Wednesday, July 22, 2020

Terra Madrasta


Sábado, 9 de Junho de 2007

Segundo o dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa o termo linguístico "madrasta" (vem do latim vulgar "matrastra" com base em mater, mãe). Significa, neste contexto, que é fonte de dissabores e tristezas. Que é igual a cruel, difícil, ingrato. É a segunda mulher do pai em relação aos filhos de uma relação matrimonial anterior. Mas também pode ser considerada madrasta, uma mãe pouco carinhosa; mulher que maltrata os filhos. Poderíamos continuar com explicações deste dicionário e encontraríamos mais adjectivos qualificativos pouco abonatórios para o título.

De facto, não sendo sempre assim, as madrastas tiverem e têm, perante a opinião pública, um sentido um tanto pejorativo que, não sendo generalizado, nem por isso deixa de ser bastante comum. Nesta época que todos os dias somos bombardeados com notícias de maus tratos a crianças, roubos e sequestros, violações e abusos sexuais, ou de outrem ordem de violência, não nos deixa de percorrer a espinha, um friozinho arrepiante perante o vocábulo e o que ele pode comportar, de facto.

Não sendo tão restritivo na análise vocabular poderemos alargar o conceito para outros domínios que vão para além das madrastas, propriamente ditas, o que já não seria nada abonatório, e se podem estender a localidades, cidades, vilas, freguesias, países, continentes e por aí a fora.

Se nos lembrarmos de África, América Latina, alguns países da Ásia e, porque não de Portugal, não, nos apetecerá falar de terras madrastas, principalmente para os seus naturais e/ou residentes? Os mais capazes, os mais empreendores, os com maiores conhecimentos científicos, os mais trabalhadores, os mais honestos, os mais honrados?
Certamente que não deixarão de nos ocorrer muitas situações, muitos casos de gente que nós conhecemos e, facilmente, poderemos concluir que para os detentores de maiores competências a terra é madrasta. Ao contrário, para os mais preguiçosos, mais inaptos, mais incapazes, menos escrupulosos, mais oportunistas, mais agiotas e prolíferos em outros mimos de igual teor, a terra é mãe amantíssima e por isso, os primeiros têm de emigrar para locais onde as suas qualidades são apreciadas, enquanto os segundos, proliferam como cogumelos em quantidade e em requinte de malvadez.

Ninguém escolhe a Terra para nascer, como não se escolhe a família, mas já  se pode escolher a terra para viver e também  se podem escolher as pessoas com quem queremos viver e conviver. Estes são os amigos que normalmente habitam o nosso imaginário quotidiano e que, de quando em vez, tornamos a imaginação em realidade, em encontros mais ou menos breves, mas sempre cheios de uma enorme alegria. Quanto à terra para viver, ainda que se possa escolher, como já se afirmou, às vezes há vicissitudes que nos impedem de nela permanecer pela vida inteira o que, ainda que não obrigatoriamente, por vezes nos faz regressar às origens e assistir a enorme decepções. Com as pessoas, com a Terra, mas principalmente com a irritante incompetência associada a uma enorme ignorância e arrogância, com ramalhetes de vaidade insuportável, porque  não há nada de mais chocante do que o atrevimento inculto e inapto.

Eu conto-vos algumas histórias que talvez demonstrem, ainda que por defeito, situações demonstrativas de uma terra madrasta.

Era uma vez - é bom começar as histórias assim - uma família que por se ver, apesar do seu enorme esforço e trabalho, altamente árduo, com a sua vida cada vez mais difícil de suportar. Sabia do seu valor e das suas capacidades mas, porque era honrada, o seu trabalho dava para pouco mais do que sobreviver.

Esta descrição de uma família anónima pode ser multiplicada por dez, por cem ou até por mil algumas vezes porque isso aconteceu com milhares de famílias que, por terem capacidades de trabalho e espírito de iniciativa, arriscaram tudo. Arriscaram, na maioria das situações o seu maior bem, que é a vida, já que outras coisas materiais pouco ou nada tinham para arriscar.

Os que ficaram, ou tinham algo de seu, que dando para sobreviver era, sempre muito pouco, ficaram e passaram igualmente um mau bocado, já que a mão de obra até aí, quase de borla, escasseou e os seus rendimentos diminuíram na proporção inversa ao número de emigrantes. Ou seja quantos mais emigrantes mais magros se tornaram os seus rendimentos.

No passado dia 17 de Junho voltámos a encontrarmo-nos os que passaram pelo Batalhão de Transmissões 361 de Angola, em Luanda. Foi gratificante ver tantos conhecidos e alguns amigos do peito. Neste lote de heróis, que à Pátria deram tudo, encontram-se muitos daqueles para quem a sua terra natal, mas principalmente, o seu País foi sempre uma terra madrasta.
O encontro realizou-se no Porto na actual Escola Prática de Transmissões, quartel que já foi Regimento de Infantaria. Tivemos direito a parada militar e respectivas honras. Do Programa constava, para além do convívio, como é óbvio, Missa, visita ao Museu das Transmissões e Almoço. Foi um dia em Cheio onde as nossas esposas nos viram, em fotografia, com farda militar. Tanto o actual Comandante da Escola, que é um Coronel como os tenentes Generais dos quais destaco o Tenente Geral Viana, que foi meu comandante de Companhia quando eu era furriel miliciano, tiveram ocasião de enaltecer as nossas qualidades, não deixando de dizer que só um Batalhão de Excelência poderia dar origem a um encontro com mais de 300 participantes. E repetiram que um Batalhão de Excelência se faz e fez com homens de Excelência, que esta representatividade testemunhava.
Fez-se a alusão aos que já partiram para o Pai do Céu dizendo, do coração, a cada nomeação, "PRESENTE". O último nomeado, porque foi o último que faleceu, foi o meu queridíssimo amigo Joaquim Gomes que nos deixou em Novembro passado. Foi um momento de arrepio mas ao mesmo tempo de orgulho de termos privado com homens com agá grande. Amigos inolvidáveis. Seres humanos de excelência.

Mas deixemo-nos de lamechices e vamos à "estória" que nos apetece contar. "Estória" que pode ser História, porque ainda que algo ficcionada e romanceada, não deixa de estar enraizada em factos reais e verídicos.

Como se dizia atrás daremos início à nossa história que começou pelos idos anos de 1895. Vamos começar pela personagem que deu início a esta história de amor, de aventura, de desilusão, de momentos férteis e diversificados, daqueles que fazem parte da vida de um qualquer homem ou mulher comuns, e inclui os respectivos descendentes.

Temos, por força da História que o País vivia, de nos referir à crise da monarquia e ao dealbar da Iª República. Ainda que o espaço em que a nossa história se desenrola não se situasse numa cidade grande, nem pouco mais ou menos, situando-se sim, num meio rural aprazível e produtivo, as turbulências da Corte e a organização do Partido Republicano e as interferências da Carbonária, não deixavam de chegar a estas paragens remotas pelas mais diversas vias. Umas vezes era nos mercados onde os vendedores de "folhetos" com canções e os mercadores que andavam de terra em terra, lá iam contando o que ouviam dizer. Outras eram os próprios almocreves que, no seu deambular por diferentes regiões, lá diziam o que se contava noutros locais e regiões do País.

As pessoas, mais cultas ou, pelo menos, as mais interessadas na vida da Nação, com horizontes mais rasgados e que iam para além do horizonte que vislumbravam ao Pôr-do-Sol, discutiam entre si, nos locais de convívio habitual - a taberna para os homens e a fonte para as mulheres - ou o forno comunitário para os dois sexos, em dias de rigoroso inverno e, como cada cabeça sua sentença, iam tomando posições a favor ou contra as duas correntes políticas em confronto. A Monarquia ou a República. Havendo de tudo, como é comum no ser humano, a maioria inclinava-se para a Monarquia até porque a influência do Pároco e do Professor se fazia sentir e o medo do Inferno ou das Represálias dos Governantes, condicionavam a escolha.

Foi neste contexto que esta história se iniciou, se desenvolveu, cresceu mutável e chegou aos nossos dias.

O António, proprietário rico em terras e de coração, já maduro e pouco dado a aventuras amorosas, procurava viver a sua vida com os amigos da terra e de outras aldeias vizinhas, divertindo-se com jogos tradicionais, quase sempre ligados à força de braço, qual cavaleiro da Corte, que pelejava por prazer, arriscando a vida, se necessário fosse, para ser admirado e respeitados pelos seus pares. Era o tiro de Barra - que na circunstância constituía em lançar um ferro de arrancar pedra com algumas dezenas de quilos - lançado à distância, qual dardo olímpico dos dias de hoje. Outras vezes era o carregar com enormes pedras às costas durante alguns metros ou mesmo levantar o pedregulho que, normalmente servia de assento às mulheres quando fiavam o linho, umas vezes com as mãos e até com os dentes. Como era expectável, o nosso António levava a palma aos concorrentes. O Poder que o dinheiro, escasso - diria mesmo quase inexistente - lhe dava, sua energia e fortaleza e, principalmente o seu coração bondoso, principalmente para com aqueles que eram mais desfavorecidos, granjearam-lhe a simpatia, a admiração e mesmo a amizade da esmagadora maioria dos seus conterrâneos. A sua opinião era, obviamente, ouvida e respeitada. Era Republicano ao contrário da maioria, porque estava desiludido com um Rei que ele sabia ser um esbanjador e mesmo um boémio, falamos de D. Carlos, como é bom de ver.

Mas um dia, talvez cansado da sua vida de trabalho e pensando que o que amealhara iria parar a mãos de familiares mais distantes, enamorou-se uma viúva, bonita, vaidosa e cheia de charme para a época. Uma senhora que sabia estar. Sabia comportar-se. Tal viúva a senhora Francisca ainda que remediada, atravessava algumas dificuldades económicas para sustentar os seus dois filhos adolescentes.

Deste enlace nasce o Romeu nos anos idos de 1900, criança viva, inteligente e que tudo o que ouvia retinha na sua memória. Daí não ser difícil entrar em conversas ao serão, no seio familiar, que deixavam embasbacados a mãe e os meios-irmãos, que jamais lhes passaria pela cabeça tanto e tal saber, tanto e tal conhecimento para um criança com pouco mais de quatro anos. Já o pai não se admirava nada e até achava que isso se devia a ser seu filho único e, como tal herdara dele, o melhor que possuía. Essa criança, com tanto talento, não poderia ficar como os irmãos, analfabetos literais e pouco dados à amizade, ao desprendimento, bem como à justeza de uma vivência social séria e conceituada. O Nosso António, porque amava muito a sua esposa, não repreendia os seus enteados quando das suas diabruras, mas não concordava com elas e por isso queria que o seu filho tivesse outro tipo de conhecimentos e de postura social que fosse o seu orgulho e a admiração dos seus amigos e conterrâneos. Aos oito anos lá vai o Romeu para o professor, homem pouco habilitado e que sobrevivia com o pagamento de cada aluno que tinha, dando aulas num pardieiro a que se chamava escola. O Sr Silvestre, era assim que se chamava o professor, cada dia que passava ficava mais estupefacto com a inteligência, vivacidade e raciocínio do seu novo pupilo. Rapidamente aprendeu os rudimentos da leitura, da escrita e do cálculo o que facilitou  a aprendizagem de coisas que iam para além do comum. O Romeuzinho era useiro e vezeiro no devorar dos poucos livros que o professor possuía, lendo-os sempre com avidez e várias vezes, ao ponto de quase os saber inteiramente de cor. Esta vontade de aprender era um orgulho para o professor que, no intimo lamentava não saber mais, para mais transmitir àquele pimpolho interessado, amigo, cordial e com sentido de justiça, pouco comum na época.

Pouco tempo durara a felicidade daquela criança que se viu, de repente, privado de uma das pessoas a quem mais queria, o seu pai. Este falecera repentinamente e deixara órfão aquele menino-prodígio que se via assim sem arrimo e sem guarida, ainda que fosse abastado em bens materiais. A mãe, coitada, desgostosa com nova perda do marido recente, sobrevivia dedicada aos filhos, agora com abundância de meios já que fora constituída fiel depositária dos bens do seu filho mais novo, que eram substanciais, poderíamos afirmar mesmo que atingiam o grau de riqueza à época, enquanto este não atingisse a maioridade que, como é sabido, só era atingida aos 21 anos ou por força de emancipação, normalmente associada ao casamento. O Romeu, criança que era, procurava alhear-se do desgosto embrenhando-se no estudo, nas leituras de tudo o que lhe aparecia pela frente e, como é próprio da idade, nas brincadeiras com seus companheiros, muitos deles só ao Domingo porque, por serem menos afortunados, tinham que participar na vida do dia a dia duro de seus pais e irmãos e contribuir com o seu trabalho para que houvesse mais uma fatia de pão na mesa.
Feita a quarta classe, como então era designado o 1º ciclo do ensino básico, o entusiasmo do professor alicerçado no conhecimento dos bens económicos de que o Romeu era detentor, pressionou a D. Francisca, sua mãe, a mandá-lo para a Cidade Capital de Distrito para que este pudesse frequentar o Liceu.

A contra-gosto porque lhe custava separar-se do seu menino e, cumulativamente muito pressionada pelos dois filhos do primeiro marido, mais velhos e já rapazes, quase homens feitos, tornava-se renitente à ambição do menino e ao desejo do professor. Porém, as súplicas do primeiro e a insistência do segundo levaram a melhor e lá conseguiram que o Romeu fosse matriculado no Liceu Nuno Álvares de Castelo Branco no primeiro ano. A satisfação da criança era indescritível por ali poder dar azo ao seu sonho de saber sempre e cada vez mais.

Desde logo começara por fazer amigos dos quais se destacava uma menina de doze anos natural da Vila, sede do concelho, que viria a ser Professora Primária de seu nome Ascensão.

Era uma amizade pura que se consolidava com a partilha de mimos que, de quando em quando, chegavam de casa de cada um. Era a chouricita ou o bocado de presunto, coisas que na altura se destinavam a alimentar os trabalhadores em épocas de grande azáfama como eram a colheita e a debulha dos cereais ou a sementeira dos mesmos. E, nessa altura, eram ranchos de homens que arado, grade, foice ou mangual em punho, lá iam para os campos ou eiras para que as tulhas se enchessem e permitissem pão com abundância para todo o ano.

É bom de ver que aos meios-irmãos do Romeu esta situação não agradava por motivos vários. O primeiro assentava na inveja - sentimento mesquinho que se incrusta no sentimento de pessoas pouco livres de consciência e menos ainda de coração - e essa inveja infernizava a vida da já idosa senhora D. Francisca que a toda a hora era massacrada com o ressabiamento dos filhos mais velhos sempre com a velha máxima de que "nós andamos aqui a trabalhar e a comer farinheira enquanto ele - ele era o irmão mais pequenito - anda lá pela cidade sem fazer nada e a comer a melhor chouriça.

O Romeu, coitado sem nada perceber ou entender sobre as razões desta inveja, lá levava a sua vida de estudante aplicado quando chegou a notícia de que o seu amigo e protector, o seu professor da instrução primária deixara esta vida passando para a outra mais transcendente mas menos prática na intercessão directa junto das pessoas. Choroso, como é óbvio, porque além da admiração, nutria pelo seu mestre um carinho muito especial, que fora acentuado com a perda prematura do pai, contara à sua amiga esta provação. Mas crianças que eram, o sofrimento era directamente proporcional à idade, e com a força que vinha também se esvaía.

Porém o pior estava para acontecer. Pelo Natal, nas férias, o Romeu veio cheio de saudades à sua aldeia ver a mãe e os irmãos que adorava, apesar da pouca correspondência por parte destes, com a ideia de que passados os pouco mais de quinze dias voltaria ao contacto com os seus livros, seus companheiros e mestres, na expectativa de um dia vir a ser um Advogado de causas nobres e rectas. Tal não pode acontecer porque a mãe debilitada na sua saúde e apesar do seu sentimento de que o filho mais novo só estava a gastar parte da sua herança e não prejudicar em nada os seus meios-irmãos não teve pulso nem força para arrostar com as críticas e a dureza das palavras dos filhos mais velhos, sendo levada a convencer o seu Romeuzinho de desistir de estudar. Até porque, na opinião da maioria das pessoas da localidade, analfabetas puras, achavam que estudar era perda de tempo e gasto de dinheiro. Estes também eram os argumentos dos seus filhos mais velhos e a velhinha, sem forças para lutar contra tudo e contra todos lá convenceu o seu menino a não ir mais para Castelo Branco e assim se finou um projecto de vida que, eventualmente, poderia ser brilhante e muito útil à freguesia e sua população.

(É para continuar)

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