Friday, July 24, 2020

Heróis e heroína




            A História primeiro, a Antropologia e a Sociologia depois, vieram demonstrar que viver em comunidade é obedecer a regras, seguir a Norma. Aliás, Norma, Desvio ou Entropia são palavras que entraram no Léxico científico e popular, consoante a afirmação e aceitação destas duas últimas disciplinas, na Ciência. Desta forma, todos aqueles que seguem a regra, ou seja, todos aqueles que vão na onda dos outros, no que é vulgar, no que geralmente fazem os vizinhos, os amigos, os do mesmo clube ou partido político são considerados como seguidores da Norma e são aceites pela comunidade, mesmo que sejam dela totalmente desconhecidos ou ignorados. Já os que se enquadram dentro dos parâmetros do Desvio, ou seja, aqueles cuja forma de vida se afasta da Norma, que têm uma conduta com deslizes, erros ou falhas – na óptica desta -  quanto ao vestuário, à cor do cabelo, ao tipo de sapato ou, mais grave, se tiver a ver com a Lei, a Moral, a Doutrina, com muita bondade, são apelidados de Desviantes e, os mais cruéis, não deixarão de os considerar marginais, criminosos ou outros mimos de igual ou pior teor. É, assim evidente, que para a Norma rígida, não há Entropia. Porque se existisse e o seu sistema termodinâmico considerado como motor da evolução de toda e qualquer sociedade, certamente todos deixaríamos cair alguma Norma sem que isso afectasse o funcionamento harmonioso desta. Sem que isso constituísse o constante lamento de que “a tradição já não é o que era”.
            Atrevo-me a pedir aos leitores que façam um exercício intelectual simples. Ora vejamos: a Norma traz os portugueses, principalmente os dos grandes Centros Urbanos como Lisboa, num dia a dia frenético, tristes como o Fado. Carpindo as dores da crise, do medo, da guerra, de se considerarem ou serem considerados Europeus de 2ª, 3ª, ou quem sabe, de 25ª. Queixam-se sistematicamente de que a Educação vai mal, a Saúde está péssima, a Segurança é coisa que não há, os Impostos são cada vez mais pesados e só são pagos pelos pequenos, da vida que está pela hora da morte, enquanto os do Futebol e da Política vão vivendo à “tripa forra”, com jantaradas para aqui, viagens para ali, etc. Mas eis que surge o fim-de-semana – agora já nem é preciso ser prolongado -  com um pingo de Sol e uma aragem suportável e lá vão todos com os carros atulhados de traquitanas para os miúdos e as BTT para os adultos, para tentarem, quase sempre em vão, perder uns quilitos e uns centímetros nos abdominais, a caminho do Algarve que fica ali a dois passos, ou para o Norte atulhando as Auto-estradas ou os Ipês, com horas de espera, de desespero e alguns mortos ou estropiados pelo meio para, depois de duas noites mal dormidas, voltarem ao ritmo de Segunda-feira, às lamentações, às caras carrancudas, enfim, ao costume e à portuguesa.
            É para estes o meu desafio. Deixem de ser normativos e passem a ser desviantes. Deixem de cavalgar a onda e remem contra a maré. Anseiem pelo fim-de-semana mas aproveitem-no, efectivamente. Peguem no carrito ou na “Bomba”, de por os olhos em bico, ou no Jipaço que obriga a comer sanduiches no Snak da esquina, para se poder cumprir com a prestação que custa os olhos da cara, mas não tragam grandes traquitanas. Não venham pelas A1, A2, A23 ou A qualquer coisa. Aproveitem as estradas secundárias que tendo, embora, umas curvitas a mais e um piso nem sempre no melhor estado, nos permite ver, aqui e ali, uns ninhos de cegonha, um rebanho de ovelhas, uma manada de vacas e, com a calma e a paciência que só os pais, quando estão bem dispostos, sabem ter, vão explicando aos filhos que o leite, o queijo e a carne que diariamente se consomem lá em casa, não vêm do supermercado mas sim daqueles animaizinhos. Dizer-lhes que o tempo está tão mudado que as cegonhas já não têm necessidade emigrar para os países mais quentes do Norte de África, durante o Inverno. Que o Clima está mais ameno o que não quer dizer que seja necessariamente uma boa coisa. Se aproveitarem a embalagem e falarem da poluição generalizada que se vê a cada pé de passada e que é produto da vivência normativa do Homem e que as consequências desta vida desregrada são um enigma, tanto melhor.
Pare-se em Castelo Branco, porque o corpo não é de ferro e a viagem muito comprida também cansa. Dê-se uma vista de olhos pela Praça Velha. Até lá se pode Jantar, se os cartões de crédito ou de débito tal comportarem. Passe-se uma noite num dos magníficos hotéis ou, mais uma vez, conforme o peso da carteira, pode ser em qualquer residencial simpática, o que não é mau de todo e tem a vantagem de um atendimento que não é só personalizado mas é mais do que isso, chega a ser carinhoso.
            No dia seguinte, porque “deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer” há que levantar logo pela manhã e dar uma vista de olhos ao Jardim do Paço, ao Museu Tavares Proença e sentir a beleza da cor e do entrelaçado do bordado de Castelo Branco. Siga-se em direcção à Espanha – não nos esquecemos que já nos encontramos na raia – e dê-se um salto a Belgais, quer haja ou não concertos e verifique-se como alguém que, se seguisse a Norma, poderia ser idolatrada nos palcos mais sofisticados do Mundo - falamos da grande Maria João Pires, obviamente - mas que optou por ser desviante e ali faz e desenvolve Cultura da melhor. Já agora e porque o tempo não é elástico não nos demoremos e sigamos para Idanha-a-Velha, para a Bemposta, para Monsanto e Penha Garcia dirigindo-nos depois para Penamacor passando pela Aldeia de João Pires. Paremos aqui e visitemos o Museu que, sendo multidisciplinar é, mais acentuadamente, de arte sacra. Em Penamacor não podemos deixar de visitar as capelas de Santo António, da Misericórdia, a Igreja Matriz, a Dómus Municipalis, com o seu pelourinho no meio da Praça, bem como a Torre de Menagem.
            Aproveite-se aqui, mais uma vez para dizer às crianças e aos adolescentes como se povoavam, nos primórdios da nacionalidade, os locais que serviam de fortaleza e de defesa e que impediram ao longo dos séculos, de uma ou de outra forma, que os castelhanos empurrassem os Lisboetas para o mar.
            Passe-se pela Meimoa em direcção a Norte para se ver a ponte romano-filipina do antigamente, conjugada com a beleza natural da zona de lazer de construção recente e, se possível, uma vista de olhos ao Museu temático, Dr. Mário Pires Bento.
            Siga-se para o Sabugal passando pelo “fundo do alguidar” como é, carinhosamente, designado o Meimão, depois de observar a paisagem deslumbrante da barragem da Meimoa com a Cova da beira a seus pés. Antes de prosseguir não se esqueçam de virar à direita em direcção à serra e visitar a Machoca e a Quinta do Major, em plena Reserva Natural da Serra da Malcata.
            Se houver tempo, também não fica mal uma saltada a Sortelha para admirar o património arquitectónico e cultural e já agora para dormir na belíssima pousada aí existente. Na manhã seguinte volte-se ao Sabugal para visitar o “Castelo de cinco quinas que só há um em Portugal e fica à beira do Côa na Vila do Sabugal”, segundo a sabedoria popular.
Se ainda for possível e o cansaço não for muito dê-se um salto a Almeida, Castelo Rodrigo, Castelo Mendo e Pinhel, regressando pela Guarda, não só para visitar a Sé mas para ver muitos outros monumentos e regalar os olhos com visões que entram dentro da alma e torna o coração mais sensível, mais mole, mais humano porque as lembranças dos nossos maiores nos fazem escorrer pelas faces gélidas, umas lágrimas de alegria e gratidão por termos nascido portugueses. Não se nos leve a mal não referir outras terras e outras belezas que ficaram omissas. Não se trata de desmerecimento apenas de falta de espaço e de tempo. Fica para a próxima vez, se a houver.
Regressemos a casa, se calhar seguindo a Norma, porque o tempo não se compadece e vamos pelos Ipês e pelas A1 ou outra A qualquer, mas não nos esqueçamos de ir dizendo aos filhos, ou outros familiares que connosco passaram estes dias maravilhosos que é melhor conhecer os sacrifícios, os trabalhos, as muralhas que separaram, mas também resguardaram os bens naturais e também os nossos Heróis anónimos ou ilustres. Conhecê-los, entendê-los, se for possível amá-los, porque essa pode ser uma forma de dar uma mãozinha àqueles que, por solicitações várias, se podem confrontar com a tentação do Desvio que, sem o quererem, nem se aperceberem, podem estar a ser conduzidos a outro tipo de conhecimento, desprovido de horizontes e de paisagens, mas que levam, geralmente ao sofrimento e à dor, associados em regra, aos horrores da heroína.


No comments: