Sunday, September 27, 2020

Biografia

 

BIOGRAFIA

 

JOSÉ RAINHO CALDEIRA

Natural de Meimoa, concelho de Penamacor. Distrito de Castelo Branco

Nascido em 16 de Setembro de 1943

 

Foto retirada da internet.

Em dezasseis de Setembro de 1943 nasce na freguesia de Meimoa, concelho de Penamacor, distrito de Castelo Branco, um recanto rural cheio de beleza natural, onde tem início o fértil território da Cova da Beira, um indivíduo do sexo masculino com três quilos e novecentos gramas.

Filho de um casal jovem de 23 e 22 anos, respectivamente, pai e mãe de seus nomes Manuel Pires Caldeira e de Adosinda da Conceição Rainha.

Neto paterno de Ricardo Pires Caldeira e de Maria da Fonseca e materno de José Pina e Teresa Rainha.

Foi baptizado em 26 de Setembro do mesmo ano, na paróquia da mesma freguesia pelo Reverendo Pároco, Padre Álvaro Garcia que também era pároco da freguesia da Benquerença. Tal evento com tão poucos dias de idade deveu-se ao facto de o pai do recém-nascido ter sido convocado, de emergência, para manobras militares, já depois de ter sido desmobilizado, após ter cumprido o serviço militar obrigatório no quartel da Covilhã, com o objectivo de ser enviado para defender a Base das Lages, na Ilha Terceira dos Açores, território estratégico fundamental e cobiçado pelos dois lados da 2ª Guerra Mundial, que tinha começado em 1939 e viria a ter seu término em 1944.

Assim, com doze dias apenas ficou entregue aos cuidados de sua mãe e seus avós, enquanto o pai viajara até à Ota para as ditas manobras militares de defesa estratégica.

Tal demorou três meses e meio porque, entretanto, o exímio negociador Presidente do Conselho de Ministros, Professor Doutor António de Oliveira Salazar, selou um convénio de cedência por trinta anos a referida Base Aérea aos Estados Unidos da América, um dos aliados contra a Alemanha de Hitler, o ditador nazista que, com a sua loucura e malvadez, originou a maior mortandade do século XX.

Efectuado o acordo o pai do menino regressou a casa para o seio dos seus.

O menino nasceu numa casa situada na Rua do Comendador e não tinha número de porta porque, à época, não havia necessidade de tal requisito, uma vez que toda a gente conhecia toda a gente.

A casa era alugada e o pai do menino não descansou enquanto não conseguiu contruir uma casa sua para albergar a família.

Com três anos de idade, o Zé e os pais, mudaram-se para a, hoje designada, Travessa da Corte, no sopé do S. Domingos, na altura, com cinco famílias residentes e poucas crianças da sua idade.

Os seus antepassados eram pessoas de posses. Os seus bisavós paternos tanto da parte da avó Maria como da parte do Avô Ricardo tinham bens acima da média nesta aldeia da Beira Baixa. Mas vicissitudes várias fizeram que os seus pais já nascessem pobres e tivessem que trabalhar muito para dar alguma qualidade de vida ao rebento.

A título de curiosidade pode-se afirmar que, uma das causas, porventura a mais importante fosse a ingenuidade destes progenitores pois foram escandalosamente roubados pelos familiares mais directos. Os avós da bisavó Isabel, nossos tetra-avós, tinham tanto ou tão pouco que, só em libras de ouro, tinham meio alqueire delas. É preciso explicar esta coisa do meio alqueire porque para os mais novos não deixará de ser chinês. Então é assim: - meio alqueire era uma medida de madeira que levava dez litros de semente. Se calcularmos que um alqueire de trigo, a título de exemplo, pesava mais ou menos 15 quilogramas, logo o meio alqueire pesaria 7 ou 8 quilogramas. Se atendermos que o ouro é um metal, logo muitíssimo mais pesado que a semente, poderemos, sem receio de errar que as libras pesariam, sem favor mais de vinte quilos de ouro puro. Pois momentos antes da morte do tetra avô um dos genros que não fazia parte da nossa árvore genealógica, se apoderou da totalidade das libras e depois do falecimento, nas partilhas disse para os cunhados que escolheria os prédios que quisesse e se estes não estivessem de acordo, como de facto não podiam estar, iam para a praça dos toiros o que em linguagem da época, significaria irem para a Justiça e respectivo leilão e que tinha dinheiro é que ficaria com os ditos prédios.

Está bom de ver que o dinheiro de que ele disponha eram da herança de todos e não só dele mas inescrupuloso como era não tivera vergonha de roubar todos os seus familiares, não só no ouro, como nos prédios mais rentáveis e de maior valor.

Na parte do avô Ricardo, filho único de seu pai e herdeiro directo de um bom pecúlio fora, numa primeira fase, desbaratado pela sua mãe e meios--irmãos e posteriormente por ele próprio deixando os filhos sem bens materiais mas com muitos valores morais – que não têm preço – e estes com esses valores conseguiram vidas desafogadas e de muita mais qualidade do que aqueles que usurparam os bens que pertenciam a todos.

Da parte dos bisavós e avós maternos, sendo menos abastados eram artífices o que, na época era uma mais-valia, já que a maioria vivia da agricultura quer fosse proprietário ou simples jornaleiro (trabalhador rural).


 Capítulo 1

 

O Zé entrou para a escola com sete anos de idade como era de lei na época em 1950 ainda era Presidente da República o General Óscar Carmona e o Presidente do Conselho o Professor Doutor Salazar, fotografia que se destacavam na parede, por cima do quadro preto de ardósia tendo ao centro, como que a separar os dois poderes um crucifixo de Jesus Cristo.

A primeira professora que eu, ingratamente, já não recordo o nome mas sim todas as suas atitudes. Era uma jovem regente, carinhosa, dedicada e muito esforçada que teve para comigo um comportamento excepcional.

Só entrei para a Escola em 7 de Janeiro pois durante o primeiro período passei-o deitado numa cama, entre a vida e a morte, com febres hemorrágicas intestinais. Valeu, depois de muita experimentação clínica, muito gelo e águas de canja, as primeiras três injecções de penicilina que foram ministradas na Meimoa pelo saudoso Dr. Rodrigão de Penamacor. Mesmo com este atraso e sem nenhum auxílio em casa porque os progenitores, ao contrário de seus pais, que ambos tinham feito a quarta classe, eram analfabetos literais, a professora conseguiu que em Julho, final do ano lectivo, fosse um dos melhores alunos da turma.

Se tal se deveu à força de vontade e trabalho meu, também foi fruto da dedicação da professora que se interessou por colmatar a perda dos três meses de falta.

A vida em casa era cheia de sacrifícios. A minha mãe andava sempre doente, com reumático e outros achaques que eu desconhecia. O meu pai era um mouro de trabalho. Saía de madrugada para os afazeres pessoais nas poucas leiras, para ter batatas, feijões e pão em casa, seguindo de lá para o trabalho que os patrões lhe destinavam e depois de um trabalho de Sol a Sol, mal comido e muito esforçado, ainda regressava pelas ditas leiras para mais um pouco de trabalho naquilo que era preciso fazer, coisa que não acabava no campo, regressando a casa noite alta.

Mas a mim, filho único, nunca me faltou nada. Nem quanto à alimentação, nem quanto ao vestuário ou aos manuais e demais material didáctico que, na circunstância, também não era muito. Um livro único, para cada ano de escolaridade, igual para todos e em todo o país – política do regime – um caderno de duas linhas para que a caligrafia fosse uma verdadeira obra de arte, num cursivo inglês impecável e uma ardósia de pedra emoldurada por uma cerca de madeira e um giz de ardósia para se fazerem as contas e resolverem as questões da aritmética.

Apesar das dificuldades económicas foi uma infância feliz com muitos amigos com quem brincava e no aconchego de uma família alargada de quem era o menino querido. Por ser o neto e sobrinho primeiro e, eventualmente, por outras razões mas o certo é que sempre senti por parte dos avós e dos tios um carinho muito especial.

Não conheci a minha avó materna, Teresa Rainha porque faleceu muito nova, 52 anos e a minha mãe ainda era solteira mas o meu avô materno era extremamente carinhoso para mim, o seu primeiro neto, bem como os meus seis tios irmãos da minha mãe, também me tratavam com desvelo.

Da parte paterna o meu pai tinha sete irmãos, quatro rapazes e três raparigas sendo que uma irmã era a mais velha do rancho. A minha tia Joaquina Rosa que eu me lembro sempre de ser casada mas sem filhos e por isso e porque residia ao pé de mim me tratava como um filho que ela ainda não tinha. Veio depois a ter mais tarde 4 filhos, meus primos que sempre estiveram comigo. Os restantes irmãos eram todos solteiros e eu era, para eles o seu bijou. Carregavam comigo às cavalitas, ensinavam-me jogos, encolavam-me eram rol incontável de mimos. A minha avó Maria e o meu avô Ricardo adoravam-me, igualmente. O meu Ricardo que era idolatrava, pela argúcia, inteligência, conhecimento, sentido de justiça e verticalidade, quando bebi uns copitos era, por vezes rude, na repreensão quase sempre quando detectava alguma calinada na língua portuguesa, porque um menino que estudava não podia usar calão tão banal na época, mas, fora disso, era um amor e um exemplo.

Passe a imodéstia mas, por ser a verdade nua e crua, sempre nos distinguimos como aluno exemplar em comportamento e aprendizagem pelo que, apesar de ter passado pelas mãos de quatro professores diferentes, um em cada ano de escolaridade, todos reconheceram em nós capacidades, potencialidades e dedicação aos estudos pelo que nunca reprovámos, ao arrepio do que era habitual, na época em que o insucesso escolar era uma calamidade no País e, na circunstância nesta freguesia raiana e isolada.

Em abono da verdade se diga que cada professor tinha, em regra, para cima de 30 alunos e, em alguns casos, ia até aos 50 alunos. Por outro lado o meio ambiente em que viviam as crianças não era propício ao estudo e ao aproveitamento já que, todas tinham que ajudar a família, nem que fosse a guardar uma vaca e um burro ou mesmo um rebanho de cabras ou ovelhas depois de saírem da escola.

Casos havia, principalmente nas raparigas em que tinham que tomar conta dos irmãos mais novos em substituição das mães que eram precisas no trabalho árduo do campo.

Não era este o nosso caso por sermos filho único mas já era verdadeiro ir guardar a vaca e o burro enquanto estes pastavam para terem a barriga cheia para que, quando chegasse o pai, pudessem lavrar ou carregar carros de produtos ou mesmo lenha para o lume.

 

Capítulo II

 

Acabada a quarta classe cujo aproveitamento era atestado por um júri de três professores num exame escrito e oral que demorava dois dias e tinha de ser realizado na sede do Concelho, no caso em Penamacor, o professor da 2ª Classe, Reis Novais, apesar de só ter sido meu professor naquele ano de escolaridade sempre acompanhou o meu percurso escolar e se interessou para que prosseguisse estudos.

Os pais não tinham proventos que permitissem pagar as despesas no Liceu que estava sediado na capital do Distrito, Castelo Branco. Apesar disso o meu querido Professor Reis Novais não desistiu e convenceu meu pai a que eu fosse estudar para o Seminário do Verbo Divino no Tortosendo e, para tal desenvolveu encómios junto do reitor do referido seminário que aceitou de imediato o meu ingresso naquele estabelecimento de ensino.

Tudo estava preparado para no ano lectivo de 1954/55 ingressasse naquela instituição religiosa que, não tendo paralelismo pedagógico, nem por isso deixava de preparar os alunos como se de um Liceu se tratasse. Aliás os curricula era iguais ao Liceal e ainda acrescentavam a parte doutrinal e confessional da Igreja Católica, nomeadamente a história da religião, a Filosofia, a Teologia, o Latim e o Grego, para além da Moral Religiosa e Cristã e Doutrina da Fé. Mas o destino, Deus, ou o Diabo não quiseram que eu frequentasse o Seminário o que, na altura, muito me desgostou.

Foi um caso caricato em que a hierarquia da Igreja, muitas vezes, pratica o ódio, a violência e a injustiça em vez do amor que pregava e que era e é doutrina Cristã ensinada por Jesus Cristo há mais de dois mil anos.

Os Sacerdotes naquela altura tinham muito poder porque aliavam ao seu estatuto pastoral um certo caciquismo que interessava ao regime político vigente, ditatorial.

Desta feita o Pároco em funções, inimigo figadal do meu avô Ricardo, porque este lhe apontava os dislates do seu comportamento, já que eram contemporâneos e em crianças até foram amigos, não teve pejo nem remorsos de inviabilizar a minha ida para o Seminário dizendo, quando este pediu informações familiares e pessoais, que eu bom garoto, praticante assíduos dos ritos da Igreja Local, fazendo mesmo as funções de sacristão quando era necessário e os meus pais eram bons Cristãos mas o meu avô paterno era comunista.

Este epíteto aplicado a qualquer pessoa mesmo falsamente era um inibidor e um cerar de portas fosse para o que fosse. E assim, com o lamento do Reitor do Seminário para o Professor Reis Novais cá o Zé ficou impedido de prosseguir estudos.


Capitulo III

 

Na mesma altura o meu Ti José Pires Caldeira, padrinho do Crisma, já estava em África, mais concretamente em Angola havia dois anos e em todas as cartas entusiasmava o meu pai a seguir o mesmo caminho no sentido de melhorar as condições de vida e com muito menos sacrifício.

Claro que este convite aliciou meu pai que, no entender do meu padrinho deveria seguir sozinho numa primeira fase e depois de instalado mandasse ir a família, minha mãe e eu próprio. Tal não foi possível por exigência e persistência da minha mãe que dizia: - ou vamos todos ou não vai ninguém.

O amor que o meu tinha a minha mãe e a mim era tão grande e tão profundo que assim decidiu, desfazendo-se das leiras e da casa e palheiro que possuía para poder embarcar com toda a família rumo a Angola.

A burocracia era mais que muita. As comunicações muito demoradas quer para Angola que, mesmo, para Lisboa e a Carta de Chamada, indispensável para o embarque e a marcação de viagens demoraram mais ou menos um ano.

O meu pai, que não contava com tanto tempo de espera já não semeou cereais e outros produtos para a nossa alimentação juntando-se a um primo direito no negócio dos produtos da terra, compra e venda para ganhar para o sustento da casa. Enquanto isso eu ia todos os dias à missa, ajudava o pároco e depois brincava no adro da igreja com os outros garotos que por lá apareciam.

No meio desse ano lectivo ofereceu e garantiu o Padre os seus préstimos para ir frequentar o Seminário, dizendo: - agora sou eu que te lá meto. Agradeci mas recusei. Não justifiquei mas tinha em mente a ida para Angola a qualquer instante.


Capítulo IV


Saída da Meimoa com destino a Angola no dia 4 de Fevereiro de 1956 com paragem em Lisboa durante oito dias para tratar de vacinas no Hospital do Ultramar, obrigatórias para o embarque, levantar bilhetes e pagar o remanescente, meter na Alfândega e Cais da Rocha as malas de porão depois de devidamente etiquetadas e toda a restante burocracia inerente.

Para tal ficámos na casa de um grande amigo de meu pai que residia no Areeiro, numa subcave de um prédio onde a mulher fazia as funções de porteira e mulher de limpeza dos espaços comuns.

Todos os dia nós íamos para a baixa, Rua Augusta cruzamento com a Rua da Conceição, Cais da Rocha, Junqueira, tantas as vezes quantas as necessárias para termos tudo em dia e em ordem para o embarque que se efectuou no dia 12 de Fevereiro do mesmo ano.

Navio Moçambique, aqui representado, que levou onze dias a atracar em Luanda depois de ter feito paragens para carga e descarga no Funchal, capital da Madeira e em São Tomé. 

Dia 23 de Fevereiro de 1956, vinha a madrugada alta, já estávamos a ver um morro de terra vermelha que, mais tarde, conheci como local onde estava implantado o Observatório Meteorológico da Mulemba e o tempo nunca mais passava – julgávamos nós, é claro – até chegar o rebocador que levasse o navio a atracar no Porto de Luanda onde nem havia gare de desembarque o embarque e apenas uns gigantescos guindastes e uns armazéns para armazenamento de mercadorias e malas de porão que seriam revistadas pelos funcionários alfandegários.

Nestes pormenores começámos a descobrir que o que nos ensinaram na escola que Portugal era do Minho a Timor não passava de uma falácia pois nem as pessoas nem os bens podiam passar sem limitações pelo tão apregoado território nacional.

Foi uma alegria ver o meu Tio Zé que nos pareceu demasiado magro, esquelético mesmo, e o amigo Zé Cerdeira.

As malas foram desalfandegadas e encaminhas para a estação de Caminho-de-ferro que nos levaria aos arredores de Malange, cidade a norte de Luanda cuja distância era de, mais ou menos, 400 quilómetros.

Chegado o dia de viagem para Malange dirigimo-nos cedo para a Estação Ferroviária porque o combóio era puxado por máquina a vapor e era lento até dizer chega. Levava quase doze horas a percorrer os tais 400 Km.

Na carruagem viagem muitos negros e poucos brancos. Sim porque ali não havia racismo nem apartheid como alguns intelectuais de pacotilha propalavam.

Uma coisa chamou, desde logo, a nossa atenção. O corredor entre os bancos de madeira ia pejado de caixas com notas de um angolar e ninguém mexia naquilo.

No banco ao lado viajava um branco com todo o estilo de colono que há muitos anos estaria em Angola. Usava uma roupa mais adequada ao calor do que a nossa, Uma balalaica com vários bolsos e um capacete tipo panamá de cortiça para que o calor não o apoquentasse como estava a acontecer connosco.

Estes factos e a cor branca e rosada das nossas faces típicas de climas frios indicaram ao colono que nós eramos recém-chegados àquele território. Por isso resolver meter conversa, dar conselhos, mostrar a sua sabedoria de experiência feita naquelas bandas. Quis saber para onde nos deslocávamos e torceu o nariz quando dizemos a Fazenda que nos esperava. Afirmou não querer desanimar-nos mas lá foi dizendo que naquela fazenda não tínhamos futuro porque era pouco produtiva. Aproveitou para dizer que, caso víssemos que não era o que esperávamos era só voltar atrás cerca de 50 quilómetros e batermos à porta da sua Fazenda e aí teríamos comida, dormida e trabalho, que era o mais importante.

A profecia do velho colono veio, rapidamente, em menos de uma semana a mostrar-se verdadeira e, sem pensarmos duas vezes aceitamos a oferta daquele colono que viemos a saber que se chamava Paiva.

A Estação da Quizenga local onde havia alguns, poucos comerciantes mas muitos serviços ligados ao despacho de mercadorias era o local próximo da Fazenda do Senhor Paiva.

Quando chegamos e dissemos o nome do fazendeiro ao chefe da estação este, que era amigo dele, logo arranjou transporte para a Fazenda que distava cerca de 5 Km por picada de terra batida.

Enquanto os meus pais foram à fazenda numa boleia arranjada pelo chefe de estação – a solidariedade era assim naquele tempo – eu fiquei no cais a guardar as malas de porão que nos acompanharam durante anos.

Com a ansiedade própria de uma criança, os medos, e as picardias dos pretos que passavam por mim mostrando as dentaduras alvas que me arrepiavam, parecia que o tempo nunca mais passava e não via de volta os meus pais. Passadas umas horas lá regressaram, agora numa carrinha de caixa aberta de marca Chevrolet conduzida por um negro que não tinha carta mas era o motorista de confiança do Senhor Paiva. Portanto o meu pai tinha arranjado emprego e víamos ali o recomeço da nossa vida.

E assim foi, de certa forma. Foram dois meses e meio de aprendizagem e adaptação a uma nova forma de vida.

O Paiva era um homem de mais de cinquenta anos, pelo menos aparentava essa idade e era casado com uma jovem de cerca de 30 anos. Era branca mas não sabia ler nem escrever o que, para mim foi uma enorme e estranha surpresa. Outra surpresa era a forma como era tratada pelo marido. Pareceu-me ser mais uma empregada do que uma esposa.

Era uma jovem bonita, loira, de busto firme apesar de já ter dado à luz duas vezes. Tinha duas filhas, uma de 13 e outra de 15 anos o que, analisado à distância aquele casamento pareceu mais um acto de pedofilia do que um matrimónio como deve ser.

Mas o dinheiro, sempre o malfadado dinheiro, faz coisas racionalmente impensáveis. A quimbundinha, como a minha mãe a passou a designar – ela falava melhor o dialecto local do que o português – era filha de um branco pobre que viu no casamento da filha uma oportunidade de melhorar de vida o que, de facto, não aconteceu pois o Paiva não ligava pevide ao sogro. Este por sua vez nunca fez nada pelos filhos, nomeadamente por esta a mais velha pois nem sequer a enviou à escola. Verdade se diga que para ir à escola era preciso ficar hospedada numa localidade diferente donde residia, bem no interior do mato onde nem um carro passava.

Mas a D. Helena, como se chamava para nós era de uma simpatia extrema. Sempre na ausência do marido porque, quando ele estava presente mais parecia uma corça acossada e remetia-se ao silêncio no seu canto.

Todas as vicissitudes vividas foram para nós aprendizagens frutuosas. O Paiva dizia que o meu foi o melhor empregado que alguma vez passou pela sua fazenda. Não se cansava de dizer que não era um agricultor de bengala, que era extremamente trabalhador e metia a mão em qualquer trabalho que fosse preciso exemplificar para os trabalhadores na “tonga” – rancho de trabalhadores a fazer o mesmo tipo de trabalho e a par uns com os outros – que era um homem experiente e conhecedor dos trabalhos agrícolas e muitos outros elogios diários.

Como se pode calcular o meu pai vivia satisfeito. O Paiva procurava integrá-lo nas actividades produtivas e também lúdicas da Fazenda. Primeiro dando-lhe a conhecer a vastidão da Fazenda que era uma espécie de rectângulo com cerca 20 quilómetros de comprimento por 12 de largura. Para a visitar em toda a sua extensão levava mais de meio-dia e tinha de ser transportado por uma carrinha Chevrolet antiga mas possante, com oito cilindros em V e que passava por cima de toda a folha.

Por outro lado levando-a a caçadas à noite com farolim em cima da carrinha e carabinas assestadas para disparar ao mais leve assomo de caça grossa. Veados, Palancas, Pacaças e outras espécies selvagens que por ali abundavam.

A Fazenda era muito produtiva. A sua maior produção era o café que, na altura estava em alta e era vendido por um bom preço. Isso originou a que a maior parte dos fazendeiros de toda a Angola, principalmente do Norte, construíssem vivendas luxuosas em Luanda todas no mesmo espaço territorial que, mais tarde veio a chamar-se o bairro do café, com um extensão significativa no centro mais cobiçado da cidade, entre a Igreja da Sagrada Família até à Maianga tendo a Norte a Maternidade e o Hospital Militar e a sul a Rua Brito Godins que separava o bairro das Ingombotas.

Mas dava tudo. Sisal, Banana, Milho, mandioca, ginguba (amendoim) e todos os produtos hortícolas.

Para além da produção da Fazenda o Paiva tinha um Comércio, com grande capacidade de armazenamento nas traseiras, onde vendia e comprava tudo o que era necessário para a vida dos locais. Ferramentas, tecidos, géneros alimentícios, bebidas. Em troca, a maior parte das vezes não recebia dinheiro mas produtos que os negros produziam nas suas pequenas lavras. Também estes, raramente, levavam dinheiro vivo. Levavam produtos desde os tecidos às bebidas passando pelo açúcar e sal, dois produtos muito importantes para a vida dos indígenas.

No meu caso aprendia a escrever à máquina com teclado HCESAR, uma Remington grande, pesada mas muito afinadinha.

Media os tecidos quando chegavam os clientes e servia as bebidas por eles solicitadas.

Quando havia um espaço de tempo e na ausência do Paiva a curiosidade impulsionava-me para conduzir a carrinha Chevrolet, só 20 metros para a frente e outros tantos para trás para não dar nas vistas.

A D. Helena admirava muito tudo o que eu era capaz de fazer, sendo ainda uma criança. Um dia pediu-me que lhe ensinasse a ler e eu, na minha reduzida sapiência pensava que isso só seria possível com a presença de um livro da 1ª classe. “Santa ignorância”. De qualquer modo lá pedimos ao Paiva que encomendasse o livro e lá comecei a dar as minhas lições de aprendizagem da leitura pelo método que aprendi.

D. Helena talvez por ser uma adulta e pela experiência de vida e, porventura, pela vontade que tinha de escrever e ler as cartas das filhas que estudavam no S. José de Cluny em Luanda, aprendia com facilidade e já soletrava umas letras e compunha umas palavras.

Tudo corria sobre rodas e assim se passaram cerca de dois meses. Havia um senão que incomodava muito a minha mãe. Também aborrecia o meu pai mas, mais cordato, tinha vergonha de puxar o assunto perante o Paiva. Era o facto de serem passados dois meses e ainda não haver contas nem contracto de trabalho nem quanto ganhava por mês.

Com a experiência negativa passada pelo meu Tio Zé a minha mãe receava que se passasse o mesmo com o meu pai e insistia com ele para abordar o Pai e dizer-lhe que precisa de fazer contas à vida e saber quanto ganhava – até porque tinha deixado dívidas na Metrópole – uma mentira piedosa que servia de justificação para obrigar o Paiva a ter em conta a nossa vida e não só a dele.

O Paiva dá umas desculpas de que hoje não tinha vagar que ficaria para o dia seguinte e nesse dia já ficava para Domingo enfim, uma semana de angústia e um acicatar, cada vez maior da minha mãe junto do meu pai. Por fim, no domingo o Paiva aparece com um contracto que parecia ter sido elaborado por um advogado tais as cláusulas que o mesmo continha. Como o meu pai dominava mal a leitura e escrita levámos o contracto para onde nós vivíamos para eu ler em voz alta para o meu pai perceber.

Diga-se, em abono da verdade que o contracto era vantajoso para o meu pai, na essência, porque na realidade estava a ser roubado indecentemente.

Sucintamente diga-se que o meu pai ficaria a ganhar dois contos e quinhentos por mês (Dois mil e quinhentos escudos) que na época era uma quantia relevante. Àquele montante acrescia todos os produtos produzidos na fazenda para toda a família, casa para viver e qualquer compra na Loja (Comércio), como se dizia, seria a preço de custo com um aumento de 10%. Era bom negócio e o meu pai assinou o contracto sem rebuço e entregou-o no dia seguinte ao Paiva que, de imediato, lhe passou para as mãos os dois contos e quinhentos. O meu pai ficou estupefacto pois contava receber cinco contos e disse-lhe: - O Sr. Paiva está enganado. Não são dois contos e meio mas sim cinco contos ao que o Paiva respondeu: - não senhor Manuel faça bem as contas. O meu pai, como sabia pouco tinha algumas fragilidades de argumentação perante um homem tão vivido como o Paiva mas sempre lhe foi dizendo que ele é que tinha razão.

Palavra para um lado frase para o outro e o Paiva lá se descaiu justificando os dois contos e meio referentes ao 2º mês de trabalho porque, para ele, o primeiro mês tinha sido de experiência e, como tal, não havia direito a pagamento. Isto era muito comum nos fazendeiros colonos que roubavam tudo e todos o quanto podiam para enriquecer mais e mais. O meu não se conteve e retorquiu: - Experiência? Então o Sr. Que estava sempre a dizer eu não era um agricultor de bengala que elogiava diariamente o meu serviço e a minha dedicação ao trabalho vem-me com a história da experiência para não pagar os dois contos e quinhentos que tenho direito?

Se é assim, fica aqui desfeito o contracto e eu vou-me embora. Apenas lhe peço que me deixe ficar cá uma semana que é para eu mandar uma carta ao meu irmão para me arranjar uma casa em Luanda.

O Paiva bem o tentou dissuadir mas o meu pai foi inflexível. Primeiro porque se sentia injustiçado e roubado. Segundo porque a minha mãe não deixaria por menos e insistia que deveríamos ir já para Luanda.

O Paiva anuiu. Não tinha outro remédio. Mas, orgulhoso como era não deu a mão à palmatória e manteve a dele dizendo sempre que nos íamos arrepender porque a vida em Luanda não era fácil e numa postura de muito compreensivo lá ia dizendo que, caso nos arrependêssemos o lugar estava sempre em aberto e à disposição do meu pai. No seu inconsciente sempre pensou que voltaríamos devido à dificuldade de emprego para quem não tinha outra arte que não a agricultura e um saber reduzido e sem diploma da escolaridade mínima.

Mas a decisão da família estava tomada e passados os oito dias e recebida a resposta do meu tio Zé lá rumamos no como “camacouve” como era designado até Luanda.


Capítulo V

 

Chegado a Luanda tínhamos à nossa espera uma casinha pequenita, com um quarto, uma sala e uma cozinha exterior situada no início do Bairro Operário muito próximo do Bairro Rico dos funcionários públicos o Bairro do Cruzeiro.

No dia seguinte, por intermédio do Zé Cerdeira, muito nosso amigo e conterrâneo eu arranjei emprego numa loja onde se vendia de tudo e servia, principalmente, aos negros que passavam para o trabalho na Baixa de Luanda. Ali compravam o açúcar, a jinguba, a farinha de mandioca, o peixe seco e tudo o que era preciso para se alimentarem, mal. No regresso do trabalho passavam outra vez pela loja e, para além dos produtos alimentares também levavam uma garrafa de candingolo (aguardente de cana de Açúcar) para uma bebedeira no musseque.

O dono da loja era um jovem de 28 anos que toda a sua vida trabalhara num comércio desde garoto e arranjara uns trocados resolvendo ter o seu próprio negócio. Apesar de novo já tinha todos os vícios que alguém pode adquirir com a idade ou com o carácter desde a nascença. Começou por me ensinar uns truques para que a balança mostrasse um peso maior do que efectivamente tinha para assim roubar os desgraçados dos pretos.

Eu tinha que fazer o que ele mandava embora todo o meu interior se revirasse pela injustiça praticada em benefício de outrem. Nem para mim próprio seria capaz de prejudicar alguém quanto mais para um patrão explorador e ladrão.

A minha educação recebida de meus pais e avós, desde o primeiro dia que me mostrou que tinha entrado no lugar errado.

Mas o que tem de ser tem muita força e os centos e cinquenta escudos por mês, comidos e bebidos, davam para pagar a renda da casa e, enquanto o meu pai estivesse desempregado era uma ajuda preciosa e eu aguentava sem queixumes.

O trabalho era duro. Desde logo por ser durante muitas horas – desde as cinco da manhã até às nove da noite, dezasseis horas de trabalho ininterrupto, sempre em pé, carregando com caixotes de mercadoria, atendendo ao balcão, todos os dias da semana, incluindo domingos e sem qualquer tipo de folga.

A loja distava a uns quinhentos metros da nossa casa e isso era uma vantagem já que não tinha que caminhar muito.

O António, assim se chamava o patrão, era casado com uma jovem de 25 anos e era pai de um bebé de alguns meses. A Ana, sua esposa, moça bem-apessoada, com peito firme e ancas arredondadas, pernas bem modeladas e um palmo de cara, muito bonito, usava cabelos compridos que, ora deixava caídos pelas costas ora os enrolava no cocuruto da cabeça em forma de banana. Podia-se dizer que era uma mulher sensual apesar de já ter dado à luz um filho. Tinha, ainda, a maior qualidade que era ser honesta, bondosa, carinhosa e pragmática.

O António era o primeiro a fazer todas as refeições. Mata-bicho (pequeno-almoço), almoço e jantar. Depois, enquanto ele tomava conta da loja comíamos nós. Eu, a Ana e o bebé. E, nessas alturas em que estávamos sozinhos a Ana, porque desde a primeira hora simpatizou comigo e me protegeu das iras do marido – que eram muitas por eu ser apanhado nas falcatruas que ele me obrigava a fazer e a minha ingenuidade não me permitia fazê-las sem ser descoberto pelos clientes – situações em que o António me desancava de cima abaixo com palavras agressivas – nunca me bateu – e, quando o cliente se fosse embora ou estivéssemos sozinhos ao balcão me recomendava para continuar a fazer o mesmo e que a ira e a agressividade era só para fazer ver ao cliente que não concordava com a burla. Um canalha, já se vê.

Como dizia a Ana dizia-me frequentemente para eu pedir aos meus pais que me tirassem daquela vida de fubeiro (assim se designavam os comerciantes do musseque) dando-me como exemplo a vida que ela levava pois era quase uma prisioneira. Não tinha um dia para sair porque o marido dizia não ter tempo e ela sair sozinha não tinha autorização. Até a roupa ele lhe comprava pois todos os dias ia à baixa tratar de negócios, nomeadamente, fazer encomendas nos armazéns que depois faziam a entrega.

Vivia infeliz naquele casamento que nunca percebi porque é que aconteceu. Porventura por ele ter algo de seu e ela ser uma simples dona de casa. Pelas conversas que tinha comigo, que não eram mais que desabafos que não poderiam ter com mais ninguém, já que não havia interlocutores. Nem família, nem vizinhos porque o António era um ciumento compulsivo. A mulher era atraente mas, ao mesmo tempo, era de uma seriedade a toda a prova. Só que el não tinha nada disso em conta e fazia-lhe a vida num inferno.

A Ana pedindo-me sempre o maior segredo que guardei sempre, religiosamente, desabafava o seu desgosto. Para piora a vida ficou grávida outra vez enquanto eu lá trabalhei e os enjoos e más disposições tornavam o ambiente propício para desabafos íntimos. Chegou a dizer-me que o marido era bruto com ela nas suas relações sexuais, sem entrar em pormenores, como é evidente, e queixava-se dos ciúmes e das traições do marido.

Este era um verdadeiro nojento em termos de relacionamento humano. Agressivo, prepotente, pedófilo – embora naquele tempo não se usasse esse termo – ladrão e muitos outros defeitos que me agoniavam e me faziam a vida num inferno.

Por mais de uma vez me apercebi que levava miúdas da minha idade e ainda mais novas para os fundos do armazém onde as violava, com ou sem o consentimento, pagando essa monstruosidade com uns panos ou vestidos de chita e umas garrafas de candingolo para os pais, que assim, aceitavam sem recalcitrar a canalhice praticada nas suas filhas, a maior parte das vezes virgens e que não passavam de crianças ainda.

A esposa apercebia-se destas coisas e não se dominava. Muitas vezes a ouvi a discutir com o marido considerando-o um abjecto porco. Tinha razão a Ana e tudo isto me trazia agoniado.

Apesar de tudo ainda aguentei cinco meses aquela tortura de um trabalho que não gostava, de um patrão que detestava.

Assim que o meu arranjou emprego pedi-lhe logo que intercedesse junto do seu Padrinho de casamento o João Cheicho, que trabalhava numa multinacional muito importante no tecido empresarial de Angola e cuja sede era em Luanda, como é bom de ver e, em dois ou três dias, lá fui eu trabalhar para a Robert Hudson & Sons, Lda.


Capítulo VI

 

Importa caracterizar o Bairro Operário zona onde residíamos e onde trabalhava na loja.

Era um bairro de transição entre a cidade branca e com melhor qualidade de vida e o musseque pobre sem água canalizada, sem energia eléctrica e sem esgotos.

O Bairro Operário caracterizava-se pela sã convivência entre os bancos pobres e os pretos com emprego mais ou menos estável mas cujo ordenado era, na maior parte das vezes, insuficiente para suster a família.

Abundavam as lavadeiras, mulheres que iam buscar a roupa aos brancos e pretos que viviam na cidade, lavavam-na e passavam-na a ferro e depois entregavam-na a troco de uns tantos, geralmente poucos, escudos.

Haviam muitas prostitutas que na parte mais interior do bairro tinham as suas cubatas num labirinto intrincado difícil de percorrer a quem o desconhecesse. Para manter essa actividade, considerada, hipocritamente, clandestina mas que não era perseguida nem sofria de perseguições excepto quando se armava alguma zaragata por falta de pagamento dos serviços sexuais prestados ou qualquer outra situação que colocava clientes e prestadoras de serviços em conflito.

O Bairro tinha o seu início a norte de da estrada asfaltada que era a última rua do Bairro do Cruzeiro – Bairro dos funcionários públicos – começando as casas de adobe e telhados de zinco e, imediatamente a seguir, um enorme espaço de terra batida que servia par tudo, Hoje chamar-se-ia multiusos. Na altura servia de campo de futebol, de festas, rebitas, danças variadas, concertos de música popular, de tudo um pouco, principalmente ao fim de semana que, na época, para quem trabalhava em empresas com algum “apport” ou no Estado, começava na parte da tarde de sábado e ia até segunda-feira de manhã cedo, pois até os funcionários começavam a trabalhar às oito e meia da manhã, todos os outros trabalhadores começavam às sete e às oito horas, dependendo da grandiosidade da empresa.

Quando eu saí da loja também mudámos de casa para a Rua Paiva Couceiro que tinha início junto do Mercado abastecedor e ia até à Cuca atravessando todo o Bairro de S. Paulo que era enorme.

Esta localização facilitava os nossos movimentos para o trabalho. O meu pai para o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio que ficava junto da Avenida Marginal e eu para a Robert Hudson que ficava na Rua direita de Luanda, logo abaixo do Colégio de S. José de Cluny de que já falámos noutro capítulo.

Tínhamos duas horas para o almoço o que dava tempo para fazermos o caminho a pé e, assim, poupávamos o dinheiro do machimbombo (autocarro) na metrópole.

À noite ajudava a fazer as contas das quotas que o pai cobrava diariamente e que, por serem muitas e pouco dinheiro, exigia um rigor de escrita onde não podia haver rasuras nem falhas.

O meu pai e o meu Tio Zé resolveram ir estudar à noite e fazer a quarta classe porque isso lhes abriria mais portas para a empregabilidade e lá foram ter explicações com um professor primário natural de Vale de Espinho, uma freguesia do concelho do Sabugal que, por sinal depois se tornou muito nosso amigo e frequentava a nossa casa amiúde.

Na Robert Hudson eu comecei a ganhar dez escudos por dia o que sendo mais alguma coisa do que ganhava na loja não era tão compensador porque não tinha direito à alimentação mas, em contrapartida, comecei a fazer o que gostava, aprender a arte de mecânico de automóveis que me foi muito útil na vida futura.

O meu pai conseguiu um lugar numa fábrica de borracha que tinha o nome do proprietário “Macambira” que começou com pouco mais de empregados brancos, que transportava numa carrinha, recolhendo-os e deixando-os em pontos estratégicos mas muito próximo da residência de cada um.

A vida começou a mudar para melhor. Muito melhor e não houve arrependimento que nos obrigasse a voltar para a Fazenda do Paiva.


VII Capítulo

 

Começa aqui uma nova etapa da nossa vida familiar. Eu fui trabalhar para a fábrica de tabacos FTU que me pagava vinte e cinco escudos por dia mas, francamente, a ambição de ganhar mais foi uma frustração. O trabalho é por demais rotineiro e sem aprendizagem que valesse a pena. Para uma mente inquieta como a minha foi um ano perdido. Ganhei mais. Ajudei na casa numa altura em que começaram a ir para Luanda os meus tios a começar pelo meu Ti Tó mas, de facto, foi uma surpresa negativa e também aprendi com ela.

Voltei então à Robert Hudson e, valeu a pena, por que nesse regresso começaram a pagar-me o mesmo que ganhava na FTU. E aí sim valeu a pena. Comecei a sentir necessidade de estudar à noite para melhorar as minhas competências literárias. Comecei pelo único estabelecimento público com ensino nocturno na época – a escola comercial – experiência que também não correu bem porque não me dava bem com o cursivo inglês em caligrafia, ou a letra francesa para os livros de contabilidade e cheguei ao fim do ano chumbado por faltas pois perdia-me diariamente no Clube Vila Clotilde que ficava em frente a jogar matraquilhos.

Com catorze anos fui convidado pata pertencer à J.O.C. movimento católico de defesa dos operários e aprendizes que a Igreja acarinhava. Era um movimento jovem com poucos elementos mas imbuído do espírito do Padre Operário e mais tarde Cardeal Cardijn, seu fundador que pugnava pela dignificação do trabalho e pela espiritualidade catequética.

Esta foi a melhor escola que frequentei. Arranjei amigos que ainda hoje conservo Graças a Deus tornei-me um cristão mais consciente e mais crítico. Um lutador contra todo o tipo de injustiças. Tornei-me num leitor compulsivo. Primeiro livros e jornais que o Movimento aconselhava depois livros de estudo e, nesta circunstância, senti necessidade de fazer estudos liceais.

O meu trabalho na Robert Hudson era, cada dia de maior responsabilidade. Na JOC era, igualmente, solicitado para novas e mais responsáveis tarefas. Tudo isso me fez ver que necessitava de um estofo intelectual mais apurado.

Comecei com explicações nocturnas em colégios privados e fui fazer o 1º Ciclo Liceal ao Liceu Salvador Correia de Sá e Benevides. Num só ano fiz exame com aproveitamento de dois. O equivalente hoje ao sexto ano de escolaridade. Aí comecei por aprender uma língua estrangeira, na circunstância o Francês, e todas as outras disciplinas que iam da História, à Geografia, ao Desenho Geométrico, ao Português, à Matemática.

Foi um salto qualitativo na forma como interpretava a vida e as respectivas situações e como resolvia assuntos que, até aí, eram um mata-cabeças. Com este alento lancei-me logo a fazer no ano seguinte a secção de letras do antigo 5º ano do Liceu o que era uma verdadeira aventura e era necessário um trabalho hercúleo pois todas as restantes actividades em que estava envolvido não podiam, nem eu queria, que fossem negligenciadas. Trabalho, Formação Jocista, venda do Jornal o JO à saída das missas de domingo e as visitas aos doentes internados nos hospitais uma vez por mês.

Era um esforço gigantesco mas, ao mesmo tempo, muito aliciante. Nessa altura sacrifiquei apenas um dos meus passatempos favoritos, as idas ao cinema, porque já era um cinéfilo muito assíduo.

Neste ciclo de aprendizagem que eram três anos de estudo – 3º; 4º e 5º anos, já tinha de aprofundar o Francês, língua estrangeira iniciada nos 1º e 2ºs anos e iniciar uma segunda Língua estrangeira que era o Inglês que começava no 3º e ia até ao 5º. As restantes disciplinas eram Português com todas as regras gramaticais de ortografia e semântica, proposições, leitura obrigatória dos Lusíadas de Camões, das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano para além de outros que não sendo obrigatórios eram aconselháveis. Almeida Garrett, Júlio Dinis, (o Eça estava no Index) o mesmo é dizer que era proibido. Os Sermões do Padre António Vieira e tantos outros que não membro agora.

Os bancos dos Colégios Privados, únicos estabelecimentos que funcionavam em regime nocturno, onde pagava os olhos da cara mas me preparavam para o exame no Liceu oficial – na circunstância o Liceu Nacional Salvador Correia de Sá e Benevides de Luanda – foram uma fonte de aprendizagem significativa e muito importante mas a verdadeira e autêntica escola de vida foi a JOC. Neste Organismo Católico aprendi o sentido de Justiça, o valor da ética, da moral, da religião católica, o sentido da entreajuda, da solidariedade, da fraternidade e da liberdade. Sim, apesar de se dizer que no tempo do Salazar não havia liberdade isso não é inteiramente verdade no que diz respeito à vivência em Angola. Havia liberdade desde que esta não se transformasse em libertinagem.

No trabalho ia crescendo no corpo, na aprendizagem e na progressão na carreira.

Um dia para espanto meu um dos directores o engenheiro Pellikington chamou-me ao gabinete para me propor uma mudança radical de serviço. Deixar a mecânica geral e prepara-me para a mecânica específica dos carros a gasóleo que começaram a surgir na altura. É evidente que aceitei porque além de um aumento substancial no ordenado melhorava muito a minha reputação como trabalhador diferenciado.

O engenheiro entregou-me então um conjunto de livros – todos em inglês – e disse-me que os deveria analisar, não para memorizar mas para consultar sempre que fosse necessário e surgissem dúvidas. Eu argumentei que o meu inglês era rudimentar e muito escolástico, pouco técnico mas o engenheiro, impecável, disse que isso não era obstáculo nenhum pois ele estaria sempre disposto a traduzir o que fosse necessário.

A Empresa importou então uma máquina de afinação de bombas injectoras e injectores e mandou construir dentro da oficina um espaço todo revestido a azulejo, com bancadas de aço inoxidável e vidro do chão ao tecto com muita luz natural e, sempre que necessária, muita luz artificial. Era um laboratório e assim foi designado. Um laboratório diesel onde eu era o único trabalhador com a colaboração do engenheiro inglês, sempre que necessária.

Estabelecemos assim, uma cumplicidade, que me tornou um colaborador indispensável da direcção.

A Empresa era inovadora em todo o género de comercialização e assistência a máquinas e automóveis. Desta forma foi encarregada da montagem da primeira Lavandaria a seco de Luanda com máquinas de tecnologia de ponta na época. E, como o empregado de confiança era eu fui encarregado de supervisionar a montagem das referidas máquinas. Aqui já tinha uns ajudantes que me coadjuvavam no trabalho para que eu não descurasse o serviço que aparecia no laboratório diesel que, diga-se em abono da verdade, não muito pois estávamos no alvor dos veículos que usavam este combustível.

Não ficámos por aqui na inovação. Importámos, montámos, e divulgámos as máquinas de preparar as designadas batatas “pala, pala” sem esta rotulagem. Montámos máquinas numas seis empresas todas em Luanda.

Com isto tudo chegaram os meus dezanove anos e um ordenado acima da média com as regalias que a Multinacional dava aos seus empregados diferenciados. Assim sendo como já tinha mais de seis anos de serviço tive direito a seis meses de licença graciosa na metrópole com passagens pagas e ordenados liquidados no local de férias.

Em Abril de 1963 realizou-se o Grande Encontro da Juventude em Lisboa promovido por toda a Acção Católica jovem. O que agregava os movimentos juvenis operários mas, também, universitários, estudantes do ensino secundário, jovens agricultores e trabalhadores rurais, e até os ditos jovens independentes que não se enquadravam em nenhum dos outros grupos. Eram então a JAC (agricultura), JEC (Estudantes do secundário) JIC (Independentes), JOC (Operários nos diferentes ramos) JUC (Universitários) e isso motivou-me a solicitar à empresa que me concedesse a licença graciosa para assistir e participar naquele evento que foi o maior evento juvenil daquela época, organizados pelos movimentos, com o apoio da hierarquia da Igreja com o então Cardeal Cerejeira, onde não foi necessária a presença policial pois tudo correu com o maior dos civismos.

Começámos a concentração no Estádio do Restelo, participámos numa procissão das velas desde o Campo de Santa Ana até ao cais das Colunas onde estava improvisado um altar para a celebração da Eucaristia.

No dia seguinte, domingo, concentração no terreiro do Paço e missa presidida pelo Cardeal Patriarca. No final encerrou-se o Grande Encontro no Estádio José de Alvalade com a despedia ao fim do dia. Encheu-me de alegria esta actividade da Acção Católica, foi um momento de estreitar de relações de amizade com muitos dos dirigentes da JOC, a nível Nacional de forma presencial, pois já todos nos conhecíamos por correspondência.

Também foram momentos de rever, já homens e mulheres, alguns dos meus companheiros de escola que também militavam nos movimentos locais da minha terra natal.


Capítulo VIII

 

Este regresso temporário ao torrão natal foi, como sempre em toda a minha vida, mais uma mudança radical.

Revi uma jovem que foi minha companheira de escola na 4ª classe, fizemos exame juntos mas agora com 19 anos era uma linda mulher. Cabelos negros compridos que, ora deixava escorrer pelas costas ora o enrolava em caprichosas formas, cada uma delas mais encantadora. Olhos castanho escuros, pele delicada, cintura de vespa, seios firmes e pernas bem torneadas. Naquele dia recebeu uma triste notícia e estava desolada. Tinha falecida a sua avó materna – não era avó verdadeira pois era a madrasta de sua mãe já que esta ficara órfã com apenas dois anos de idade e seu avô contraira matrimónio com a Senhora Rosa, que tratou sempre os filhos da enteada como seus verdadeiros netos, que por sinal eram os únicos – esta jovem a Teresa, desde que a vi me apaixonei perdidamente por ela. Ao vê-la tão fragilizada com a notícia mais me aproximei dela procurando dizer-lhe palavras de conforto.

Mas ela era uma rapariga muito recatada, socialmente muito aceite, companheira, mas pouco dada a conversas que levassem a objectivos mais comprometidos, principalmente com rapazes. Então comigo, porque nos deixámos de ver desde os 11 anos e só nos revíamos aos dezanove, tratava-me com cerimónia e até com certo distanciamento. Tratava-me por senhor como se eu fosse totalmente estranho o que me obrigou a dar-lhe igual tratamento cerimonioso.

Mas nunca mais me saiu da cabeça. Terminado o Grande Encontro o grupo de Penamacor apanhou o autocarro de regresso a casa e eu fui para a casa de uma prima de meu pai no Bairro de Santa Ana quase ao lado da Faculdade de Medicina, com o plano de, no dia seguinte, atravessar o Tejo no cacilheiro e apanhar uma camioneta da carreira que me levasse até Vila Nova de Mil Fontes onde desempenha funções de Guarda Fiscal, o meu tio Joaquim, irmão do meu pai, único que não fora para Angola devido ao cargo que desempenhava.

Na terra também ficara a minha tia Joaquina a mais velha do rancho de oito filhos da parte paterna porque o marido não tinha capacidade de iniciativa para arriscar vida noutro local. Mais tarde, bastante mais tarde todos os filhos dessa minha tia foram parar a Luanda e lá fizeram vida.

Mas voltemos à ida para Vila Nova de Mil Fontes – a vila mentirosa, como dizia o povo – porque não era, verdadeiramente e estatutariamente vila, não era nova mas velha, e não tinha fonte nenhuma quanto mais mil, para visitar o meu Tio, de quem eu tinha muitas saudades.

Por lá me demorei quase uma semana mas a lembrança da Teresa não me largava o pensamento o que acicatava o desejo de ir para a Terra para ver a minha tia e os meus tios maternos mas, principalmente, para poder voltar a ver e a falar com quem tanto tinha mexido com os meus sentimentos, ainda que ela de nada desconfiasse. Julgo mesmo que nunca mais pensou em mim pois andava preocupada com os estudos e triste com o falecimento da sua avó tão querida.

Assim, matadas as saudades do tio e posta a conversa em dia contando como decorria a vida da família em Luanda lá me pus a caminho de Lisboa onde cheguei ao fim do dia e no dia seguinte pus-me a caminho do combóio que me levasse até Castelo Branco e depois a camioneta que me levasse até à Meimoa.

Outros tempos, outras estradas, outros meios de transporte, a mesma miséria que deixei oito anos antes. Por isso eram tão difíceis as deslocações e as comunicações de toda a ordem.

Em finais de Abril lá cheguei à Meimoa onde tive uma recepção quase apoteótica da família e dos amigos pois, na altura, quem ia para a África nunca mais voltava e este regresso era uma façanha que toda a gente queria conhecer de perto, a começar pelo tal sacerdote que não me deixou ir para o Seminário do Tortosendo.

As perguntas sucediam-se em catadupa. Como vão os teus pais, os teus tios, como é que é a vida lá, não tens medo dos pretos etc. etc. etc.

À noite fui visitado pelos amigos João, Norberto, e outros que não me recordo dos nomes que me levaram ao clube – único local onde havia televisão – e se reunia o povo que podia ou era sócio para ver as séries Bonanza e outras similares. Para mim também era novidade a televisão porque em Angola não existia este meio de difusão. Apenas a rádio era semelhante à existente em Portugal.

Logo ali estabelecemos um conjunto de noitadas e de borgas que iriamos fazer para recordar os velhos tempos.

No dia seguinte incentivaram-me a matricular-me no colégio de penamacor onde eles estudante durante o dia e assim passávamos mais tempo juntos. Mesmo que não obtivesse aproveitamento, dado o escasso tempo que faltava para os exames que se realizavam em princípios de Julho, pelo menos passávamos bons bocados, bebíamos uns copos e tentávamos conquistar umas miúdas. Estive de acordo e logo a 1 de Maio, naquele tempo esse dia não era feriado nem se festejava o dia do trabalhador porque o Salazar não permitia ajuntamentos, lá me apresentei no colégio onde me matriculei como aluno externo, maior, o que me dava total liberdade de acção, inclusive de faltar a aulas sem reprimendas.

Quanto à conquista das miúdas não me interessava pois só uma trazia no pensamento e isso era segredo só meu. Mas convivia mais com a Teresa que, apesar do tratamento continuar a ser cerimonioso, me aceitava melhor dada a educação com que eu tratava toda a gente. Uma senhora fosse de que estatuto social fosse era por mim tratada por Dona. Enquanto, a generalidade tratava por tia isto ou tia aquilo. Um Cavalheiro, desde que mais velho eu tratava por Senhor Fulano em vez de Tio isto ou aquilo. Mais novos ou mais velhos, salvo se fossem dos meus tempos de criança, portanto amigos de sempre, tratava toda a gente por Senhor o que encanta a Teresinha por não estar habituada a tais deferências o que em mim era a situação normal e a que estava habituado desde a minha infância em Luanda.

Continua com o capítulo IX…

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