco”. Fiz o que me disse sem sequer abrir a boca. Importa fazer aqui um
parêntesis para dizer que o meu saudoso pai antes de se despedir de mim me
disse: “Filho, eu também fui tropa e sei do que a casa gasta. Há muitas
partidas, muitas brincadeiras estúpidas, muitas punições por dá cá aquela
palha. Segue este conselho. Na tropa a gente só se deve oferecer como
voluntário se for para passar à disponibilidade, para ir para casa. Quanto
menos se falar mais se acerta. Cumprir as ordens superiores sem recalcitrar e,
se houver razões de queixa apresenta-la sempre ao comandante de pelotão ou da
companhia, em regra um Alferes, Tenente e Capitão”.
Sempre considerei o meu pai como um homem íntegro e muito
sabedor nas suas poucas habilitações académicas e, na circunstância, veio-me à
memória este conselho e não abri a boca.
Estava a ferver por dentro até porque quem se mostrava mais
atrevido era aquele que tinha menos categoria e era o mais novo militar. Era do
curso anterior ao meu. Mas calei-me e fiz o que me mandaram. Recebi a tal
requisição de fardamento e calçado e dirigi-me, sem mais problemas para o
despenseiro da primeira companhia de instrução onde recebi o material, sendo
acompanhado por um cabo até à camarata e ao beliche que me estava destinado e o
armário para guardar a minha roupa civil e todo o material.
Meti o material dentro do armário sem qualquer organização ou
arrumo porque começou a tocar para o jantar.
Ainda vestido com a roupa civil, tal como os outros
companheiros que nos apresentámos lá nos dirigimos para o refeitório. Já tinha
sentido nova contrariedade pois do meu grupo de amigos só dois ficámos na mesma
companhia os outros foram dispersos pelas outras duas companhias de instrução.
Naquele ano fomos cerca de seiscentos mancebos incorporados para frequentar o
curso de sargento miliciano.
As contrariedades não se ficavam por aqui e, apesar de eu ir
mentalizado para um tempo difícil e, completamente, diferente daquele a que
estava habituado as coisas que se sucederiam não deixavam dúvidas de que era
preciso crescer e amadurecer rapidamente. Deixava de ser um rapaz para passar a
ser um homem.
Rapidamente chegou a ordem para nos deslocarmos ao refeitório
para jantar. A comida era pior que má, principalmente, para quem era tão
esquisito na alimentação quanto eu.
Lá mastiguei umas coisas e sujei o prato como era da praxe,
para evitar mal entendidos e esperei que todos os companheiros acabassem de
comer. Veio o sargento de dia dar algumas orientações acrescentando que no fim
da refeição todos teríamos que descascar uma saca, pequena, de batatas uma vez
que a máquina tinha avariado e ainda não havia ordem para a mandar reparar.
Coisas incompreensíveis para quem nunca estivera perante tais burocracias e regras
tão apertadas.
Ainda estávamos vestidos à civil e esta experiência, não por
ser difícil mas por ser insólita, não deixou de ser traumática. Acresce o facto
de, nenhum de nós estar habituado a descascar batatas e, por esse facto, serem
retiradas cascas demasiado grossas sendo um absurdo desperdício do tubérculo.
Finalizado o trabalho o oficial da messe concluiu que aquela forma de descascar
batatas não era viável vindo, desde logo a ordem, de que não haveria batatas
descascadas para ninguém. A partir daí, sempre que a ementa incluísse batatas,
estas era cozidas com casca e cada um descascava as que comia na mesa.
Como é facilmente entendível a vida militar não podia ter
começado pior. Daí em diante foi sempre a piorar.
Os exercícios de ordem unida, de ginástica e ginástica de
aplicação militar eram puxados, para não dizer violentos.
Uns meses antes de iniciarmos o cumprimento do serviço
militar obrigatório eu e o Mário tínhamo-nos inscrito num ginásio de
halterofilismo para desenvolvermos os músculos e ganharmos resistência física
para este embate mas, mesmo assim, tudo era duro naquele curso.
A ginástica ou educação física constava, entre outras provas,
de exercícios de luta e defesa pessoal e, como já se adivinha, o dito cabo
miliciano que me fez a recepção acima descrita escolheu-me logo num dos
primeiros dias para parceiro e espelho de técnicas de encaixe de murros no
estômago e neutralização do adversário. E lá veio mais uma das suas picardias. A
exemplificação, ainda sem eu estar devidamente preparado, foi um murro no
estômago que fiquei sem ar.
Não foi só a dor foi a humilhação e chacota dele e dos
restantes companheiros. Também se deve dizer, em abono da verdade, que em forma
de ligeira admoestação o tenente, comandante do pelotão, com um sorriso mais ou
menos sarcástico, foi dizendo ao cabo que não era necessário tal violência.
Os primeiros oito dias foram dias de verdadeiro inferno. Não
comia praticamente nada excepto ao pequeno-almoço onde me enchia de pão
ensopado no café com leite. As restantes refeições limitava-me a comer a sopa e
o pão e o resto, porque continha sempre muita cebola e tomate, produtos que
nunca comi nem me habituei a comer ao longo da vida, impediam-me de saborear
qualquer tipo de comida. Como já previra que tal poderia acontecer escrevi uma
carta para os meus pais a pedir que me enviassem a minha moto que tinha ficado
em Luanda para me poder deslocar à cidade entre as dezoito e as vinte uma horas
para poder ir comer a um restaurante e me encher com um bife de vaca com
batatas fritas e um ovo a cavalo, prato predilecto.
O Mário foi ao médico e, como tinha uma úlcera estomacal que
já trouxera de Luanda, conseguiu ser desarranchado e jantar e dormir numa
pensão da cidade. Mais uma contrariedade para mim que não conseguia tal,
porque, felizmente, não tinha nenhuma doença e também não a queria adquirir
pois uma perda de mais de oito dias lectivos implicava a perda da recruta e
voltar no ano seguinte a iniciar a recruta.
Dormia mal, levantava-me cedo, sem barulho e estudava o que
fez com que me destacasse dos meus companheiros quer no conhecimento do
armamento em uso, montagem, desmontagem e limpeza quer na parte escrita sobre
guerra de guerrilha em que o tenente, um cabo-verdiano, veterano de guerra era
um mestre.
Esforçava-me ao máximo para ser bom em todos os exercícios
quer, se tratasse de corrida, ordem unida em parada, marcha ou ginástica de
aplicação militar, rastejando debaixo do arame farpado, saltando vala ou muro,
subindo ao pórtico e descendo pelo slide. Tudo isto exigia força, destreza e
até alguma temeridade. Mas compreende-se, ali se preparavam homens que iriam comandar
outros homens, em cenário guerra a sério.
Ao fim dos oito dias a boa notícia: chegara a moto
acompanhada com uma nota de quinhentos escudos e mais alguns conselhos do pai
que se revelarem de muita utilidade.
A chegada da moto possibilitou um pedido de dispensa de
refeição, o jantar, para ir à cidade comer bem e beber uma cerveja. Se tal foi
revigorante para o físico foi um excelente lenitivo para o espírito. Comecei a
ver as dificuldades com outros olhos. A saudade do meu amor é que apertava sem cessar
o que fazia com que escrevesse diariamente uma carta à minha amada e, também,
quase diariamente, recebia uma carta de volta o que me dava alento e força para
porfiar na luta para alcançar o meu objectivo que era, em última análise, fazer
o curso com boa classificação, porque isso trazia alguns benefícios e ser
promovido a furriel, para me poder casar.
Como atrás referi as picardias do cabo miliciano é que não
cessavam e, paralelamente, a minha raiva contra ele subia a cada patifaria e ao
respectivo recalcamento já que, tinha a consciência, que se ripostasse de forma
desabrida poderia ter que arcar com as consequências de desobediência a um
superior hierárquico o que, com a disciplina reinante na instituição, deitaria
por terra todos os meus sonhos.
Há um velho ditado popular que diz que a vingança serve-se
fria e a minha sede de vingança subia vertiginosamente. Já tinha interiorizado
que esperaria para ser promovido a caba miliciano ainda antes de ele ser
promovido a furriel e, nessa altura, com patente igual, poder dar-lhe uma carga
de pancada mas, o destino tem destas coisas, não foi preciso esperar tanto.
Um dia, num dos tais exercícios de defesa pessoal era
necessário neutralizar o adversário procurando levantá-lo do chão e depois
deitá-lo de costas no chão. Como era habitual lá voltei a ser o seu bode
expiatório na exemplificação. Como já estava prevenido com as atitudes do
crápula dei jeito e balanço ao corpo para ir ao chão sem me magoar. Não
satisfeito e para uma demonstração de aprendizagem disse-me a mim com recado
para todo o pelotão: agora fazes-me o mesmo a mim para ver se apreendeste.
Num fervilhar de emoções e num relampejar de sentimentos
veio-me à ideia de que estava ali a oportunidade de demonstrar ao cretino que
eu não era o saco de pancada que ele julgava que eu era. Fiz a preparação,
avisei-o do que ia fazer tentando demonstrar que aprendera bem os truques e a
lição, e peguei nele com tal intensidade e tal força que puxando-lhe o braço e
pegando-lhe numa perna o levantei no ar e, em vez de o deixar cair no chão
flecti o meu joelho e deixei-o cair com as costas na minha coxa sentindo-se
logo um estalo. A coluna dele deu de si e ficou ali como que paralisado. Ainda
me assustei com medo de lhe ter partido alguma vértebra mas foi só dor muito
forte e ainda lhe disse: desculpe, só o quis amparar para não o deitar com
força ao chão.
Toda a gente ficou boquiaberto pensando que o indivíduo que
não tinha boa fama junto de nenhum dos instruendos, que me poderia fazer a vida
mais negra, dai para a frente. Ele ficou muito dorido e já não conseguiu
exemplificar mais nenhum exercício passando o furriel a fazê-lo e a aula
continuou como se nada se tivesse passado. Não fui repreendido por ninguém e o
exercício foi considerado como bem assimilado e boa resposta ao ataque do
adversário. Nunca soube qual a razão desta atitude. Desconfio bem que os dois
superiores do pelotão, o furriel e o tenente, não concordavam nada com as
atitudes provocatórias do cabo miliciano e acharam que ele recebera uma lição
merecida.
Foi remédio santo. A partir daí nunca mais servi de cobaia
para os exercícios. Nunca mais senti provocação de ninguém. Julgo até que todos
os companheiros e superiores me passaram a respeitar mais.
Simultaneamente começaram os exercícios escritos, provas
classificadas que eram publicadas para toda a companhia e, o meu nome passou a
constar sempre dentro dos cinco primeiros instruendos melhor classificados de
toda a companhia, que era constituída por quatro pelotões. Isto deu-me algum
estatuto de respeito e admiração o que me facilitou muito a vida durante os
restantes quatro meses de recruta.
Ao mesmo tempo muita da instrução passava-se fora do quartel
quer em marcha e corrida pela cidade numa distância de quinze quilómetros quer
na mata que circundava o quartel atravessando rios, escalando montes, escutando
os ruídos nocturnos, uma verdadeira preparação para a guerra que, embora muito
desgastante fisicamente, era muito mais gratificante psicologicamente.
O tempo passa muito depressa e a quinze de Setembro de 1964
iniciámos a nossa semana de mato de exercícios finais que, sendo muito
esforçada, foi igualmente muito alegre. Comíamos ração de combate ou alguma
galinha que comprávamos aos residentes na redondeza. Dormíamos em tendas de
campanha e, sobretudo, víamos o final da recruta a poucos dias de distância e o
juramento de bandeira com a presença de familiares e amigos que era e sempre
foi uma festa.
A vinte e oito de Setembro entrámos no autocarro que nos
levava a Luanda deixando para trás alguns amigos pois, do grupo de mais de uma
dúzia de amigos que tínhamos saído de Luanda em Maio só regressámos uma meia
dúzia e apenas dois para a mesma unidade. Os restantes foram colocados em
diferentes unidades espalhadas por todo o território angolano, ficando a maior
parto no regimento de infantaria de Nova Lisboa para acabarem o curso. Eu e o
Pipas fomos para o Batalhão 361 que ficava muito perto do aeroporto de Luanda
onde aprendemos morse, cripto, comunicações no sentido lato e restrito do
termo. Conhecemos rádios, respectivas avarias tipo e sua reparação para, em
contexto de guerra, podermos assegurar as comunicações entre todas as unidades
operacionais e o quartel de comando e mesmo o quartel-general.
Em Dezembro desse ano fomos promovidos a cabo miliciano depois
de terminado o curso e, como já vinha do ciclo anterior, ficámos nos primeiros
classificados do curso e colocados na secção auto do Batalhão. Esta secção era
comandada por um alferes miliciano, tinha um furriel miliciano e um cabo
miliciano para administrar toda a frota de viaturas do Batalhão e
disponibilizá-las para os serviços requeridos pelas três Companhias e um
destacamento. Dependia da Companhia de Comando e Serviços chefiada por um
Capitão com a supervisão do 2º Comandante do Batalhão que era Major.
Os três responsáveis imediatos, alferes, furriel e cabo
miliciano, tinham de fazer escalas de motoristas, mecânicos, electricistas para
além de requisitar todo o tipo de material para reparação das viaturas e até a
substituição das mesmas. Para além dessas funções tinham ainda de cuidar que o
parque de viaturas estava sempre, devidamente apetrechado, bem lavado e com a
manutenção em dia, para que desse resposta a todas as solicitações desde o
Comando do Batalhão até às diferentes Companhias. As viaturas iam desde o jeep
Willis, o mais usado para transporte individual e até 4 passeiros, passando
pelas viaturas de transporte de pessoal como Unimogs, ou materiais as enormes
Berliet que para além da carga eram viaturas para todo o terreno.
A secção auto, quando lá entrámos, já tinha fama de um
funcionamento muito profissional e eficaz. Com a minha entrada e, passados dois
meses, a rendição do alferes Costa que foi substituído pelo alferes Abrantes
não perdeu essa auréola, porventura, reforçou-a. A equipa de trabalho era
fantástica, muito responsável e muito unida tornando-se todos muito amigos. A
amizade estendia-se ao pessoal operacional, mecânicos, electricistas,
motoristas que nessa operacionalidade eram comandados por um sargento mecânico,
igualmente um grande profissional. Talvez por isso funcionasse tão bem.
Este bom ambiente de trabalho permitia grande liberdade e
essa liberdade era bem aceite pela hierarquia. O Comandante da Companhia, o
capitão Viana, até ao Comandante do Batalhão o Coronel Sales Grade e mais tarde
o Coronel Morais Leitão.
Numa palavra, fazíamos o que queríamos. Quando lá entrei o
furriel Caetano disse-me como estava habituado a trabalhar, que tinha um
trabalho no rádio clube de Angola que começava às seis da manhã e terminava às
nove e que não queria abandonar por isso me propunha: - Ele só ia trabalhar da
parte de tarde, às 14 horas e eu devia entrar às oito e sair ao meio dia.
Quando fizéssemos serviço de Sargento de dia à Companhia e/ou ao Batalhão
trabalhávamos 24 horas e depois folgávamos as 24 horas seguintes. Aceitei de
bom grado e implementámos a estratégia de deixar a documentação que era
necessário tratar acompanhada de um memorando do que tinha sido feito e o que
era preciso completar nesta mudanças de turno, digamos assim.
Tudo correu maravilhosamente durante cerca de dois anos.
Pode-se dizer que aquilo não era um trabalho, muito menos uma missão e foram
dois anos de férias.
O motorista ia-me buscar a casa às oito menos um quarto
chegava sempre dois ou três minutos antes das oito, começava a trabalhar até
por volta das dez e depois íamos para a sala de sargentos e oficiais, que era
comum, para tomar o pequeno-almoço que, em regra, era uma sandes de presunto e
duas cucas (a cerveja mais usada). Dávamos dois dedos de conversa aos
companheiros e amigos de outras secções e serviços e voltávamos à carga com o
trabalho, íamos a despacho ao major e assim chegava a hora do motorista nos
levar a casa.
Almoçávamos e pegávamos no nosso carro íamos até à praia com
amigos que tinham a mesma disponibilidade que nós. O Abrantes, o tal alferes
que substituiu o Costa e esteve connosco os dois anos ia sempre até porque
tinha pouco ou nada que fazer já que eu e o Caetano, o furriel mais antigo,
fazíamos todo o trabalho.
Uma única coisa me apoquentava. A saudade da minha noiva que
eu queria desposar e que já estava aprazado para Setembro de 1966. Passava
noites a escrever-lhe, fazendo projectos e dando conta do dia-a-dia.
A JOC continuava a fazer parte da minha vida e da minha
actividade diária e, pelo meio, meteu-se uma miúda que, sem falsas modéstias,
se me ofereceu e eu não resisti a um namorico sem consequências, não passou
disso, e mesmo assim, ia-me dando cabo da vida porque a minha noiva quando
soube não gostou nada da situação. Para mim nunca passou de um divertimento mas
sei que para ela foi uma paixão de jovem imatura. Talvez por isso eu fosse
sempre o marido mais fiel do mundo. Nunca me passou pela cabeça ter outra
mulher que não a minha até porque foi sempre e é o grande amor da minha vida.
Em Setembro de 1965 fui promovido a furriel, passou à
disponibilidade o Caetano e entrou o cabo miliciano Roque, com o qual se
manteve a mesma equipa coesa e funcional e a amizade que hoje, depois dos
setenta anos ainda perdura. Com o Abrantes também durou até à sua morte
prematura. Do Caetano perdi o rasto desde muito cedo.
Este posto militar, na época, tinha um salário de 4.600$00.
Era bastante dinheiro. Dava para eu deixar na Conta, em nome do meu pai, no
Banco Português do Atlântico, em Lisboa 2.500$00 todos os meses e eu viver à
grande com os outros 2.100$00. Foi com esse dinheiro que o meu pai pagou dois
apartamentos que tinha comprado ao J. Pimenta na Reboleira, em Lisboa que
rendiam 3.100$00 todos os meses.
Que mais se poderia pedir à vida. Nada, a não ser a companhia
do ser amado. A minha noiva, a Teresinha, entretanto, depois de concluído o 5º
ano do Liceu concorreu para os correios e foi viver para Almada, trabalhando em
Lisboa. Ambos contávamos os dias nas nossas cartas diárias até que chegasse o
dia do casamento. Em Maio de 1966 ela começou a tratar da documentação junto do
cartório civil de Almada e do Pároco e, para tal eu mandei fotocópias
autenticadas dos documentos de identificação e uma procuração para que me
representasse em todos os actos. Entretanto mandei uma carta ao meu sogro a dar
conta da situação e a pedir-lhe autorização para casar com a filha. Foi uma
mera formalidade já que tanto ela como eu éramos maiores de idade e podíamos
fazer o que entendêssemos mas, a nossa educação, obrigava-nos a seguir estes
procedimentos.
Chegado o mês de Agosto daquele ano meti um mês de licença a
que tinha direito, ao abrigo do artigo 109 do RDM, mais cinco dias da alínea a)
do mesmo artigo e Regulamento de Disciplina Militar e, no dia 27 cheguei a
Lisboa onde me esperava a minha noiva e os meus tios.
Chegado o dia 14 de Setembro de 1966, um dos dias mais felizes
da minha vida, casei na capelinha de Nossa Senhora do Incenso, Penamacor.
Cerimónia presidida pelo Reverendo Padre Manuel Toscano, na altura coadjutor do
Arcipreste do concelho.
Noite de núpcias passada em Castelo Branco na casa de uma
pessoa amiga que fora passar uns dias fora e deixara a moradia disponível para
nós os dois.
Só lá dormimos. Pelas nove da manhã do dia seguinte pegámos
no Volkswagen 1300 que tínhamos alugado em Lisboa no dia seguinte à chegada e
lá vamos nós em Direcção a Lisboa para resolver problemas relacionadas com o
emprego da Teresinha, os CTT.
Tomámos o pequeno-almoço numa aldeia nos arredores de Nisa e
a Teresinha estava deveras mal disposta pelo que, poucos quilómetros andados
tivemos que parar para ela vomitar.
Naquele tempo a minha mulher era extramente franzina e
queixava-se, frequentemente, do estômago. Não era enjoo pois estava muito
habituada a andar de um pequeno autocarro quando frequentava o Colégio de
Penamacor e se deslocava todos os dias da Meimoa para Penamacor e vice-versa.
Mas, porque dormimos pouco e mal, nenhum de nós estava
habituado a dormir acompanhado estávamos terrivelmente cansados e, dentro de
Santarém, eu ia a dormitar ao volante e a Teresa dormia profundamente.
Valeu-nos, na circunstância, um auto tanque dos Bombeiros que vinha em sentido
contrário que vinha a assinalar a marcha com a sirene. Acordei repentinamente e
encostei logo que encontrei uma sombra à saída da cidade. Dormi cerca de dez
minutos e acordei como novo metendo-me de novo à estrada. Estamos a falar de um
tempo que uma viagem de Castelo Branco a Lisboa demorava umas boas quatro
horas. Hoje é cerca de metade desse tempo.
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