Monday, October 05, 2020

VIDAS E SENTIDOS - PARTE III

 

III

Quem vos conta estas histórias de vida com sentido, mas também com sentido de vida, nasceu próximo do final da Segunda Guerra Mundial. Numa altura em que a Guerra Civil de Espanha estava no seu apogeu, com as consequências económicas e socias que, como é óbvio, se transmitia a um País vizinho, pequeno e pobre.

Logo não pode, nem quer, o adulto maduro de hoje, olvidar os momentos da sua meninice, que não poderiam, pelas vicissitudes várias, a começar por aquelas que a família não podia controlar, por serem importadas de Espanha, os dias difíceis porque passavam as famílias da Comunidade onde nasceu e se criou, até aos doze anos de idade.

Aliás, delas guarda recordações que sendo, por vezes difíceis, foram simultaneamente muito agradáveis e muito, muito felizes.

Pelas vivências familiares de carinho e atenção, pelas amizades imorredoiras que se foram consolidando através dos tempos e se continuam a manter, a maior parte delas, pelos contos intermináveis que os avós contavam ao serão, à volta de uma lareira que mal aquecia os mais velhos e as crianças, mas onde cabia sempre mais um.

Estórias com História, com moral, com significado, com sabedoria e que ainda hoje deliciariam as nossas crianças, não fora a existência de uma televisão deseducativa, as “play stations” e outros brinquedos que as torna mais robots do que humanos, mais solitárias do que sociais e socializantes, mais egoístas do que solidárias.

A nova personagem destas histórias de vida é o primeiro neto sobrevivente. A tia mais velha tinha alcançado e parido uma filha que, por falta de assistência médica necessária e suficiente, falecera à nascença.

Foi, assim o primeiro e único filho em casa, o primeiro neto das duas partes, materna e paterna, o primeiro sobrinho, igualmente de ambas as partes e, essa circunstância trouxe-lhe algumas benesses mas, também, algumas responsabilidades, com as quais ainda hoje se identifica e que ainda carrega.

Ainda hoje é o tio dos filhos dos seus primos direitos. Difícil de  explicar esta incongruência aparente. Como é que se pode ser tio dos filhos do primos? Perguntará o leitor e com toda a razão. Mas, paradoxalmente, a resposta é de uma simplicidade estonteante. É que as crianças, adolescentes e até alguns jovens-adultos, filhas dos primos, sempre o viram como um homem mais velho e muito respeitado pelos pais, tal como acontecia com os tios destes. Desta forma na mente pura e sã das crianças nós pertencíamos à categoria dos tios respeitáveis e queridos. E ainda hoje é assim. Recebe o carinho e o respeito de todos eles, de tios de primos, dos filhos dos primos e dos netos destes.

Como está a ficar velho e não tendo netos tem, em compensação, uma caterva de sobrinhos netos e bisnetos que o adoram e isso, ele guarda no mais fundo do seu coração, com júbilo – perdoe-se-lhe a imodéstia – até com algum orgulho e muita vaidade. O respeito, o carinho e admiração são recíprocos de ambas as partes.

Tendo duas filhas que, por opção, não querem constituir família. Sabe-se lá bem porquê? Se calhar porque colocam a Carreira num plano impeditivo da constituição da mesma, ou por falta de vocação para o matrimónio. Por falta de pretendentes não é de certeza porque conhecendo bem o seu círculo de colegas e de amizades, por certo, não deixaria de aparecer alguém que com elas quisesse constituir uma vida a dois. Mas as razões da vida actual, a vertiginosa alteração do estatuto da Mulher com a respectiva emancipação e independência, são motivos mais do que suficientes para se induzir que qualquer razão é válida para a tomada de opção de vida.  

Custa-lhe. Acreditem. Mas respeita, total e integralmente a opção.

Não tendo outro remédio, mas mesmo que o tivesse, pela sua personalidade, postura e forma de estar na vida, jamais interferiria neste tipo de opções, que fazem parte intrínseca da vida individual de cada um e só a cada um diz, integralmente, respeito.

Tal como o não fez relativamente aos Cursos Superiores que cada uma quis tirar e as Actividades Profissionais que cada uma abraçou, as competências ao nível do Conhecimento e do Saber que cada uma teima em perseguir, cada dia mais e, amanhã melhor do que hoje, num perfeccionismo que, por vezes, as faz sofrer, mas que ao mesmo tempo lhes dá muito prazer, pois o seu trabalho e dedicação à profissão é reconhecido por todos aqueles com quem partilham os seus saberes e as suas competências, dentro e fora do grupo restrito do local de trabalho. Não é homem para se meter na vida de ninguém, muito menos na vida das pessoas que lhe são mais queridas.

Não dá conselhos até porque, como alguém dizia, se conselhos valessem alguma coisa não se davam, vendiam-se. Mas ajuda. Ajuda na medida das suas possibilidades e em todas as circunstâncias. Quer nas opiniões que, constantemente lhe são solicitadas, quer com o exemplo e experiência de vida e saberes de experiência feito. Está sempre disponível para ajudar os próximos e os afastados.

Os que mais aprecia e aqueles que não lhe merecem qualquer tipo de consideração.

Sempre que há uma necessidade e lhe batem à porta, esta está sempre aberta para prestar o auxílio possível dentro do desejado.

No tempo em que nasceu e cresceu, até aos doze anos de idade, e no espaço rural rústico mas belo, a vida não era fácil para ninguém. Nem os chamados ricos viviam com abundância, higiene ou limpeza. Nem por isso se diga que as pessoas eram infelizes. Isso seria uma injustiça sem tamanho.

Na época era ver e ouvir nos campos, magotes de gente bem disposta, sempre pronta a dizer uma piada que recolhia a gargalhada geral, ou ouvir um coro, afinado, de cantigas apropriadas às estações do ano, aos trabalhos que estavam a desenvolver, aos namoricos e aos amores maduros que se iriam transformar em famílias, células decisivas de uma sociedade com Valores, com Ética, com Vergonha e com Classe, ainda que muitos deles não conhecessem os conceitos, mas que os praticavam quotidianamente sempre e em todas as circunstâncias.

Outros tempos e outras vidas. Porventura, nem melhores nem piores do que as de hoje, mas muito diferentes.

O analfabetismo era mais que muito e a taxa situava-se na ordem dos 75% nos homens, sendo ainda mais elevada nas mulheres. Até porque a política do “Deus, Pátria e Família” estava arreigada nos usos e costumes da generalidade das pessoas e as mulheres eram destinadas, desde crianças, a serem boas esposas, boas donas de casas e melhores mães de família. Não é que este destino fosse desprimoroso, mas era, certamente, muito redutor para todas aquelas que ambicionassem ser mais do que aquilo.

A Sociedade era dum conservadorismo indescritível. Aos rapazes já lhes era permitido sonhar com algo mais, dependendo das circunstâncias. Se tinham a quarta classe e algum “jeito” para os estudos – era assim que se catalogavam as crianças – e um “padrinho” – na altura designado por “cunha” – seguiam, em regra, para o Seminário, não para serem sacerdotes mas para adquirirem habilitações e conhecimentos que depois lhes abririam outras portas quer, para obterem graus académicos, quer para irem parar a uma Repartição Pública, um Banco ou ao escritório de uma qualquer empresa.

Aqueles que não tinham o tal jeito para os estudos procuravam arranjar o padrinho que os levasse para Lisboa onde, de uma forma geral, começavam como “marçanos” rapazes pouco mais que crianças, que trabalhavam nas Leitarias ou Carvoarias - assim se designavam as mercearias ou minimercados de hoje - para transportarem as compras que os clientes faziam e as carregavam às costas até às casas destes, às vezes em quartos e quintos andares, sem elevador. Era um trabalho duro mas que, para os próprios e, principalmente para os pais, era uma grande vitória porque os retiravam do campo que este sim, era um trabalho duro, inglório e que mal dava para comer.

 Os mais vivaços e com poder de iniciativa lá procuravam melhoria de vida no Estado nem que fosse como “almeida” – varredor de rua – da Câmara Municipal de Lisboa, porque chegava ao fim do mês e o dinheirinho sempre curto, era certinho e sem sobressaltos. Para além disso dava direito a uma reforma o que para a época, era de extrema relevância.

A nós estava-nos reservado o Seminário, porque tinha jeito para o estudo e porque tinha um padrinho, o seu saudoso professor da Segunda Classe que achava mal empregada uma “inteligência destas”, - na sua apreciação lisonjeira, já se vê, - para dar com os costados no campo agarrado ao cabo de uma enxada ou à rabiça de um arado. Também o lugar de marçano não se adequava a “tanta competência”. Como era generoso e bondoso aquele professor. Como era sábio e competente. Como era caridoso e formador exímio de pessoas. Não só transmitia conhecimentos, que eram bastantes para a época, mas também protegia e educava para a vida. Acompanhava, mesmo que à distância, os progressos ou desvios daqueles que lhe passaram pelas mãos, no sentido mais nobre do termo. Porque para ele, o que era importante, era que os seus pupilos singrassem numa vida cheia de exigências, onde o facilitismo não tinha lugar. Excepção, como é óbvio, para aqueles que nasceram em berço de ouro que, geralmente, eram parasitas da sociedade.

Ele tratou de tudo e, em Outubro, após ter concluído a quarta classe em Julho, já estava o menino preparado para rumar ao Seminário quando, sem que nada o fizesse prever, o professor recebe uma carta do Reitor do mesmo, recheada de pedidos de desculpa, mas o dito rapaz inteligente, não poderia frequentar o Seminário porque, adiantava: “o Pároco da Freguesia, o tal que não gostava nada do Ti Ricardo, vira aqui um pretexto de vingança que não desperdiçou, e dera indicações ao Seminário de que a criança era uma jóia de garoto, os seus pais eram bons cristãos e cumpridores dos preceitos da Igreja, pagavam a côngrua com pontualidade e maior do que lhe seria de exigir, mas havia um senão: a sua origem mais remota assentava num avô comunista”.

Na altura, em que a repressão pidesca e a bufaria ignóbil, impunha muitas das regras de convivência social, ser comunista era um anátema que ninguém queria carregar, mas também era uma ideologia que poucos conheciam. Não estamos a falar do Alentejo, terra de latifundiários, onde a consciência de classe era mais apurada, já que se tratava de um minoria com muitos hectares de terra e uma esmagadora maioria de assalariados que nem um pedaço de chão tinham para plantar umas couves, uns pimentos ou uns tomates e muito menos uma leira de batatas.

Por estes recantos, toda a gente, por mais pobre que fosse, era dono de um casebre para se abrigar mais à família e um pedaço de terra que lhe permitia colher o sustento do lar para todo o ano, nem que isso, muitas vezes, se resumisse a uns alqueires de feijão (pequeno) frade, que servia para mitigar a fome.

Esta circunstância, leva-nos a afirmar, com algum grau de certeza, que nesta terra não havia fome. Excepção para os mandriões, os que não queriam trabalhar, os que viviam nos copos, embriagados a troco de pequenos biscates. Isto não retira as inúmeras dificuldades de algumas famílias em colocar um pedaço de pão na mesa nem a circunstância de uma sardinha, quando a havia, ser dividida por três. E, mesmo assim, em muitos casos era um luxo.

Não é experiência de vida pela qual tenhamos passado. Isto de ser filho único tinha as suas vantagens e os seus dissabores. A falta de alguém com quem partilhar as dúvidas e o epíteto, extremamente injusto, de que eram malucos, mas sempre sobrava um sardinha inteira para refeição.

Ora, retomando a ideia do antepassado comunista, nada de mais falso e de mais perverso, para mais vindo de um clérigo. Mas a vida tem destes sentidos. O escrevinhador que aqui se expõe, perante vós, ficou impedido de frequentar o Seminário e, porventura, poderia até ter dado um bom Padre, nestas coisas do futuro só Deus sabe. Mas, o mesmo Deus escreve direito por linhas tortas e fez dele um Cristão que se orgulha de o ser e que procura e sempre procurou, em Cristo o seu Modelo de Vida, ainda que, com as suas imperfeições e defeitos, nunca o tenha conseguido, mas que o tenta diariamente.

Durante esse ano de 1955 o seu tio Zé que já estava em Angola desde 1952 e, tal como o pai da criança que não servia para seminarista, não tinha medo do trabalho, mandava cartas para que o pai da criança de onze anos se decidisse a ir ter com ele, para fazer vida noutras terras, noutros horizontes mais vastos e onde as oportunidades eram mais abundantes. Depois, dizia ele, com mais segurança, poderia mandar ir o filho e a mulher ter com ele e aí construir uma vida melhor. Mais rentável economicamente e mais cheia de conhecimentos e de variedade de funções que, apenas, estavam à espera de quem delas se quisesse aproveitar.

Mas a mãe impôs-se ao pai e quis sempre acompanhá-lo daí que ficara desde logo estabelecido que ou iam todos ou não ia ninguém. E assim foi. As coisas eram complexas no tempo, burocráticas até à exaustão e até de alguma espionagem. Era preciso aval da PIDE (Polícia Internacional e Defesa do Estado), arranjar carta de chamada, passagem em navios que faziam a rota de África até Moçambique e que carregavam tudo o que era mercadoria, máquinas e outros artefactos reservando pouco espaço para passageiros, que iam empilhados em beliches de três camas junto aos cascos, na proa e na popa, sendo a primeira destinada a mulheres e a outra destinada a homens e esta viagem de ida e volta demorava sempre mais de mês e meio.

Arranjar passagem foi o mais difícil. Andámos quase um ano nisto com cartas de Angola para cá e de cá para Angola, da Companhia Nacional de Navegação para cá e de cá para a Companhia, tratar dos Bilhetes de Identidade, enfim um rol de burocracias que eu tenho a certeza, de que se o Max Weber soubesse o desvio que a ideologia burocrática viria a tomar nos tempos em que a implantou a nível mundial, se calhar ter-se-ia arrependido de a ter inventado.

Mas, por fim lá chegou o dia 4 de Fevereiro de 1956, para embarcar. Não deixa de ser curioso este dia 4 de Fevereiro, pela coincidência que se veio a verificar, anos mais tarde. Mas isto é outra história. Tem a ver com a sublevação dos Movimentos de Libertação e de Independência das colónias – termo que faz eriçar o pêlos – porque as evidências hoje indiscutíveis, é que os portugueses nunca foram colonizadores. Nunca se aproveitaram das riquezas naturais mas miscigenaram-se com os nativos e adoptaram aquelas terras de além-mar como se de origem se tratassem. E, por isso, muitos lá nasceram, lá morreram e lá cultivaram uma convivência com os nativos que trouxe prosperidade para todos.

Isto não branqueia nem pretende branquear alguns abusos que se cometeram. Mas qual a sociedade onde não há alguém que abusa do poder que tem para subjugar o seu semelhante, independentemente da raça ou da cor da pele?

Aqui mesmo, neste País de “brandos costumes” agora a viver numa hipotética democracia, não há Senhores e Plebe? Não há exploração do Homem pelo Homem? Não digam que não porque se o afirmarem só dará vontade de rir, ou talvez de chorar, tais e tantos são os casos do conhecimento público de criminosos que a coberto do seu poder, político ou económico, são ditadores do mais puro quilate e despóticos nas atitudes e nas práticas.

Basta estar atento à Comunicação Social para ser ter a noção da ponta do iceberg da mais profunda máfia que está instalada neste pedaço de terra à beira-mar plantado, mas onde a corrupção campeia e os abusos do poder são o pão nosso de cada dia. E estamos a falar apenas da ponta do iceberg que, como aprendemos na nossa adolescência, é uma pequena parte visível da imensa massa imersa que as ondas do mar encobrem.

Antes tivemos que alugar uma furgoneta, como então se dizia, para levar as malas de porão e as restantes malas de viajem até ao comboio com destino ao Cais da Rocha em Lisboa, deixando apenas, uma pequena mala para umas mudas nos dias que tínhamos de passar em Lisboa antes de embarcar.

Já em Lisboa, a dormir em casa de um amigo da família que residia numa subcave em Alvalade, a comida era onde calhava numa tasca ou outra, porque a roda-viva entre Alvalade, a Baixa, o Cais da Rocha e a Rua da Junqueira, onde se situava o antigo Hospital do Ultramar e todas as demais Repartições onde era necessário tratar de documentação, não permitia outros devaneios. E, por outro lado, também não se pode dizer que o dinheiro abundasse por forma a permitir frequentar restaurantes. Desde a simples tarefa de escrever o nome e colar os indicadores de pertença, até à apanha das vacinas, indispensáveis para quem se desloca para um País Tropical, tudo isto tivemos que fazer em cerca de dez dias.

Estas vacinas eram fundamentais porque, já estava cientificamente demonstrado, que eram suficientemente eficazes para reduzir substancialmente o número de mortos, que outrora aconteciam, por serem atacados pelo escorbuto, paludismo, febre amarela, varíola e outras doenças endémicas.

E este narrador que faz de vós confidente, criança ainda, aldeão puro e genuíno que o mais longe que tinha ido era às sedes do próprio concelho e/ou dos concelhos vizinhos, lá se via naquela já movimentada e grandiosa cidade, pelo menos aos seus olhos da criança, já que comparativamente com os dias de hoje, apesar de ser a Capital da República, não passava de um pequeno burgo, onde se via muita gente a andar a pé, mas também se verificava o convívio das carroças puxadas a cavalos, com autocarros públicos, de cabine avançada, de uma só cor e com um número na parte da frente, que repetia na parte de trás, com paragens em locais estratégicos para apanhar e despejar passageiros, eléctricos amarelos, que circulavam por uns carris, com bancos de madeira e um condutor que mudava de cabina consoante se deslocava num sentido ou noutro.

Nestes dois tipos de transportes públicos havia sempre um “pica” que verificava se o passageiro era titular do competente bilhete de autorização, ou não, para viajar. De vez em quando lá passava um táxi de cor preta com uma espécie de farol no tejadilho e que indicava a função da viatura ligeira.

Os automóveis particulares eram poucos e, por isso o trânsito fluía de acordo com o bracejar de um polícia que se encontrava em pé numa peanha branca, redonda e com uma armação protectora para que o infeliz sinaleiro, com tantas voltas que tinha que dar, não tivesse alguma vertigem e viesse parar cá abaixo e fosse atropelado.

Já havia, porém, passadeiras de peões, poucas, é bom que se refira, mas que se destinavam a disciplinar quer o trânsito automóvel quer o próprio civismo dos peões, coisa que raramente se via cumprida porque, sempre que era preciso atravessar uma daquelas avenidas largas paralelas umas às outras, Rua do Ouro, da Prata, Augusta e outras que eram o símbolo da visão em grande, do Marquês de Pombal, lá ia um ou outro a correr antes que algum automóvel se aproximasse. Sempre longe dos olhares da Polícia. Sim, porque nessa altura não se podiam infringir regras sem que se assumissem as consequências e o peão que atravessasse fora da passadeira já sabia que tinha que desembolsar vinte e cinco tostões, que na altura dava para uma refeição frugal.

Todas estas imagens povoam a nossa memória e a da nossa família nuclear que, por norma, calcorreávamos todos estes trajectos a pé, não só porque dava jeito poupar os tostões que custavam os transportes públicos – íamos para uma Terra da qual não sabíamos, literalmente nada, e o dinheiro sempre dá uma sensação de segurança – como também porque não conhecíamos os trajectos que os mesmos transportes públicos percorriam e, a probabilidade de querer ir para “Belém e parar em Santarém” era mais que muita.

Passámos, mais ou menos oito dias, neste corre, corre mas lá nos íamos desenrascando, satisfazendo todas as necessidades de preenchimento de papéis, que eram muitos, e tratar dos demais assuntos necessários ao embarque.

De recordar que estas tarefas estavam destinadas à criança de doze anos, mas que a vida se encarregara de amadurecer o suficiente para assumir muitas das responsabilidades que estavam subjacentes a tamanha aventura. O pai sabendo ler, nunca mais tinha pegado numa caneta e as dificuldades eram muitas, enquanto aqui a criança tinha os conhecimentos que a quarta classe de então proporcionava, fresquinhos e prontos a aplicá-los na vida e no sentido que a mesma impunha. Os ensinamentos do saudoso Professor já aqui referido, vieram a revelar-se de uma importância fulcral e de uma aplicabilidade indiscutível.

Num fim da manhã do dia 14 de Fevereiro por volta do meio dia, lá estávamos nós na amurada do Navio, depois de termos passado uma manhã atarefados a ver os guindastes subirem as malas de porão e tentarmos fixar o sítio onde eram colocadas e depois subirmos para o navio e levarmos as malas de mão para proa, a da mãe, e para a popa a nossa, para dar um último adeus, não às pessoas porque não tínhamos ninguém na despedida, mas à Terra e ao País que nos viu nascer e ao qual, diga-se em abono da verdade, jamais tencionávamos voltar.

Este momento fora bom, pelo menos para nós, já que tinha passado por um trauma terrível de despedidas da família, na Terra Natal e fora, como era costume dizer-se, um dia de Juízo, com gritos e choros que mais pareciam a despedida de um ou mais defuntos, do que a ida de uma família para a África.

Despedíamo-nos assim da cidade de Lisboa, que quase me atrevo a dizer que já conhecia, palmo a palmo, de Alvalade a Alcântara, com passagem obrigatória pela Baixa Pombalina. Despedíamo-nos também de um País que não deixava muitas saudades, onde muito se trabalhava para pouco se obter.

O essencial para não se morrer de fome e onde o futuro era pouco auspicioso, pelo menos para um casal com cerca de 35 anos de idade que, casados há, mais ou menos 13 anos, pouco mais tinham do que uma pequena casa de rés-do-chão colada a um palheiro onde se guardavam a palha e o feno para os animais e se deixava um pequeno espaço para estes se acolherem.

A casa, por sua vez, tinha cerca de metade coberta de madeira, assente em barrotes onde se encontravam os quartos onde dormíamos e a outra metade que era térrea e servia de sala e cozinha ao mesmo tempo onde estava assente um mourão onde se acendia o lume para cozinhar e aquecer em dias de frio, sem qualquer tipo de chaminé e que a telha vã deixava passar o fumo, geralmente muito, porque a lenha, era quase sempre verde, dada a sua escassez.

A lenha era um bem precioso porque todos os terrenos mesmo os barrocos dos altos dos montes eram rasgados pelo arado para ver se neles algumas espigas escapavam para darem centeio, cereal indispensável a uma alimentação quase sempre pouca e quase nada diversificada.

Já o nosso futuro seria algo mais risonho porque ter a quarta classe naquele tempo era um porta aberta para um qualquer emprego que não fosse muito exigente e, sempre mal remunerado. De qualquer forma livrava-nos da terra que, além de não gostar, a agricultura foi sempre um meio de subsistência e pouco mais do que sobrevivência neste País sempre mal administrado e pior governado desde a sua fundação, na qual o filho teve necessidade de guerrear a mãe para se impor como Rei.

Ainda que sobre o futuro ninguém possa falar porque dele nada se conhece, importa aqui voltar à história do Padre que informou o Seminário, que nós não deveríamos frequentá-lo porque o avô era comunista, certamente se lembram de o ter referido atrás. Convêm retomar esta história para informar o leitor que, nesse ano que passámos à espera de embarque, já não se semeou nem se recolheu e, por consequência, o trabalho era pouco para toda a família. Então o tempo disponível era ocupado das mais diversas formas desde as brincadeiras, passando pela ajuda num pequeno comércio local, pertença de uma prima, até passar a ser o sacristão diário semanalmente – sim porque ao domingo havia um Sacristão adulto – e o Padre gostou tanto deste serviço prestado à Igreja e, ao pároco, em particular, de forma gratuita e totalmente desinteressada, que se ofereceu para interceder para entrarmos, então para o dito Seminário no ano lectivo seguinte.

E isso, eram favas contadas, porque o Poder era mais que muito e até tinha a protecção do Bispo da Diocese, dados os seus dotes oratórios que ia, pomposamente, debitando pelas paróquias das redondezas, em festas e romarias.

Digamos assim, que o futuro parecia, ou poderia ser, mais risonho que para os nossos progenitores. Mas já estava decidido.

Não aceitámos tal hipócrita oferta e rumámos a Angola com desembarque em Luanda, passados quinze dias depois de zarpar de Lisboa, com uma paragem de cerca de 12 horas, na Madeira – Funchal -, para largar e apanhar passageiros e algum reabastecimento necessário ao Navio Moçambique, de seu nome.

No Funchal o Navio ficava ao largo, porque esta cidade não possuía cais de acostagem, e eram umas pequenas barcaças que faziam o transporte de pessoas de e para a cidade, uns para visitar e comprar alguma coisa típica de que recordamos os bordados e as cadeiras de verga que adquirimos como recordação.

A viagem também não deixou de ter as suas peripécias que deram sentido à dita. Primeiro um enjoo monumental da mãe que se prolongou por quase toda a viagem. A nós e ao pai também cá chegou mas quando parámos no Funchal já íamos finos.

Depois e à medida que nos íamos afastando do Continente o calor aumentava e a humidade igualmente o que nos aliciava para banhos diários e frequentes.

Depois era passear pelo convés, subir e descer até à torre do Comando para tentar avistar terra, coisa que não acontecia e o mais que se podia ver eram Golfinhos e outros mamíferos e peixes de enorme porte, desconhecidos, até então, mas que apreciava o seu acompanhamento e escolta que faziam ao navio.

Baleia julgamos, não ter avistado nenhuma, até porque também ninguém nos sabia explicar como era e qual o seu porte. Pelo contrário, corriam entre os passageiros que eram quase todos ou, pelos menos, a esmagadora maioria, principiantes em viagens deste tipo, tal como nós, ignorantes quanto baste, sobre as coisas do mar e das viagens longas, algumas lendas de que Deus nos livre de aparecer uma Baleia que era capaz de meter o Barco no Fundo e a mortandade seria geral. Santa ignorância do nosso povo.

As descobertas, os jogos, os amigos que fizemos, eram novidades que se acantonaram numa qualquer “gaveta” da nossa memória remota e que ainda hoje recordamos com muita saudade, porque fizeram parte de um crescimento cultural inesquecível e muito proveitoso.

Ao atravessar o Equador na linha onde se situa São Tomé e Príncipe, também colónia Portuguesa, mas da qual passámos bastante longe a Companhia de Navegação, através dos seus tripulantes e Comandante mandou servir uma ceia, lá pela meia-noite, com alguns acepipes que desconhecíamos, como marisco e outras coisas boas para o paladar, tudo bem regado e à descrição, desde o vinho à cerveja, passando pelas gasosas e outros sumos. Houve música e os mais atrevidos fizeram um grande bailarico que nós nos limitámos a ver e a apreciar.

Deve-se dizer que, em regra, a comida a bordo era intragável mas naquele dia fora “à tripa forra”. A nós, que sempre fomos consideramos como de ruim boca, já que não gostava de nada ou de poucas coisas, o que nos valia – sempre fomos muito esquisito com a alimentação, não gostava de nada que levasse tomate, cebola e afins – era comer a sopa, guardar o pão que nos cabia e depois ir ao porão, à mala e tirar o saco de pano cru onde iam alguns chouriços que, em princípio se destinavam aos familiares e amigos que, na altura já estavam em África, mas que nós íamos dando cabo deles, dadas as nossas esquisitices.

Após a passagem do Equador só faltavam dois dias de viajem, informação do comandante e isso era frenético parecendo que o tempo nunca mais passava.

Passávamos o tempo na brincadeira com as outras crianças mais ou menos da nossa idade, que eram um grupo muito reduzido, deve dizer-se e que, geralmente, só acompanhavam as mães porque os pais já os esperavam em Luanda. Nós seriamos caso único que viajava com pai e mãe.

Mas como não há bela sem senão, a ansiedade da chegada foi substancialmente aumentada porque, no dia seguinte, pelas dezasseis horas, o Navio fez uma paragem brusca e um rodopio da proa para a esquerda imobilizando-se de forma transversal à rota traçada para a  viagem.

Nessa altura estávamos a tomar banho e a sacudidela que levamos atirou-nos contra uma das separações laterais o que fez com que, assustadíssimos, nos limpássemos rapidamente, nos vestíssemos e corrêssemos pelo convés à procura do lugar onde deixara os pais quando lhes disse que ia tomar banho.

Quando lá chegamos, não só não via os pais como estava um aglomerado de gente que, aos gritos e falatórios que nos impediam de os procurar. Foram momentos de grande tensão e susto mas rapidamente chegou o meu pai que me tinha ido procurar e regressou onde tinha deixado a minha mãe porque, se morrêssemos e era essa a sensação que se viveu durante cerca de duas horas, morríamos os três juntos.

O tempo foi muito, as notícias escassas ou nenhumas, a água do mar altamente agitada e esverdeada devido à manobra do navio e eu via o meu pai com o olhar fixo no nível do mar e onde as onda batiam no casco do navio para se aperceber se este se estava a afundar ou não, ao mesmo tempo que nos procurava acalmar e dar segurança dizendo que não via alterações que justificassem tanto pânico.

Pouco tempo depois, e porque nestas circunstâncias toda a gente fala com toda a gente, chega ao pé de nós um colono com experiência destas viagens e dizia com toda a calma do mundo: não tenham medo. Tudo o que estão para aí a dizer é um chorrilho de asneiras. Sim, porque uns diziam que o navio tinha batido contra uma Baleia, outros que não, teria, eventualmente, sido uma rocha e o que toda a gente tinha a certeza era que a morte por afogamento se aproximava.

O homem dizia: aconteceu alguma coisa estranha mas nada de receio porque um Navio destes não vai ao fundo nem que tenha um rombo de metros e, entretanto, as comunicações farão chegar o salvamento. Não tranquilizando de todo não deixava de ser um consolo. Eu e os meus pais, agarrados uns aos outros, cada vez nos apertávamos mais, como se isso nos desse ânimo e segurança para encarar o desconhecido.

Ao fim de duas horas, pelo altifalante o Comandante pede silêncio e informa que um homem caiu ao mar mas os botes que mandara ao mar não lograra encontrá-lo pelo que dentro em pouco seguiríamos viagem. É evidente que esse pouco ainda demorou mais três ou quatro horas e, à boca pequena, lá se veio a saber a verdade dos factos através de um ou outro tripulante mais língua de trapo.

Afinal, um tripulante que sabia, mas que procurava ignorar, depois de uma bebedeira monumental, quis por fim à vida porque, enquanto ele andava no mar a mulher punha-lhe os cornos com um amante ou mais e a forma que achou mais conveniente foi amarrar a si uns garrafões de vinho e outras peças pesadas, subiu à proa e atirou-se ao mar, numa zona conhecida como santuário de tubarões e assim não correr o risco de ser salvo.

Foi por esta razão que o comandante que vira o que acontecera fizera a manobra para que a hélice não o trucidasse e na esperança de que as lanchas que mandou lançar ao mar pudessem resgatar o desgraçado que, por amor, pusera fim à própria vida.

Este já era um homem com certa civilidade e preferiu matar-se do que fazer aquilo que era muito vulgar, que era limpar a honra com sangue matando, se possível, mulher e amante.

Passadas estas circunstâncias que só não são caricatas porque custaram a vida de um ser humano lá rumamos de novo a Luanda.

Eram cerca das cinco da manhã, já clareava e a ansiedade não deixava que o sono se mantivesse daí que, após um banho refrescante, e arrumadas as parcas coisas que tínhamos que transportar na mão, lá nos dirigimos para o convés na esperança de avistar terra mas, oh! Desilusão: terra nem vê-la, nem cheirá-la.

Apesar da decepção lá nos mantivemos num vai e vem constante entre bombordo e estibordo na esperança de avistar o tão desejado ponto de chegada. Já eram perto das oito horas e sem que nada o fizesse prever demos de caras com um morro de terra vermelha, quase encostado ao navio.

O espanto foi geral pelo inesperado do acontecido e só anos mais tarde compreendi a razão deste episódio. É que, efectivamente, nós estivemos desde as cinco da manhã mesmo junto a terra, só não a víamos porque o navio tinha de fazer uma manobra em alto mar para dar entrada de proa na magnífica baía de Luanda. Daí primeiro avistarmos a estibordo o “Morro” – escarpas de altura enorme, em vertical de terra vermelha - que mais tarde vim a conhecer com a designação de barrocas e depois corrermos para a proa onde se começavam a avistar os prédios enormes da cidade alta e o cais de aportagem com os seus grandes guindastes que se moviam sem cessar, ora transportando mercadoria para os navios ora retirando de outros, outro tipo de produtos.

Pareceu demorar horas até que o navio atracasse e, efectivamente, demorou. Deslocava-se com tal lentidão que mais parecia parado do que em andamento puxado por um rebocador que, com perícia e exactidão lá fez encostar o navio ao cais sem um solavanco.

A azáfama foi indescritível desde os tripulantes aos passageiros passando pelas pessoas que, no cais, procuravam alguém querido ou conhecido que acabava de chegar.

E ora se via um lenço a esvoaçar em terra ora o mesmo acontecia no navio que, tal era a altura acima do nível do mar que as pessoas cá em baixo mais pareciam anões que seres humanos normais. Impõe-se dizer que neste longínquo ano, da segunda metade, da década de cinquenta, do século passado, não havia gare marítima e as pessoas tinham que se acomodar no cais a uma distância de cerca de cinco metros do ancoradouro, por questões de segurança, o que agravava a descoberta de quem, ansiosamente se esperava.

Começámos a ver a tripulação a preparar a descida de duas escadas amovíveis com cordas laterais a servir de corrimão mais ou menos a meio do navio e distantes entre si de cerca de cinquenta metros e, qual carneirada que pretende sempre ser a primeira a chegar ao prado verdejante, também nós lá nos fomos aproximando da entrada da escada para iniciarmos a descida.

Ainda me lembro como se fosse hoje, lá estava o meu tio Zé que já não via há três anos, que aqui para nós me desiludiu, pois na minha memória guardava a imagem de um homem forte, robusto e ali me aparece alto mas magro – excessivamente magro para o meu gosto – que depois de um forte abraço em cada um de nós nos foi largando para os braços do ti Cerdeira, amigo do peito e conterrâneo nosso.

A partir daí foi um corre, corre, da Alfândega para a Capitania e desta para os armazéns para, no meio daquele amontoado de coisas tentarmos descobrir a nossa bagagem de porão e chamarmos o revisor alfandegário para que a despachasse e pudéssemos deslocar até à casa do Cerdeira onde íamos ficar por uns dois dias, antes de seguirmos de comboio para uma vilória perto de Malanje de que, francamente, não recordo sequer o nome, mais propriamente para o lugar Aldeia Formosa, que de aldeia e de formosa nada tinha.

Estivemos lá pouco mais de uma semana. É que durante a viagem onde seguiam “meia dúzia de brancos” e o resto eram negros e mercadoria. No corredor havia caixotes de notas de um angolar, montes de dinheiro mas que valia muito pouco e, por isso, numa altura o que o cheque era desconhecido, era preciso transportar o dinheiro vivo, de qualquer maneira para pagar o que se comprava.

Na mesma carruagem ia um colono típico de balalaica vestida e capacete – o chamado panamá - de cortiça na cabeça, com a pele curtida pelo sol e que viu, quer na nossa vestimenta nada adequada ao clima, e nas cores rosadas da face branquinha que éramos “monandengues” – recém-chegados do “puto” – Metrópole, em linguagem indígena.

Começou por meter conversa perguntando a meu pai se já tinha emprego ao que o meu respondeu que ia destinado a determinado fazendeiro do qual nem me recordo o nome. Como na região todos os brancos se conheciam mutuamente já que eram em número reduzido o homem torceu o nariz e disse: o Senhor Manuel se não estiver satisfeito venha até aqui à Quizenga e pergunte pelo Paiva que tem emprego garantido e não se vai arrepender.

Com estas premissas e as dificuldades efectivamente encontradas resolvemos, apenas numa semana regressar à Quizenga com malas e toda a bagagem que mais parecia uma tenda de ciganos, tendo os meus pais ido até à fazenda que distava cerca de seis quilómetros da Estação ferroviária e ficando eu em cima de malas à espera que me viessem buscar.

O medo que eu passei não se pode descrever, sente-se, neste caso sentiu-se. Passavam por mim os pretos a chamar-me de monandengue e a mostrar-me aqueles dentes alvos como a neve num arreganhar de animal selvagem que para mim era o sentimento que me transmitiam.

De vez em quando lá aparecia o Chefe da Estação, pessoa simpática, que corria com aquele bando de vagabundos, que só ali estavam à espera de que os encarregassem de carregar algo para receberem uma gorjeta que era depois consumida em candingolo – aguardente de cana de açúcar – e era nestes pequenos espaços de tempo que sentia alguma segurança.

Por fim lá chegou a carrinha com o meu pai e um motorista preto que nem carta de condução tinha mas que, nem por isso deixava de ser um perito na condução pela picada onde os solavancos pareciam que nos iam deitar para fora da Chevrolet dos anos quarenta do século passado.

Carregámos todos os nossos pertences e lá nos dirigimos à casa colonial do fazendeiro onde fomos alojados num anexo à casa mãe e do lado oposto ao armazém e comércio. Foi-nos indicado um preto para cozinhar coisa que a minha mãe não aceitou porque queria ela efectuar, como sempre fez, as tarefas domésticas.

Entretanto chegou a noite, o jantar foi na casa do patrão onde nos foi apresentada a família e depois ficámos a conversar debaixo do telheiro apanhando a brisa que na altura sabia que nem ginjas pois tínhamos passado um dia com calor de rachar e ao qual não estávamos habituados.

A família era composta pelo patrão, já cinquentão na percepção de uma criança como eu era, um filhito de uns cinco ou seis anos e a esposa que não aparentava ter mais do que trinta anos. Viemos a saber depois e bastante mais tarde, que a Senhora, a quem desde o primeiro dia nos habituámos a chamar a quimbundinha, porque falava mais o dialecto indígena do que o próprio português teria casado quase uma criança com quinze ou dezasseis anos com aquele velho, casamento combinado entre o próprio e os pais desta, porque sendo estes uns pequenos agricultores viam naquele casamento um salva-vidas quer para a filha quer para os próprios e restante prole.

A Fazenda era enorme e eu nunca tive a oportunidade de saber quantos hectares ocupava, mas sempre me dei conta que o patrão procurava levar o meu pai onde tinha diversas equipas a trabalhar sobre as ordens de um encarregado que, sendo preto como os outros, não deixava de ser, quiçá, mais déspota e inumano que o próprio patrão e este não era nada meigo. Um dia convidou-me para eu ir também conhecer a Fazenda e só sei que, com paragens é certo, andámos por lá toda a manhã até à hora de almoço e sempre na dita carrinha Chevrolet. Era pois, de dimensões gigantescas a Fazenda, principalmente para quem tinha a ideia de que qualquer pedaço de terra com meia dúzia de metros quadrados já era um bênção e uma base de sustentação para famílias mais ou menos numerosas.

O Homem adorava o meu pai que à época tinha cerca de trinta e cinco anos. Era possante e extremamente trabalhador e, nestas circunstâncias achava que ele seria um auxiliar precioso para dirigir os negócios da produção enquanto ele se resguardava para os da exportação e importação. Daí os elogios constantes, de que o meu pai não era um agricultor de bengala, mas um homem que sabia da “poda” e como tal iríamos ter ali o seu futuro e o nosso.

A mim achava-me espertíssimo e por isso me colocou na Loja, assim designado o comércio local, onde se vendia e comprova um pouco de tudo. Aquele era o seu Feudo mas a mim permitiu-me que aprendesse a escrever à máquina utilizando o método de aprendizagem que em toda a minha vida considerei o mais adequado – aprende-se a fazer, fazendo – e por isso sem qualquer tipo de explicações pôs-me à disposição uma máquina de escrever Remington com teclado “azert”, o que me dava muito prazer descobrir.

Hoje uma aprendizagem, amanhã outra e com pressa de escrever sem enganos para enviar uma carta ao meu tio Zé, que entretanto tinha deixado a tal Fazenda junto de Malanje e fora instalar-se em Luanda, onde começou a sua aprendizagem de pedreiro.

É evidente que sempre que houvesse um cliente, por norma pretos, eu atendia o cliente e vendia-lhe o pano ou a ferramenta que, por norma era a crédito e era necessário escriturar no livro do Deve e Haver. Excepção aos motoristas da Companhia do manganês que passavam várias vezes ao dia e às vezes paravam para beber uma cerveja fresquinha tirada de um frigorífico minúsculo que trabalhava a gás, já que de electricidade nem vê-la.

A Senhora, como eu carinhosamente a tratava, adorava-me e via em mim aquilo que ela nem sequer conhecia das duas filhas que tinha a estudar em Luanda, no colégio de S. José de Cluny para tirarem o quinto ano dos liceus e, porventura, virem a ser professoras ou então casar com o filho de outro fazendeiro que igualmente frequentasse o Liceu Salvador Correia de Sá e Benevides de Luanda e se ficasse pelo sétimo ano ou então viesse para a Metrópole, cursar em Coimbra, Lisboa ou Porto.

Passava anos sem ver as filhas a desgraçada. O Pai, ao invés, lá ia mensalmente, de comboio ver as filhas e pagar a mesada às freiras e aproveitava a vender algum café e a comprar alfaias agrícolas que não passavam de enxadas, forquilhas e similares.

Como dizia, a Senhora gostava tanto de mim que um dia lá se atreveu a pedir-me se era capaz de a ensinar a ler ao que eu de pronto acedi.

Passámos à segunda parte do episódio que era convencer o patrão a que numa das idas à vila e só ele podia ir, para trazer um livro da primeira classe. Ao primeiro pedido da esposa ele negou imediatamente dizendo que ela não precisava de saber ler para nada, importava que fosse boa esposa e mãe. Então a Senhora pediu-me que eu intercedesse por ela e pedisse ao patrão que trouxesse o livro o que eu fiz utilizando alguma artimanha. Em vez de pedir o livro da primeira classe para a Senhora pedi um livro da quarta classe para mim alegando que era para não me esquecer dos conhecimentos que possuía. Ele cedeu e no dia seguinte já tínhamos o livro.

Em papel de embrulho e sempre longe dos olhos do patrão, quando ele dormia a sesta, eu organizei uma espécie de Cartilha Maternal do João de Deus, salvaguardadas as devidas distâncias, como é óbvio, e lá lhe fui ensinando as primeiras letras do Alfabeto e depois a saber juntá-las e lê-las. Era extremamente inteligente e em poucas semanas estava a ler as palavras mais simples. Depois, e sempre que podia, às escondidas do marido tentava ler palavras no livro da quarta classe e ficava feliz quando conseguia e quando não conseguia assinalava-as com um lápis para me perguntar e eu a ajudar a soletrar.

Passaram-se três meses e devo dizer que foram meses de aprendizagem variada e muito útil à vida.

 

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