Friday, July 24, 2020

O que é a vida?



Peço a gentileza a quem me ler que digam com sinceridade: é normal que um indivíduo que já tem idade para ter juízo, que se meta num quarto de banho de um qualquer hotel de gama média-alta às três da manhã de um dia 21 de Abril de um qualquer ano que não interessa especificar, depois de acordado depois de um brevíssimo sono com demasiados sobressaltos e a cogitar sobre uma questão, tão paradoxalmente abstrusa, ao mesmo tempo muito simples e extremamente complexa como é a vida?
Os mais lúcidos dirão, de imediato, que só é possível se se tratar de um louco. Os mais benévolos até se poderão lembrar que se pode tratar de um génio, já que é assumido que todos os génios têm algo de loucos, porque até a dormir se inquieta com ideias que o sobressaltam e não o deixam retomar o sono reparador de que tanto necessita. A vida basta vivê-la, ou não será assim?
Se calhar, nenhum destes dois grupos terá razão. Ah! Já me esquecia que nunca, em circunstância alguma, há razão plena a não ser que esta seja aceite de forma transcendental. Porém, talvez, ambos tenham a sua dose de razoabilidade racional.
Não é normal que um individuo algo culto que viveu um dia anterior intenso de emoções, se tenha socorrido de dois comprimidos, sim dois comprimidos, bioquimicamente eficazes, ensaiados, testados pelos maiores cérebros mundiais e não consiga ficar dopado a pontos de ficar pregado à cama nem que fosse numa modorra dormente, mesmo que não fosse sono reparador.
Mas o que é normal?
Cá está outra pergunta, paradoxalmente, simples, complexa, incongruente e que levaria horas a descrever, já que enveredada por conceitos como Norma e Desvio e Foucauld, (Léon) não gostaria que se aligeirasse a resposta. Mesmo assim se essa descrição fosse feita por quem sabe, o que não é o caso do escrevinhador em presença, porque para os outros, qualquer destas perguntas necessita de um Tratado baseado em Leis, Teorias, Teses que analisassem dados e obtivessem resultados que, temporariamente - sim porque o que hoje é verdade amanhã poderá ser mentira e vice-versa - podem ser aceites pela Comunidade Científica constituída por um rol de intelectuais que se reconhecem inter-pares e cujo conhecimento vai muito para além de banalidades e muito menos de senso comum.
Vemos assim, que a complexidade da vida é de tal forma simples que de tão singela se torna complexa e quase impossível de explicar. Encerra atitudes que não cabem na cabeça daqueles que não entendem, que um indivíduo, qual felino, que no seu andar macio deambula pelo quarto do Hotel para não incomodar a mulher que dorme a sono solto. Espreita pela janela e vê um chuva miudinha, mas persistente, a cair no Parque de Estacionamento e que o narrador olha como uma bênção Divina porque a sua imaginação o leva a sentir quão benfazeja é para os terrenos sedentos de um ano de terrível seca, e quase sente os sentimentos e as emoções da biodiversidade que a acolhe como uma carícia, um mimo que dá sentido à vida de todos e de qualquer ser vivo.
Voltamos a falar da vida sem respondermos à questão. Da mesma forma que julgamos que os cientistas que deram à luz os fármacos indutores do sono, não conseguiram fazer-me dormir a mim, mas que noutras pessoas as põem num estado de quase semi-inconsciência, também eu não encontro explicação para esta ideia que me martela o cérebro de forma quase febril, me aperta o coração como se de um torniquete se tratasse e, ao mesmo tempo e da mesma forma paradoxal, me enche a alma de júbilo e de uma profunda tristeza. Se calhar a vida é este misto de emoções e de sentimentos contraditórios ou será simplesmente uma incapacidade de uma Fé transcendental inexplicável. Porventura não será necessário conhecer o funcionamento do hipotálamo, da hipófise, do cerebelo, do hemisfério esquerdo ou direito, nem tão pouco como é que se produz a energia que é transportada pelos neurónios, através das sinapses, numa sequência quase inumerável. Não será preciso saber muito sobre o músculo cardíaco, coronárias, tensão sistólica ou diastólica, para se compreender a vida. Tão pouco será necessário recorrer às Teorias Freudianas, tão caras aos psicólogos e aos psiquiatras, porque é uma das formas simples deles explicarem a vida dos outros, os problemas dos outros, os sentimentos e os sofrimentos dos outros. Estes técnicos, mesmo quando se socorrem das novíssimas correntes descobertas pelas neurociências, pouco mais avançam que as atitudes humanas são resultado de traumas, de doenças, de comportamentos desviantes.
A medicina não vai muito mais além. Apesar dos passos de gigante que deu nos últimos tempos na cura de diferentes enfermidades não deixa de se surpreender com respostas díspares apresentadas por pacientes diferentes.
Mas então que raio de coisa é a Vida? Será que não tem explicação?
Não sei. Só sei que hoje, não! ontem – não me posso esquecer que são quatro horas da madrugada – não me consigo libertar desta pergunta desde ontem cerca das quinze horas, que me ocupa o cérebro, o coração, as pernas, os braços, o corpo todo, que me inquieta de tal forma e tão profundamente que no meu pensamento não sobra espaço para mais nada que não seja a questão: o que é a vida?
Sabem, meus queridos, é para vós que escrevo, ontem desloquei-me a Coimbra para ver, falar, abraçar dois amigos daqueles que se costumam designar – de forma imperfeita, acho eu - como amigos do peito. Ele extremamente doente, enfraquecido no físico mas que procura arrancar forças do psíquico através da sua boa disposição, da sua graça, do seu estilo brincalhão. Ela, completamente destroçada, pela angústia, pelo cansaço, pelo desespero mas que ainda consegue alguns lampejos de esperança que a faz sentir, com total verdade e autenticidade, que é uma grande mulher. E é porque consegue esquecer-se de si para se ocupar a tempo integral e com todo o seu ser à doença dramática do marido a quem dá apoio total. Presencial das 10 às 22 horas, todos os dias há muitíssimos dias, demasiados dias. Com apoio psicológico que esconde a angústia que a invade vinte e quatro horas por dia, porque também ela, apesar da ajuda de comprimidos não consegue mais do uma a duas horas de uma dormência que nem sono se pode chamar, rezando ao Deus em que acredita para que melhore a saúde de quem ama, ainda que, tal como Cristo na Cruz, sofra o desespero e não se atreva a verbalizar: Deus, cura o meu marido, porém faça-se a Tua vontade e não a minha. Mas neste vai e vem em turbilhão, as ideias e os pensamentos estendem-se às netas, que ainda crianças, não deixam de a questionar sobre avô e suas ausências. O que está a acontecer ao avô? O avô demora muito a vir para casa? Mas o pensamento também se alarga ao filho e à nora nos quais vê e sente, num dramatismo indescritível, dois seres, quiçá algo desprendidos e até um tanto egoístas ou, simplesmente, dois seres imaturos e fracos que se refugiam na companhia de “amigos” para, em boa verdade, tentarem fugir e esquecer o drama que a família, toda a família, está viver.
Mas dizia eu que falei, abracei, acarinhei estes meus dois amigos do coração e revi, inesperada e surpreendentemente outros amigos da minha infância, amigos que não via há muitíssimos anos e que, por essa razão me encheram a alma de júbilo. Ao mesmo tempo esses amigos me entregaram um desdobrável com fotografias desbotadas pelo tempo mas onde todos nós, incluindo estes que agora sofrem desta angústia imensa, quais donos do Mundo, vivíamos a utopia de pequenos deuses, cuja força da juventude mas também da imaturidade, nos julgávamos capazes de o transformar num Paraíso onde houvesse Justiça, Paz, Liberdade, Fraternidade, Solidariedade, Igualdade de oportunidades para todos, enfim, um Mundo melhor, mais humano e mais à medida de um Homem que foi criado à imagem e semelhança do próprio filho de Deus, que sendo Homem também foi e é Deus. Mais vida. Olá! Parece abrir-se uma fresta para a resposta que busco desde que comecei a escrever. Mas não! Pura ilusão. Não pode ser. È demasiado simplista para ser uma verdadeira resposta. Não se coadunam nem se encaixam de forma tão simples, esta alegria e aquela tristeza. O riso das lembranças passadas com a angústia da realidade presente. As recordações folgazãs de outrora com os olhos marejados de lágrimas que todos nós tínhamos e, ainda agora, e já lá vai uma boa dúzia de horas, ainda se sentem nos meus e que, teimosamente, vão deixando, de quando em vez, escorregar pelo meu rosto.
Não se coaduna nem encaixa esta inexplicável angústia que me atormenta e me impulsiona a debitar para o papel todo o sentir que não tive coragem de partilhar com ninguém. Este sentir contraditório que é, simultaneamente, sofrimento e alegria, que é desespero e de esperança e que não me permita levantar o “cu” da sanita tapada que me serve de assento para ir deitar a cabeça na almofada para tentar dormir e descansar, para não pensar.
O que é a Vida?
Será que são todas estas contradições? Será o sofrimento e a alegria? Passa pelo domínio que até se atreve a gracejar com o Quim enquanto lhe apertamos a mão com firmeza, como se com esse aperto lhe pudéssemos dar parte da nossa saúde e vida que julgamos ter? Passa e sente-se na preocupação dele que pede à Teresa – Teresa é o nome da mulher dele, nome igual ao da minha mulher, por sinal, por coincidência, por desígnio, quem sabe – e lhe pede: telefona lá ao Rainho para saber se chegou bem ao Hotel. É que está a chover. O trânsito é tão complicado. A estrada é tão perigosa. A Teresa, mulher do Quim, faz isso e eu digo-lhe que está tudo bem. Desejo-lhe uma noite descansada. Digo-lhe umas palavras que pretendem ser de ânimo, mas de um ânimo que eu não possuo, eu não sinto, eu não tenho e que ela percebe pela insegurança da voz. Como é que eu não hei-de estar numa convulsão, num tremor e numa confusão de sentimentos tão intensa quando vejo que o meu amigo, gravemente enfermo, se preocupa comigo e quer saber se eu fiz os cento e tal quilómetros de Estrada em segurança? Estão a ver porque me interrogo sobre o que é a Vida?
Então o Quim que está agarrado a uma cama de Hospital, com os braços negros de tantas picadas, um tubo de oxigénio enfiado no nariz e colado à testa por um adesivo castanho, enquanto pelo braço escanzelado, que mais parece um rádio e um cúbito ligados por uma pele de cor baça, qual esqueleto para estudante de medicina manipular, entra um líquido, quimicamente estudado, analisado, testado e que nele se põe à prova a sua eficácia, sempre monitorizado por um aparelho de números reluzentes que ora estão no vinte ora passam para o quarenta, ora pisca uma luz verde ora outra vermelha e que nós não conseguimos, na nossa santa ignorância, perceber para que serve, ainda se preocupa com o seu amigo e com a viagem que ele tem de fazer? Será que para ele a Estrada é tão ou mais perigosa que qualquer leucócito descontrolado que, no seu deambular pelas artérias e veias vai danificando células, vai reduzindo plaquetas e outros constituintes de defesas imunológicas que deveriam estar protegidas por um batalhão de soldados que impedissem a entrada destes invasores e por isso mesmo – já viveu tantas situações destas nestes últimos cerca de quinze anos – se preocupa com a segurança e com a vida dos seus amigos que sou eu e a minha mulher?
Afinal isto também é a vida. Não será a resposta completa mas talvez justifique alguma coisa que a ciência ainda não conseguiu ir além da Bio.
Talvez a vida sejam estas e outras emoções, estes e outros sentimentos, estas e outras dores, estes e outros júbilos, estas e outras preocupações solidárias e enraizadamente muito amigas, muito generosas e eu sei lá mais o quê?
Se não é possível explicar a vida para além do que é biológico, talvez nos possamos esquecer desta parte que sabemos, à partida, ser finita e tentarmos entendê-la numa outra perspectiva que uns apelidam de amor, outros de amizade, outros de ódio, outros ainda de desespero, muitos de preocupação com outro que é e sente como seu irmão. Não irmão de sangue parental, que isso seria quase uma obrigação, mas um irmão igual, simbolizado num Cristo que sofreu horrores por todos nós e ressuscitou glorioso, para nos mostrar como é possível viver nesta simbiose de dor e de alegria, de sofrimento e de felicidade, porque a vida nos proporcionou momentos para nos conhecermos, convivermos, nos amarmos. Ora divergindo, ora convergindo, mas sempre atentos às necessidades dos outros, mesmo que essa necessidades até possam parecer menos importantes que as nossas?
O que é a Vida?
Será talvez como te dizia há pouco, Teresa: “quando não tinhas problemas fazias depressões, andavas angustiada, depauperada física e psicologicamente, hoje não aparentas nenhuma destas maleitas ainda que se perceba que estás desfeita por dentro”. Os teus problemas de hoje são de tal gravidade que te esqueces de ti e só os teus olhos embaciados deixam perceber a tua total fragilidade. Os menos atentos ou aqueles que te conhecem menos bem saem de junto de ti com a ideia de que contigo está tudo bem. É mentira. Para mim, contigo está tudo péssimo. É um pesadelo que carregas. Com coragem e até altivez é certo, mas com uma dor tão profunda que o teu olhar não conseguiu esconder de mim. Porquê? Porque sei alguma coisa, sob o ponto de vista científico, do ser humano? Não. Porque sou simplesmente teu amigo e tu e o Quim são meus irmãos. Conheço-vos como me conheço a mim.
O que é a Vida?
Olha, talvez seja o desabafo de um desesperado numa madrugada em que o sono teima em não aparecer. Talvez seja a ânsia de um colo materno que embala o bebé até que ele deixe de chorar.
Olha, eu também não quero chorar. Quero apenas deixar de pensar e dormir. Preciso, desesperadamente, de dormir mas os teimosos dos soluços continuam a, qual trânsito congestionado de pára arranca, a chegarem-me à garganta e a não me deixaram fazer o que tenho na vontade e que é, tão-somente, tapar a caneta e meter estes papéis na pasta, donde, se calhar, nunca deveriam ter saído. Papéis que farei os possíveis para que jamais os leiais. Porque não quero com estas palavras abrir feridas e escarafunchar em chagas. É que eu escrevendo para vós quero esconder de vós estes desabafos. Eu não quero escrever para vós, simplesmente, quero escrever para a vida.
Descarrego o meu desassossego no papel. Questiono-me: O que é a Vida?
Talvez um dia encontre uma resposta, que não sendo uma verdade absoluta, me satisfaça a mim, como sendo a minha verdade. Duma coisa estou certo: seria mesquinha de mais se fosse reduzida a um final designado por “morte”. Tem de ser algo mais. Muito mais. Se não, não valia a pena.
A vida tem de ser podermos dizer destas coisas aos amigos e ao mesmo tempo escondê-las deles, pelo menos até um dia em que, em júbilo, as possamos mostrar.
A vida é sentirmos, rirmos e chorarmos juntos.
A Vida há-se ser, com toda a certeza, algo mais.
Talvez um dia eu e/ou alguém, seja capaz de a explicar.
Por agora é preciso, apenas e só, vivermos.
Hotel de S. Pedro do Sul, 21/04/2006
Rainho



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