A História primeiro, a Antropologia
e a Sociologia depois, vieram demonstrar que viver em comunidade é obedecer a
regras, seguir a Norma. Aliás, Norma, Desvio ou Entropia são palavras que
entraram no Léxico científico e popular, consoante a afirmação e aceitação
destas duas últimas disciplinas, na Ciência. Desta forma, todos aqueles que
seguem a regra, ou seja, todos aqueles que vão na onda dos outros, no que é
vulgar, no que geralmente fazem os vizinhos, os amigos, os do mesmo clube ou partido
político são considerados como seguidores da Norma e são aceites pela
comunidade, mesmo que sejam dela totalmente desconhecidos ou ignorados. Já os
que se enquadram dentro dos parâmetros do Desvio, ou seja, aqueles cuja forma
de vida se afasta da Norma, que têm uma conduta com deslizes, erros ou falhas –
na óptica desta - quanto ao vestuário, à
cor do cabelo, ao tipo de sapato ou, mais grave, se tiver a ver com a Lei, a
Moral, a Doutrina, com muita bondade, são apelidados de Desviantes e, os mais
cruéis, não deixarão de os considerar marginais, criminosos ou outros mimos de
igual ou pior teor. É, assim evidente, que para a Norma rígida, não há
Entropia. Porque se existisse e o seu sistema termodinâmico considerado como
motor da evolução de toda e qualquer sociedade, certamente todos deixaríamos
cair alguma Norma sem que isso afectasse o funcionamento harmonioso desta. Sem
que isso constituísse o constante lamento de que “a tradição já não é o que
era”.
Atrevo-me a pedir aos leitores que
façam um exercício intelectual simples. Ora vejamos: a Norma traz os
portugueses, principalmente os dos grandes Centros Urbanos como Lisboa, num dia
a dia frenético, tristes como o Fado. Carpindo as dores da crise, do medo, da
guerra, de se considerarem ou serem considerados Europeus de 2ª, 3ª, ou quem
sabe, de 25ª. Queixam-se sistematicamente de que a Educação vai mal, a Saúde
está péssima, a Segurança é coisa que não há, os Impostos são cada vez mais
pesados e só são pagos pelos pequenos, da vida que está pela hora da morte,
enquanto os do Futebol e da Política vão vivendo à “tripa forra”, com
jantaradas para aqui, viagens para ali, etc. Mas eis que surge o fim-de-semana
– agora já nem é preciso ser prolongado - com um pingo de Sol e uma aragem suportável e
lá vão todos com os carros atulhados de traquitanas para os miúdos e as BTT
para os adultos, para tentarem, quase sempre em vão, perder uns quilitos e uns
centímetros nos abdominais, a caminho do Algarve que fica ali a dois passos, ou
para o Norte atulhando as Auto-estradas ou os Ipês, com horas de espera, de
desespero e alguns mortos ou estropiados pelo meio para, depois de duas noites
mal dormidas, voltarem ao ritmo de Segunda-feira, às lamentações, às caras
carrancudas, enfim, ao costume e à portuguesa.
É para estes o meu desafio. Deixem
de ser normativos e passem a ser desviantes. Deixem de cavalgar a onda e remem
contra a maré. Anseiem pelo fim-de-semana mas aproveitem-no, efectivamente.
Peguem no carrito ou na “Bomba”, de por os olhos em bico, ou no Jipaço que obriga
a comer sanduiches no Snak da esquina, para se poder cumprir com a prestação
que custa os olhos da cara, mas não tragam grandes traquitanas. Não venham
pelas A1, A2, A23 ou A qualquer coisa. Aproveitem as estradas secundárias que
tendo, embora, umas curvitas a mais e um piso nem sempre no melhor estado, nos
permite ver, aqui e ali, uns ninhos de cegonha, um rebanho de ovelhas, uma
manada de vacas e, com a calma e a paciência que só os pais, quando estão bem
dispostos, sabem ter, vão explicando aos filhos que o leite, o queijo e a carne
que diariamente se consomem lá em casa, não vêm do supermercado mas sim
daqueles animaizinhos. Dizer-lhes que o tempo está tão mudado que as cegonhas
já não têm necessidade emigrar para os países mais quentes do Norte de África,
durante o Inverno. Que o Clima está mais ameno o que não quer dizer que seja
necessariamente uma boa coisa. Se aproveitarem a embalagem e falarem da
poluição generalizada que se vê a cada pé de passada e que é produto da
vivência normativa do Homem e que as consequências desta vida desregrada são um
enigma, tanto melhor.
Pare-se em
Castelo Branco, porque o corpo não é de ferro e a viagem muito comprida também
cansa. Dê-se uma vista de olhos pela Praça Velha. Até lá se pode Jantar, se os
cartões de crédito ou de débito tal comportarem. Passe-se uma noite num dos
magníficos hotéis ou, mais uma vez, conforme o peso da carteira, pode ser em
qualquer residencial simpática, o que não é mau de todo e tem a vantagem de um
atendimento que não é só personalizado mas é mais do que isso, chega a ser
carinhoso.
No dia seguinte, porque “deitar cedo
e cedo erguer, dá saúde e faz crescer” há que levantar logo pela manhã e dar
uma vista de olhos ao Jardim do Paço, ao Museu Tavares Proença e sentir a
beleza da cor e do entrelaçado do bordado de Castelo Branco. Siga-se em
direcção à Espanha – não nos esquecemos que já nos encontramos na raia – e
dê-se um salto a Belgais, quer haja ou não concertos e verifique-se como alguém
que, se seguisse a Norma, poderia ser idolatrada nos palcos mais sofisticados
do Mundo - falamos da grande Maria João Pires, obviamente - mas que optou por
ser desviante e ali faz e desenvolve Cultura da melhor. Já agora e porque o
tempo não é elástico não nos demoremos e sigamos para Idanha-a-Velha, para a
Bemposta, para Monsanto e Penha Garcia dirigindo-nos depois para Penamacor
passando pela Aldeia de João Pires. Paremos aqui e visitemos o Museu que, sendo
multidisciplinar é, mais acentuadamente, de arte sacra. Em Penamacor não
podemos deixar de visitar as capelas de Santo António, da Misericórdia, a
Igreja Matriz, a Dómus Municipalis,
com o seu pelourinho no meio da Praça, bem como a Torre de Menagem.
Aproveite-se aqui, mais uma vez para
dizer às crianças e aos adolescentes como se povoavam, nos primórdios da
nacionalidade, os locais que serviam de fortaleza e de defesa e que impediram
ao longo dos séculos, de uma ou de outra forma, que os castelhanos empurrassem
os Lisboetas para o mar.
Passe-se pela Meimoa em direcção a
Norte para se ver a ponte romano-filipina do antigamente, conjugada com a
beleza natural da zona de lazer de construção recente e, se possível, uma vista
de olhos ao Museu temático, Dr. Mário Pires Bento.
Siga-se para o Sabugal passando pelo
“fundo do alguidar” como é, carinhosamente, designado o Meimão, depois de
observar a paisagem deslumbrante da barragem da Meimoa com a Cova da beira a
seus pés. Antes de prosseguir não se esqueçam de virar à direita em direcção à
serra e visitar a Machoca e a Quinta do Major, em plena Reserva Natural da
Serra da Malcata.
Se houver tempo, também não fica mal
uma saltada a Sortelha para admirar o património arquitectónico e cultural e já
agora para dormir na belíssima pousada aí existente. Na manhã seguinte volte-se
ao Sabugal para visitar o “Castelo de cinco quinas que só há um em Portugal e
fica à beira do Côa na Vila do Sabugal”, segundo a sabedoria popular.
Se ainda for possível e o cansaço não for muito dê-se um
salto a Almeida, Castelo Rodrigo, Castelo Mendo e Pinhel, regressando pela Guarda,
não só para visitar a Sé mas para ver muitos outros monumentos e regalar os
olhos com visões que entram dentro da alma e torna o coração mais sensível,
mais mole, mais humano porque as lembranças dos nossos maiores nos fazem
escorrer pelas faces gélidas, umas lágrimas de alegria e gratidão por termos
nascido portugueses. Não se nos leve a mal não referir outras terras e outras
belezas que ficaram omissas. Não se trata de desmerecimento apenas de falta de
espaço e de tempo. Fica para a próxima vez, se a houver.
Regressemos a casa, se calhar seguindo a Norma, porque o
tempo não se compadece e vamos pelos Ipês e pelas A1 ou outra A qualquer, mas
não nos esqueçamos de ir dizendo aos filhos, ou outros familiares que connosco
passaram estes dias maravilhosos que é melhor conhecer os sacrifícios, os
trabalhos, as muralhas que separaram, mas também resguardaram os bens naturais e
também os nossos Heróis anónimos ou ilustres. Conhecê-los, entendê-los, se for
possível amá-los, porque essa pode ser uma forma de dar uma mãozinha àqueles
que, por solicitações várias, se podem confrontar com a tentação do Desvio que,
sem o quererem, nem se aperceberem, podem estar a ser conduzidos a outro tipo
de conhecimento, desprovido de horizontes e de paisagens, mas que levam, geralmente
ao sofrimento e à dor, associados em regra, aos horrores da heroína.
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