Alfabetização - Educação Básica de Adultos
Muito Boa
Noite. É uma grande honra poder estar numa reunião de um Clube tão prestigiado
como o Rotary e é um privilégio poder tecer algumas considerações sobre um tema
tão esquecido e tão depreciado, ao longo dos tempos, como é o caso da
Alfabetização e Educação Básica de Adultos, junto de uma plateia tão distinta.
Antes de
iniciar a minha comunicação permitam-me que deixe uma nota prévia: encontro-me
aqui em nome individual e é nessa qualidade que me pronuncio sobre esta
temática. Por isso as afirmações produzidas apenas me vinculam a mim próprio
não podendo ser conotadas com a instituição onde desempenho funções.
Dito isto,
centrarei a minha intervenção em experiências de vida pessoal e profissional
pelo que procurarei apresentar a minha visão, de forma muito simples e o mais
sucinta possível, sobre as causas do problema, as políticas de combate ao analfabetismo,
o vivido e o sentido na Região Educativa do Centro, e terminarei com o que se
perspectiva para o futuro.
Quanto às Causas:
É sabido
que toda a educação e principalmente, a Educação de Adultos, em Portugal, não
tem paralelo com o resto da Europa.
Desde os
finais do século XIX que os níveis de escolaridade nos Países do Norte se
situavam nos nove anos de escolaridade e que, já nessa época, tinham taxas de
analfabetismo abaixo de 1%. No nosso País em 1910, aquando da implantação da
República, essa percentagem era de cerca de 71,5%.
Esta
diferença assenta, como é sabido, por um lado, pelo abandono pelos poderes
públicos, do ensino durante décadas, mau grado o que se procurou fazer durante
a primeira República, com a reforma do ensino primário que se iniciou ainda em
1911 com importantes alterações em 1919, em que foi criado o ensino
pré-primário oficial e o primário geral e superior inteiramente gratuitos, como
refere Luiza Cortesão no seu livro “Escola e Sociedade / que relação”.
Mas esta
reforma teve grande retrocesso nas décadas seguintes. Basta lembrar o que dizia
um dos ministros da educação da década de trinta, Dr. Eusébio Tamagnini, numa
entrevista em 24 de Novembro de 1934, onde explica como poderia extinguir o
analfabetismo, apesar de não ter verbas para atender a todos os casos de
adultos e crianças que não sabem ler nem escrever. Dizia então: “para
resolver este problema este tem de ser simplificado de acordo com as modernas
descobertas pedagógicas, ou seja: “ a população pode e deve dividir-se em cinco
grupos a saber:
1º ineducáveis
.............................8%
2º normais estúpidos
..................15%
3º inteligência média
..................60%
4º inteligência superior
...............15%
5º notáveis
.................................. 2%”
Donde
concluía que não era preciso muito dinheiro para investir na construção de
escolas ou na contratação de professores e hoje se poderá inferir que o senhor
Ministro de então, condenava à partida, ao iletrismo e ao inumerismo, como se
diria nos dias de hoje, no mínimo 23% dos Portugueses. É claro que a esta visão
se sucedia, de forma complementar, a exaltação de um espírito nacionalista em
que são “glorificadas as belezas da vida rural e das vantagens de se ser pobre
e obedecer” como atributos e qualidades para a felicidade.
Atente-se
no que, a respeito, dizia a conceituada escritora, Virgínia Castro e Almeida,
num artigo publicado no Jornal “O Século” de 5 de Fevereiro de 1927 “(...)
Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo.
Felizes os que esquecem e voltam à enxada. A parte mais linda, mais forte e
mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos”. Não
admira pois, que se tenham encerrado as Escolas Normais de Formação de
Professores porque estes e a Escola eram apontados como subversores da Ordem e
dos Valores vigentes.
O
sentimento de desigualdade, a vida miserável que foi vivendo a maior parte da
população, que conduziu a uma emigração em massa na década de sessenta, a
insatisfação popular crescente, devido às más condições de vida mas também a
uma guerra colonial considerada, por muitos, injusta, mas também a existência
de uma cada vez maior elite intelectual politizada, deram origem ao “cocktail” de
vontades que se congregaram para fazer a revolução e acabar com estas
injustiças.
Não admira
pois que, logo após o 25 de Abril, época áurea do PREC (Processo Revolucionário
em Curso), se desenvolvessem campanhas de alfabetização em massa, na maior
parte dos casos levadas a cabo por militares ou activistas políticos, que não a
sabiam fazer, não tinham preparação técnica, científica e pedagógica e que
procuravam, mais do que alfabetizar, inculcar nas populações as ideias afectas
à linha política dominante na época, “o caminho para o socialismo”. Passado
este tempo conturbado tornava-se imprescindível definir:
Políticas de Combate à exclusão através da
Alfabetização:
Todas as
vicissitudes referidas, como é evidente, só poderiam conduzir a uma sentida
necessidade de desenvolver uma Educação de Adultos, mais de encontro aos
interesses das populações e, é assim que em 1979, foi aprovada a Lei, então
designada por PNAEBA (Plano Nacional de Alfabetização e Educação Base de
Adultos), dando-se início em 1980 a um modelo de Educação de Adultos, em muitos
casos ainda hoje vigente, que é o de uma Alfabetização levada a cabo por
professores devidamente habilitados e com formação contínua adequada. Estes
professores eram colocados pelo Ministério da Educação e tinham a sua
dependência hierárquica dum Organismo Central que, na altura se designava por
Direcção Geral de Educação de Adultos e que depois veio a ter outras
denominações, como Direcção Geral de Extensão Educativa e outras até à sua
extinção.
Este
modelo, que no seu início, apostava na mobilização das pessoas através das suas
associações representativas, foi-se, cada vez mais, aproximando do paradigma
escolar, por força de uma profusão de legislação nem sempre coerente, dando
origem a um ensino recorrente que, em muitos casos se confunde com a própria
Educação de Adultos. Mas mesmo este, com alguns defeitos, tem também
virtualidades. Apesar de ultimamente ter sido maltratado na Comunicação Social,
com informações avulsas, muitas vezes, sem sentido e sem fundamento, só porque,
em algumas escolas, não foi interiorizada a fi filosofia subjacente a esta
modalidade de ensino e se utilizam práticas desajustadas que conduzem a
desistências e outras situações que vêm denegrir os princípios e os objectivos
para que foi criado, tem demonstrado que, quando está próximo das pessoas estas
aderem e obtém sucesso. Este ensino, nomeadamente ao nível do 3º ciclo e do
Secundário pressupõe um alto sentido de responsabilidade e a adultez
necessária, por parte de professores e alunos, para o estabelecimento de
itinerários individuais de formação que respeitem o ritmo individual e as reais
capacidades e possibilidades de cada formando. Nem sempre este pressuposto foi
respeitado por ambas as partes, porque ingressaram no sistema muitos jovens
adolescentes que fizeram um grande favor à Escola Regular quando a abandonaram
de dia e a frequentaram à noite. À luz do dia eram perturbadores e essa
perturbação tem impactos junto de pais e demais comunidade educativa. À noite a
coisa é diferente porque o ensino nocturno se destina aos coitadinhos. A
Escola, por sua vez, porque está habituada a responder a todos por atacado,
como se todos fossem um só, também não se adaptou a esta verdadeira revolução
nas práticas pedagógicas mais comuns, daí o insucesso, daí a falta de
rentabilidade no dizer dos mais altos responsáveis pela Educação.
Mas, como
todos os modelos têm o seu período de validade, também este tem vindo a sofrer
alterações quer ao nível de estrutura quer ao nível de currículo. Por sua vez a
própria reestruturação do Ministério da Educação veio a ter consequências na
forma de se fazer Educação de Adultos em Portugal e, consequentemente na Região
Centro.
Estas
mudanças deram origem, em 1987, na sequência da Lei de Bases do Sistema
educativo de 1986, a uma viragem importante, que dá origem a:
O vivido e o sentido na Região Educativa do Centro:
A
reorganização do Ministério da Educação e a desconcentração dos Serviços, com a
criação as Direcções Regionais de Educação, veio a trazer novas dinâmicas ao
processo. No caso da Direcção Regional de Educação do Centro de que foi
primeira directora a ilustre Presidente deste Clube, Dra. Fernanda Mota Pinto,
procurou, desde a primeira hora, levar a cabo uma Educação de Adultos mais
consentânea com os interesses e motivações das populações em moldes adequados à
realidade objectiva da Região e, neste caso, a nossa Direcção Regional,
aproveitando a flexibilidade da Lei, procurou, desde sempre, valorizar a
capitalização dos saberes adquiridos e das experiências vividas, com o
objectivo geral da obtenção da escolaridade mínima obrigatória e, em muitos
casos, duma iniciação ou sensibilização às várias áreas profissionais, mas
também da promoção de uma autêntica e plena cidadania de toda a população. Para
que tal fosse possível, é de elementar justiça referir a posição da Dra
Fernanda Mota Pinto, que, na Direcção Regional, fez questão de criar um sector
autónomo dentro da Direcção de Serviços Técnico-Pedagógicos, com funções
específicas de organização, coordenação, planeamento e avaliação de todo um processo
que conduzisse à redução significativa das taxas de analfabetismo, situação que
os seus sucessores, sem excepção, é justo dizer-se, sempre mantiveram. Este
sector, apoiado numa grande equipa, hoje com espírito de corpo, tem
sustentáculo nos Centros de Área Educativa e nas Coordenações Concelhias
espalhados por cada um dos 78 concelhos da Região e tem procurado dar a melhor
atenção e atribuído a maior importância a uma significativa faixa de população
activa que, embora pouco qualificada, consideramos como imprescindível ao
desenvolvimento social e económico do País.
Foi neste
contexto que se definiu um programa de acção, em três fases, com objectivos
claros e que, na nossa perspectiva, levaria a Região Centro a aproximar-se dos
0% de taxa de analfabetismo, em 2008. Dadas as alterações profundas que hoje se
sentem e de que falarei mais adiante, não sabemos se será possível atingir tal
desiderato.
Numa
primeira fase foi preciso criar o tal espírito de corpo, de que atrás falei,
entre os elementos da DRE, dos CAE e os C. Concelhios que, na altura, pareciam
padecer de um certo espírito de orfandade com a extinção da Direcção Geral de
Extensão Educativa. A segunda, até 1998, pretendia baixar a taxa de
analfabetismo para os 9% e a terceira, erradicar totalmente o analfabetismo
literal da Região.
Todas as
etapas, até agora decorridas, foram cumpridas, mau grado as notícias de alguns
jornais que veiculam informações erradas, distorcidas, porque baseadas em dados
viciados e num desconhecimento total do país real em nos inserimos.
A título de
exemplo podemos dizer que a falta de cuidado na análise de dados por parte de
alguns técnicos do Ministério da Educação é verdadeiramente chocante. Senão
vejamos: Há cerca de dois meses saiu a público uma notícia que apresentava a
Região Centro como uma daquelas onde a taxa de analfabetismo tinha crescido e,
por isso, passado dos 12,8% para os 14,4% e que a única região em que o índice
tinha descido, fora a Região Autónoma da Madeira.
Mais grave
do que a notícia veiculada junto do povo português foi o facto dela se
fundamentar num relatório enviado e discutido numa Reunião Internacional
promovida pela UNESCO, em Dackar, sobre o tema alfabetização e educação base de
adultos.
O relatório
e a análise em questão baseou-se em pressupostos errados e padeceu do
sentimento miserabilista que é apanágio de muitos portugueses. É extremamente
depreciativo para uma Região e para uma Direcção Regional de Educação que, em
1995, foi precisamente, premiada pela UNESCO, devido ao trabalho, considerado
meritório, desenvolvido no âmbito da Alfabetização e da Educação Básica de
Jovens e Adultos.
Permitam-me
que demonstre a falácia de tal relatório e a manipulação de tais dados.
Olhemos
para o gráfico: (introduzir o gráfico). Nos resultados obtidos, desde 1989 e
até 1999, dados reais disponíveis, pode verificar-se que o Sector do Ensino
Recorrente da Direcção Regional de Educação do Centro alfabetizou 29.518
formandos.
Mas se
estes números são demonstrativos da redução do número de analfabetos outras variáveis
são igualmente importantes.
Como é
sabido, nestas questões de educação, o país está dividido em duas partes
distintas. Uma que diz respeito aos maiores de 55 anos e outra constituída
pelos que têm idade inferior àquela. É na faixa etária maior de 55 anos que se
situa a mais elevada taxa de analfabetismo como é fácil verificar pelos Censos
de 1991.
Ora se
considerarmos que segundo os dados do INE, a Região Centro tinha 213.676
indivíduos maiores de 10 anos que não sabiam ler nem escrever e que destes
181.956 tinham à data 55 anos ou mais. Se verificarmos que 62.596 tinham mais
de 75 anos, e que com mais de 70 anos totalizavam 93.212, fácil será concluir
que, considerando a esperança de vida dos portugueses, cerca de 100.000
indivíduos já morreram. Não me levem a mal a ironia, mas a morte dos idosos
também é um contributo significativo de combate ao analfabetismo logo, uma
variável importante a considerar.
Nesta
conformidade poder-se-á dizer, sem margem para dúvidas, que com estes números
dos Censos 1991, únicos oficiais no momento, a taxa de analfabetismo na Região
Centro se poderá situar nos 6,5% e que os 14,4% mencionados no relatório não
passam de um mau serviço prestado à Região e ao País e é fruto de pouco cuidado
e alguma incompetência que, infelizmente, grassa na Administração Pública
Portuguesa.
O mesmo se
poderia dizer dos cerca dos 40% de abandono escolar tão badalado e dos 80% de
iliteracia, também tão amplamente difundido pelos Media. Pessoalmente não acredito em valores que nos remetem para
níveis de desenvolvimento humano próximos do Terceiro Mundo quando, ao mesmo
tempo, somos posicionados, em anos seguidos, no 28º lugar pelo Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento, num universo de 173 países. Como são
possíveis tais disparidades entre os diversos estudos? Como é possível entender
estes valores quando existem 5 milhões de telemóveis - alta tecnologia que
requer competências para a sua utilização - e quando a maioria da população
lida com dinheiro de plástico, recorre a créditos bancários e outros níveis de
intervenção social demonstrativos da vida social dos nossos dias? Se calhar os
estudos baseiam-se em análises de textos herméticos ou cálculos meramente
académicos e sem ligação à vida. Mas passemos adiante.
Na nossa
Região, ao mesmo tempo que se desenvolvem acções de alfabetização com vista à
certificação desenvolvem-se, igualmente, outros cursos que designamos por socioeducativos
e socioprofissionais, que são actividades de curta duração, 3 a 5 meses, e
visam proporcionar às populações a actualização de conhecimentos, a iniciação a
diversas áreas profissionais, a preservação do património etnográfico,
cultural, a revitalização das tradições nos diversos domínios, desde a
gastronomia às artes tradicionais, passando até por escolas de música em Bandas
Filarmónicas que são os verdadeiros viveiros de músicos de cariz popular que
fazem com que se mantenham as actuais Bandas de Música. Estas acções são ainda,
muitas vezes, a motivação para muitos procurarem concluir a escolaridade básica
ou até prosseguirem estudos.
Outro
aspecto da nossa actividade é a relação de proximidade e articulação com
Associações, Autarquias e Empresas embora, neste último caso, não possamos
dizer que tenhamos tido muito sucesso. É que, na nossa Região, somente a
Renault, a Portucel e a Base Aérea de S. Jacinto procuraram estabelecer
protocolos com A DREC para elevar o nível educativo dos seus funcionários, com
vista a uma maior produtividade aliás, com o maior sucesso, como pode ser
testemunhado pelos próprios, mas também pela Dra Margarida Santiago, aqui
presente, que acompanhou de perto estas experiências. Mas, depois de um
trabalho aturado durante treze anos, as perspectivas de futuro não são, a nosso
ver, muito animadoras, senão vejamos:
Perspectivas de Futuro:
A criação
da ANEFA (Agência Nacional de Educação e Formação de Adultos) organismo
tutelado pelos Ministérios da Educação e do Trabalho e da Solidariedade vem, com
certeza, trazer profundas alterações a este estado de coisas.
A ANEFA tem
como princípios base a promoção da cidadania e a empregabilidade, princípios
que comungamos. No entanto temos alguns receios quanto ao seu êxito e, mais
preocupante ainda, estamos apreensivos quanto ao destino de um número
significativo de pessoas que, até aqui, têm sido a maioria do nosso público.
Até parece
paradoxal que, depois de tudo o que já dissemos, tenhamos algumas reservas
relativas a um Organismo com princípios tão filantrópicos. Mas é que estes
princípios, a nosso ver, apoiam-se em processos que, tudo aponta, vão no
sentido da empregabilidade e esqueçam o social, o convivial, a realização da
pessoa, independentemente de ser considerada ou não activa. Isto quer dizer que
o público prioritário da ANEFA são os desempregados inscritos nos Centros de
Emprego e Formação Profissional e não a totalidade da população carenciada.
E é aqui
que bate o ponto. E o que fazer com os idosos que para além de quererem
frequentar as actividades de Educação de Adultos, têm direito à formação ao
longo de toda a vida, mas também têm direito a conviver e a terem a
possibilidade de transmitir saberes que só a vida dá, que é apanágio da
educação de adultos que fazemos - todos aprendem com todos - a sorrir de
felicidade quando diz para o empregado bancário ou dos correios, “já não
preciso de molhar o dedo na almofada do carimbo para receber a pensão, já tenho
Bilhete de Identidade e sei assinar o meu nome”?
E que fazer
das mulheres que, sendo domésticas, não se enquadram no estereótipo utilizado
para ser considerado como fazendo parte da população activa e,
consequentemente, não estão inscritas nos Centros de Emprego?
Outra
preocupação assenta no facto de a ANEFA estar a contar com a sociedade civil
para desenvolver uma tarefa que alguns dizem que o Estado não é capaz de fazer.
Mas de que
sociedade civil estamos a falar? Duma sociedade civil sem hábitos de
associativismo e cooperativismo. Individualista e desorganizada ou doutra
sociedade onde estes hábitos estão enraizados há muitos e muitos anos?
Como é que
numa aldeia qualquer deste país, demograficamente envelhecida ou um bairro
periférico de um grande Centro Urbano, em que os locais de encontro são o café
ou a taberna, se vai organizar para promover cursos subsidiados,
principescamente?
Temos
receios fundados que aparecerão, a exemplo do que acontece noutros sectores da
vida nacional, os subsídio-dependentes semelhantes àqueles que semeiam girassol
e colhem Jeeps e que meia dúzia daqueles que já têm muito ficarão com muito
mais e aqueles que, até aqui, apenas tinham algum apoio da pobreza franciscana
da Direcção Regional, até esse pouco perderão por falta de capacidade na
elaboração de projectos que possam sujeitar a aprovação.
Poder-vos-ia
dizer que as minhas reservas vão mais contra à forma do que quanto ao conteúdo,
nomeadamente quanto à organização dos cursos agora gizados. Sinceramente tenho
medo que, depois de muitos milhões gastos, cheguemos à conclusão em 2006, que
afinal não melhorámos as nossas qualificações nem fomos capazes de diminuir o
fosso existente entre nós e a Europa relativamente ao índice de produtividade.
Outra
preocupação assenta no facto de poder haver em todo este processo alguma
perversão. Senão vejamos: um formando que vai receber uma bolsa de formação de
50.000$00 mensais, que pode ir até ao salário mínimo nacional 63.800$00,
acrescida do subsídio de refeição de 650$00 por dia, o que perfaz mais
13.000$00 mensais, 9.700$00 de transportes, caso seja necessário deslocar-se e
ainda 50% do salário mínimo nacional se tiver crianças ou idosos a seu cuidado e
que, por força de ingressar na formação, terá necessidade de abandonar.
Atente-se nos números e poderá concluir-se que há muita gente com emprego que
não tem salário tão elevado. Não se prestará este tipo de formação paga, deste
modo, a constituir uma desigualdade de oportunidades e mais um problema
relativamente à falta de mão-de-obra em certos meios populacionais?
Este modelo
futuro da Educação de Adultos, segundo julgo saber, bebeu muito das
experiências do Reino Unido, da Dinamarca ou da Suécia, países muito
desenvolvidos, como todos reconhecemos. Mas, apesar disso, não deixo de afirmar
que as minhas expectativas são bastante baixas, apesar de saber que nunca houve
um esforço financeiro, tão elevado por parte do Estado, como aquele que agora
se verifica, destinado a esta valência educativa.
Porque,
enquanto naqueles países a sociedade civil é actuante em muitas áreas sociais,
basta atentarmos na quantidade e variedade de ONG que existem. A sensibilidade
das empresas para proporcionarem formação contínua aos seus empregados é
elevada, veja-se o caso da Ferrari, da Mercedes e de muitas outras, no nosso
País nem uma coisa nem outra acontece, salvo raras e honrosas excepções.
Desta
forma, qualquer cópia que se faça daqueles países para aplicar no nosso, sem
atender à especificidade da nossa população é, a meu ver, correr riscos
desnecessários. Por isso entendo que é pena não termos a capacidade de
capitalizar toda a experiência adquirida e não sermos capazes de regenerar
procedimentos eliminatórios de deficiências funcionais. Por isso lastimo o
abandono dum processo que, embora com falhas deu provas de alguma eficácia e
embarquemos numa aventura que não sabemos onde vai parar. Tenho receio de
cairmos naquilo que eu designo por “Síndrome do Hotel Turismo de Castelo
Branco” (Os albicastrenses conhecem o que aconteceu. Aos outros basta dizer que
o edifício foi demolido após o 25 de Abril de 1974, por não ser considerado
digno da capital do distrito para ser construído um outro que obedecesse a tais
requisitos. Até hoje, passados 25 anos nada foi construído e, no local, existe
um parque de estacionamento manhoso emparedado por alguns taipais). Tenho medo
que o não aproveitamento da estrutura que até aqui tem feito Educação de
Adultos, principalmente na Região Centro, venha a conduzir a uma situação
reflexo da caricatura referida.
Termino
agradecendo a vossa atenção e pedindo desculpa se me alonguei e gorei as
expectativas que criaram à volta do tema desta nossa conversa. Fico ao dispor para
responder a eventuais questões se estiverem ao meu alcance.
Bem-Haja a
todos.
Coimbra, 6
de Julho de 2000
José Rainho
Caldeira