Wednesday, November 03, 2021

Azedume!

 

AZEDUME!

Anda por aí muita gente ressabiada, zangada, desconfiada, insegura, melindrada com a vida e por isso estrebucha por todos os lados.

A raiva não é boa conselheira. Quando temos os nervos à flor da pele tendemos a exagerar nos nossos procedimentos. Falo por mim que, muitas vezes, tenho o coração ao pé da boca e digo o que devo e não devo.

Vem isto a propósito da percepção que, se não anda tudo doido, parece. Anda toda a gente muito agastada, porventura com razão, mas depois actua da pior maneira possível. Todos os dias somos confrontados com notícias de zaragatas sem sentido junto de discotecas, nas bombas de gasolina e até em cinemas e isto não é normal. Não pode ser normal. Já sei que há para aí muito bem-pensante que vai dizer que isto é resultado da pandemia, que o isolamento e o confinamento tiveram implicações na psique colectiva, mas a pandemia não pode ser a panaceia para justificar tudo o que está a acontecer no país.

Talvez seja bom meditarmos sobre o que está a acontecer e que não é bom para ninguém.

Comecemos então por coisas importantes:

A carestia dos combustíveis é extremamente preocupante. Os combustíveis vão ao bolso de toda a gente, rico e pobre, patrão e empregado, alto quadro ou simples trabalhador indiferenciado. Os agricultores queixam-se do aumento dos custos de produção. As petrolíferas lastimam-se por causa dos preços na origem. As cadeias de distribuição dizem que é preciso aumentar os produtos alimentares porque os transportes encarecem os produtos. Algum comércio sente falta de produtos e, quando não sente diz que houve aumentos que chegam aos trinta por cento.

A crise política, artificial, calculista, devido à não aprovação do Orçamento de Estado é mais uma fonte de ressabiamento e de azedume.

As eleições autárquicas deixaram um rasto de insatisfação e ressabiamento, mais do que de júbilo e alegria.

É ver que está a acontecer nos partidos políticos, na sua esmagadora maioria. No PSD é a luta interna com acusações de parte a parte sem uma ideia para fazer face à crise, do ponto de vista do país. No CDS, então, é uma peixeirada desbragada, com a debandada dos barões que, na maioria, só o são porque foi o CDS que os promoveu. No Bloco de Esquerda a líder tem a cabeça a prémio porque ao longo destes últimos anos tem demonstrado ser uma perdedora. Nos últimos anos perdeu todos os actos eleitorais em que se meteu. Ganha nos corredores e na secretaria, mas perde junto do povo eleitor. No PCP o líder está a prazo há meia dúzia de anos porque apesar da bonomia e simpatia perde, sistemática e consistentemente a sua força eleitoral e nem a correia de transmissão CGTP consegue disfarçar esta realidade. O PAN está apavorado com o espectro de extinção porque já entendeu que o povo não gosta de proibições e este partido é o rei das proibições e do condicionamento da vida das pessoas reduzindo-as a coisas e os bobis e os tarecos ainda não votam. O PS está a lutar pela sobrevivência porque já entendeu que se pode enganar pouca gente durante muito tempo e nunca enganar muita gente para sempre. Já entendeu que não pode dizer uma coisa e fazer outra completamente diferente. Ter um discurso europeu em Bruxelas e um discurso Venezuelano em Portugal. Não pode ser, como diz um destacado militante socialista e ex-ministro da saúde de António Costa, que até dizia que “somos todos Centeno” que não quer que o PS seja um BE 2.0.  Saem desta roda o Chega e a Iniciativa Liberal, porque sendo partidos de protesto, se encaixam nesta voragem de ressabiamento da sociedade portuguesa. Vamos ver o que resulta desta embrulhada.

Uma coisa temos como certa, o ressabiado não tem capacidade de encaixe. Não sabe perder e a vida, de toda a gente, nunca é só de vitórias, há obstáculos e desaires. É preciso encará-los com bonomia e com humildade.

Mas temos com adquirido que só em conjunto, todos e sem deixar ninguém para trás, é que podemos levar a bom porto a Nau que anda em mar revolto.

Apesar de já ser longa a dissertação vou pedir-vos mais um bocadinho de paciência e atentem numa história que me apareceu e que julgo pertinente:

“Havia um grupo de pessoas que se reunia periodicamente para comunicar, conviver e parodiar. Um dia um elemento do grupo saiu deste sem dar justificação. Depois de algumas faltas aos encontros um dos elementos resolver visitar o desertor na sua casa, encontrando-o junto de uma lareira bem acesa, com a lenha crepitando, dando luz e calor. O visitante, em vez de questionar, acercou-se da lareira e retirou, com uma tenaz, a brasa mais incandescente e mais brilhante do meio da lenha a arder e pô-la de lado. Pouco tempo depois a brasa era apenas carvão. Então o visitante voltou a colocar o carvão no meio da lareira e este reacendeu, voltando a ser brasa viva e aquecedora. O visitado percebeu a mensagem e ali prometeu voltar ao grupo para fazer parte deste fogo que aquece os corações”.

Todos sabemos que ninguém pode ser feliz sozinho. É altura de deixarmos o azedume e o ressabiamento.

3/11/2021

Zé Rainho

Sunday, October 31, 2021

NO FIM DO CAMINHO!

 


Foi-se a vida e a valentia

Foi-se a audácia e a galhardia

De quem já tem pouco tempo

Para viver, construir e remediar

Erros, omissões e até de amar

Sempre e a todo o momento.

 

Vai-se o tempo, passa a vida

Sem que se dê conta e medida

De como é breve e passageira

Vive-se em constante correria

Perde-se o sentido e a alegria

Neste mundo de canseira.

 

Nas imensas encruzilhadas

Difíceis foram as escolhas acertadas

Do caminho com menos escolhos

Seguindo conselhos mais avisados

Lá se foi desbravando estados

Que nos custaram, da cara, os olhos.

 

Sempre com espírito aberto

Àquilo que é novo e descoberto

Caminhou-se com esperança

Na senda de bem caminhar

Para a desejada meta alcançar

Em espírito de feliz temperança.


Agora no términus da estrada

De consciência tranquila e alma lavada

Esperamos o encontro transcendente

Num novo começar noutra dimensão

Junto de todos os que estão no coração

Incluindo os que o destino fez ausente.

 

31/10/2021

 

Zé Rainho

Friday, October 01, 2021

DESPEDIDA!

 

DESPEDIDA!

A partida traz consigo um aperto no coração.

A partida também traz a chegada com emoção.

Quem parte leva lembranças, recordações.

Quem fica sofre dores a perda e algumas aflições.

 

Fosse eu um poeta e diria neste momento,

Quão grato estou a Deus do firmamento,

Por ter partilhado um pouco da vida consigo,

E poder considerá-lo meu Pastor e muito amigo.

 

Nesta circunstância de despedida e separação,

O sofrimento não pode sufocar a esperança.

Nem a dor deve toldar o discernimento,

 

Da imensa e gratificante vivência de irmão,

Que foi esta partilha da fé e da temperança,

De um viver Igreja, sempre, e em todo o momento.

26/09/2021

Zé Rainho

Thursday, August 19, 2021

Proibições!

 

PROIBIÇÕES!

Proibições nunca surtiram grande efeito.

Foi possível enfrentá-las, contorná-las, infringi-las, no Estado Novo, no PREC (Processo Revolucionário em Curso), na Escola, na Religião, na Família, no controle de velocidade, só para referir situações mais ou menos contemporâneas, mais ou menos corriqueiras. Parece-me consensual esta afirmação.

Ora, se não servem para mudar comportamentos humanos, impõe-se a pergunta: Para que se proíbe? Não seria muito mais assisado convencer, captar, sensibilizar?

Lembram-se do Maio de 68 cujo mote era “proibido, proibir”. A complexidade humana tem destas coisas e por isso, a Psicologia defende outras formas de agir sem que se parta para a proibição. Mas parece que há gente que não aprende.

Notícia de ontem e de hoje é a proibição de alguns alimentos nas Escolas Públicas.

Desde logo nos vem ao pensamento perguntar porquê nas Escolas Públicas e não em todas as Escolas?

É preciso, é urgente mudar hábitos alimentares, é, sem rebuço e sem dúvida, por questões de saúde. Alteram-se comportamentos alimentares proibindo certo tipo de alimentos nas Escolas Públicas, não, sem rebuço e sem dúvida nenhuma.

Para que servirá proibir o hambúrguer na escola se o paizinho e a mãezinha levam, ao fim-de-semana, quando não diariamente, o menino(a) ao McDonald’s? De pouco, já se vê. Reforça esta ideia a bastonária da ordem dos nutricionistas dizendo que serve para pouco proibir na escola se nas proximidades, em cafés, pastelarias e outros há, à venda, esses mesmos alimentos.

Espantoso é um representante da confederação de Pais vir dizer que se congratula com a medida, mas que o que é indispensável é que os pais mudem os seus comportamentos alimentares. A mim apetece-me perguntar: - então se é na família que se alteram comportamentos para que é que é necessário proibir na Escola? Servirá para alguma coisa?

A pandemia deixou-nos abúlicos. Habituámo-nos a que nos proíbam muitas coisas e já não reagimos. Proibiram-nos de sair de casa, de visitar os nossos velhinhos, os nossos familiares hospitalizados, de fazer casamentos, baptizados e até funerais, de frequentar igrejas, restaurantes, cafés, discotecas e agora também nos proíbem de comer.

Eu dou por mim a pensar: - como é que um Governo, ainda por cima minoritário, consegue proibir tudo e mais alguma coisa sem que vozes se levantem? Nem Deputados, nem activistas, nem sindicatos, nem Partidos Políticos e, muito menos a sociedade civil e concluo que, se não vivemos em Ditadura, vivemos numa democracia menorizada e muito, muito musculada e numa sociedade que não vislumbra futuro e, por isso, não se rebela.

Cá por mim não vou em proibições e considero que estas apenas servem para que a imaginação nos dê ferramentas para as ludibriar.

19/08/2021

Zé Rainho

Tuesday, August 10, 2021

NOSTALGIA!

 

NOSTALGIA!

 

Hoje deveríamos estar em família a celebrar os 54 anos da nossa Lena, como é hábito, tradição e vontade de todos, mas não estamos, porque a vontade de Deus é suprema e impõe-se à nossa da forma mais subtil.

Desde muito pequeno que sempre ouvi dizer que o homem põe e Deus dispõe. Já tivemos muitas ocasiões, ao longo da vida, para verificarmos como certo está o aforismo popular e, neste dia de aniversário, também saboreamos o amargo – é o que nos parece hoje, quem sabe amanhã descobriremos que foi o melhor que nos podia ter acontecido – de ver os planos gizados terem ido por água abaixo.

A nossa Raquel teve, há sete dias, por motivos profissionais, contacto de alto risco à Covid-19 e, por força das Regras de Saúde Pública – muitas vezes pouco entendíveis, porque incoerentes e quantas vezes contraditórias que obriga a quarentena, de quatorze dias, a quem tenha estado em contacto com quem testou positivo - todo o plano de irmos comemorar o aniversário da irmã ao Douro, foi por água abaixo, qual frágua agreste e agressiva.

Esta circunstância faz-nos estar a passar um dia de hoje nostálgico, por comparação com os anos anteriores, porventura com uma tristeza desmesurada, certamente com um sentimento de solidão.

No meio da turbulência uma notícia traz um raio de Sol esplendoroso ao nosso coração atribulado, o teste que a Raquel fez ontem de manhã apresentou o resultado NEGATIVO esta madrugada e isto é um alívio imenso, porque temos a consciência de que esta doença é gravíssima e não dá tréguas a quem não toma os cuidados devidos.

Mas este acontecimento também nos leva a pensar e a reflectir sobre a linha de pensamento de uma quantidade de negacionistas sobre a vacinação que pululam pelo País fora. Somos daqueles que preservamos e damos o maior valor à liberdade individual, mas temos alguma relutância em aceitar que essa liberdade colida com a liberdade do próximo, do semelhante. Parece-nos mesmo que, quando um indivíduo não é capaz de, por si, se orientar numa sociedade civilizada, tem de ser coercivamente orientado por outrem. Desta forma entendemos que deveria haver algum tipo de penalização, retaliação, pelos prejuízos causados à sociedade pela sua forma de agir que causa prejuízos incalculáveis à sociedade. Desde logo ao aumento de despesas no Serviço Nacional de Saúde que é pago por todos nós, para além dos prejuízos colaterais que provoca às pessoas e às empresas, na vida pessoal e colectiva. Isto para não falarmos em consequências, muitas vezes fatais, devidas a essa inconsciência.

Se não somos favoráveis a proibições também não aceitamos lassidão quanto ao incumprimento de regras e de Leis do País. Quando não há responsabilidade não pode haver liberdade. Melhor dito, quem não sabe usar a liberdade responsavelmente não pode deixar de ser punido pelo abuso, indevido, dessa mesma liberdade.  

Temos conhecimento que há negacionistas em todos os sectores da sociedade desde juízes a líderes partidários, mas a Lei não pode ter contemplações para com esses indivíduos se as suas atitudes acarretarem prejuízos para outrem, seja quem for, Estado ou pessoa. Tal como se deve dizer NÃO a uma criança para que ela saiba quais são os limites, o mesmo deve ser feito com os irresponsáveis.

E isto leva-me a questionar a legitimidade de um individuo com poder na sociedade de aplicar qualquer tipo de sanção a outro se não é capaz de impor a si próprio os limites ao seu comportamento individual?

Por isso, enquanto cidadão e leitor, tenho o dever de analisar bem o conteúdo da mensagem do poder político para assim fazer as escolhas mais sensatas e, desta forma, possa haver leis mais equitativas.

09/08/2021

Zé Rainho

 

Saturday, July 31, 2021

CENSOS 2021!

 

CENSOS 2021!

Já há resultados preliminares dos censos de 2021 e as notícias não são boas.

Cabe aos especialistas na matéria fazerem avisos sérios ao Governo para que os números não sejam apenas números.

Cabe ao Governo tomar medidas para inverter a situação e daqui a dez anos os resultados serem diferentes, mas para melhor.

Nós que não percebemos nada disto temos a convicção que os génios ainda não descobriram que a maior crise que o país atravessa não é a económica, mas sim a demográfica. Que, sendo demográfica é necessário alterar o paradigma vigente e modificá-lo para que possam nascer mais bebés em Portugal.

Faça-se o diagnóstico da situação o que não nos parece muito difícil. Os velhos já não procriam. Os novos parece que têm muita falta de espermatozóides. As mulheres em idade fértil não podem ter filhos devido à situação profissional. Os casais que, por questões profissionais, só se encontram ao fim-de-semana não estão em condições de criar um filho, por isso vão adiando esse projecto de vida. A precariedade no emprego, os baixos salários, rendas de casa caríssimas ou, em alternativa, o empréstimo para quem compra leva a maior parte do rendimento familiar, são motivos, mais do que justificáveis, para ir adiando a procriação. Não se escolhem imigrantes, mas recebem-se os que clandestinamente, através de máfias entram pelo país dentro, não para ficarem, mas para debandarem países cujo nível de vida é muito melhor. Os que ficam são os que menos condições têm para criar filhos que possam ser mais valias para o País.

Feito o diagnóstico é preciso passar para a terapia. Esta pode ser com mesinhas, com antibióticos ou com cirurgias, quando não tratamentos mais agressivos. As mesinhas é o que apresenta o governo com hipotéticos incentivos, que não passam de hipotéticos.

Os antibióticos poderiam passar pela protecção à família em vários domínios. Desde logo uma redução substancial nos impostos directos a quem nasceu um filho, redução exponencialmente atractiva cada vez que nascesse mais um. Mas os antibióticos teriam de ser acompanhados de substâncias que minimizassem os efeitos secundários. Logo, protecção aos cônjuges com filhos para que pudessem estar juntos com empregos de proximidade. Rendas de casa participadas para que estas não sejam obstáculo à procriação. Redução dos impostos ao consumo de artigos indispensáveis à criação de uma criança. Creches, infantários gratuitos, para que os progenitores possam ir trabalhar descansados sabendo que os seus filhos ficam em boas mãos. Protecção às grávidas no emprego público e privado que passa por fiscalização rigorosa junto de empregadores menos conscienciosos. Incentivo às empresas que tenham funcionárias grávidas e com filhos bebés para que o seu absentismo ao trabalho não fosse mais um encargo para a empresa, mas sim da Segurança Social.

Cirurgia, cortar todos os subsídios a quem possa e não queira trabalhar. Eliminar todos os Observatórios, Institutos públicos redundantes dos mais diferentes Organismos estatais a quem deveria ser exigido trabalho e competência para suprir os cortes efectuados. Acabar com a interferência política no recrutamento de funcionários públicos e exigir aos Directores Gerais e só a estes, a responsabilidade sobre o mérito ou demérito dos seus funcionários e dar-lhes a autoridade para mediante um processo transparente poder demitir os calaceiros, os incompetentes, os laxistas e os tachistas. Canalizar todo o dinheiro poupado com as medidas preconizadas para a Segurança Social para fazer face ao aumento das despesas com a aplicação das medidas do antibiótico.

Regular e fiscalizar, com rigor, competência e transparência, toda a possível falcatrua ou vigarice e responsabilizar os prevaricadores.

Mas há muito mais a fazer porque os Censos não demonstraram apenas um decréscimo da população, também evidenciaram que um em cada quatro portugueses, por outras palavras, 40% da população vive nas zonas da Grande Lisboa e do Grande Porto que, em território, corresponde a 3.832 Km2 para um total de 92.145 Km2, ou seja 4,16% do total do território. Conclusão óbvia duas zonas superpovoadas onde tudo é sobrecarregado e nada chega – habitação, acessos, hospitais, escolas, transportes públicos – para 95,84% do território onde sobra espaço para tudo. É bom referir que sobra espaço, mas falta tudo o resto, da saúde à educação, da cultura aos transportes e comunicações, do emprego ao rendimento bruto de cada cidadão. Falta ainda transformar a profissão de agricultor numa actividade de sucesso e bem remunerada através do apoio à produção e comercialização de produtos para que os jovens não sintam necessidade de migrar para outras paragens.

Cabe aos especialistas encontrar soluções para todos estes problemas, mas duma coisa temos a certeza: - é intolerável que haja tanta gente com fome nos grandes centros urbanos e tanto terreno agrícola desperdiçado e ao abandono. O País não se pode dar a esse luxo. O mundo não compreenderá como é possível desprezar um recurso endógeno para a produção de produtos alimentares quando estes não chegam à boca de milhões de seres humanos.

O paradigma tem de ser alterado sob pena de ficarmos para a História como uns egoístas e uns insensíveis.

30/07/2021

Zé Rainho

Tuesday, July 27, 2021

CURIOSIDADES!

 


Numa pesquisa efectuada no livro de registos de baptismo da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Meimoa encontrei alguns dados que considero interessantes. Quero, por isso, partilhá-los convosco.

No ano em que nasci (1943) nesta aldeia remota raiana, em plena 2ª Guerra Mundial, nasceram, ao todo, cinquenta e duas crianças, uma farturinha, graças a Deus.

Houve paridade quanto ao sexo, 26 rapazes e 26 raparigas. Dos cinquenta e dois sobrevivemos, apenas, quarenta na primeira infância. Uma mortalidade infantil superior a 250 por cada mil, um horror, uma calamidade, uma tragédia aos olhos de hoje - 2,4 crianças por mil nascimentos em 2020 - segundo o INE e a PORDATA. Para os familiares dos que morreram foi tudo isso na época, mas para a sociedade de então era normal. Não criava nenhum sobressalto. Até porque era a vontade de Deus e isso era o bastante. Era menos uma boca para dividir o quase nada que havia, o que também contava e muito.

Desta fornada, como é costume dizer-se, estamos vivos 27, o que quer dizer que já morreram 13 na idade adulta. Uns por acidente, outros por doença, mais ou menos prolongada.

Os que ainda cá estamos, todos estamos velhos e com achaques, uns mais e outros menos, como é bom de ver, mas não podemos deixar de nos considerarmos uns sobreviventes, uns lutadores e uns sortudos, uns afortunados.

Muitos de nós vamos procurar estar num convívio, no próximo dia 4 de Setembro, promovido pelo Manuel Fonseca, que se desloca de França de propósito, para um último encontro com os seus amigos de infância, segundo as suas próprias palavras. Queremos que seja uma festança. Há quem se esteja a esforçar na organização para que assim seja.

Há várias curiosidades neste grupo que talvez seja digno de menção. Já referimos a mortalidade infantil, mas não ficamos por aqui. Temos que referir que também nasceu aqui e aqui foi baptizada uma cigana de nome Maria Amélia Aires o que nos podia levar para o campo da integração, contra o racismo e a xenofobia, mas basta referir o facto.

Agora vamos debruçar-nos sobre o sucesso escolar.

Dos quarenta sobreviventes só tiveram pleno aproveitamento escolar, na instrução primária, antiga 4ª classe, sete crianças. Cinco raparigas e dois rapazes o que não invalida que os outros não tivessem sucesso em todos os graus de ensino. Talvez por isso tenha sido necessário haver a primeira classe mista da Meimoa no ano de 1954. Um aproveitamento a rondar os 17,5%. Péssimo sinal dirão os meninos de hoje. Não sejam apressados, se calhar foi um sucesso aceitável.

Naquele tempo era necessária uma memorização extraordinária. Tudo era preciso decorar, desde a tabuada aos rios, das serras às linhas de caminho de ferro, com respectivos ramais. Da História de Portugal à Geografia, onde constavam os territórios ultramarinos, sem esquecer a escrita sem erros ortográficos, sem falar no desenho à vista e nos trabalhos manuais, só para dar alguns exemplos.

Não havia manuais escolares, muito menos material didáctico. Alguns professores não tinham habilitação própria e, pior que isso tudo, havia carência alimentar, carência de vestuário e calçado, muita doença infantil e consequente absentismo e, para culminar alguns não podiam ir à escola por falta de uma bata ou porque residiam a quilómetros de distância da aldeia, em quintas isoladas, onde nem uma candeia havia para fazer os trabalhos escolares, sem esquecermos que ninguém tinha água canalizada, saneamento e até electricidade. Esta última veio em 1951, mas só a metia em casa quem tivesse posses monetárias para tal e esses eram uma minoria.

Apesar disso tudo, todos os sobreviventes, temos uma boa qualidade de vida, ainda que nos queixemos de muita coisa, porventura com muita razão. A maior parte de nós, subindo na vida a pulso, tornou-se especialista em alguma coisa. Desde o Direito à Educação, da Construção à Aviação, da Banca ao Comércio passando pela função pública, para além de muitas outras profissões.

Também temos que referir a emancipação da mulher. Foram estas mulheres que começaram a usar a pílula para controlar a natalidade que pretendiam ter. Foram estas mulheres que começaram a usar mini-saia. Foram estas mulheres que escolheram serem independentes dos maridos e por isso foram trabalhar fora de casa, para terem um salário que as não tornasse dependente destes. Pelo menos três delas tiraram cursos superiores. Presentemente poderão achar pouco, para aquele tempo foi um sucesso imenso. Quando nasceram ainda foram educadas para serem boas mães e melhores donas de casa, sem esquecerem que deveriam ser, igualmente, boas esposas.

Todos nós nascemos com ligações à terra e a nossa expectativa, quando nascemos, era vir a ser agricultores e criadores de gado. Nenhum de nós seguiu essas pisadas, para mal da aldeia, mas para bem dos próprios.

A esmagadora maioria migrou, para dentro ou para fora do país, por lá fez vida e muito poucos foram os que regressaram ao torrão natal, ainda que cá venham sempre que podem.

Num tempo agreste, numa vida duríssima para todos, se esta plêiade de pessoas e as outras com mais meia dúzia ou menos meia dúzia de anos, não merece o respeito e a admiração e algum carinho, quem merece neste país?

Para terminar desafio os meus contemporâneos a contarem as curiosidades que conheçam.

Meimoa, 27/07/2021

Zé Rainho

Wednesday, July 21, 2021

AUTÁRQUICAS 2021

 


Aproximamo-nos, a passos largos, das eleições autárquicas de 2021 e assiste-se ao costume.

Nos grandes, ou mesmo médios, centros urbanos, as cúpulas partidárias encarregam-se da distribuição de lugares e hierarquizam listas de concorrentes, com a proverbial passividade dos eleitores e, até, das estruturas partidárias locais. Já nos pequenos burgos a coisa pia mais fino. Nem nos partidos e, muito menos fora deles, há gente disponível para entrar num mundo muito adverso. Um mundo conspurcado por uns quantos aproveitadores. Um mundo onde os dinossauros aproveitadores abocanham os parcos recursos. Um mundo onde pontificam indivíduos como, um imbecil, um escroque, que foi presidente de Junta, disse um dia: “Quem manda é o povo e o povo sou eu”.

Admiro, imenso, a coragem dos que não se resignam e, arrostando com todas as dificuldades e superando todos os obstáculos, ainda se predispõem a deixar a sua tranquilidade e o seu conforto, para batalhar contra os donos disto tudo, com o sentimento de que são úteis a toda a sociedade e não só ao grupelho que gravita em torno do poder.

Eu sei que alguns dos meus amigos dirão que são todos iguais, que o que eles querem é tacho, que é tudo uma corja e tenho consciência que há razões substantivas para muita gente pensar assim, tantos e tais os casos a que assistimos por esse país fora, mas posso garantir-vos que também há pessoas que estão tão bem na sua zona de conforto e que apenas o altruísmo e o sentido do dever cívico os leva a entrar nesta árdua e espinhosa aventura e esses, seres humanos superiores, merecem de mim o maior respeito, a maior consideração. Isto é verdade no caso das autarquias, mas é igualmente verdade nas instituições e associações locais, nas IPSS, nos clubes recreativos e desportivos e em tudo o mais que tem impacto positivo nas comunidades.

Para estes a minha homenagem e a minha gratidão, porque são inconformados, porque são determinados, porque põem acima dos seus interesses pessoais os interesses da comunidade.

Para os outros, os do lamaçal, os da pocilga o meu mais profundo desprezo.

21/07/2021

Zé Rainho

Monday, July 19, 2021

Mudança!

 

Mudança!

Nem sempre mudança é evolução, mas eu gosto da mudança, porque perspectivo sempre a evolução.

Mudar faz bem à alma, faz bem ao corpo. Noutros tempos até a medicina prescrevia a “mudança de ares” para a cura de determinadas enfermidades. Se lhe acrescentarmos irreverência, vontade de aprender, curiosidade, temos ingredientes bastantes para que a mudança contribua para que tudo melhore.

Feita esta declaração de princípios já não me podem acusar de ser contra a mudança.

Vem isto a propósito das mudanças que um senhor, que se diz historiador e é cronista habitual do Público, tem feito ao longo dos tempos.

Lembram-se dele no Parlamento Europeu, eleito pelo Bloco de Esquerda, que depois mandou às malvas e continuou com o tacho até ao fim do mandato?

Sim, é esse que depois, porque quer ser presidente de qualquer coisa, nem que seja do clube de sueca lá do bairro, criou o Partido Livre, que se aproveitou da onda narrativa do momento e escolheu para cabeça de lista uma negra, com síndrome de Disfenia, popularmente conhecida por gaguez, porque, perante um povo sensível, era mais fácil captar votos e a afirmar o Partido. Não teve coragem, ele mesmo, de se submeter ao escrutínio porque é um perdedor. Faltar à presença já é perder. E, para culminar, num golpe de teatro manhoso e canastrão, retirou a confiança política à deputada eleita e esta, porque tinha aprendido bem a lição, fez como o seu mestre, não abandonou o cargo de deputada e mantem-se a ganhar o dela, que não é pouco.

O Partido Livre ficou sem representação parlamentar e, pior do que isso, caiu no esquecimento. Em política não há maior desaire do que o esquecimento. Lembram-se daquele adágio “falem bem ou falem mal, mas falem” é a teoria que importa a quem quer ser lembrado, independentemente das razões pelas quais apareça.

Portanto, se o Livre sempre foi irrelevante no panorama político nacional, mesmo quando elegeu uma deputada, passou a não existir a partir da altura em que deixou de ter representação parlamentar e de aparecer nas televisões.

Mas o senhor, de vez em quando, estrebucha e sacode-se para mostrar que está vivo. Começou por ter um arroubo de valentia e declarou candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, mas foi Sol de pouca dura, em menos de meia dúzia de dias declarou que, afinal, já não era candidato a presidente, mas ia a votos em coligação com o candidato do PS, o mais bem posicionado para a corrida autárquica.

Se eu não sou nada, se sou invisível, pelo menos ponho-me aos ombros do gigante para ver se alguém me vê, se alguém nota que existo.

Mas há mais. O caricato da situação é que o gigante não precisa nada do anão para a sua visibilidade local e o seu hipotético triunfo. Então porque é que o gigante se presta a este papel ridículo de levar às costas um pigmeu? Aqui a coisa pode ter outros contornos. Desde logo porque se pagam favores. Favores que o dito historiador faz constantemente na sua coluna do Jornal Público a elogiar o Partido e o Governo a que pertence o gigante. Mas, também, porque convém ter mais um amestrado na comunicação social que faça a propaganda e a publicidade enganosa, com que somos bombardeados, sem que isso possa ser apontado ao núcleo propagandístico do Partido do Poder.

Por fim e porque o objectivo é cavalgar a onda vamos ter, um dia destes, mais um Partido político que desaparece, mas que o seu presidente vai ser qualquer coisa que se sente à mesa do Orçamento do Estado, pela mão do Partido que vai fazer desaparecer o Livre.

Eu gosto muito de mudanças, mas não gosto nada de troca-tintas.

19/07/2021

Zé Rainho

Sunday, July 18, 2021

Podridão!

 

PODRIDÃO!

O termo é forte, é violento, mas é verdadeiro e a verdade é como punhos, como muitas vezes ouvi dizer aos meus maiores. As verdades podem doer, mas são preferíveis às mentiras, mesmo que piedosas.

Neste país vive-se uma conjuntura de podridão, de impunidade, de injustiça, de compadrio, de amiguismo, de partidocracia. Quase como no tempo de “sem rei nem roque” ou o “rei vai nu”. E o povo assiste a esta degradação numa modorra, numa apatia, num desinteresse, numa atitude conformada, que se está a tornar alarmante.

Nenhuma sociedade se desenvolve e se concentra no que é essencial num pântano assim. Sem águas que se agitam de vez em quando. Sem crítica. Sem escrutínio. Sem vozes dissonantes. Sempre foi assim e agora não será diferente.

Quando se instala a acomodação, mesmo nas horas mais difíceis, mais aflitivas, isso só quer dizer que o vulcão adormecido está a concentrar na profundidade o gás que o irá fazer explodir. E quando se der a explosão os efeitos colaterais serão sempre devastadores.

Assistimos a actos de vandalismo inaceitáveis. Uns dias, ou noites, é num bairro periférico de um grande centro urbano. Outros em vilas pacatas de gente simples. Outros em aldeias remotas e quase desertas. Há sempre grupelhos desordeiros que tudo destroem, que atentam à vida do seu semelhante, muitas vezes vizinho, com o descaso de quem tem rigorosa obrigação de velar pela segurança dos cidadãos, que é quem lhe paga, principescamente, o seu ordenado e demais alcavalas.

É fácil apontar o dedo a uma patrulha de polícia ou da GNR com dois homens apenas, na maior parte das vezes, pela incapacidade de pôr cobro a situações de conflito. Mas, se é fácil é, também, muito injusto. O que é que podem fazer dois homens ou mulheres mal-armados, mal apetrechados, desautorizados pelo poder político, perante grupos altamente violentos, armados, que sabem que nada lhes pode acontecer, além de serem apresentados a um juiz que os liberta mais cedo do que dispensa os agentes da autoridade que têm de justificar a ocorrência em relatório pormenorizado? Não podem fazer nada e, mesmo assim, qual pião das nicas, são quem vai sofrer o ricochete das eventuais consequências, se as houver.

Ontem foi em Reguengos, que um grupo onde pontificava um potencial assassino, que quis assassinar várias pessoas atirando para cima delas um carro em elevada aceleração, mas hoje, ou amanhã, será noutra localidade qualquer e não se passa nada. O Ministro da tutela assobia para o lado como assobiou quando o carro onde seguia matou um trabalhador, quando um emigrante foi assassinado nas instalações de um corpo policial de si dependente. Mas indigna-se com a presença de guardas da sua segurança pessoal que fazem ladrar e incomodam os seus cãezinhos de estimação.

Já o disse mais do que uma vez e volto a lembrar que a definição, mais antiga e mais correcta de ministro é que se trata de um servidor. Um individuo que é nomeado para servir as pessoas e não para ser o dono delas. Mas este ministro da Administração Interna se não fosse uma anedota malparida só poderia ser um caso de polícia.

Mas a podridão não se confina a este ministro alastra-se, como bolha de azeite, a toda a cúpula governativa não deixando de enodar o Presidente da República e os próprios tribunais porque calam as suas vozes, autorizadas, perante dislates destes.

O Estado Novo caiu de maduro, de podre e não, como muito boa gente nos quer fazer crer, pela audácia e arrojo de umas dezenas de capitães. Qualquer pessoa que se interesse minimamente pela História recente de Portugal descobrirá este facto. O tal vulcão adormecido acordou naquele dia 25 de Abril de 1974.

Não sei se não estaremos mais perto do que pensamos numa nova ebulição.

18/07/2021

Zé Rainho

 

Monday, July 12, 2021

Fundamental!

 

FUNDAMENTAL!

Fundamental é tudo que serve de base. Basilar. Alicerce. Raiz. Caracterizar o vocábulo fundamental é importante porque parece que às vezes se esquece o fundamento e se valoriza o acessório. Acontece com muitas coisas na vida, umas vezes por ignorância, outras por desleixo e, outras ainda, por dolo, neste último caso para confundir, baralhar e torpedear assuntos, conteúdos e leis.

Toda a gente precisa de saber as “linhas com que se cose”, como diz o aforismo popular. Conhecer as regras do jogo para jogar de igual para igual.  Se este princípio é válido para as coisas comezinhas, do dia-a-dia, mais relevante será quando se trata de conhecer a Lei Fundamental do País, a Constituição da República Portuguesa. Não será preciso conhecê-la de cor, de trás para a frente, isso incumbe aos especialistas na matéria, mas, pelo menos, saber onde e como consultá-la e, já agora, interpretá-la, minimamente.

Consideramos que há muito boa gente que trabalha muito e não tem tempo para estas minudências, mas não haverá uma percentagem demasiado grande de portugueses que não conhecem esta ferramenta que organiza a nossa vida? Porventura haverá e isso traz consequências em vários domínios e, em última instância, na decisão informada do voto de cada um.

Já agora talvez seja prudente dizer-se que a Constituição é a Lei Fundamental, mas não é uma vaca sagrada, que pode ser – a meu ver, deve ser – alterada sempre que haja fundamentos bastantes para tal e de forma a servir melhor a sociedade. Lembrar que a Lei Fundamental é de 1976 e daí para cá o mundo mudou muito e o país também mudou alguma coisa e a Constituição também.

Então, para concluir este arrazoado vamos lá transcrever o artº 9º para reflectirmos sobre ele e verificarmos se se tem cumprido a Lei ou nem por isso.

Artº 9º

(Tarefas fundamentais do Estado)

a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam;
b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático;
c) Defender a democracia política, assegurar
e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;
d)
Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais;
e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e
assegurar um correcto ordenamento do território;
f)
Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa;
g) Promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, tendo em conta, designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e da Madeira;
h)
Promover a igualdade entre homens e mulheres.

Sem querer ser exaustivo mudei os caracteres para vermelho nas partes que julgo que ainda há muito por fazer.

Tire você as suas próprias conclusões.

12/07/2021

Zé Rainho

Sunday, June 27, 2021

LUFADA DE AR FRESCO!

 

LUFADA DE AR FRESCO!

Num País onde a impunidade impera ver alguém responsabilizado pelos erros cometidos é uma lufada de ar fresco que nos alimenta a esperança num amanhã melhor.

É que a maior parte das Instituições estão entregues à incompetência dos lóbis partidários e dos incapazes e dos rapazes e raparigas que não sabem dizer NÃO e, por isso, só mesmo por isso, é que chegam a lugares de chefia e de relevância social.

Os exemplos são transversais aos Ministérios, Autarquias, Entidades Reguladoras, Serviços diversos.

Todos os dias aparece mais um escândalo. Agora está na berra o caso da devassa dos dados pessoais que vai para além da devassa e entra no domínio criminal do envio desses dados a países estrangeiros, num verdadeiro atentado aos Direitos Humanos, particularmente quando esses dados são enviados a países com regimes ditatoriais, despóticos e que matam indiscriminadamente os adversários políticos, que eles consideram inimigos, seus e da sua pátria. É sempre assim com todos os ditadores desde todos os tempos e em todos os lugares do Planeta.

Mas, se não bastasse este gravíssimo atentado à democracia apareceu a morte de um trabalhador provocada por uma viatura oficial, onde seguia o ministro da Administração Interna, sem que se saiba o que verdadeiramente se passou. Mas as suspeitas são mais que muitas, desde logo a imprecisão – para não dizer engano – na comunicação ao INEM do acidente o que impediu um socorro célere. Bastou a informação errada do sentido em que seguia a viatura acidentada para, numa auto-estrada, se perder imenso tempo.  Para cúmulo o ministro não se dignou ir ao funeral do trabalhador nem teve a decência de mandar um dos muitos assessores, que nada têm para fazer e que tem ao ser serviço particular. Muito menos mandou investigar e prestar auxílio à viúva e filhas do trabalhador que, segundo o Correio da Manhã, viviam em total e completa dependência do trabalhador vitimado. Isto tudo depois dos inúmeros factos demonstrativos da total falta de vergonha do ministro, da sua exponencial incompetência e do seu habitual abuso de poder, para não falar do tacho que conseguiu para a sua mulher que, depois de não servir para ministra a ganhar cerca de cinco mil euros mensais, serve agora para chefiar, uma das muitas entidades reguladoras, mas a ganhar doze mil euros mensais. Tudo isto não é só um escândalo, nacional e internacional, seria um caso de polícia num país onde a Democracia funcionasse em pleno.

Mas, para que nem tudo seja péssimo, lá aparece um militar, de honra e sentido de serviço público, para dizer que há portugueses de bem, capazes, competentes, inteligentes e com coluna vertebral, que não se verga ao poder político, bolorento e bafiento e quase autocrático.

O Vice-Almirante Gouveia de Melo, ao ter conhecimento de atitudes fraudulentas na vacinação da Região Norte não esteve com meias medidas, pediu à Polícia Judiciária e à Inspecção Geral das Actividades em Saúde para investigarem e exigiu responsabilidades e consequências. De imediato demitiu-se uma responsável pelos actos. Só é de aplaudir. Já não suportamos malandros, como diz o Vice-Almirante.

É de todos os tempos a ideia e o proveito, de que o esperto, o vigarista, o oportunista é que se safa. Que a cunha e o amiguismo desenrascam tudo não importando se isso prejudica o outro. Parece até que o Povo gosta deste tipo de comportamento. Aplaude a vigarice. Mas nenhuma sociedade é, verdadeiramente, civilizada se cada um dos seus elementos não praticar a equidade, a honradez, o trabalho, o conhecimento, a competência e a justiça, para o bem comum. Temos, no nosso seio, demasiados malandros que é preciso educar e sancionar, para que não sintam que a malandrice vale a pena.

Temos, também, ainda homens de bem e portugueses de garra que podem alterar este estado putrefacto de coisas. Esperamos que estes nos ajudem, mais cedo do que tarde, a limpar a estrumeira que se alastra cada vez mais.

O Regime Político precisa de constante vigilância para que não caia em autocracia, no abuso do poder, na apropriação da coisa pública, na delapidação do património cultural e de valores pátrios que tanto custaram a conquistar.

Os Partidos Políticos têm de ser, constante e continuamente, escrutinados para não se considerarem donos da democracia, porque esta não tem donos e pertence a todos, mesmo àqueles que não têm partido.

A Democracia e a conquista da Liberdade tiveram protagonistas, mas não seriam conquistadas sem os actores secundários que, na circunstância, foram todos os portugueses.

Com a atitude do Vice-Almirante renasce a esperança de que há Homens e Mulheres capazes de contribuírem para a mudança que tanta falta faz para que voltemos a ser um País com orgulho do seu passado, com confiança no seu presente e com expectativa de ser melhor no futuro.

26/06/2021

Zé Rainho

 

 

Friday, May 28, 2021

28 de Maio de 1926

 

28 (Des)Maio…

O reviralho – grupo de republicanos, socialistas e anarco-sindicalistas – pouco representativo na vida nacional, para fugir aos inconvenientes de uma interpretação linear do acontecimento – Golpe de Estado -, designava este dia, desta maneira. Porém, o facto, não desmaiou, antes pelo contrário, cada dia que passava mais se fortalecia e mais adesão popular obtinha.

Uma república, com pouco mais do que uma dezena e meia de anos de vida, conseguiu a proeza do povo aderir, em massa, a um Golpe de Estado que colocava os militares no Poder.

O caos, a anarquia, a impunidade, associados à miséria e à fome foi o caldo perfeito para que o povo recorresse, em último recurso, aos Militares, para sua salvação.

 O resultado final não foi famoso, mas, porventura, também não poderia ter sido outro.

Aproximamo-nos, a passos largos, para que se atinja o século que este facto histórico aconteceu e, pelos vistos, não aprendemos nada.

Hoje vivemos uma asfixia democrática assustadora e ainda não houve um sobressalto cívico. Temos um partido político tentacular, que tudo controla e em tudo manda, que pratica as maiores barbaridades e se comporta de forma a raiar a ditadura e não se ouvem vozes que clamem, que alertem, que despertem o povo deste torpor paralisante.

Para que isto não pareça uma opinião pessoal e sectária vamos aos factos:

1.      Iniciou-se um processo de vacinação sob o comando de um boy da extrema-esquerda e, numa altura de escassez de vacinas – como ainda existe, ainda que em menor escala – estas eram administradas aos amigalhaços, aos da cor política, aos dos cargos político-partidários, em prejuízo dos grupos de maior risco e prioritários. Saiu o boy, por manifesta incompetência, compadrio e nepotismo, veio um militar e tudo corre sobre rodas. Um êxito enaltecido por toda a gente;

2.      Terminou um campeonato de futebol nacional e uma taça de Portugal sem público, sem adeptos, sem reuniões permitidas pelos boys e girls da Saúde e do Governo, apesar do índice de transmissibilidade e do número de casos de infecção serem diminutos. Quase no mesmo espaço de tempo – uma semana depois – com os índices piores do que na semana anterior, os mesmos boys e girls autorizam que venham, milhares de holligans do Reino Unido, assistir a uma final de futebol, entre dois clubes do seu país, nos quais não temos nenhum interesse, no nosso território e num dos nossos Estádios. Os distúrbios, zaragatas, feridos, já estão à vista e ainda não se realizou o jogo de futebol. A Polícia tem de tomar as medidas com vista a menorizar os efeitos perversos desta medida e dos responsáveis pela saúde e pelo governo não há uma palavra;

3.      Os inspectores do SEF fazem um pré-aviso de greve por se sentirem humilhados por um ministro do mais incompetente que há, mais truculento que existe, menos consensual imaginável e este faz uma requisição civil dos mesmos, utilizando uma figura excepcional da Lei. O mesmo ministro que não foi capaz de prever a borrada que foi a comemoração do título de futebol nacional dentro do Estádio, tem agora força para, ditatorialmente, coarctar direitos liberdades e garantias constitucionais e, por este despudor, é apelidado pelo PM de excelente. Como seria se fosse verdade! Certamente era elevado ao altar.

4.      Noutros tempos foram arbitrariedades como estas que levaram à mudança de regime. Quando o copo está cheio o que o faz transbordar é a última gota.

Face aos factos referidos, aos quais podíamos acrescentar o de Odemira, a morte do emigrante e muitos outros, ressalta uma pergunta inevitável: Não teremos de recorrer aos militares para porem esta gente na ordem?

28/05/2021

Tuesday, May 18, 2021

O PODER!

 

PODER!

O Poder quase nunca se conquista, apenas cai de maduro ou de podre. Há exemplos próximos e remotos que confirmam esta tese. Os Impérios Romano, Otomano, Persa são bons exemplos. Mas os europeus, Inglês, Francês, Holandês, Espanhol e Português, também não deslustram.

Mais próximo de nós, e mais caseiro, temos o exemplo de um Poder de Estado que não se renovou, que não acompanhou os tempos e os ventos da História. O Estado Novo começou por ser um projecto de salvação nacional para remediar os efeitos nefastos de um regime republicano caótico, sem líderes, sem objectivos e com muita carência de meios económico-financeiros. Com o passar dos anos enquistou, criou vícios, fechou-se em círculo e o projecto que era de dignificação nacional passou a ser de divisão e, sobretudo, de autismo, particularmente no desenvolvimento escolar dos portugueses e no diálogo com as ex-colónias.

Temos presente que, na década de cinquenta, do século passado, apesar dos perigos e do quase tráfico humano, era mais fácil emigrar para França do que para qualquer colónia portuguesa. Quem não tivesse alguém nas colónias quem lhe enviasse uma carta de chamada, que era um verdadeiro contracto de trabalho, não conseguia ir para lá. Não se podia ir clandestino, ou assalto, como é óbvio.

Depois da descolonização, da maior parte das possessões de outros países europeus, o regime vigente não teve um vislumbre do que se projectava para o futuro e o resultado foi uma guerra cruel, injusta, tanto para os autóctones como para a juventude portuguesa.

O mal-estar e o descontentamento generalizado, era indisfarçável e só o Poder não o via nem o sentia. O tal poder de fim de ciclo. O tal poder abúlico e próximo do apodrecimento.

Mesmo assim, se nos ativermos aos factos e não às narrativas, sabemos que um regime musculado, que vigorou 48 anos, não caía às mãos de umas centenas de jovens ingénuos, inexperientes, zangados, porque estavam fartos da vida que levavam, apesar de ser a vida que escolheram.

Fala-se muito que foi o Movimento dos capitães e no 25 de Abril que derrubou o regime. Talvez se devesse falar mais de um Movimento Militar que, desde a primeira hora teve o apoio da esmagadora maioria do povo português. Talvez fosse interessante falar-se de uma massa enorme de anónimos, jovens, principalmente, que arriscaram tudo, porque não tinham nada a perder.

Os jovens daquela época tinham como destino certo, três ou quatro anos de serviço militar obrigatório e uma comissão nos territórios ultramarinos, onde tudo podia acontecer. Morte, estropiação, traumas físicos e psicológicos. Entrar na aventura de derrubar o regime não alterava em nada este cenário. Se corresse mal podia haver morte, prisão e traumas diversos. Qual era então a diferença de risco? Pouca ou nenhuma.

Já aos capitães, principalmente estes e alguns Majores, tinham tudo a ganhar. Todos estavam fartos de fazer comissões no Ultramar, quase sem descanso. Regressavam de uma e poucos meses depois eram mobilizados para outra. Viam a sua carreira paralisar e, em alguns casos, serem ultrapassados por Milicianos com um curso intensivo de apenas um ano. Medida administrativa que não teve em conta a carreira militar a que alguns jovens se dedicaram desde muito cedo. Arriscar uma emboscada na mata de um qualquer território ultramarino ou serem eles os protagonistas a emboscar um regime podre, sem apoio militar e muito menos popular, poucas dúvidas surgiriam nas cabeças de jovens de 30 anos de idade, mais ou menos.

Mas, se os capitães tiveram o mérito de despoletar a acção, os demais militares sem patentes e o povo anónimo foram decisivos no êxito desta aventura.

Os capitães ganharam alguma coisa, pouca. O pilar importante de qualquer sociedade que é o Poder Militar perdeu quase tudo. Perdeu o respeito dos cidadãos. Perdeu a importância que lhe é devida, no seu dever de assegurar a independência e os valores da Nação. Foi e é menorizado pelo poder político, desde as situações de maior relevância, até às simples contas de merceeiro, como sejam as dotações orçamentais para os seus serviços de saúde. Enquanto isso o Poder de Estado que eles almejaram, rapidamente lhes fugiu das mãos. Uma esquerda internacionalista, organizada e oportunista, depressa abocanhou todo o poder de decisão incluindo o de cerceamento das liberdades individuais, da propriedade privada, do direito à opinião livre e sem peias.

Não nos esquecemos das brigadas de energúmenos arregimentados pelo PCP e outras forças políticas antidemocráticas a fazer barricadas nas estradas e a revistarem quem nelas transitava, sem qualquer poder legítimo ou legitimado, sem qualquer mandato. Armados até aos dentes com armas automáticas que, eventualmente, nem saberiam manejar, mas que dava para assustar os mais incautos e menos prevenidos.

Grupos de gente sem ideais apropriaram-se do Estado, no seu todo, da propriedade privada, do tesouro, da banca, das empresas rentáveis para, apenas, satisfazerem o seu ego, o seu poder individual e de grupo e, em último caso, para enriquecerem, como aconteceu com muitos maltrapilhos.

Já passaram quase tantos anos de democracia como de ditadura e ao que assistimos, ainda hoje? Qualquer pessoa que discorde da narrativa esquerdista é logo mimoseado com o epíteto de fascista. Qualquer cidadão que expresse as suas ideias sobre uma sociedade diferente, mais livre, mais democrática, mais soberana é alguém que quer voltar ao passado de miséria e de fome do tempo do Estado Novo, como se hoje não houvesse miséria, fome, sem-abrigo, sem emprego e sem dignidade, dependendo da caridade alheia, para sobreviver.

Desconhecemos se o regime está em fim de ciclo, mas temos a certeza de que está podre e que cairá de maduro, mais cedo do que tarde. Temos receio que caia em mãos que com matizes diferentes, mas que tenham como objectivo oprimir mais este povo tão desgraçado.

Preocupa-nos, de igual forma, que a juventude não se interesse pela política e, principalmente, pelo dever cidadania, o que pode conduzir a que apenas os medíocres, nesta espécie de arremedo de democracia, tomem conta do Poder e o usem mal.

17/05/2021

Zé Rainho

Sunday, May 09, 2021

DIA DA EUROPA!

 

DIA DA EUROPA!

E o que é que isto quer dizer? Pode dizer muito e pode dizer nada. Para aqueles que acreditam que a vida se faz em comunidade diz muito. Para os que só olham para o seu umbigo não dirá nada.

Ainda não há muitos anos, historicamente falando, que andávamos todos à porra e à massa, como inimigos figadais, por mais um pedaço de chão, um substrato mineral, por possessões noutros continentes ou, pura e simplesmente, por questões de alianças e outras minudências.

No primeiro quartel do século XX foi a primeira guerra mundial, também designada por Grande Guerra, que dizimou mais oito milhões de seres humanos. Também a nós, portugueses, nos calhou uma boa fatia de mortos e estropiados, quer em França quer em África.

Na primeira metade do mesmo século, pouco mais de duas décadas depois, com recordações, muito presentes, da catástrofe da primeira guerra, apareceu um lunático, um esquizofrénico, um sanguinário, que sem pudor e sem senso, conduziu de novo a Europa a outra tragédia, onde morreram mais de trinta e três milhões.

Aos mortos devem, por questão de justiça, juntar-se os feridos, o sofrimento dos familiares e a fome de um continente inteiro.

Directamente, não entrámos neste segundo conflito, mas a miséria e a fome entraram-nos portas adentro, com um ímpeto e uma intensidade igual ou pior do que aquela que sofreram os países que estiveram no teatro da guerra.

Daí para cá, e já lá vão quase oitenta anos, que vivemos em paz na Europa. Muitas vezes uma paz podre, mas incomparavelmente, menos mortífera do que no século passado.

Com o pontapé de saída com a criação do Benelux – união de países com os mesmos interesses económicos – foram-se dando passos para a criação da Comunidade Económica Europeia e hoje a União Europeia que, nas suas diferentes fases, foi-se transformando, deixando de ser apenas união económica e passando a ser, também, união política. Foi um grande, um enorme avanço. Tem espaço para avançar muito mais e todos os povos se sentirem, verdadeiramente, europeus. É preciso muito mais, mas “Roma e Pavia não se fizeram num dia” e lá chegaremos. É a minha convicção.

Por tudo o que a União Europeia é hoje, pela paz, pela solidariedade e pelo sentido comunitário que congrega a maior parte da Europa sito meu dever celebrar este dia com satisfação esperando que os nossos filhos e netos o possam fazer com júbilo o mais breve possível.

Viva a Europa, viva Portugal.

9/05/2021

Zé Rainho

Wednesday, May 05, 2021

LÍNGUA PORTUGUESA!

 

LÍNGUA PORTUGUESA!

A nossa Língua, qualquer Língua é a identidade nacional dos povos. Da mesma forma que não se altera o nome da pessoa sem alterar a sua identidade, também não se altera a Língua sem desvirtuar as características individuais e colectivas de um povo.

Hoje celebra-se o Dia da Língua Portuguesa logo, da cultura nacional, da tradição oral e escrita, do Estado-Nação que somos há quase um milénio. Na circunstância, não será estultício que queiramos afirmar esta nossa identidade singular, nem o orgulho e o amor pátrio pelo nosso património comum. Da mesma maneira não será despiciendo que nos insurjamos contra toda a adulteração e abastardamento da Língua que nos torna únicos no mundo.

Desta feita, não podemos deixar de nos manifestarmos contra a ideia peregrina de abastardar as formas mais básicas de comunicação linguística. Não podemos aceitar que se diga, publicamente e com amplificação mediática, “camaradas e camarados”, “presidente e presidenta”, “cágado e cagado, com o mesmo sentido e significado”, sem sentirmos que os pêlos se ericem e fiquem em pé.

Não podemos permitir que escreventes, com cursos superiores, escrevam sem pudor “à” e “há” sem destrinçarem quando signifiquem, respectivamente, preposição ou flexão verbal.

Não deixaremos de nos sentir arrepiados com erros de palmatória que vemos estampados em órgãos de comunicação social de cobertura nacional.

Devemos, em nossa modesta opinião, continuar a lutar para a reversão do Acordo Ortográfico que, na sua essência, não trouxe benefícios de género nenhum, mesmo os económicos que tanto enfatizaram, pelo contrário, trouxe um apoucamento da Língua, junto de escritores de referência, tanto nacionais como estrangeiros, para não referir os falantes da Língua, nos mais diversos pontos do Mundo.

Desta forma é preciso continuar a ensinar as nossas crianças e jovens da importância de um artigo, masculino e feminino, um substantivo comum de dois, de um adjectivo, de uma preposição, de um verbo nos seus diversos tempos e modo, de uma conjunção nas suas diferentes formas, de um advérbio nos seus diferentes modos, para enumerar apenas alguns princípios gramaticais, fundamentais para o bom uso da língua portuguesa.

Ao defendermos a Língua estamos a defender a Pátria e a Nação que é nossa e que faz parte integrante de nós.

Evoluamos na cultura sem nos deixarmos castrar. Aculturemo-nos sem que nos dissipemos nas outras culturas e percamos a identidade. Viva a língua portuguesa. Viva Portugal. Vivam os países de Língua Oficial Portuguesa.  

5/5/2021

Monday, April 12, 2021

Estupefacção!

 

Estupefacção!

Em toda a minha vida ouvi dizer que todo o homem tem um preço, afirmação da qual não comungo e muito menos aceito. Não quer dizer que o povo, na sua sabedoria, não tivesse razão para assim pensar, mas quero acreditar que há pessoas que se regem por valores morais e éticos e que consideram que um ladrão é tão ladrão por roubar um tostão, como por roubar um milhão. É o acto que qualifica e não a quantia.

Vem isto a propósito da ordem do dia no País, corrupção, prescrição, culpados, inocentes, juízes e procuradores do Ministério Público. Tenho algumas informações e referências sobre um tal Zé Sapatilhas, que andou aqui pela Covilhã e, ainda jovem, já fazia das suas e não eram bonitas. Filho de pai com poder e com dinheiro, desde cedo, se julgou mais do que ninguém. Depois, passeou-se por Coimbra onde conseguiu um diploma de bacharel em engenharia que lhe deu logo acesso a um lugar na Câmara, como é óbvio por influência e não por concurso público, como deveria ser. Quando já era detentor de muito poder, conseguiu, numa universidade manhosa, um canudo de engenheiro, através de um exame efectuado ao domingo, avaliado por um professor amigo e conivente. Canudo que nunca foi reconhecido pela Ordem dos Engenheiros, logo vale zero, se precisar de o utilizar para comer, com o esforço do seu trabalho. Mas não precisa de trabalhar porque os milhões que lhe passaram pela carteira dão-lhe o conforto de não necessitar de trabalhar. Entretanto tinha assinado uns projectos esquisitos, aprovados por técnicos incapazes, mas detentores de poder, lá para os lados da Guarda. Muitos outros episódios lhe são imputados e são do conhecimento público através da Comunicação Social e, por isso, não vale a pena repeti-los.

Foi, este sujeito, preso e acusado de dezenas de crimes por se ter apropriado, indevidamente, de milhões de euros. Agora há um juiz que diz que o dito sujeito é corrupto, mas que o crime prescreveu e eu fico estupefacto. Então o roubo deixa de ser roubo se se deixar passar algum tempo sem que se descubra ou seja punido pela justiça? Então um ladrão que consegue esconder o produto do seu roubo, e só pelo facto de saber esconder bem o produto de tudo aquilo que roubou, não é punido pela Justiça dos homens? Então um gatuno, só porque roubou muitos milhões e com eles pode pagar a advogados que conhecem os buracos negros da lei - eventualmente, até fazem parte de escritórios a quem pagaram para a elaborar, quando deveria ter sido gizada por juristas competentes e ao ser da causa pública e não dos interesses de uns, poucos - deixa de ser considerado gatuno só por isso, enquanto outro cidadão que rouba um pão no supermercado vai preso? Roubar e não ser apanhado passa a ser virtude?

Então e um juiz, que tem o dever de julgar com justiça e é pago principescamente, para isso, considerando o ordenado médio nacional, tem poder para branquear crimes e não lhe acontece nada?

Será que é lícito a um juiz valorar o testemunho de companheiros e amigos do arguido e desprezar o testemunho de um interveniente no processo que teve conhecimento causal e até participou nos esquemas de corrupção, sem que nada aconteça? Isto é um Estado de Direito ou é uma pocilga?

Sabemos que tudo o que aconteceu na passada sexta-feira não é o fim de nada e até é, nas próprias palavras do visado, o princípio de tudo, mas perante um povo tão sofredor, com bolsas de pobreza inimagináveis, com fome a grassar pelo país fora, muito por culpa desta corja de ladrões, ainda que com a desculpa da pandemia, um cidadão que paute a sua vida pela honestidade pode sentir-se confortável? Não se sentirá incomodado? Não terá de se revoltar?

Dir-se-á que o povo já se revoltou e a prova disso é que anda para aí uma petição, com muitas milhares de assinaturas, para afastar o juiz da magistratura, mas isso vai valer de alguma coisa? O Poder judicial supremo é que tem a competência para tal e a petição é dirigida a um órgão sem a competência devida, como poderá ter efeitos práticos?

Não deveria haver um sobressalto cívico, vastíssimo, de toda a sociedade honesta que não se revê nestes esquemas e nesta sordidez, para que o Poder encarasse o enriquecimento ilícito, seja de quem for e pudesse merecer a dedicação urgente à legislação que impedisse que tal aconteça? Que tal demonstrar já isso nas próximas eleições, não votando em quem esteja, mesmo que seja só indiciado, de práticas contra a ética e contra a moral?

Diz-se com ênfase que todo o criminoso é inocente até trânsito em julgado. No domínio jurídico pode ser assim e, só por isso, o direito já não é direito, penso eu, mas, para mim um criminoso é aquele que comete um crime, independentemente de ser apanhado, ou não, pelas malhas da justiça.

Ontem já era tarde, mas vamos acreditar que ainda há gente de bom senso, de bom carácter e que tudo fará para legislar para que casos destes não se repitam. Alguma coisa tem de ser feita.

12/04/2021

Zé Rainho

 

 

Monday, March 22, 2021

RICOS!

Ricos podres!

Há coisas, por mais que me esforce, que não consigo entender. Deve ser por nunca ter sido um aventureiro e, muito menos, um oportunista ou, quem sabe, devido a inteligência medíocre. Seja do que for não entendo, não compreendo e, por essa mesma razão, não consigo aceitar.

Falo de um tal Alfredo que nasceu pobre e disso não tem culpa nenhuma, viveu pobre até aos seus quarenta anos e, de um momento para o outro ficou rico.

Vamos lá escalpelizar o assunto. Um indivíduo de cerca de 54 anos, nascido e criado lá para os lados de Odivelas, era pobre ao ponto de não poder estudar, numa época em que estudar e tirar um curso superior era ambição de todos os jovens e dos seus pais. Para ter algumas ferramentas para a vida foi a Casa Pia de Lisboa, instituição de solidariedade social que lhe proporcionou algumas habilitações e, porventura, algumas habilidades. 

Começou por trabalhar no concelho de Palmela como trabalhador indiferenciado. Passou para pequeno empresário de transporte de mobílias e, sem saber ler nem escrever, como se costuma dizer, de um momento para o outro torna-se sócio, maioritário, de uma empresa estratégica, de valor astronómico, que gera lucros extraordinários. Trata-se da Groundforce, empresa que, entre muitas outras actividades, se encarrega da bagagem e de passageiros nos aeroportos portugueses. A empresa tem cerca de dois milhares e meio de trabalhadores e um volume de negócios assinalável. Pertenceu, durante anos à TAP mas as regras da concorrência da União Europeia não permitem monopólios e depois de ter adquirido a Groundforce por 31,5 milhões de euros vendeu-a por cerca 4 milhões. A TAP era nossa. Era do Estado. Parece que já voltou a ser!

Grande negócio, não? Pois, ainda foi mais fantástico, porque o comprador o tal Alfredo, ficou com empresa subsidiária da TAP sem ter de desembolsar um cêntimo. Os amigos fizeram um contrato que lhe permitia pagar com os lucros que ia embolsando. Assim também eu seria capaz de fazer negócios, mesmo não percebendo nada dessas coisas.

Não é caso único, há muitos outros casos similares com um aspecto em comum, são sempre negócios com o Estado. 

Mesmo não sendo muito inteligente atrevo-me a concluir que, se um indivíduo se souber rodear dos amigos certos, que estão colocados nos lugares certos, não precisa ser podre de rico para ser tornar, num ápice, um rico podre.

Não se esqueçam que isto não foi sempre assim. Houve tempos em que se nascia rico, se recebiam heranças, ou lhe saia a sorte grande, para se ser rico. Com a casta política do 25 de Abril passou a haver mais esta autoestrada para a riqueza, influências. 

22/03/2021

Zé Rainho