VI
No dia 3 de Fevereiro de 1961 uma grande amigo e colega mulato, um electricista de mão-cheia, eram cerca das dezoito horas quando se agarrou a nós e num abraço caloroso despedindo-se dizendo que ia para outra cidade e tinha medo de nunca mais nos tornarmos a ver, daí aquele abraço tão amigo e tão fraternal.
No dia seguinte, 4 de Fevereiro de 1961, de madrugada, tivemos conhecimento de que se deu o assalto à casa da reclusão – era assim designada a cadeia local – na Boavista e à Sétima Esquadra da Polícia de Segurança Pública na Estrada de Catete e a maior da Cidade com um Corpo Policial de peso.
Na casa da Reclusão foram mortos dois vigias pretos e mais uns tantos guardas brancos que já não recordo o número, e depois muitos pretos que tentaram fugir pelas barrocas acima e eram caçados como coelhos na estrada que ia para o Cacuaco, por uma espécie de milícia armada de brancos com mais alguns polícias, que se espalhava pela estrada fora até ao mar, o que inviabilizava qualquer fuga. Na Sétima Esquadra mataram sete polícias brancos e os moradores do Bairro Madame Bergman e Bairro Popular agruparam-se imediatamente junto da Esquadra a quem foram distribuídas espingardas mauser com um carregador ou dois de munições para cada uma, para se policiar todo o musseque circundante.
Tinha nascido aquilo que foi designado pelo Terrorismo.
O Funeral simbólico dos Polícias cujos corpos depois foram transladados para a Metrópole foi um acontecimento indescritível, de tensão e revolta. Uma multidão de mais de cinquenta mil pessoas brancas a deixar escapar a sua raiva mais animalesca. Pretos nem um. Fizeram bem, se não seria um banho de sangue.
Daí para a frente, a não ser quem se conhecesse muito bem, estabeleceu-se uma certa animosidade entre brancos e pretos e vice-versa, animosidade que se transformou em ódio quando apareceram em Luanda, nos primeiros dias de Março, mulheres e crianças brancas despedaçadas à catanada com os corpos nus e mutilados, vindos do Úcua, cidade que ficava para os lados de Carmona mais propriamente entre o Moxico e esta última.
Deu-se, como era de esperar, uma certa
recessão no desenvolvimento e muitas empresas de Luanda despediram pessoas como
medo do futuro, enquanto os Fazendeiros do mato – era assim designado tudo o
que não fosse Luanda – uns eram mortos, outros resistiam e agrupavam-se nas
vilas e cidades para melhor enfrentar o inimigo que, na altura poucas pessoas
tinham conhecimento a que Movimento de Libertação pertenciam, já que nem os
próprios combatentes (terroristas) sabiam muito bem quem os comandava e de quem
dependiam. Apenas lhes fora incutido que era preciso matar todos os brancos
porque isso faria com que todas as suas riquezas ficariam para os pretos e
todos iriam viver em prosperidade e sem trabalho.
A ignorância cria destes crentes ingénuos. Só mais tarde lá pelo fim do ano de 1961 é que se começaram a delinear fronteiras e a conhecer as cabeças pensantes dos Movimentos de Libertação. O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) de ideologia comunista fortemente apoiado pela Rússia e China e que tinha nas suas fileiras os Quadros mais qualificados de todos os Movimentos, ainda que fosse o de menor implantação no terreno, cujo líder, na altura apareceu o médico preto, de Catete, Agostinho Neto que incidia a sua acção nas povoações dos arredores de Luanda, nomeadamente Catete e mesmo nos arrabaldes da própria cidade de Luanda. A FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) liderada por Holden Roberto, casado com uma branca, cunhado do Presidente do Congo ex-Belga, Mobutu Sesse Secu, que era um grupo sanguinário tal qual o seu líder, sem ideologia e sem motivação que não passasse pelo derramamento de sangue. A sua incidência ocupava quase todo o Norte de Angola, incluindo Cabinda que, quem sabe um pouco de história nunca fez parte integrante desta. E a UNITA (União Nacional Para Independência Total de Angola) liderada por Jonas Savimbi que tinha sob seu campo de acção uma zona mais dirigida para Sul e Nordeste de Angola. Este movimento era mais multirracial e era apoiado pelos Estados Unidos da América e pela África do Sul que, à época ainda vivia em apartheid e os brancos é que detinham o poder.
Claro que no início do terrorismo os Movimentos não passavam de grupos mais ou menos tribais e de até de algum banditismo à mistura.
Mas quando apareceram na metrópole as primeiras imagens televisivas de atrocidades contra os brancos que eram igualmente exploradas em documentários cinematográficos que eram projectados antes de cada filme, Salazar disse a frase que passou a ser célebre “Para Angola, Rapidamente e em Força”. Começando a chegar navios carregados de militares vestidos de caqui castanho que mais tarde foi sendo substituído por fardas verdes e Camuflados para as operações militares. A cada navio que chegava se fazia uma guarda de honra civil pela Avenida Marginal fora, recebendo a soldadesca de braços abertos.
É claro, hoje, a evidência veio a comprová-lo, que os militares idos da Metrópole, não só não tinham preparação militar de guerrilha, como iam mal armados e ainda pior preparados para exercer as suas funções num terreno que lhes era de todo adverso.
Morreram bastantes, mesmo que só tivesse morrido um já seria de mais, muito por culpa das chefias militares e pelo aventureirismo que qualquer jovem de vinte e poucos anos está sempre disposto a correr.
Lá vamos novamente a bater no mesmo, que se centra na teimosia do Chefe do Governo de então que, por nunca sair de S. Bento, não se dava conta de que os dias iam mudando o sentir dos povos e as formas destes encararem a vida. Este sentido de vida é válido para os residentes em Portugal como era, igualmente ou até, mais intensamente, para os povos das colónias quer se tratasse de pretos ou de brancos. Esta forma de governar não para e com as pessoas mas segundo um autismo que, de certa maneira, se torna paternalista é no que dá.
Toda a vida do Portugal de hoje e da ex-colónias de agora seriam diferentes para muito melhor, se nos finais da década de cinquenta do século passado Salazar tivesse permitido conversações com gente culta, moderada, independentemente da cor da sua pele, para uma autonomia progressiva até a uma independência total.
Seja de que forma for o País e o nosso Povo não tem do que se envergonhar do que fez no Ultramar. Manteve, durante anos, a paz, o progresso e o convívio social sem grandes desmandos ou muito diferentemente daqueles que aconteciam na Metrópole.
Infelizmente, povos independentes há
mais de trinta anos, exceptuando Cabo Verde que é um caso ímpar na
descolonização portuguesa, todos os demais vivem, na maior das misérias, a
maioria do povo, enquanto os ditadores do Poder, vivem num luxo ostensivo e
insultuoso para os mais desfavorecidos. Para além do cerceamento das liberdades
e dos atropelos aos direitos humanos, a que nunca estiveram habituados. As
ditaduras dos pretos são, para a maioria da população, muito mais gravosas e
levam a vidas com maiores dificuldades, misérias, atrocidades e epidemias do
que tudo o que viveram com a, eventual, exploração de alguns colonos.
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