Peço a gentileza
a quem me ler que digam com sinceridade: é normal que um indivíduo que já tem
idade para ter juízo, que se meta num quarto de banho de um qualquer hotel de
gama média-alta às três da manhã de um dia 21 de Abril de um qualquer ano que
não interessa especificar, depois de acordado depois de um brevíssimo sono com
demasiados sobressaltos e a cogitar sobre uma questão, tão paradoxalmente abstrusa,
ao mesmo tempo muito simples e extremamente complexa como é a vida?
Os mais lúcidos
dirão, de imediato, que só é possível se se tratar de um louco. Os mais
benévolos até se poderão lembrar que se pode tratar de um génio, já que é
assumido que todos os génios têm algo de loucos, porque até a dormir se
inquieta com ideias que o sobressaltam e não o deixam retomar o sono reparador
de que tanto necessita. A vida basta vivê-la, ou não será assim?
Se calhar,
nenhum destes dois grupos terá razão. Ah! Já me esquecia que nunca, em
circunstância alguma, há razão plena a não ser que esta seja aceite de forma
transcendental. Porém, talvez, ambos tenham a sua dose de razoabilidade
racional.
Não é normal que
um individuo algo culto que viveu um dia anterior intenso de emoções, se tenha
socorrido de dois comprimidos, sim dois comprimidos, bioquimicamente eficazes,
ensaiados, testados pelos maiores cérebros mundiais e não consiga ficar dopado
a pontos de ficar pregado à cama nem que fosse numa modorra dormente, mesmo que
não fosse sono reparador.
Mas o que é
normal?
Cá está outra
pergunta, paradoxalmente, simples, complexa, incongruente e que levaria horas a
descrever, já que enveredada por conceitos como Norma e Desvio e Foucauld,
(Léon) não gostaria que se aligeirasse a resposta. Mesmo assim se essa
descrição fosse feita por quem sabe, o que não é o caso do escrevinhador em presença,
porque para os outros, qualquer destas perguntas necessita de um Tratado
baseado em Leis, Teorias, Teses que analisassem dados e obtivessem resultados
que, temporariamente - sim porque o que hoje é verdade amanhã poderá ser mentira
e vice-versa - podem ser aceites pela Comunidade Científica constituída por um
rol de intelectuais que se reconhecem inter-pares e cujo conhecimento vai muito
para além de banalidades e muito menos de senso comum.
Vemos assim, que
a complexidade da vida é de tal forma simples que de tão singela se torna
complexa e quase impossível de explicar. Encerra atitudes que não cabem na
cabeça daqueles que não entendem, que um indivíduo, qual felino, que no seu
andar macio deambula pelo quarto do Hotel para não incomodar a mulher que dorme
a sono solto. Espreita pela janela e vê um chuva miudinha, mas persistente, a
cair no Parque de Estacionamento e que o narrador olha como uma bênção Divina
porque a sua imaginação o leva a sentir quão benfazeja é para os terrenos
sedentos de um ano de terrível seca, e quase sente os sentimentos e as emoções
da biodiversidade que a acolhe como uma carícia, um mimo que dá sentido à vida
de todos e de qualquer ser vivo.
Voltamos a falar
da vida sem respondermos à questão. Da mesma forma que julgamos que os
cientistas que deram à luz os fármacos indutores do sono, não conseguiram
fazer-me dormir a mim, mas que noutras pessoas as põem num estado de quase
semi-inconsciência, também eu não encontro explicação para esta ideia que me martela
o cérebro de forma quase febril, me aperta o coração como se de um torniquete
se tratasse e, ao mesmo tempo e da mesma forma paradoxal, me enche a alma de
júbilo e de uma profunda tristeza. Se calhar a vida é este misto de emoções e
de sentimentos contraditórios ou será simplesmente uma incapacidade de uma Fé
transcendental inexplicável. Porventura não será necessário conhecer o
funcionamento do hipotálamo, da hipófise, do cerebelo, do hemisfério esquerdo
ou direito, nem tão pouco como é que se produz a energia que é transportada
pelos neurónios, através das sinapses, numa sequência quase inumerável. Não
será preciso saber muito sobre o músculo cardíaco, coronárias, tensão sistólica
ou diastólica, para se compreender a vida. Tão pouco será necessário recorrer
às Teorias Freudianas, tão caras aos psicólogos e aos psiquiatras, porque é uma
das formas simples deles explicarem a vida dos outros, os problemas dos outros,
os sentimentos e os sofrimentos dos outros. Estes técnicos, mesmo quando se
socorrem das novíssimas correntes descobertas pelas neurociências, pouco mais
avançam que as atitudes humanas são resultado de traumas, de doenças, de
comportamentos desviantes.
A medicina não
vai muito mais além. Apesar dos passos de gigante que deu nos últimos tempos na
cura de diferentes enfermidades não deixa de se surpreender com respostas
díspares apresentadas por pacientes diferentes.
Mas então que
raio de coisa é a Vida? Será que não tem explicação?
Não sei. Só sei
que hoje, não! ontem – não me posso esquecer que são quatro horas da madrugada
– não me consigo libertar desta pergunta desde ontem cerca das quinze horas,
que me ocupa o cérebro, o coração, as pernas, os braços, o corpo todo, que me
inquieta de tal forma e tão profundamente que no meu pensamento não sobra
espaço para mais nada que não seja a questão: o que é a vida?
Sabem, meus
queridos, é para vós que escrevo, ontem desloquei-me a Coimbra para ver, falar,
abraçar dois amigos daqueles que se costumam designar – de forma imperfeita,
acho eu - como amigos do peito. Ele extremamente doente, enfraquecido no físico
mas que procura arrancar forças do psíquico através da sua boa disposição, da
sua graça, do seu estilo brincalhão. Ela, completamente destroçada, pela
angústia, pelo cansaço, pelo desespero mas que ainda consegue alguns lampejos
de esperança que a faz sentir, com total verdade e autenticidade, que é uma
grande mulher. E é porque consegue esquecer-se de si para se ocupar a tempo
integral e com todo o seu ser à doença dramática do marido a quem dá apoio
total. Presencial das 10 às 22 horas, todos os dias há muitíssimos dias,
demasiados dias. Com apoio psicológico que esconde a angústia que a invade
vinte e quatro horas por dia, porque também ela, apesar da ajuda de comprimidos
não consegue mais do uma a duas horas de uma dormência que nem sono se pode
chamar, rezando ao Deus em que acredita para que melhore a saúde de quem ama,
ainda que, tal como Cristo na Cruz, sofra o desespero e não se atreva a
verbalizar: Deus, cura o meu marido, porém faça-se a Tua vontade e não a minha.
Mas neste vai e vem em turbilhão, as ideias e os pensamentos estendem-se às
netas, que ainda crianças, não deixam de a questionar sobre avô e suas
ausências. O que está a acontecer ao avô? O avô demora muito a vir para casa?
Mas o pensamento também se alarga ao filho e à nora nos quais vê e sente, num
dramatismo indescritível, dois seres, quiçá algo desprendidos e até um tanto
egoístas ou, simplesmente, dois seres imaturos e fracos que se refugiam na
companhia de “amigos” para, em boa verdade, tentarem fugir e esquecer o drama
que a família, toda a família, está viver.
Mas dizia eu que
falei, abracei, acarinhei estes meus dois amigos do coração e revi, inesperada
e surpreendentemente outros amigos da minha infância, amigos que não via há
muitíssimos anos e que, por essa razão me encheram a alma de júbilo. Ao mesmo
tempo esses amigos me entregaram um desdobrável com fotografias desbotadas pelo
tempo mas onde todos nós, incluindo estes que agora sofrem desta angústia
imensa, quais donos do Mundo, vivíamos a utopia de pequenos deuses, cuja força
da juventude mas também da imaturidade, nos julgávamos capazes de o transformar
num Paraíso onde houvesse Justiça, Paz, Liberdade, Fraternidade, Solidariedade,
Igualdade de oportunidades para todos, enfim, um Mundo melhor, mais humano e
mais à medida de um Homem que foi criado à imagem e semelhança do próprio filho
de Deus, que sendo Homem também foi e é Deus. Mais vida. Olá! Parece abrir-se
uma fresta para a resposta que busco desde que comecei a escrever. Mas não!
Pura ilusão. Não pode ser. È demasiado simplista para ser uma verdadeira
resposta. Não se coadunam nem se encaixam de forma tão simples, esta alegria e
aquela tristeza. O riso das lembranças passadas com a angústia da realidade
presente. As recordações folgazãs de outrora com os olhos marejados de lágrimas
que todos nós tínhamos e, ainda agora, e já lá vai uma boa dúzia de horas,
ainda se sentem nos meus e que, teimosamente, vão deixando, de quando em vez,
escorregar pelo meu rosto.
Não se coaduna
nem encaixa esta inexplicável angústia que me atormenta e me impulsiona a
debitar para o papel todo o sentir que não tive coragem de partilhar com
ninguém. Este sentir contraditório que é, simultaneamente, sofrimento e
alegria, que é desespero e de esperança e que não me permita levantar o “cu” da
sanita tapada que me serve de assento para ir deitar a cabeça na almofada para
tentar dormir e descansar, para não pensar.
O que é a Vida?
Será que são todas
estas contradições? Será o sofrimento e a alegria? Passa pelo domínio que até
se atreve a gracejar com o Quim enquanto lhe apertamos a mão com firmeza, como
se com esse aperto lhe pudéssemos dar parte da nossa saúde e vida que julgamos
ter? Passa e sente-se na preocupação dele que pede à Teresa – Teresa é o nome
da mulher dele, nome igual ao da minha mulher, por sinal, por coincidência, por
desígnio, quem sabe – e lhe pede: telefona lá ao Rainho para saber se chegou
bem ao Hotel. É que está a chover. O trânsito é tão complicado. A estrada é tão
perigosa. A Teresa, mulher do Quim, faz isso e eu digo-lhe que está tudo bem.
Desejo-lhe uma noite descansada. Digo-lhe umas palavras que pretendem ser de
ânimo, mas de um ânimo que eu não possuo, eu não sinto, eu não tenho e que ela
percebe pela insegurança da voz. Como é que eu não hei-de estar numa convulsão,
num tremor e numa confusão de sentimentos tão intensa quando vejo que o meu
amigo, gravemente enfermo, se preocupa comigo e quer saber se eu fiz os cento e
tal quilómetros de Estrada em segurança? Estão a ver porque me interrogo sobre
o que é a Vida?
Então o Quim que
está agarrado a uma cama de Hospital, com os braços negros de tantas picadas,
um tubo de oxigénio enfiado no nariz e colado à testa por um adesivo castanho,
enquanto pelo braço escanzelado, que mais parece um rádio e um cúbito ligados
por uma pele de cor baça, qual esqueleto para estudante de medicina manipular,
entra um líquido, quimicamente estudado, analisado, testado e que nele se põe à
prova a sua eficácia, sempre monitorizado por um aparelho de números reluzentes
que ora estão no vinte ora passam para o quarenta, ora pisca uma luz verde ora
outra vermelha e que nós não conseguimos, na nossa santa ignorância, perceber
para que serve, ainda se preocupa com o seu amigo e com a viagem que ele tem de
fazer? Será que para ele a Estrada é tão ou mais perigosa que qualquer
leucócito descontrolado que, no seu deambular pelas artérias e veias vai
danificando células, vai reduzindo plaquetas e outros constituintes de defesas
imunológicas que deveriam estar protegidas por um batalhão de soldados que
impedissem a entrada destes invasores e por isso mesmo – já viveu tantas
situações destas nestes últimos cerca de quinze anos – se preocupa com a
segurança e com a vida dos seus amigos que sou eu e a minha mulher?
Afinal isto
também é a vida. Não será a resposta completa mas talvez justifique alguma
coisa que a ciência ainda não conseguiu ir além da Bio.
Talvez a vida
sejam estas e outras emoções, estes e outros sentimentos, estas e outras dores,
estes e outros júbilos, estas e outras preocupações solidárias e enraizadamente
muito amigas, muito generosas e eu sei lá mais o quê?
Se não é
possível explicar a vida para além do que é biológico, talvez nos possamos
esquecer desta parte que sabemos, à partida, ser finita e tentarmos entendê-la
numa outra perspectiva que uns apelidam de amor, outros de amizade, outros de
ódio, outros ainda de desespero, muitos de preocupação com outro que é e sente
como seu irmão. Não irmão de sangue parental, que isso seria quase uma
obrigação, mas um irmão igual, simbolizado num Cristo que sofreu horrores por
todos nós e ressuscitou glorioso, para nos mostrar como é possível viver nesta
simbiose de dor e de alegria, de sofrimento e de felicidade, porque a vida nos
proporcionou momentos para nos conhecermos, convivermos, nos amarmos. Ora
divergindo, ora convergindo, mas sempre atentos às necessidades dos outros,
mesmo que essa necessidades até possam parecer menos importantes que as nossas?
O que é a Vida?
Será talvez como
te dizia há pouco, Teresa: “quando não tinhas problemas fazias depressões,
andavas angustiada, depauperada física e psicologicamente, hoje não aparentas
nenhuma destas maleitas ainda que se perceba que estás desfeita por dentro”. Os
teus problemas de hoje são de tal gravidade que te esqueces de ti e só os teus
olhos embaciados deixam perceber a tua total fragilidade. Os menos atentos ou
aqueles que te conhecem menos bem saem de junto de ti com a ideia de que
contigo está tudo bem. É mentira. Para mim, contigo está tudo péssimo. É um
pesadelo que carregas. Com coragem e até altivez é certo, mas com uma dor tão
profunda que o teu olhar não conseguiu esconder de mim. Porquê? Porque sei
alguma coisa, sob o ponto de vista científico, do ser humano? Não. Porque sou
simplesmente teu amigo e tu e o Quim são meus irmãos. Conheço-vos como me
conheço a mim.
O que é a Vida?
Olha, talvez
seja o desabafo de um desesperado numa madrugada em que o sono teima em não
aparecer. Talvez seja a ânsia de um colo materno que embala o bebé até que ele
deixe de chorar.
Olha, eu também
não quero chorar. Quero apenas deixar de pensar e dormir. Preciso,
desesperadamente, de dormir mas os teimosos dos soluços continuam a, qual
trânsito congestionado de pára arranca, a chegarem-me à garganta e a não me
deixaram fazer o que tenho na vontade e que é, tão-somente, tapar a caneta e
meter estes papéis na pasta, donde, se calhar, nunca deveriam ter saído. Papéis
que farei os possíveis para que jamais os leiais. Porque não quero com estas
palavras abrir feridas e escarafunchar em chagas. É que eu escrevendo para vós
quero esconder de vós estes desabafos. Eu não quero escrever para vós,
simplesmente, quero escrever para a vida.
Descarrego o meu
desassossego no papel. Questiono-me: O que é a Vida?
Talvez um dia
encontre uma resposta, que não sendo uma verdade absoluta, me satisfaça a mim,
como sendo a minha verdade. Duma coisa estou certo: seria mesquinha de mais se
fosse reduzida a um final designado por “morte”. Tem de ser algo mais. Muito
mais. Se não, não valia a pena.
A vida tem de
ser podermos dizer destas coisas aos amigos e ao mesmo tempo escondê-las deles,
pelo menos até um dia em que, em júbilo, as possamos mostrar.
A vida é
sentirmos, rirmos e chorarmos juntos.
A Vida há-se
ser, com toda a certeza, algo mais.
Talvez um dia eu
e/ou alguém, seja capaz de a explicar.
Por agora é
preciso, apenas e só, vivermos.
Hotel de S.
Pedro do Sul, 21/04/2006
Rainho
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