Os nossos antepassados, que
nasceram no último quartel do século XIX, eram pessoas de posses. Num mundo em
que a agricultura era o sector dominante – vive-se a aurora da primeira
revolução industrial – possuir terras era uma mais-valia que permitia viver com
um desafogo negado à maioria da população. Os nossos bisavós do ramo CALDEIRA,
tanto da parte da avó Maria como da parte do Avô Ricardo tinham bens acima da
média, nesta aldeia perdida da Beira Baixa. Mas vicissitudes várias fizeram que
os nossos pais já nascessem pobres e tivessem que trabalhar muito para dar
alguma qualidade de vida aos rebentos.
A título de curiosidade pode
afirmar-se que, uma das causas, porventura a mais importante, fosse a
ingenuidade destes progenitores pois foram escandalosamente roubados pelos
familiares mais directos. Os avós da bisavó Isabel, nossos tetra-avós, tinham
tanto ou tão pouco que, só em libras de ouro, tinham meio alqueire delas.
É preciso explicar esta coisa do
meio alqueire porque para os mais novos não deixará de ser chinês. Então é
assim: - meio alqueire era uma medida de madeira que levava dez litros de
semente. Se calcularmos que um alqueire de trigo, a título de exemplo, pesava
mais ou menos 15 quilogramas, logo o meio alqueire pesaria 7 ou 8 quilogramas.
Se atendermos que o ouro é um metal, logo muitíssimo mais pesado que a semente,
poderemos, sem receio de errar dizer que as libras pesariam, sem favor, mais de
vinte quilos de ouro puro. Daí se poder inferir que os avós da nossa avó Maria
eram pessoas que, além de terras tinham um pecúlio monetário substancial.
Mas, momentos antes da morte do
tetra avô, um dos genros que não fazia parte da nossa árvore genealógica, se
apoderou da totalidade das libras e depois do falecimento, nas partilhas, disse
para os cunhados que escolheria os prédios que quisesse e se estes não
estivessem de acordo, como de facto não podiam estar, iam para a praça dos
toiros o que em linguagem da época, significaria irem para a Justiça e
respectivo leilão e quem tinha dinheiro é que ficaria com os ditos prédios.
Está bom de ver que o dinheiro de
que ele dispunha eram da herança de todos e não só dele mas, inescrupuloso como
era, não tivera vergonha de roubar todos os seus familiares, não só no ouro,
como nos prédios mais rentáveis e de maior valor. Apesar disso, a nossa bisavó,
de seu nome Isabel, - eu, a Eugénia e o Vítor ainda tivemos a graça de a
conhecer - vivia numa casa muito boa, para a época, junto da estrada Nacional
233 e, já na minha lembrança, era viúva de um homem bom, o nosso bisavô
Francisco tendo quatro filhas. A nossa avó era a mais velha e, talvez por isso
ou nem tanto, tivesse sido a mais sacrificada.
Na parte do avô Ricardo, filho
único de seu pai e herdeiro directo de um pecúlio considerado abastado, as coisas
não correram de forma muito diferente.
O nosso Bisavô nascera em 1876 e
casara na idade normal, para a época, pouco depois dos vinte anos mas, como
também era muito comum, falecera-lhe a mulher, de parto. Como homem abastado e,
também, por ser o corriqueiro, casara em segundas núpcias com a nossa bisavó
Lourença, igualmente viúva, da mesma idade, mas já com dois filhos. Esta nossa
bisavó, em primeiras núpcias, casara com um irmão do pai do nosso bisavô
Francisco logo era cunhada da bisavó Isabel. Estarei a fazer-me entender? Este
parentesco é importante para se perceber o desenvolvimento da História.
Como atrás se disse o avô Ricardo
nascera em berço de ouro. Por ser filho único e único herdeiro de seu pai e por
este ser um homem de muitas posses. Sendo uma criança precoce e de uma
inteligência acima da média, numa época em que o anlfabetismo literal rondava
os 95%, cedo se apresentou à sociedade como um menino-prodígio. Foi assim na
Escola. Foi assim no Liceu de Castelo Branco onde frequentou o primeiro ano até
ao fim do primeiro trimestre. Era assim na sociedade em que se inseria.
Vendo-o desabrochar desta forma tão
brilhante o pai decidiu, desde logo, que o seu pimpolho deveria ir estudar e
tornar-se doutor. Não havia dificuldades económicas que obstassem a tal.
Mas, como diz o velho ditado “o
homem põe e Deus dispõe” quis o destino que, repentinamente, o avô Ricardo
ficasse órfão de pai quando ainda frequentava a escola primária.
Importa dizer aqui que a nossa
bisavó Lourença era uma senhora toda dona do seu nariz. Muito emproada e com
“manias” que, raiando o ridículo muitas vezes, refinara esse seu lado menos
abonatório, com o casamento com o nosso bisavô, já que era muito mais rico do
que ela e, o dinheiro, a quem não o sabe usar, faz dessas partidas.
Os meios-irmãos do avô, bastante
mais velhos do que ele, como é bom de ver, analfabetos profundos, que nasceram
e começaram a crescer descalços, passaram a ter possibilidades de viver uma
vida melhor com o segundo casamento da mãe, ainda que tivessem que trabalhar
nas terras do padrasto, como é óbvio e natural e isso criava uma certa
ciumeira, sempre má conselheira, porque é fruto do sentimento mesquinho que é a
inveja do irmão mais novo.
Daqui se infere que o avô Ricardo,
não fora o enorme, o gigantesco drama da morte, prematura, de seu pai e teria,
certamente, um futuro brilhante porque tinha inteligência, capacidade
intelectual e económica, para poder vir a ser um dos grandes senhores da
Província, como se dizia na época da afirmação de uma classe burguesa com
posses, em tempos de Reis falidos.
Por que é que o Avô nasceu rico e
os irmãos não? Porque a Lei, na altura, exigia uma separação total de bens em
casamentos de segundas núpcias.
Apesar do falecimento do pai, mas
dando cumprimento à sua vontade, o avô Ricardo, terminada a 4ª classe, lá
seguiu com um enxoval como se fosse de casamento, para a sede do distrito,
Castelo Branco, para frequentar o liceu, o que aconteceu. É importante que se
diga que quem estudava não podia trabalhar no campo porque era desprestigiante,
cultura que se manteve até muitos anos mais tarde quiçá, até aos dias de hoje.
Isso, e um melhor tratamento alimentar, a chouriça em contraposição com a
farinheira, o vestuário e o tratamento por Senhor eram diferenças que
acarretavam inveja em espíritos menos nobres.
CONTINUA.../...
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