Thursday, October 01, 2020

FAMÍLIA


Os nossos antepassados, que nasceram no último quartel do século XIX, eram pessoas de posses. Num mundo em que a agricultura era o sector dominante – vive-se a aurora da primeira revolução industrial – possuir terras era uma mais-valia que permitia viver com um desafogo negado à maioria da população. Os nossos bisavós do ramo CALDEIRA, tanto da parte da avó Maria como da parte do Avô Ricardo tinham bens acima da média, nesta aldeia perdida da Beira Baixa. Mas vicissitudes várias fizeram que os nossos pais já nascessem pobres e tivessem que trabalhar muito para dar alguma qualidade de vida aos rebentos.

A título de curiosidade pode afirmar-se que, uma das causas, porventura a mais importante, fosse a ingenuidade destes progenitores pois foram escandalosamente roubados pelos familiares mais directos. Os avós da bisavó Isabel, nossos tetra-avós, tinham tanto ou tão pouco que, só em libras de ouro, tinham meio alqueire delas.

É preciso explicar esta coisa do meio alqueire porque para os mais novos não deixará de ser chinês. Então é assim: - meio alqueire era uma medida de madeira que levava dez litros de semente. Se calcularmos que um alqueire de trigo, a título de exemplo, pesava mais ou menos 15 quilogramas, logo o meio alqueire pesaria 7 ou 8 quilogramas. Se atendermos que o ouro é um metal, logo muitíssimo mais pesado que a semente, poderemos, sem receio de errar dizer que as libras pesariam, sem favor, mais de vinte quilos de ouro puro. Daí se poder inferir que os avós da nossa avó Maria eram pessoas que, além de terras tinham um pecúlio monetário substancial.

Mas, momentos antes da morte do tetra avô, um dos genros que não fazia parte da nossa árvore genealógica, se apoderou da totalidade das libras e depois do falecimento, nas partilhas, disse para os cunhados que escolheria os prédios que quisesse e se estes não estivessem de acordo, como de facto não podiam estar, iam para a praça dos toiros o que em linguagem da época, significaria irem para a Justiça e respectivo leilão e quem tinha dinheiro é que ficaria com os ditos prédios.

Está bom de ver que o dinheiro de que ele dispunha eram da herança de todos e não só dele mas, inescrupuloso como era, não tivera vergonha de roubar todos os seus familiares, não só no ouro, como nos prédios mais rentáveis e de maior valor. Apesar disso, a nossa bisavó, de seu nome Isabel, - eu, a Eugénia e o Vítor ainda tivemos a graça de a conhecer - vivia numa casa muito boa, para a época, junto da estrada Nacional 233 e, já na minha lembrança, era viúva de um homem bom, o nosso bisavô Francisco tendo quatro filhas. A nossa avó era a mais velha e, talvez por isso ou nem tanto, tivesse sido a mais sacrificada.

Na parte do avô Ricardo, filho único de seu pai e herdeiro directo de um pecúlio considerado abastado, as coisas não correram de forma muito diferente. 

O nosso Bisavô nascera em 1876 e casara na idade normal, para a época, pouco depois dos vinte anos mas, como também era muito comum, falecera-lhe a mulher, de parto. Como homem abastado e, também, por ser o corriqueiro, casara em segundas núpcias com a nossa bisavó Lourença, igualmente viúva, da mesma idade, mas já com dois filhos. Esta nossa bisavó, em primeiras núpcias, casara com um irmão do pai do nosso bisavô Francisco logo era cunhada da bisavó Isabel. Estarei a fazer-me entender? Este parentesco é importante para se perceber o desenvolvimento da História.

Como atrás se disse o avô Ricardo nascera em berço de ouro. Por ser filho único e único herdeiro de seu pai e por este ser um homem de muitas posses. Sendo uma criança precoce e de uma inteligência acima da média, numa época em que o anlfabetismo literal rondava os 95%, cedo se apresentou à sociedade como um menino-prodígio. Foi assim na Escola. Foi assim no Liceu de Castelo Branco onde frequentou o primeiro ano até ao fim do primeiro trimestre. Era assim na sociedade em que se inseria.

Vendo-o desabrochar desta forma tão brilhante o pai decidiu, desde logo, que o seu pimpolho deveria ir estudar e tornar-se doutor. Não havia dificuldades económicas que obstassem a tal.

 

Mas, como diz o velho ditado “o homem põe e Deus dispõe” quis o destino que, repentinamente, o avô Ricardo ficasse órfão de pai quando ainda frequentava a escola primária.

Importa dizer aqui que a nossa bisavó Lourença era uma senhora toda dona do seu nariz. Muito emproada e com “manias” que, raiando o ridículo muitas vezes, refinara esse seu lado menos abonatório, com o casamento com o nosso bisavô, já que era muito mais rico do que ela e, o dinheiro, a quem não o sabe usar, faz dessas partidas.

Os meios-irmãos do avô, bastante mais velhos do que ele, como é bom de ver, analfabetos profundos, que nasceram e começaram a crescer descalços, passaram a ter possibilidades de viver uma vida melhor com o segundo casamento da mãe, ainda que tivessem que trabalhar nas terras do padrasto, como é óbvio e natural e isso criava uma certa ciumeira, sempre má conselheira, porque é fruto do sentimento mesquinho que é a inveja do irmão mais novo.

Daqui se infere que o avô Ricardo, não fora o enorme, o gigantesco drama da morte, prematura, de seu pai e teria, certamente, um futuro brilhante porque tinha inteligência, capacidade intelectual e económica, para poder vir a ser um dos grandes senhores da Província, como se dizia na época da afirmação de uma classe burguesa com posses, em tempos de Reis falidos.

Por que é que o Avô nasceu rico e os irmãos não? Porque a Lei, na altura, exigia uma separação total de bens em casamentos de segundas núpcias.

Apesar do falecimento do pai, mas dando cumprimento à sua vontade, o avô Ricardo, terminada a 4ª classe, lá seguiu com um enxoval como se fosse de casamento, para a sede do distrito, Castelo Branco, para frequentar o liceu, o que aconteceu. É importante que se diga que quem estudava não podia trabalhar no campo porque era desprestigiante, cultura que se manteve até muitos anos mais tarde quiçá, até aos dias de hoje. Isso, e um melhor tratamento alimentar, a chouriça em contraposição com a farinheira, o vestuário e o tratamento por Senhor eram diferenças que acarretavam inveja em espíritos menos nobres.

CONTINUA.../...

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