MATUTANDO!
As eleições aconteceram ontem.
Acabaram as fantochadas dos tempos de antena da campanha eleitoral. É altura de
dar os parabéns ao vencedor e Presidente de todos os portugueses. Agora eleito,
também é o meu presidente e por isso lhe desejo as maiores felicidades no
desempenho das suas exigentes funções.
Durante os quinze dias de
campanha ninguém viu nesta página qualquer tipo de referência ao acto
eleitoral, aos candidatos nem sequer às minhas expectativas sobre estas
eleições. Em devido tempo, no passado dia onze deste mês, fiz uma pequena
reflexão sobre o que pensava destas eleições. Assim, ninguém me pode acusar de tentativas
de manipulação de opinião sobre qualquer candidato por que, de facto, não o
fiz. Agora, com toda a liberdade que recuso hipotecar seja a que preço for, já
posso ir matutando sobre o que aconteceu.
Então vamos lá analisar o que se
passou na campanha eleitoral e no respectivo acto. Não se me peça que o faça
exaustivamente e, muito menos, cientificamente, apenas meditação de um simples
e humilde cidadão que quer continuar a pensar.
A candidatura do Presidente
Marcelo e depois candidato era há muito esperada e, ninguém com um pouco de
senso, esperaria outra coisa, desde o célebre anúncio da AutoEuropa feito pelo
Senhor Primeiro Ministro. Foi tardia e muito pouco convincente a justificação
para o facto. O Presidente não fez campanha nem aproveitou o tempo de antena
televisivo e, quanto a mim, fez mal. Se não se queria expor, devido à situação
calamitosa em que vivemos, em termos de saúde pública, poderia utilizar o tempo
de antena para motivar os eleitores para a exigência de um dever cívico que
tanto custou a conquistar.
A candidatura de Ana Gomes não
foi, de facto, uma candidatura à Presidência, mas sim uma manobra à procura de
um palco para tentar influenciar o aparelho partidário do PS para ambições
futuras já que, como é notório, o fim de vida política de António Costa, a nível
nacional, está à vista. O PM quer muito um palco internacional e ambiciona,
legitimamente, um lugar desse nível. Ana Gomes não trouxe nada de novo ao
debate. Todas as ideias eram requentadas, mais próprias de um PREC de Março de 1975,
do que um projecto para o futuro. Para culminar as ideias veiculadas eram mais
próprias para um programa de governo do que para a magistratura de influência
que é o que pode fazer um Presidente da República. Tentou atirar terra para os
olhos dos eleitores e estes deram-lhe a resposta.
A candidatura de André Ventura
baseou-se na tentativa de captação de votos dos descontentes, dos abandonados
pelo sistema. Não nos podemos esquecer que os mais pobres dos pobres deste país
são aqueles que, tendo trabalho, ganham o salário mínimo e têm de comer todos
os dias levando marmita de casa. Não ganham para pagar uma renda de casa. Não
têm condições económicas para dar aos seus filhos o suporte que lhes permita sair
da triste roda da pobreza. Não trouxe nada de novo, mas disse aquilo que muitos
portugueses dizem no trabalho, no café, na roda de amigos. Ainda repescou uns
votos numa classe média que de média só tem o mínimo, quando falou na
subsidiodependência e na corrupção.
A candidatura de Marisa Matias foi
uma candidatura para avaliar o potencial do Bloco de Esquerda. Não visava nada.
Não tinha um projecto. Nem sequer era para cumprir se houvesse um milagre de
ser eleita. Basta ver o que fez, durante os últimos seis anos o BE, quando não
se rebelou contra os cortes e as cativações do Centeno, quer para os Serviços
Públicos, para o SNS, para as Forças de Segurança. Basta lembrar que, com o seu
aval, o sector menos produtivo da vida nacional, a Justiça - que não funciona,
que deixa prescrever os casos mais gritantes da corrupção deste país, que perdoa
a ricos que empobrecem o resto do país e prende pilha galinhas - foi quem
recebeu actualização de vencimentos, depois do último governo de Sócrates. Sim,
foi Sócrates a fazer o primeiro corte de vencimentos da função pública, não
convém esquecer, e só depois foi agravado por Passos Coelho quando ele foi
gestor de insolvência e não Primeiro Ministro. Portanto, Marisa Martins, colheu
o que o seu partido semeou.
A candidatura de João Ferreira
destinava-se apenas a mostrar um candidato a Secretário Geral do PCP e não a um
Presidente da República, como é público e notório. De forma enfática foi
falando na Constituição, mas que se saiba, a Constituição nunca esteve em
perigo e não cabe ao Presidente a última palavra sobre a mesma, mas sim ao
Tribunal Constitucional. Portanto nada de novo. Sempre a cassete “defesa dos
trabalhadores e do povo” como se o povo se limitasse a esta frase e os trabalhadores
não fossem povo. Nem nos velhos redutos do PCP, o Alentejo profundo e pobre,
recebeu votos que justificassem a sua candidatura.
A candidatura de Tino de Rans serviu
para distrair a populaça que gosta de festejos e circo, sem qualquer
desmerecimento para estas actividades. Não merece qualquer comentário a não ser
que teve menos trinta mil votos do que há cinco anos.
A candidatura de Tiago Mayan
serviu para consolidar a votação no Partido da Iniciativa Liberal e foi uma
agradável surpresa. Abordou temas interessantes, ainda que pela rama, e sem quantificar
medidas, mas não deixou de ser uma surpresa e obteve resultados muito
interessantes.
Para terminar e porque o
relambório vai longo dizer que os Partidos Políticos são quase todos
perdedores. O PSD porque não conseguiu acorrentar Marcelo. O PS porque não
tendo candidato o melhor que lhe sobrava era apostar o vencedor previsível. O
CDS porque cada vez se vê mais partido do Táxi e precisa de se agarrar às
silvas da beirada do poço. O PAN um verdadeiro desastre. Se fosse possível
extrapolar os resultados para as legislativas ficava reduzido a menos de
metade. O Livre, se já não existia, continua no esquecimento absoluto. Quem perdeu
também foi o Governo e o Parlamento, por não terem acautelado as alterações indispensáveis
à Lei eleitoral, que está obsoleta e não responde às exigências da maioria do
eleitorado. Quem ganhou alguma coisa, mas nem de perto nem de longe, o que
esperavam fora o Chega e o IL.
Ao Presidente eleito exige-se que
desempenhe o papel charneira que a Constituição lhe atribui. Afectuoso sim, mas
muito mais do que isso. Desde logo que leve, de novo, o País ao patamar de
Nação respeitada no concerto das demais Nações, para não assistirmos ao achincalhamento
público como aconteceu no Parlamento Europeu por causa de umas trapalhadas da
Ministra da Justiça.
26/01/2021
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