Saturday, July 25, 2020

A Maria da Fonte e a Patuleia




·         Ao contrário do que acontecera noutras revoluções, esta veio do interior do País e não das capitais de distrito para mexer na ordem tradicional que ainda vigorava no mundo rural. Uma das ordens que mexeu com o povo foi a proibição do enterramento dos corpos nas Igrejas. Enterrar corpos cristãos ao ar livre parecia uma profanação e uma ofensa à dignidade humana. Era tratar as pessoas como se fossem animais. Ao mesmo tempo iniciava-se a inventariação e o cadastro da propriedade rústica, base indispensável para lançar a contribuição da propriedade predial. O cadastro implicava a avaliação de prédios e, naturalmente, espalhou-se a ideia de que o Governo andava a saber o que valiam as courelas de cada um para depois as vender aos ingleses. O descontentamento profundo deflagrou em revolta em meados de Abril de 1846 em paralelismo com um movimento camponês muito semelhante que no início desse mesmo mês agitou a Galiza.
·         À revolta dos camponeses minhotos foi dado o nome de Maria da Fonte. Não só porque as mulheres tivessem tido um papel muito relevante nessa revolta mas também, porque os primeiros incidentes se deram na freguesia de Fonte Arcada, concelho de Póvoa de Lanhoso.
·         Bandos de rurais, homens e mulheres armados de clavinas, pistolas, chuços, foices e espetos assaltaram as sedes das Administrações dos Concelhos queimaram o cadastro predial e os registos das propriedades, arrombaram as cadeias e chegaram a atacar as tropas em Braga. Um dos guerrilheiros o famoso Padre Casimiro publicou mais tarde um relato do acontecimento e por ele se vê que os chefes populares da guerrilha se consideravam miguelistas mas o seu miguelismo não era tanto dinástico mas sim a revolta contra a miséria e a fome, a opressão do Estado através dos impostos.
·         A oposição setembrista aproveitou esta explosão da cólera camponesa para fazer pronunciamentos políticos e militares em quase todas as capitais de distrito e em muitas outras povoações importantes. A Capital manteve-se à margem do movimento que, segundo os setembristas, visava a demissão de Costa Cabral:
·         Viva a Maria da Fonte,
com pistolas na mão,
para matar os Cabrais,
que são falsos à Nação.
·         Esta era uma das quadras que proclamavam na capital.
·         O Ministro foi então afastado do Poder mas poucos meses depois a Rainha constituiu um Ministério de Cabralistas fiéis. Isto reacendeu a revolta que conduz à guerra civil da Patuleia.
·         A Patuleia já teve várias conotações e houve quem quisesse associá-la a para ao léu esta designação é etimologicamente inadmissível. Há quem diga que é um espanholismo que quer dizer tropa fandanga, soldadesca sem disciplina.
·         A Patuleia articula-se com a Maria da Fonte mas tem características completamente diferentes. Na sua origem tem o movimento de políticos e de militares influenciados pela ideologia pequeno-burguesa que em França deu origem à revolução de 1848 e à Segunda República. Mas também estas condições de base eram diferentes: enquanto em França a produção industrial decuplicou entre 1830 e 1848, em Portugal o crescimento económico não arrancara ainda. A Patuleia foi, assim, uma reacção do liberalismo doutrinal contra o neo-aristocracismo devorador dos barões guindados ao Poder pelo Cabralismo, mas não chegou a ser um verdadeiro movimento popular.
·         No Porto instalou-se um Governo provisório e preparou a marcha sobre Lisboa. Quer de Lisboa quer do Porto se fizeram recrutamentos forçados o que demonstra não haver verdadeiros movimentos de massa. Os soldados combatiam sem convicção e chegaram até a mudar de partido. Tanto as tropas do Porto como as de Lisboa diziam lutar pela Rainha. Os do Porto diziam que era para a libertar os de Lisboa diziam que era para a manter livre. Os partidários de D. Miguel juntaram-se aos patuleias. Esta aliança era sinal de esvaziamento ideológico e revolucionário. Mas os militares levaram a guerra a todas as partes do País e fizeram milhares de mortos. A paz só foi restabelecida com a ajuda do exército inglês e espanhol que aprisionaram navios e os melhores guerrilheiros patuleias e obrigaram os representantes do Governo a assinar um acordo cujas condições eram a rendição das tropas em troca da amnistia. A esta convenção foi dado o nome de “Convenção de Gramido, 24/06/1847).


A estabilização política: regeneração, rotativismo e caciquismo

·         À violência da guerra seguiu-se um período de decepção e amolecimento político. Entre 1847 e 1851 nada aconteceu: não se legislou; não houve conflitos; houve apenas rotinas parlamentares.
·         A 1849 chamou-se o ano da “Caleche” porque o facto político relevante foi a revelação no Parlamento de um caso de corrupção. Costa Cabral recebeu de um negociante uma Caleche em troca de uma comenda.
·         È nesta apatia que surge uma tentativa de revolução que não tinha partidários nem adversários, nem sequer ideias. O marechal Saldanha que tinha sido comandante das tropas que tinham combatido a patuleia aborreceu-se porque o substituíram no lugar de mordomo-mor e foi proclamar a revolta num quartel de Sintra. Ninguém aderiu. Dali foi a Mafra e aconteceu o mesmo. Correu os quartéis de Coimbra, Viseu e Porto e foi tudo igual, ninguém aderiu. Já estava na Galiza quando veio a saber que afinal, o Porto tinha aderido. Voltou à cidade e foi aclamado no Teatro S. João com entusiasmo. Um orador disse aí que não se tratava de uma revolução mas sim de uma regeneração da vida nacional.
·         A Regeneração já era uma das aspirações de todos depois dos escombros da guerra civil e por isso criou-se o movimento Regeneração.
·         A reacção do Governo de Lisboa foi de decisões enérgicas mas de execuções frouxas. Organizou-se um corpo militar forte para combater os rebeldes e marchou à frente dele o marido da Rainha, D. Fernando que era comandante-chefe do exército. Provavelmente, D. Fernando estaria no segredo da conjura que tinha sido muito discutida entre Saldanha e Alexandre Herculano, bibliotecário pessoal do rei consorte. Este detestava Costa Cabral que lhe retribuía de igual forma. Era um astuto político que era capaz de compreender que quando as revoluções eram inevitáveis era melhor aceitá-las do que sofrê-las. Por isso o exército que deveria impor a ordem não foi além de Coimbra e diz-se ainda que o próprio D. Fernando aconselhou os seus oficiais a escolher o melhor partido. Voltou a Lisboa e a rainha teve de escrever para o Porto: “faço justiça aos sentimentos do marechal Saldanha. Peço-lhe que venha imediatamente a Lisboa” e entregou-lhe o governo.
·         A política portuguesa entra então numa fase de coexistência tácita. Há a noção da urgência de progressos materiais, nomeadamente no campo das comunicações como forma de progresso e enriquecimento das populações. Nesta circunstância todas as forças políticas tendem a deixar as armas e a entenderem-se quanto à melhoria das condições materiais. A Carta continuou em vigor mas o Acto Constitucional deu satisfação a algumas reivindicações do Setembristas. A eleição dos deputados passou a fazer-se por sufrágio directo e o Parlamento ficou com o direito de nomear comissões de inquérito relativamente aos actos do Governo. Com esta emenda deixa de haver Cartistas e Anticartistas. A corrente conservadora assumiu a forma de Partido Regenerador que é um cartismo adoçado e a corrente democrática deu origem ao Partido Histórico e um pouco mais tarde ao Partido Progressista de reminiscências setembristas. Eram, quer um quer outro, Partidos do Centro. Ambos se diziam defensores da realeza, ambos eram liberais, ambos se propunham fazer a recuperação económica do País e resolver os problemas financeiros que se vieram a agravar desde tempos recuados. Esta coexistência pacífica deu origem à alternância governativa sem crises de violência. Deu-se, naturalmente, o rotativismo no Governo entre os dois Partidos e isto deu-se até ao fim do século XIX. O Rotativismo na Europa também se caracterizava por ser um típico liberalismo parlamentar. O modelo, como é óbvio veio da Inglaterra. O rei, após cada eleição, entregava o governo ao Partido mais votado e isso queria dizer que prevalecia a opinião da maioria. Em Portugal as coisas não eram bem assim. Não era quem ganha as eleições que subia ao Poder mas era quem estava no Poder que ganhava as eleições. O método para obter a concordância entre o Governo e o resultado eleitoral era este: de cada vez que o rei nomeava novo ministério decretava a dissolução das Câmaras e marcava novas eleições. Destas saía sempre vencedor o Partido a que pertencia o Governo que o rei tinha nomeado. Como é bom de ver o sistema era extremamente criticado e criticável. Na época ficou famoso um epigrama do poeta João de Deus:
Há entre El-Rei e o Povo
Por certo um acordo eterno:
Forma El-Rei Governo novo
Logo o Povo é do Governo
Por aquele acordo eterno
 Que há entre El-Rei e o povo.
Graça a esta harmonia,
Que é realmente um mistério
Havendo tantas facções
O Governo, o Ministério,
Ganha sempre as eleições!
·         O mistério estava nas condições sociais do País. A imensa maioria da população que o sistema de sufrágio directo levava às urnas não tinha consciência política nem independência económica e os partidos não tinham organização que facilitasse a realização de campanhas eleitorais.
·         Daí o aparecimento de caciques (palavra vinda das Caraíbas que significava o chefe da aldeia). O caciquismo desempenhou função básica no sistema eleitoral. Era o cacique que estava em contacto com o povo e era ele que o mandava votar. Mas, por sua vez o cacique dependia de um chefe político que tinha que pagar a corretagem dos votos a favor do seu partido. O pagamento fazia-se com nomeações, protecção e outros favores. O Governo tem mais condições de proporcionar favores do que a oposição e isso, para além das fraudes eleitorais, explicava que o Ministério ganhasse sempre as eleições. O caciquismo era, na prática, um sistema de sufrágio indirecto que se sobrepôs ao sistema de direito de sufrágio directo. A vida política carecia de verdade e de autenticidade e por isso era um dos temas preferidos da caricatura nacional. Herculano chamou-lhe “vil comédia”. Perdeu-se a confiança na política e nos políticos porque o povo não estava representado nem se revia neste sistema. Daí que o rotativismo se degradasse cada vez mais e nas últimas décadas do século as dissidências eram mais que muitas dando origem a novos partidos. Passou-se à fase do pluripartidarismo tornando impossível o funcionamento do rotativismo acabando por conduzir à queda do constitucionalismo monárquico.

José Rainho Caldeira

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