Sábado, 9 de Junho de 2007
Segundo o dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da
Academia de Ciências de Lisboa o termo linguístico "madrasta" (vem do
latim vulgar "matrastra"
com base em mater,
mãe). Significa, neste contexto, que é fonte de dissabores e tristezas. Que é
igual a cruel, difícil, ingrato. É a segunda mulher do pai em relação aos
filhos de uma relação matrimonial anterior. Mas também pode ser considerada
madrasta, uma mãe pouco carinhosa; mulher que maltrata os filhos. Poderíamos
continuar com explicações deste dicionário e encontraríamos mais adjectivos
qualificativos pouco abonatórios para o título.
De facto, não sendo sempre assim, as madrastas tiverem e têm,
perante a opinião pública, um sentido um tanto pejorativo que, não sendo
generalizado, nem por isso deixa de ser bastante comum. Nesta época que todos
os dias somos bombardeados com notícias de maus tratos a crianças, roubos e
sequestros, violações e abusos sexuais, ou de outrem ordem de violência, não
nos deixa de percorrer a espinha, um friozinho arrepiante perante o vocábulo e
o que ele pode comportar, de facto.
Não sendo tão restritivo na análise vocabular poderemos alargar
o conceito para outros domínios que vão para além das madrastas, propriamente
ditas, o que já não seria nada abonatório, e se podem estender a localidades,
cidades, vilas, freguesias, países, continentes e por aí a fora.
Se nos lembrarmos de África, América Latina, alguns países da
Ásia e, porque não de Portugal, não, nos apetecerá falar de terras madrastas,
principalmente para os seus naturais e/ou residentes? Os mais capazes, os mais
empreendores, os com maiores conhecimentos científicos, os mais trabalhadores,
os mais honestos, os mais honrados?
Certamente que não deixarão de nos ocorrer muitas situações,
muitos casos de gente que nós conhecemos e, facilmente, poderemos concluir que
para os detentores de maiores competências a terra é madrasta. Ao contrário,
para os mais preguiçosos, mais inaptos, mais incapazes, menos escrupulosos,
mais oportunistas, mais agiotas e prolíferos em outros mimos de igual teor, a
terra é mãe amantíssima e por isso, os primeiros têm de emigrar para locais
onde as suas qualidades são apreciadas, enquanto os segundos, proliferam como
cogumelos em quantidade e em requinte de malvadez.
Ninguém escolhe a Terra para nascer, como não se escolhe a
família, mas já se pode escolher a terra para viver e também se
podem escolher as pessoas com quem queremos viver e conviver. Estes são os
amigos que normalmente habitam o nosso imaginário quotidiano e que, de quando
em vez, tornamos a imaginação em realidade, em encontros mais ou menos breves,
mas sempre cheios de uma enorme alegria. Quanto à terra para viver, ainda que
se possa escolher, como já se afirmou, às vezes há vicissitudes que nos impedem
de nela permanecer pela vida inteira o que, ainda que não obrigatoriamente, por
vezes nos faz regressar às origens e assistir a enorme decepções. Com as
pessoas, com a Terra, mas principalmente com a irritante incompetência associada
a uma enorme ignorância e arrogância, com ramalhetes de vaidade insuportável,
porque não há nada de mais chocante do que o atrevimento inculto e
inapto.
Eu conto-vos algumas histórias que talvez demonstrem, ainda que
por defeito, situações demonstrativas de uma terra madrasta.
Era uma vez - é bom começar as histórias assim - uma família que
por se ver, apesar do seu enorme esforço e trabalho, altamente árduo, com
a sua vida cada vez mais difícil de suportar. Sabia do seu valor e das suas
capacidades mas, porque era honrada, o seu trabalho dava para pouco mais do que
sobreviver.
Esta descrição de uma família anónima pode ser multiplicada por
dez, por cem ou até por mil algumas vezes porque isso aconteceu com milhares de
famílias que, por terem capacidades de trabalho e espírito de iniciativa,
arriscaram tudo. Arriscaram, na maioria das situações o seu maior bem, que é a
vida, já que outras coisas materiais pouco ou nada tinham para arriscar.
Os que ficaram, ou tinham algo de seu, que dando para sobreviver
era, sempre muito pouco, ficaram e passaram igualmente um mau bocado, já que a
mão de obra até aí, quase de borla, escasseou e os seus rendimentos diminuíram
na proporção inversa ao número de emigrantes. Ou seja quantos mais
emigrantes mais magros se tornaram os seus rendimentos.
No passado dia 17 de Junho voltámos a encontrarmo-nos os que
passaram pelo Batalhão de Transmissões 361 de Angola, em Luanda. Foi
gratificante ver tantos conhecidos e alguns amigos do peito. Neste lote de
heróis, que à Pátria deram tudo, encontram-se muitos daqueles para quem a sua
terra natal, mas principalmente, o seu País foi sempre uma terra madrasta.
O encontro realizou-se no Porto na actual Escola Prática de
Transmissões, quartel que já foi Regimento de Infantaria. Tivemos direito a
parada militar e respectivas honras. Do Programa constava, para além do
convívio, como é óbvio, Missa, visita ao Museu das Transmissões e Almoço. Foi
um dia em Cheio onde as nossas esposas nos viram, em fotografia, com farda
militar. Tanto o actual Comandante da Escola, que é um Coronel como os tenentes
Generais dos quais destaco o Tenente Geral Viana, que foi meu comandante de
Companhia quando eu era furriel miliciano, tiveram ocasião de enaltecer as
nossas qualidades, não deixando de dizer que só um Batalhão de Excelência
poderia dar origem a um encontro com mais de 300 participantes. E repetiram que
um Batalhão de Excelência se faz e fez com homens de Excelência, que esta
representatividade testemunhava.
Fez-se a alusão aos que já partiram para o Pai do Céu dizendo,
do coração, a cada nomeação, "PRESENTE". O último nomeado, porque foi
o último que faleceu, foi o meu queridíssimo amigo Joaquim Gomes que nos
deixou em Novembro passado. Foi um momento de arrepio mas ao mesmo tempo de
orgulho de termos privado com homens com agá grande. Amigos inolvidáveis. Seres
humanos de excelência.
Mas deixemo-nos de lamechices e vamos à "estória" que
nos apetece contar. "Estória" que pode ser História, porque ainda que
algo ficcionada e romanceada, não deixa de estar enraizada em factos reais e
verídicos.
Como se dizia atrás daremos início à nossa história que começou
pelos idos anos de 1895. Vamos começar pela personagem que deu início a esta
história de amor, de aventura, de desilusão, de momentos férteis e
diversificados, daqueles que fazem parte da vida de um qualquer homem ou
mulher comuns, e inclui os respectivos descendentes.
Temos, por força da História que o País vivia, de nos referir à
crise da monarquia e ao dealbar da Iª República. Ainda que o espaço em que a
nossa história se desenrola não se situasse numa cidade grande, nem pouco mais
ou menos, situando-se sim, num meio rural aprazível e produtivo, as
turbulências da Corte e a organização do Partido Republicano e as
interferências da Carbonária, não deixavam de chegar a estas paragens remotas
pelas mais diversas vias. Umas vezes era nos mercados onde os vendedores de
"folhetos" com canções e os mercadores que andavam de terra em terra,
lá iam contando o que ouviam dizer. Outras eram os próprios almocreves que, no
seu deambular por diferentes regiões, lá diziam o que se contava noutros locais
e regiões do País.
As pessoas, mais cultas ou, pelo menos, as mais interessadas na
vida da Nação, com horizontes mais rasgados e que iam para além do horizonte
que vislumbravam ao Pôr-do-Sol, discutiam entre si, nos locais de convívio
habitual - a taberna para os homens e a fonte para as mulheres - ou o forno
comunitário para os dois sexos, em dias de rigoroso inverno e, como cada cabeça
sua sentença, iam tomando posições a favor ou contra as duas correntes
políticas em
confronto. A Monarquia ou a República. Havendo de tudo, como
é comum no ser humano, a maioria inclinava-se para a Monarquia até porque a
influência do Pároco e do Professor se fazia sentir e o medo do Inferno ou das
Represálias dos Governantes, condicionavam a escolha.
Foi neste contexto que esta história se iniciou, se desenvolveu,
cresceu mutável e chegou aos nossos dias.
O António, proprietário rico em terras e de coração, já maduro e
pouco dado a aventuras amorosas, procurava viver a sua vida com os amigos da
terra e de outras aldeias vizinhas, divertindo-se com jogos tradicionais, quase
sempre ligados à força de braço, qual cavaleiro da Corte, que pelejava por
prazer, arriscando a vida, se necessário fosse, para ser admirado e respeitados
pelos seus pares. Era o tiro de Barra - que na circunstância constituía em
lançar um ferro de arrancar pedra com algumas dezenas de quilos - lançado à
distância, qual dardo olímpico dos dias de hoje. Outras vezes era o carregar
com enormes pedras às costas durante alguns metros ou mesmo levantar o
pedregulho que, normalmente servia de assento às mulheres quando fiavam o
linho, umas vezes com as mãos e até com os dentes. Como era expectável, o nosso
António levava a palma aos concorrentes. O Poder que o dinheiro, escasso -
diria mesmo quase inexistente - lhe dava, sua energia e fortaleza e,
principalmente o seu coração bondoso, principalmente para com aqueles que eram
mais desfavorecidos, granjearam-lhe a simpatia, a admiração e mesmo a amizade
da esmagadora maioria dos seus conterrâneos. A sua opinião era, obviamente,
ouvida e respeitada. Era Republicano ao contrário da maioria, porque estava
desiludido com um Rei que ele sabia ser um esbanjador e mesmo um boémio,
falamos de D. Carlos, como é bom de ver.
Mas um dia, talvez cansado da sua vida de trabalho e pensando
que o que amealhara iria parar a mãos de familiares mais distantes, enamorou-se
uma viúva, bonita, vaidosa e cheia de charme para a época. Uma senhora que
sabia estar. Sabia comportar-se. Tal viúva a senhora Francisca ainda que
remediada, atravessava algumas dificuldades económicas para sustentar os seus
dois filhos adolescentes.
Deste enlace nasce o Romeu nos anos idos de 1900, criança
viva, inteligente e que tudo o que ouvia retinha na sua memória. Daí não ser
difícil entrar em conversas ao serão, no seio familiar, que deixavam
embasbacados a mãe e os meios-irmãos, que jamais lhes passaria pela cabeça
tanto e tal saber, tanto e tal conhecimento para um criança com pouco mais de
quatro anos. Já o pai não se admirava nada e até achava que isso se devia a ser
seu filho único e, como tal herdara dele, o melhor que possuía. Essa criança,
com tanto talento, não poderia ficar como os irmãos, analfabetos literais e
pouco dados à amizade, ao desprendimento, bem como à justeza de uma vivência
social séria e conceituada. O Nosso António, porque amava muito a sua esposa,
não repreendia os seus enteados quando das suas diabruras, mas não concordava com
elas e por isso queria que o seu filho tivesse outro tipo de conhecimentos e de
postura social que fosse o seu orgulho e a admiração dos seus amigos e
conterrâneos. Aos oito anos lá vai o Romeu para o professor, homem pouco
habilitado e que sobrevivia com o pagamento de cada aluno que tinha, dando
aulas num pardieiro a que se chamava escola. O Sr Silvestre, era assim que se
chamava o professor, cada dia que passava ficava mais estupefacto com a
inteligência, vivacidade e raciocínio do seu novo pupilo. Rapidamente aprendeu
os rudimentos da leitura, da escrita e do cálculo o que facilitou a
aprendizagem de coisas que iam para além do comum. O Romeuzinho era useiro e
vezeiro no devorar dos poucos livros que o professor possuía, lendo-os sempre
com avidez e várias vezes, ao ponto de quase os saber inteiramente de cor. Esta
vontade de aprender era um orgulho para o professor que, no intimo lamentava
não saber mais, para mais transmitir àquele pimpolho interessado, amigo,
cordial e com sentido de justiça, pouco comum na época.
Pouco tempo durara a felicidade daquela criança que se viu, de
repente, privado de uma das pessoas a quem mais queria, o seu pai. Este
falecera repentinamente e deixara órfão aquele menino-prodígio que se via assim
sem arrimo e sem guarida, ainda que fosse abastado em bens materiais. A mãe,
coitada, desgostosa com nova perda do marido recente, sobrevivia dedicada aos
filhos, agora com abundância de meios já que fora constituída fiel depositária
dos bens do seu filho mais novo, que eram substanciais, poderíamos afirmar
mesmo que atingiam o grau de riqueza à época, enquanto este não atingisse a
maioridade que, como é sabido, só era atingida aos 21 anos ou por força de
emancipação, normalmente associada ao casamento. O Romeu, criança que era,
procurava alhear-se do desgosto embrenhando-se no estudo, nas leituras de tudo
o que lhe aparecia pela frente e, como é próprio da idade, nas brincadeiras com
seus companheiros, muitos deles só ao Domingo porque, por serem menos
afortunados, tinham que participar na vida do dia a dia duro de seus pais e
irmãos e contribuir com o seu trabalho para que houvesse mais uma fatia de pão
na mesa.
Feita a quarta classe, como então era designado o 1º ciclo do
ensino básico, o entusiasmo do professor alicerçado no conhecimento dos bens
económicos de que o Romeu era detentor, pressionou a D. Francisca, sua mãe, a
mandá-lo para a Cidade Capital de Distrito para que este pudesse frequentar o
Liceu.
A contra-gosto porque lhe custava separar-se do seu menino e,
cumulativamente muito pressionada pelos dois filhos do primeiro marido, mais
velhos e já rapazes, quase homens feitos, tornava-se renitente à ambição do
menino e ao desejo do professor. Porém, as súplicas do primeiro e a insistência
do segundo levaram a melhor e lá conseguiram que o Romeu fosse matriculado no
Liceu Nuno Álvares de Castelo Branco no primeiro ano. A satisfação da criança
era indescritível por ali poder dar azo ao seu sonho de saber sempre e cada vez
mais.
Desde logo começara por fazer amigos dos quais se destacava uma
menina de doze anos natural da Vila, sede do concelho, que viria a ser
Professora Primária de seu nome Ascensão.
Era uma amizade pura que se consolidava com a partilha de mimos
que, de quando em quando, chegavam de casa de cada um. Era a chouricita ou o
bocado de presunto, coisas que na altura se destinavam a alimentar os
trabalhadores em épocas de grande azáfama como eram a colheita e a debulha dos
cereais ou a sementeira dos mesmos. E, nessa altura, eram ranchos de homens que
arado, grade, foice ou mangual em punho, lá iam para os campos ou eiras para
que as tulhas se enchessem e permitissem pão com abundância para todo o ano.
É bom de ver que aos meios-irmãos do Romeu esta situação não
agradava por motivos vários. O primeiro assentava na inveja - sentimento
mesquinho que se incrusta no sentimento de pessoas pouco livres de consciência
e menos ainda de coração - e essa inveja infernizava a vida da já idosa senhora
D. Francisca que a toda a hora era massacrada com o ressabiamento dos filhos
mais velhos sempre com a velha máxima de que "nós andamos aqui a trabalhar
e a comer farinheira enquanto ele - ele era o irmão mais pequenito - anda lá
pela cidade sem fazer nada e a comer a melhor chouriça.
O Romeu, coitado sem nada perceber ou entender sobre as razões
desta inveja, lá levava a sua vida de estudante aplicado quando chegou a
notícia de que o seu amigo e protector, o seu professor da instrução primária
deixara esta vida passando para a outra mais transcendente mas menos prática na
intercessão directa junto das pessoas. Choroso, como é óbvio, porque além da
admiração, nutria pelo seu mestre um carinho muito especial, que fora acentuado
com a perda prematura do pai, contara à sua amiga esta provação. Mas crianças
que eram, o sofrimento era directamente proporcional à idade, e com a força que
vinha também se esvaía.
Porém o pior estava para acontecer. Pelo Natal, nas férias, o
Romeu veio cheio de saudades à sua aldeia ver a mãe e os irmãos que adorava,
apesar da pouca correspondência por parte destes, com a ideia de que passados
os pouco mais de quinze dias voltaria ao contacto com os seus livros, seus
companheiros e mestres, na expectativa de um dia vir a ser um Advogado de
causas nobres e rectas. Tal não pode acontecer porque a mãe debilitada na sua
saúde e apesar do seu sentimento de que o filho mais novo só estava a gastar
parte da sua herança e não prejudicar em nada os seus meios-irmãos não teve
pulso nem força para arrostar com as críticas e a dureza das palavras dos
filhos mais velhos, sendo levada a convencer o seu Romeuzinho de desistir de
estudar. Até porque, na opinião da maioria das pessoas da localidade,
analfabetas puras, achavam que estudar era perda de tempo e gasto de dinheiro.
Estes também eram os argumentos dos seus filhos mais velhos e a velhinha, sem
forças para lutar contra tudo e contra todos lá convenceu o seu menino a não ir
mais para Castelo Branco e assim se finou um projecto de vida que,
eventualmente, poderia ser brilhante e muito útil à freguesia e sua população.
(É para continuar)
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