Thursday, October 01, 2020

FAMÍLIA 2

 

Como eu, que o conheci bem, porque quando o nosso avô morreu já era homem feito, casado e com uma filha de cinco anos, posso afirmar que apenas se pode atribuir ao avô a sua fraqueza familiar de origem que o condicionou toda a vida e fez dele um homem frustrado e por vezes violento, principalmente para a avó e para com os filhos, porque de resto sempre foi um HOMEM de honra, de saber e vertical.

Tinha defeitos como todos nós mas tinha muitas virtudes e nós somos o resultado da educação que ele ministrou aos seus filhos e dos valores que lhes incutiu.

Foi um aventureiro, pois nunca se acomodou às situações. Desde logo por ter recusado a promoção a sargento quando estava na tropa e já era pai de dois filhos, por não concordar com o sistema e não se rever numa carreira da “lateiro” em linguagem de caserna. Foi para a França como emigrante no início da década de trinta do século passado. Levou a família e, trabalhando muito vivia bem como é visível na fatiota dos filhos e na própria. Esteve lá poucos anos porque a sua instabilidade emocional não lhe permitia estar muito tempo no mesmo lugar.

Agarrou-se à desculpa de que não queria que um filho que vinha a caminho nascesse francês e, como tal, mandou para Portugal a avó com os restantes filhos que ele depois viria juntar-se à família. Assim aconteceu mas, como o dinheiro não se lhe pegava às mãos foi preciso vender um prédio para lhe enviarem o dinheiro para custear as despesas da passagem de combóio. Era esta a índole do nosso avô. O seu desapego aos bens materiais fora sempre o seu calcanhar de Aquiles e, por isso, deixou os primeiros filhos crescerem sem a habilitação literária mínima e estes viram-se obrigados a trabalhar desde muito cedo para suprir às carências de casa mas, porventura, foi esta situação negativa que fez dos nossos maiores, homens e mulheres de uma garra e tenacidade acima da média. Talvez tenha sido a dificuldade sentida que os fez crescer como seres humanos e como pais melhores do que o deles.

É esta a nossa História próxima e remota para que conste e para os mais novos se possam rever nesta história de vida que se transformou em muitas outras histórias que são a história de cada um de nós.

Aos mais velhos, meus tios, Elisa, Joaquim, António e Paulina ainda vivos e de boa saúde, graças a Deus, peço a devida e necessária correcção baseada nas suas lembranças mais remotas.

Muito mais há a contar. Vamos ver se o conseguimos.

 

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