BIOGRAFIA
JOSÉ RAINHO CALDEIRA
Natural de Meimoa, concelho de Penamacor. Distrito de Castelo
Branco
Nascido em 16 de Setembro de 1943
Foto retirada da internet.
Em
dezasseis de Setembro de 1943 nasce na freguesia de Meimoa, concelho de
Penamacor, distrito de Castelo Branco, um recanto rural cheio de beleza
natural, onde tem início o fértil território da Cova da Beira, um indivíduo do
sexo masculino com três quilos e novecentos gramas.
Filho de um
casal jovem de 23 e 22 anos, respectivamente, pai e mãe de seus nomes Manuel
Pires Caldeira e de Adosinda da Conceição Rainha.
Neto
paterno de Ricardo Pires Caldeira e de Maria da Fonseca e materno de José Pina
e Teresa Rainha.
Foi baptizado
em 26 de Setembro do mesmo ano, na paróquia da mesma freguesia pelo Reverendo
Pároco, Padre Álvaro Garcia que também era pároco da freguesia da Benquerença.
Tal evento com tão poucos dias de idade deveu-se ao facto de o pai do
recém-nascido ter sido convocado, de emergência, para manobras militares, já
depois de ter sido desmobilizado, após ter cumprido o serviço militar
obrigatório no quartel da Covilhã, com o objectivo de ser enviado para defender
a Base das Lages, na Ilha Terceira dos Açores, território estratégico
fundamental e cobiçado pelos dois lados da 2ª Guerra Mundial, que tinha
começado em 1939 e viria a ter seu término em 1944.
Assim, com
doze dias apenas ficou entregue aos cuidados de sua mãe e seus avós, enquanto o
pai viajara até à Ota para as ditas manobras militares de defesa estratégica.
Tal demorou
três meses e meio porque, entretanto, o exímio negociador Presidente do
Conselho de Ministros, Professor Doutor António de Oliveira Salazar, selou um
convénio de cedência por trinta anos a referida Base Aérea aos Estados Unidos
da América, um dos aliados contra a Alemanha de Hitler, o ditador nazista que,
com a sua loucura e malvadez, originou a maior mortandade do século XX.
Efectuado o
acordo o pai do menino regressou a casa para o seio dos seus.
O menino
nasceu numa casa situada na Rua do Comendador e não tinha número de porta
porque, à época, não havia necessidade de tal requisito, uma vez que toda a
gente conhecia toda a gente.
A casa era
alugada e o pai do menino não descansou enquanto não conseguiu contruir uma
casa sua para albergar a família.
Com três
anos de idade, o Zé e os pais, mudaram-se para a, hoje designada, Travessa da
Corte, no sopé do S. Domingos, na altura, com cinco famílias residentes e
poucas crianças da sua idade.
Os seus
antepassados eram pessoas de posses. Os seus bisavós paternos tanto da parte da
avó Maria como da parte do Avô Ricardo tinham bens acima da média nesta aldeia
da Beira Baixa. Mas vicissitudes várias fizeram que os seus pais já nascessem
pobres e tivessem que trabalhar muito para dar alguma qualidade de vida ao
rebento.
A título de
curiosidade pode-se afirmar que, uma das causas, porventura a mais importante
fosse a ingenuidade destes progenitores pois foram escandalosamente roubados
pelos familiares mais directos. Os avós da bisavó Isabel, nossos tetra-avós,
tinham tanto ou tão pouco que, só em libras de ouro, tinham meio alqueire
delas. É preciso explicar esta coisa do meio alqueire porque para os mais novos
não deixará de ser chinês. Então é assim: - meio alqueire era uma medida de
madeira que levava dez litros de semente. Se calcularmos que um alqueire de
trigo, a título de exemplo, pesava mais ou menos 15 quilogramas, logo o meio
alqueire pesaria 7 ou 8 quilogramas. Se atendermos que o ouro é um metal, logo
muitíssimo mais pesado que a semente, poderemos, sem receio de errar que as
libras pesariam, sem favor mais de vinte quilos de ouro puro. Pois momentos
antes da morte do tetra avô um dos genros que não fazia parte da nossa árvore
genealógica, se apoderou da totalidade das libras e depois do falecimento, nas
partilhas disse para os cunhados que escolheria os prédios que quisesse e se
estes não estivessem de acordo, como de facto não podiam estar, iam para a
praça dos toiros o que em linguagem da época, significaria irem para a Justiça
e respectivo leilão e que tinha dinheiro é que ficaria com os ditos prédios.
Está bom de
ver que o dinheiro de que ele disponha eram da herança de todos e não só dele
mas inescrupuloso como era não tivera vergonha de roubar todos os seus
familiares, não só no ouro, como nos prédios mais rentáveis e de maior valor.
Na parte do
avô Ricardo, filho único de seu pai e herdeiro directo de um bom pecúlio fora,
numa primeira fase, desbaratado pela sua mãe e meios--irmãos e posteriormente
por ele próprio deixando os filhos sem bens materiais mas com muitos valores
morais – que não têm preço – e estes com esses valores conseguiram vidas
desafogadas e de muita mais qualidade do que aqueles que usurparam os bens que
pertenciam a todos.
Da parte
dos bisavós e avós maternos, sendo menos abastados eram artífices o que, na
época era uma mais-valia, já que a maioria vivia da agricultura quer fosse
proprietário ou simples jornaleiro (trabalhador rural).
O Zé entrou
para a escola com sete anos de idade como era de lei na época em 1950 ainda era
Presidente da República o General Óscar Carmona e o Presidente do Conselho o
Professor Doutor Salazar, fotografia que se destacavam na parede, por cima do
quadro preto de ardósia tendo ao centro, como que a separar os dois poderes um
crucifixo de Jesus Cristo.
A primeira
professora que eu, ingratamente, já não recordo o nome mas sim todas as suas
atitudes. Era uma jovem regente, carinhosa, dedicada e muito esforçada que teve
para comigo um comportamento excepcional.
Só entrei
para a Escola em 7 de Janeiro pois durante o primeiro período passei-o deitado
numa cama, entre a vida e a morte, com febres hemorrágicas intestinais. Valeu,
depois de muita experimentação clínica, muito gelo e águas de canja, as
primeiras três injecções de penicilina que foram ministradas na Meimoa pelo
saudoso Dr. Rodrigão de Penamacor. Mesmo com este atraso e sem nenhum auxílio
em casa porque os progenitores, ao contrário de seus pais, que ambos tinham feito
a quarta classe, eram analfabetos literais, a professora conseguiu que em
Julho, final do ano lectivo, fosse um dos melhores alunos da turma.
Se tal se
deveu à força de vontade e trabalho meu, também foi fruto da dedicação da
professora que se interessou por colmatar a perda dos três meses de falta.
A vida em
casa era cheia de sacrifícios. A minha mãe andava sempre doente, com reumático
e outros achaques que eu desconhecia. O meu pai era um mouro de trabalho. Saía
de madrugada para os afazeres pessoais nas poucas leiras, para ter batatas,
feijões e pão em casa, seguindo de lá para o trabalho que os patrões lhe
destinavam e depois de um trabalho de Sol a Sol, mal comido e muito esforçado,
ainda regressava pelas ditas leiras para mais um pouco de trabalho naquilo que
era preciso fazer, coisa que não acabava no campo, regressando a casa noite
alta.
Mas a mim,
filho único, nunca me faltou nada. Nem quanto à alimentação, nem quanto ao
vestuário ou aos manuais e demais material didáctico que, na circunstância,
também não era muito. Um livro único, para cada ano de escolaridade, igual para
todos e em todo o país – política do regime – um caderno de duas linhas para
que a caligrafia fosse uma verdadeira obra de arte, num cursivo inglês
impecável e uma ardósia de pedra emoldurada por uma cerca de madeira e um giz
de ardósia para se fazerem as contas e resolverem as questões da aritmética.
Apesar das
dificuldades económicas foi uma infância feliz com muitos amigos com quem
brincava e no aconchego de uma família alargada de quem era o menino querido.
Por ser o neto e sobrinho primeiro e, eventualmente, por outras razões mas o
certo é que sempre senti por parte dos avós e dos tios um carinho muito
especial.
Não conheci
a minha avó materna, Teresa Rainha porque faleceu muito nova, 52 anos e a minha
mãe ainda era solteira mas o meu avô materno era extremamente carinhoso para
mim, o seu primeiro neto, bem como os meus seis tios irmãos da minha mãe,
também me tratavam com desvelo.
Da parte
paterna o meu pai tinha sete irmãos, quatro rapazes e três raparigas sendo que
uma irmã era a mais velha do rancho. A minha tia Joaquina Rosa que eu me lembro
sempre de ser casada mas sem filhos e por isso e porque residia ao pé de mim me
tratava como um filho que ela ainda não tinha. Veio depois a ter mais tarde 4
filhos, meus primos que sempre estiveram comigo. Os restantes irmãos eram todos
solteiros e eu era, para eles o seu bijou. Carregavam comigo às cavalitas,
ensinavam-me jogos, encolavam-me eram rol incontável de mimos. A minha avó
Maria e o meu avô Ricardo adoravam-me, igualmente. O meu Ricardo que era
idolatrava, pela argúcia, inteligência, conhecimento, sentido de justiça e
verticalidade, quando bebi uns copitos era, por vezes rude, na repreensão quase
sempre quando detectava alguma calinada na língua portuguesa, porque um menino
que estudava não podia usar calão tão banal na época, mas, fora disso, era um
amor e um exemplo.
Passe a
imodéstia mas, por ser a verdade nua e crua, sempre nos distinguimos como aluno
exemplar em comportamento e aprendizagem pelo que, apesar de ter passado pelas
mãos de quatro professores diferentes, um em cada ano de escolaridade, todos
reconheceram em nós capacidades, potencialidades e dedicação aos estudos pelo
que nunca reprovámos, ao arrepio do que era habitual, na época em que o
insucesso escolar era uma calamidade no País e, na circunstância nesta
freguesia raiana e isolada.
Em abono da
verdade se diga que cada professor tinha, em regra, para cima de 30 alunos e,
em alguns casos, ia até aos 50 alunos. Por outro lado o meio ambiente em que
viviam as crianças não era propício ao estudo e ao aproveitamento já que, todas
tinham que ajudar a família, nem que fosse a guardar uma vaca e um burro ou
mesmo um rebanho de cabras ou ovelhas depois de saírem da escola.
Casos
havia, principalmente nas raparigas em que tinham que tomar conta dos irmãos
mais novos em substituição das mães que eram precisas no trabalho árduo do
campo.
Não era
este o nosso caso por sermos filho único mas já era verdadeiro ir guardar a
vaca e o burro enquanto estes pastavam para terem a barriga cheia para que,
quando chegasse o pai, pudessem lavrar ou carregar carros de produtos ou mesmo
lenha para o lume.
Capítulo II
Acabada a
quarta classe cujo aproveitamento era atestado por um júri de três professores
num exame escrito e oral que demorava dois dias e tinha de ser realizado na
sede do Concelho, no caso em Penamacor, o professor da 2ª Classe, Reis Novais,
apesar de só ter sido meu professor naquele ano de escolaridade sempre
acompanhou o meu percurso escolar e se interessou para que prosseguisse
estudos.
Os pais não
tinham proventos que permitissem pagar as despesas no Liceu que estava sediado
na capital do Distrito, Castelo Branco. Apesar disso o meu querido Professor Reis
Novais não desistiu e convenceu meu pai a que eu fosse estudar para o Seminário
do Verbo Divino no Tortosendo e, para tal desenvolveu encómios junto do reitor
do referido seminário que aceitou de imediato o meu ingresso naquele
estabelecimento de ensino.
Tudo estava
preparado para no ano lectivo de 1954/55 ingressasse naquela instituição
religiosa que, não tendo paralelismo pedagógico, nem por isso deixava de
preparar os alunos como se de um Liceu se tratasse. Aliás os curricula era
iguais ao Liceal e ainda acrescentavam a parte doutrinal e confessional da
Igreja Católica, nomeadamente a história da religião, a Filosofia, a Teologia,
o Latim e o Grego, para além da Moral Religiosa e Cristã e Doutrina da Fé. Mas
o destino, Deus, ou o Diabo não quiseram que eu frequentasse o Seminário o que,
na altura, muito me desgostou.
Foi um caso
caricato em que a hierarquia da Igreja, muitas vezes, pratica o ódio, a
violência e a injustiça em vez do amor que pregava e que era e é doutrina
Cristã ensinada por Jesus Cristo há mais de dois mil anos.
Os
Sacerdotes naquela altura tinham muito poder porque aliavam ao seu estatuto
pastoral um certo caciquismo que interessava ao regime político vigente,
ditatorial.
Desta feita
o Pároco em funções, inimigo figadal do meu avô Ricardo, porque este lhe
apontava os dislates do seu comportamento, já que eram contemporâneos e em
crianças até foram amigos, não teve pejo nem remorsos de inviabilizar a minha
ida para o Seminário dizendo, quando este pediu informações familiares e pessoais,
que eu bom garoto, praticante assíduos dos ritos da Igreja Local, fazendo mesmo
as funções de sacristão quando era necessário e os meus pais eram bons Cristãos
mas o meu avô paterno era comunista.
Este
epíteto aplicado a qualquer pessoa mesmo falsamente era um inibidor e um cerar
de portas fosse para o que fosse. E assim, com o lamento do Reitor do Seminário
para o Professor Reis Novais cá o Zé ficou impedido de prosseguir estudos.
Capitulo
III
Na mesma
altura o meu Ti José Pires Caldeira, padrinho do Crisma, já estava em África,
mais concretamente em Angola havia dois anos e em todas as cartas entusiasmava
o meu pai a seguir o mesmo caminho no sentido de melhorar as condições de vida
e com muito menos sacrifício.
Claro que
este convite aliciou meu pai que, no entender do meu padrinho deveria seguir
sozinho numa primeira fase e depois de instalado mandasse ir a família, minha
mãe e eu próprio. Tal não foi possível por exigência e persistência da minha
mãe que dizia: - ou vamos todos ou não vai ninguém.
O amor que
o meu tinha a minha mãe e a mim era tão grande e tão profundo que assim
decidiu, desfazendo-se das leiras e da casa e palheiro que possuía para poder
embarcar com toda a família rumo a Angola.
A
burocracia era mais que muita. As comunicações muito demoradas quer para Angola
que, mesmo, para Lisboa e a Carta de Chamada, indispensável para o embarque e a
marcação de viagens demoraram mais ou menos um ano.
O meu pai,
que não contava com tanto tempo de espera já não semeou cereais e outros
produtos para a nossa alimentação juntando-se a um primo direito no negócio dos
produtos da terra, compra e venda para ganhar para o sustento da casa. Enquanto
isso eu ia todos os dias à missa, ajudava o pároco e depois brincava no adro da
igreja com os outros garotos que por lá apareciam.
No meio
desse ano lectivo ofereceu e garantiu o Padre os seus préstimos para ir
frequentar o Seminário, dizendo: - agora sou eu que te lá meto. Agradeci mas
recusei. Não justifiquei mas tinha em mente a ida para Angola a qualquer
instante.
Capítulo IV
Saída da
Meimoa com destino a Angola no dia 4 de Fevereiro de 1956 com paragem em Lisboa
durante oito dias para tratar de vacinas no Hospital do Ultramar, obrigatórias
para o embarque, levantar bilhetes e pagar o remanescente, meter na Alfândega e
Cais da Rocha as malas de porão depois de devidamente etiquetadas e toda a
restante burocracia inerente.
Para tal
ficámos na casa de um grande amigo de meu pai que residia no Areeiro, numa
subcave de um prédio onde a mulher fazia as funções de porteira e mulher de
limpeza dos espaços comuns.
Todos os
dia nós íamos para a baixa, Rua Augusta cruzamento com a Rua da Conceição, Cais
da Rocha, Junqueira, tantas as vezes quantas as necessárias para termos tudo em
dia e em ordem para o embarque que se efectuou no dia 12 de Fevereiro do mesmo
ano.
Navio Moçambique, aqui representado, que levou onze dias a atracar em Luanda depois de ter feito paragens para carga e descarga no Funchal, capital da Madeira e em São Tomé.
Dia 23 de
Fevereiro de 1956, vinha a madrugada alta, já estávamos a ver um morro de terra
vermelha que, mais tarde, conheci como local onde estava implantado o
Observatório Meteorológico da Mulemba e o tempo nunca mais passava – julgávamos
nós, é claro – até chegar o rebocador que levasse o navio a atracar no Porto de
Luanda onde nem havia gare de desembarque o embarque e apenas uns gigantescos
guindastes e uns armazéns para armazenamento de mercadorias e malas de porão
que seriam revistadas pelos funcionários alfandegários.
Nestes
pormenores começámos a descobrir que o que nos ensinaram na escola que Portugal
era do Minho a Timor não passava de uma falácia pois nem as pessoas nem os bens
podiam passar sem limitações pelo tão apregoado território nacional.
Foi uma
alegria ver o meu Tio Zé que nos pareceu demasiado magro, esquelético mesmo, e
o amigo Zé Cerdeira.
As malas
foram desalfandegadas e encaminhas para a estação de Caminho-de-ferro que nos
levaria aos arredores de Malange, cidade a norte de Luanda cuja distância era
de, mais ou menos, 400 quilómetros.
Chegado o
dia de viagem para Malange dirigimo-nos cedo para a Estação Ferroviária porque
o combóio era puxado por máquina a vapor e era lento até dizer chega. Levava
quase doze horas a percorrer os tais 400 Km.
Na
carruagem viagem muitos negros e poucos brancos. Sim porque ali não havia
racismo nem apartheid como alguns intelectuais de pacotilha propalavam.
Uma coisa
chamou, desde logo, a nossa atenção. O corredor entre os bancos de madeira ia
pejado de caixas com notas de um angolar e ninguém mexia naquilo.
No banco ao
lado viajava um branco com todo o estilo de colono que há muitos anos estaria
em Angola. Usava uma roupa mais adequada ao calor do que a nossa, Uma balalaica
com vários bolsos e um capacete tipo panamá de cortiça para que o calor não o
apoquentasse como estava a acontecer connosco.
Estes
factos e a cor branca e rosada das nossas faces típicas de climas frios
indicaram ao colono que nós eramos recém-chegados àquele território. Por isso
resolver meter conversa, dar conselhos, mostrar a sua sabedoria de experiência
feita naquelas bandas. Quis saber para onde nos deslocávamos e torceu o nariz
quando dizemos a Fazenda que nos esperava. Afirmou não querer desanimar-nos mas
lá foi dizendo que naquela fazenda não tínhamos futuro porque era pouco
produtiva. Aproveitou para dizer que, caso víssemos que não era o que
esperávamos era só voltar atrás cerca de 50 quilómetros e batermos à porta da
sua Fazenda e aí teríamos comida, dormida e trabalho, que era o mais
importante.
A profecia
do velho colono veio, rapidamente, em menos de uma semana a mostrar-se
verdadeira e, sem pensarmos duas vezes aceitamos a oferta daquele colono que
viemos a saber que se chamava Paiva.
A Estação da Quizenga local onde havia alguns, poucos comerciantes mas muitos serviços ligados ao despacho de mercadorias era o local próximo da Fazenda do Senhor Paiva.
Quando
chegamos e dissemos o nome do fazendeiro ao chefe da estação este, que era
amigo dele, logo arranjou transporte para a Fazenda que distava cerca de 5 Km
por picada de terra batida.
Enquanto os
meus pais foram à fazenda numa boleia arranjada pelo chefe de estação – a
solidariedade era assim naquele tempo – eu fiquei no cais a guardar as malas de
porão que nos acompanharam durante anos.
Com a
ansiedade própria de uma criança, os medos, e as picardias dos pretos que
passavam por mim mostrando as dentaduras alvas que me arrepiavam, parecia que o
tempo nunca mais passava e não via de volta os meus pais. Passadas umas horas
lá regressaram, agora numa carrinha de caixa aberta de marca Chevrolet
conduzida por um negro que não tinha carta mas era o motorista de confiança do
Senhor Paiva. Portanto o meu pai tinha arranjado emprego e víamos ali o recomeço
da nossa vida.
E assim
foi, de certa forma. Foram dois meses e meio de aprendizagem e adaptação a uma
nova forma de vida.
O Paiva era
um homem de mais de cinquenta anos, pelo menos aparentava essa idade e era
casado com uma jovem de cerca de 30 anos. Era branca mas não sabia ler nem
escrever o que, para mim foi uma enorme e estranha surpresa. Outra surpresa era
a forma como era tratada pelo marido. Pareceu-me ser mais uma empregada do que
uma esposa.
Era uma
jovem bonita, loira, de busto firme apesar de já ter dado à luz duas vezes.
Tinha duas filhas, uma de 13 e outra de 15 anos o que, analisado à distância
aquele casamento pareceu mais um acto de pedofilia do que um matrimónio como
deve ser.
Mas o
dinheiro, sempre o malfadado dinheiro, faz coisas racionalmente impensáveis. A
quimbundinha, como a minha mãe a passou a designar – ela falava melhor o
dialecto local do que o português – era filha de um branco pobre que viu no
casamento da filha uma oportunidade de melhorar de vida o que, de facto, não aconteceu
pois o Paiva não ligava pevide ao sogro. Este por sua vez nunca fez nada pelos
filhos, nomeadamente por esta a mais velha pois nem sequer a enviou à escola.
Verdade se diga que para ir à escola era preciso ficar hospedada numa
localidade diferente donde residia, bem no interior do mato onde nem um carro
passava.
Mas a D.
Helena, como se chamava para nós era de uma simpatia extrema. Sempre na
ausência do marido porque, quando ele estava presente mais parecia uma corça
acossada e remetia-se ao silêncio no seu canto.
Todas as
vicissitudes vividas foram para nós aprendizagens frutuosas. O Paiva dizia que
o meu foi o melhor empregado que alguma vez passou pela sua fazenda. Não se
cansava de dizer que não era um agricultor de bengala, que era extremamente trabalhador
e metia a mão em qualquer trabalho que fosse preciso exemplificar para os
trabalhadores na “tonga” – rancho de trabalhadores a fazer o mesmo tipo de
trabalho e a par uns com os outros – que era um homem experiente e conhecedor
dos trabalhos agrícolas e muitos outros elogios diários.
Como se
pode calcular o meu pai vivia satisfeito. O Paiva procurava integrá-lo nas
actividades produtivas e também lúdicas da Fazenda. Primeiro dando-lhe a
conhecer a vastidão da Fazenda que era uma espécie de rectângulo com cerca 20
quilómetros de comprimento por 12 de largura. Para a visitar em toda a sua
extensão levava mais de meio-dia e tinha de ser transportado por uma carrinha
Chevrolet antiga mas possante, com oito cilindros em V e que passava por cima
de toda a folha.
Por outro
lado levando-a a caçadas à noite com farolim em cima da carrinha e carabinas
assestadas para disparar ao mais leve assomo de caça grossa. Veados, Palancas,
Pacaças e outras espécies selvagens que por ali abundavam.
A Fazenda
era muito produtiva. A sua maior produção era o café que, na altura estava em
alta e era vendido por um bom preço. Isso originou a que a maior parte dos
fazendeiros de toda a Angola, principalmente do Norte, construíssem vivendas
luxuosas em Luanda todas no mesmo espaço territorial que, mais tarde veio a
chamar-se o bairro do café, com um extensão significativa no centro mais
cobiçado da cidade, entre a Igreja da Sagrada Família até à Maianga tendo a
Norte a Maternidade e o Hospital Militar e a sul a Rua Brito Godins que
separava o bairro das Ingombotas.
Mas dava
tudo. Sisal, Banana, Milho, mandioca, ginguba (amendoim) e todos os produtos
hortícolas.
Para além
da produção da Fazenda o Paiva tinha um Comércio, com grande capacidade de
armazenamento nas traseiras, onde vendia e comprava tudo o que era necessário
para a vida dos locais. Ferramentas, tecidos, géneros alimentícios, bebidas. Em
troca, a maior parte das vezes não recebia dinheiro mas produtos que os negros
produziam nas suas pequenas lavras. Também estes, raramente, levavam dinheiro
vivo. Levavam produtos desde os tecidos às bebidas passando pelo açúcar e sal, dois
produtos muito importantes para a vida dos indígenas.
No meu caso
aprendia a escrever à máquina com teclado HCESAR, uma Remington grande, pesada
mas muito afinadinha.
Media os
tecidos quando chegavam os clientes e servia as bebidas por eles solicitadas.
Quando
havia um espaço de tempo e na ausência do Paiva a curiosidade impulsionava-me
para conduzir a carrinha Chevrolet, só 20 metros para a frente e outros tantos
para trás para não dar nas vistas.
A D. Helena
admirava muito tudo o que eu era capaz de fazer, sendo ainda uma criança. Um
dia pediu-me que lhe ensinasse a ler e eu, na minha reduzida sapiência pensava
que isso só seria possível com a presença de um livro da 1ª classe. “Santa
ignorância”. De qualquer modo lá pedimos ao Paiva que encomendasse o livro e lá
comecei a dar as minhas lições de aprendizagem da leitura pelo método que
aprendi.
D. Helena
talvez por ser uma adulta e pela experiência de vida e, porventura, pela
vontade que tinha de escrever e ler as cartas das filhas que estudavam no S.
José de Cluny em Luanda, aprendia com facilidade e já soletrava umas letras e
compunha umas palavras.
Tudo corria
sobre rodas e assim se passaram cerca de dois meses. Havia um senão que
incomodava muito a minha mãe. Também aborrecia o meu pai mas, mais cordato,
tinha vergonha de puxar o assunto perante o Paiva. Era o facto de serem
passados dois meses e ainda não haver contas nem contracto de trabalho nem
quanto ganhava por mês.
Com a
experiência negativa passada pelo meu Tio Zé a minha mãe receava que se
passasse o mesmo com o meu pai e insistia com ele para abordar o Pai e
dizer-lhe que precisa de fazer contas à vida e saber quanto ganhava – até
porque tinha deixado dívidas na Metrópole – uma mentira piedosa que servia de
justificação para obrigar o Paiva a ter em conta a nossa vida e não só a dele.
O Paiva dá
umas desculpas de que hoje não tinha vagar que ficaria para o dia seguinte e
nesse dia já ficava para Domingo enfim, uma semana de angústia e um acicatar,
cada vez maior da minha mãe junto do meu pai. Por fim, no domingo o Paiva
aparece com um contracto que parecia ter sido elaborado por um advogado tais as
cláusulas que o mesmo continha. Como o meu pai dominava mal a leitura e escrita
levámos o contracto para onde nós vivíamos para eu ler em voz alta para o meu
pai perceber.
Diga-se, em
abono da verdade que o contracto era vantajoso para o meu pai, na essência,
porque na realidade estava a ser roubado indecentemente.
Sucintamente
diga-se que o meu pai ficaria a ganhar dois contos e quinhentos por mês (Dois
mil e quinhentos escudos) que na época era uma quantia relevante. Àquele
montante acrescia todos os produtos produzidos na fazenda para toda a família,
casa para viver e qualquer compra na Loja (Comércio), como se dizia, seria a
preço de custo com um aumento de 10%. Era bom negócio e o meu pai assinou o
contracto sem rebuço e entregou-o no dia seguinte ao Paiva que, de imediato,
lhe passou para as mãos os dois contos e quinhentos. O meu pai ficou
estupefacto pois contava receber cinco contos e disse-lhe: - O Sr. Paiva está
enganado. Não são dois contos e meio mas sim cinco contos ao que o Paiva respondeu:
- não senhor Manuel faça bem as contas. O meu pai, como sabia pouco tinha
algumas fragilidades de argumentação perante um homem tão vivido como o Paiva
mas sempre lhe foi dizendo que ele é que tinha razão.
Palavra
para um lado frase para o outro e o Paiva lá se descaiu justificando os dois contos
e meio referentes ao 2º mês de trabalho porque, para ele, o primeiro mês tinha
sido de experiência e, como tal, não havia direito a pagamento. Isto era muito
comum nos fazendeiros colonos que roubavam tudo e todos o quanto podiam para
enriquecer mais e mais. O meu não se conteve e retorquiu: - Experiência? Então
o Sr. Que estava sempre a dizer eu não era um agricultor de bengala que
elogiava diariamente o meu serviço e a minha dedicação ao trabalho vem-me com a
história da experiência para não pagar os dois contos e quinhentos que tenho
direito?
Se é assim,
fica aqui desfeito o contracto e eu vou-me embora. Apenas lhe peço que me deixe
ficar cá uma semana que é para eu mandar uma carta ao meu irmão para me
arranjar uma casa em Luanda.
O Paiva bem
o tentou dissuadir mas o meu pai foi inflexível. Primeiro porque se sentia
injustiçado e roubado. Segundo porque a minha mãe não deixaria por menos e
insistia que deveríamos ir já para Luanda.
O Paiva
anuiu. Não tinha outro remédio. Mas, orgulhoso como era não deu a mão à
palmatória e manteve a dele dizendo sempre que nos íamos arrepender porque a
vida em Luanda não era fácil e numa postura de muito compreensivo lá ia dizendo
que, caso nos arrependêssemos o lugar estava sempre em aberto e à disposição do
meu pai. No seu inconsciente sempre pensou que voltaríamos devido à dificuldade
de emprego para quem não tinha outra arte que não a agricultura e um saber
reduzido e sem diploma da escolaridade mínima.
Mas a decisão da família estava tomada e passados os oito dias e recebida a resposta do meu tio Zé lá rumamos no como “camacouve” como era designado até Luanda.
Capítulo V
Chegado a
Luanda tínhamos à nossa espera uma casinha pequenita, com um quarto, uma sala e
uma cozinha exterior situada no início do Bairro Operário muito próximo do
Bairro Rico dos funcionários públicos o Bairro do Cruzeiro.
No dia
seguinte, por intermédio do Zé Cerdeira, muito nosso amigo e conterrâneo eu
arranjei emprego numa loja onde se vendia de tudo e servia, principalmente, aos
negros que passavam para o trabalho na Baixa de Luanda. Ali compravam o açúcar,
a jinguba, a farinha de mandioca, o peixe seco e tudo o que era preciso para se
alimentarem, mal. No regresso do trabalho passavam outra vez pela loja e, para
além dos produtos alimentares também levavam uma garrafa de candingolo
(aguardente de cana de Açúcar) para uma bebedeira no musseque.
O dono da
loja era um jovem de 28 anos que toda a sua vida trabalhara num comércio desde
garoto e arranjara uns trocados resolvendo ter o seu próprio negócio. Apesar de
novo já tinha todos os vícios que alguém pode adquirir com a idade ou com o
carácter desde a nascença. Começou por me ensinar uns truques para que a
balança mostrasse um peso maior do que efectivamente tinha para assim roubar os
desgraçados dos pretos.
Eu tinha
que fazer o que ele mandava embora todo o meu interior se revirasse pela
injustiça praticada em benefício de outrem. Nem para mim próprio seria capaz de
prejudicar alguém quanto mais para um patrão explorador e ladrão.
A minha
educação recebida de meus pais e avós, desde o primeiro dia que me mostrou que
tinha entrado no lugar errado.
Mas o que
tem de ser tem muita força e os centos e cinquenta escudos por mês, comidos e
bebidos, davam para pagar a renda da casa e, enquanto o meu pai estivesse
desempregado era uma ajuda preciosa e eu aguentava sem queixumes.
O trabalho
era duro. Desde logo por ser durante muitas horas – desde as cinco da manhã até
às nove da noite, dezasseis horas de trabalho ininterrupto, sempre em pé,
carregando com caixotes de mercadoria, atendendo ao balcão, todos os dias da
semana, incluindo domingos e sem qualquer tipo de folga.
A loja distava
a uns quinhentos metros da nossa casa e isso era uma vantagem já que não tinha
que caminhar muito.
O António,
assim se chamava o patrão, era casado com uma jovem de 25 anos e era pai de um
bebé de alguns meses. A Ana, sua esposa, moça bem-apessoada, com peito firme e
ancas arredondadas, pernas bem modeladas e um palmo de cara, muito bonito,
usava cabelos compridos que, ora deixava caídos pelas costas ora os enrolava no
cocuruto da cabeça em forma de banana. Podia-se dizer que era uma mulher
sensual apesar de já ter dado à luz um filho. Tinha, ainda, a maior qualidade
que era ser honesta, bondosa, carinhosa e pragmática.
O António
era o primeiro a fazer todas as refeições. Mata-bicho (pequeno-almoço), almoço
e jantar. Depois, enquanto ele tomava conta da loja comíamos nós. Eu, a Ana e o
bebé. E, nessas alturas em que estávamos sozinhos a Ana, porque desde a
primeira hora simpatizou comigo e me protegeu das iras do marido – que eram
muitas por eu ser apanhado nas falcatruas que ele me obrigava a fazer e a minha
ingenuidade não me permitia fazê-las sem ser descoberto pelos clientes –
situações em que o António me desancava de cima abaixo com palavras agressivas
– nunca me bateu – e, quando o cliente se fosse embora ou estivéssemos sozinhos
ao balcão me recomendava para continuar a fazer o mesmo e que a ira e a
agressividade era só para fazer ver ao cliente que não concordava com a burla.
Um canalha, já se vê.
Como dizia
a Ana dizia-me frequentemente para eu pedir aos meus pais que me tirassem
daquela vida de fubeiro (assim se designavam os comerciantes do musseque)
dando-me como exemplo a vida que ela levava pois era quase uma prisioneira. Não
tinha um dia para sair porque o marido dizia não ter tempo e ela sair sozinha
não tinha autorização. Até a roupa ele lhe comprava pois todos os dias ia à
baixa tratar de negócios, nomeadamente, fazer encomendas nos armazéns que
depois faziam a entrega.
Vivia
infeliz naquele casamento que nunca percebi porque é que aconteceu. Porventura
por ele ter algo de seu e ela ser uma simples dona de casa. Pelas conversas que
tinha comigo, que não eram mais que desabafos que não poderiam ter com mais
ninguém, já que não havia interlocutores. Nem família, nem vizinhos porque o
António era um ciumento compulsivo. A mulher era atraente mas, ao mesmo tempo,
era de uma seriedade a toda a prova. Só que el não tinha nada disso em conta e
fazia-lhe a vida num inferno.
A Ana
pedindo-me sempre o maior segredo que guardei sempre, religiosamente,
desabafava o seu desgosto. Para piora a vida ficou grávida outra vez enquanto
eu lá trabalhei e os enjoos e más disposições tornavam o ambiente propício para
desabafos íntimos. Chegou a dizer-me que o marido era bruto com ela nas suas
relações sexuais, sem entrar em pormenores, como é evidente, e queixava-se dos
ciúmes e das traições do marido.
Este era um
verdadeiro nojento em termos de relacionamento humano. Agressivo, prepotente,
pedófilo – embora naquele tempo não se usasse esse termo – ladrão e muitos
outros defeitos que me agoniavam e me faziam a vida num inferno.
Por mais de
uma vez me apercebi que levava miúdas da minha idade e ainda mais novas para os
fundos do armazém onde as violava, com ou sem o consentimento, pagando essa
monstruosidade com uns panos ou vestidos de chita e umas garrafas de candingolo
para os pais, que assim, aceitavam sem recalcitrar a canalhice praticada nas
suas filhas, a maior parte das vezes virgens e que não passavam de crianças
ainda.
A esposa
apercebia-se destas coisas e não se dominava. Muitas vezes a ouvi a discutir
com o marido considerando-o um abjecto porco. Tinha razão a Ana e tudo isto me
trazia agoniado.
Apesar de
tudo ainda aguentei cinco meses aquela tortura de um trabalho que não gostava,
de um patrão que detestava.
Assim que o
meu arranjou emprego pedi-lhe logo que intercedesse junto do seu Padrinho de
casamento o João Cheicho, que trabalhava numa multinacional muito importante no
tecido empresarial de Angola e cuja sede era em Luanda, como é bom de ver e, em
dois ou três dias, lá fui eu trabalhar para a Robert Hudson & Sons, Lda.
Capítulo VI
Importa
caracterizar o Bairro Operário zona onde residíamos e onde trabalhava na loja.
Era um
bairro de transição entre a cidade branca e com melhor qualidade de vida e o
musseque pobre sem água canalizada, sem energia eléctrica e sem esgotos.
O Bairro
Operário caracterizava-se pela sã convivência entre os bancos pobres e os
pretos com emprego mais ou menos estável mas cujo ordenado era, na maior parte
das vezes, insuficiente para suster a família.
Abundavam
as lavadeiras, mulheres que iam buscar a roupa aos brancos e pretos que viviam
na cidade, lavavam-na e passavam-na a ferro e depois entregavam-na a troco de
uns tantos, geralmente poucos, escudos.
Haviam
muitas prostitutas que na parte mais interior do bairro tinham as suas cubatas
num labirinto intrincado difícil de percorrer a quem o desconhecesse. Para
manter essa actividade, considerada, hipocritamente, clandestina mas que não
era perseguida nem sofria de perseguições excepto quando se armava alguma
zaragata por falta de pagamento dos serviços sexuais prestados ou qualquer
outra situação que colocava clientes e prestadoras de serviços em conflito.
O Bairro
tinha o seu início a norte de da estrada asfaltada que era a última rua do
Bairro do Cruzeiro – Bairro dos funcionários públicos – começando as casas de
adobe e telhados de zinco e, imediatamente a seguir, um enorme espaço de terra
batida que servia par tudo, Hoje chamar-se-ia multiusos. Na altura servia de
campo de futebol, de festas, rebitas, danças variadas, concertos de música
popular, de tudo um pouco, principalmente ao fim de semana que, na época, para
quem trabalhava em empresas com algum “apport”
ou no Estado, começava na parte da tarde de sábado e ia até segunda-feira de
manhã cedo, pois até os funcionários começavam a trabalhar às oito e meia da
manhã, todos os outros trabalhadores começavam às sete e às oito horas,
dependendo da grandiosidade da empresa.
Quando eu
saí da loja também mudámos de casa para a Rua Paiva Couceiro que tinha início
junto do Mercado abastecedor e ia até à Cuca atravessando todo o Bairro de S.
Paulo que era enorme.
Esta
localização facilitava os nossos movimentos para o trabalho. O meu pai para o
Sindicato dos Trabalhadores do Comércio que ficava junto da Avenida Marginal e
eu para a Robert Hudson que ficava na Rua direita de Luanda, logo abaixo do
Colégio de S. José de Cluny de que já falámos noutro capítulo.
Tínhamos
duas horas para o almoço o que dava tempo para fazermos o caminho a pé e,
assim, poupávamos o dinheiro do machimbombo (autocarro) na metrópole.
À noite
ajudava a fazer as contas das quotas que o pai cobrava diariamente e que, por
serem muitas e pouco dinheiro, exigia um rigor de escrita onde não podia haver
rasuras nem falhas.
O meu pai e
o meu Tio Zé resolveram ir estudar à noite e fazer a quarta classe porque isso
lhes abriria mais portas para a empregabilidade e lá foram ter explicações com
um professor primário natural de Vale de Espinho, uma freguesia do concelho do
Sabugal que, por sinal depois se tornou muito nosso amigo e frequentava a nossa
casa amiúde.
Na Robert
Hudson eu comecei a ganhar dez escudos por dia o que sendo mais alguma coisa do
que ganhava na loja não era tão compensador porque não tinha direito à
alimentação mas, em contrapartida, comecei a fazer o que gostava, aprender a
arte de mecânico de automóveis que me foi muito útil na vida futura.
O meu pai
conseguiu um lugar numa fábrica de borracha que tinha o nome do proprietário
“Macambira” que começou com pouco mais de empregados brancos, que transportava
numa carrinha, recolhendo-os e deixando-os em pontos estratégicos mas muito
próximo da residência de cada um.
A vida
começou a mudar para melhor. Muito melhor e não houve arrependimento que nos
obrigasse a voltar para a Fazenda do Paiva.
VII
Capítulo
Começa aqui
uma nova etapa da nossa vida familiar. Eu fui trabalhar para a fábrica de
tabacos FTU que me pagava vinte e cinco escudos por dia mas, francamente, a
ambição de ganhar mais foi uma frustração. O trabalho é por demais rotineiro e
sem aprendizagem que valesse a pena. Para uma mente inquieta como a minha foi
um ano perdido. Ganhei mais. Ajudei na casa numa altura em que começaram a ir
para Luanda os meus tios a começar pelo meu Ti Tó mas, de facto, foi uma
surpresa negativa e também aprendi com ela.
Voltei
então à Robert Hudson e, valeu a pena, por que nesse regresso começaram a
pagar-me o mesmo que ganhava na FTU. E aí sim valeu a pena. Comecei a sentir
necessidade de estudar à noite para melhorar as minhas competências literárias.
Comecei pelo único estabelecimento público com ensino nocturno na época – a
escola comercial – experiência que também não correu bem porque não me dava bem
com o cursivo inglês em caligrafia, ou a letra francesa para os livros de
contabilidade e cheguei ao fim do ano chumbado por faltas pois perdia-me
diariamente no Clube Vila Clotilde que ficava em frente a jogar matraquilhos.
Com catorze
anos fui convidado pata pertencer à J.O.C. movimento católico de defesa dos
operários e aprendizes que a Igreja acarinhava. Era um movimento jovem com
poucos elementos mas imbuído do espírito do Padre Operário e mais tarde Cardeal
Cardijn, seu fundador que pugnava pela dignificação do trabalho e pela
espiritualidade catequética.
Esta foi a melhor
escola que frequentei. Arranjei amigos que ainda hoje conservo Graças a Deus
tornei-me um cristão mais consciente e mais crítico. Um lutador contra todo o
tipo de injustiças. Tornei-me num leitor compulsivo. Primeiro livros e jornais que
o Movimento aconselhava depois livros de estudo e, nesta circunstância, senti
necessidade de fazer estudos liceais.
O meu
trabalho na Robert Hudson era, cada dia de maior responsabilidade. Na JOC era,
igualmente, solicitado para novas e mais responsáveis tarefas. Tudo isso me fez
ver que necessitava de um estofo intelectual mais apurado.
Comecei com
explicações nocturnas em colégios privados e fui fazer o 1º Ciclo Liceal ao
Liceu Salvador Correia de Sá e Benevides. Num só ano fiz exame com
aproveitamento de dois. O equivalente hoje ao sexto ano de escolaridade. Aí
comecei por aprender uma língua estrangeira, na circunstância o Francês, e
todas as outras disciplinas que iam da História, à Geografia, ao Desenho
Geométrico, ao Português, à Matemática.
Foi um
salto qualitativo na forma como interpretava a vida e as respectivas situações
e como resolvia assuntos que, até aí, eram um mata-cabeças. Com este alento
lancei-me logo a fazer no ano seguinte a secção de letras do antigo 5º ano do
Liceu o que era uma verdadeira aventura e era necessário um trabalho hercúleo
pois todas as restantes actividades em que estava envolvido não podiam, nem eu
queria, que fossem negligenciadas. Trabalho, Formação Jocista, venda do Jornal
o JO à saída das missas de domingo e as visitas aos doentes internados nos
hospitais uma vez por mês.
Era um
esforço gigantesco mas, ao mesmo tempo, muito aliciante. Nessa altura
sacrifiquei apenas um dos meus passatempos favoritos, as idas ao cinema, porque
já era um cinéfilo muito assíduo.
Neste ciclo
de aprendizagem que eram três anos de estudo – 3º; 4º e 5º anos, já tinha de
aprofundar o Francês, língua estrangeira iniciada nos 1º e 2ºs anos e iniciar
uma segunda Língua estrangeira que era o Inglês que começava no 3º e ia até ao
5º. As restantes disciplinas eram Português com todas as regras gramaticais de
ortografia e semântica, proposições, leitura obrigatória dos Lusíadas de
Camões, das Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano para além de outros que
não sendo obrigatórios eram aconselháveis. Almeida Garrett, Júlio Dinis, (o Eça
estava no Index) o mesmo é dizer que era proibido. Os Sermões do Padre António
Vieira e tantos outros que não membro agora.
Os bancos
dos Colégios Privados, únicos estabelecimentos que funcionavam em regime
nocturno, onde pagava os olhos da cara mas me preparavam para o exame no Liceu
oficial – na circunstância o Liceu Nacional Salvador Correia de Sá e Benevides
de Luanda – foram uma fonte de aprendizagem significativa e muito importante
mas a verdadeira e autêntica escola de vida foi a JOC. Neste Organismo Católico
aprendi o sentido de Justiça, o valor da ética, da moral, da religião católica,
o sentido da entreajuda, da solidariedade, da fraternidade e da liberdade. Sim,
apesar de se dizer que no tempo do Salazar não havia liberdade isso não é
inteiramente verdade no que diz respeito à vivência em Angola. Havia liberdade
desde que esta não se transformasse em libertinagem.
No trabalho
ia crescendo no corpo, na aprendizagem e na progressão na carreira.
Um dia para
espanto meu um dos directores o engenheiro Pellikington chamou-me ao gabinete
para me propor uma mudança radical de serviço. Deixar a mecânica geral e
prepara-me para a mecânica específica dos carros a gasóleo que começaram a
surgir na altura. É evidente que aceitei porque além de um aumento substancial
no ordenado melhorava muito a minha reputação como trabalhador diferenciado.
O
engenheiro entregou-me então um conjunto de livros – todos em inglês – e
disse-me que os deveria analisar, não para memorizar mas para consultar sempre
que fosse necessário e surgissem dúvidas. Eu argumentei que o meu inglês era
rudimentar e muito escolástico, pouco técnico mas o engenheiro, impecável,
disse que isso não era obstáculo nenhum pois ele estaria sempre disposto a
traduzir o que fosse necessário.
A Empresa
importou então uma máquina de afinação de bombas injectoras e injectores e
mandou construir dentro da oficina um espaço todo revestido a azulejo, com
bancadas de aço inoxidável e vidro do chão ao tecto com muita luz natural e,
sempre que necessária, muita luz artificial. Era um laboratório e assim foi
designado. Um laboratório diesel onde eu era o único trabalhador com a
colaboração do engenheiro inglês, sempre que necessária.
Estabelecemos
assim, uma cumplicidade, que me tornou um colaborador indispensável da
direcção.
A Empresa
era inovadora em todo o género de comercialização e assistência a máquinas e
automóveis. Desta forma foi encarregada da montagem da primeira Lavandaria a
seco de Luanda com máquinas de tecnologia de ponta na época. E, como o
empregado de confiança era eu fui encarregado de supervisionar a montagem das
referidas máquinas. Aqui já tinha uns ajudantes que me coadjuvavam no trabalho
para que eu não descurasse o serviço que aparecia no laboratório diesel que,
diga-se em abono da verdade, não muito pois estávamos no alvor dos veículos que
usavam este combustível.
Não ficámos
por aqui na inovação. Importámos, montámos, e divulgámos as máquinas de
preparar as designadas batatas “pala, pala” sem esta rotulagem. Montámos
máquinas numas seis empresas todas em Luanda.
Com isto
tudo chegaram os meus dezanove anos e um ordenado acima da média com as
regalias que a Multinacional dava aos seus empregados diferenciados. Assim
sendo como já tinha mais de seis anos de serviço tive direito a seis meses de
licença graciosa na metrópole com passagens pagas e ordenados liquidados no
local de férias.
Em Abril de
1963 realizou-se o Grande Encontro da Juventude em Lisboa promovido por toda a
Acção Católica jovem. O que agregava os movimentos juvenis operários mas,
também, universitários, estudantes do ensino secundário, jovens agricultores e
trabalhadores rurais, e até os ditos jovens independentes que não se
enquadravam em nenhum dos outros grupos. Eram então a JAC (agricultura), JEC
(Estudantes do secundário) JIC (Independentes), JOC (Operários nos diferentes
ramos) JUC (Universitários) e isso motivou-me a solicitar à empresa que me
concedesse a licença graciosa para assistir e participar naquele evento que foi
o maior evento juvenil daquela época, organizados pelos movimentos, com o apoio
da hierarquia da Igreja com o então Cardeal Cerejeira, onde não foi necessária
a presença policial pois tudo correu com o maior dos civismos.
Começámos a
concentração no Estádio do Restelo, participámos numa procissão das velas desde
o Campo de Santa Ana até ao cais das Colunas onde estava improvisado um altar
para a celebração da Eucaristia.
No dia
seguinte, domingo, concentração no terreiro do Paço e missa presidida pelo Cardeal
Patriarca. No final encerrou-se o Grande Encontro no Estádio José de Alvalade
com a despedia ao fim do dia. Encheu-me de alegria esta actividade da Acção
Católica, foi um momento de estreitar de relações de amizade com muitos dos
dirigentes da JOC, a nível Nacional de forma presencial, pois já todos nos
conhecíamos por correspondência.
Também
foram momentos de rever, já homens e mulheres, alguns dos meus companheiros de
escola que também militavam nos movimentos locais da minha terra natal.
Capítulo
VIII
Este
regresso temporário ao torrão natal foi, como sempre em toda a minha vida, mais
uma mudança radical.
Revi uma
jovem que foi minha companheira de escola na 4ª classe, fizemos exame juntos
mas agora com 19 anos era uma linda mulher. Cabelos negros compridos que, ora
deixava escorrer pelas costas ora o enrolava em caprichosas formas, cada uma
delas mais encantadora. Olhos castanho escuros, pele delicada, cintura de
vespa, seios firmes e pernas bem torneadas. Naquele dia recebeu uma triste
notícia e estava desolada. Tinha falecida a sua avó materna – não era avó
verdadeira pois era a madrasta de sua mãe já que esta ficara órfã com apenas
dois anos de idade e seu avô contraira matrimónio com a Senhora Rosa, que
tratou sempre os filhos da enteada como seus verdadeiros netos, que por sinal
eram os únicos – esta jovem a Teresa, desde que a vi me apaixonei perdidamente
por ela. Ao vê-la tão fragilizada com a notícia mais me aproximei dela
procurando dizer-lhe palavras de conforto.
Mas ela era
uma rapariga muito recatada, socialmente muito aceite, companheira, mas pouco
dada a conversas que levassem a objectivos mais comprometidos, principalmente
com rapazes. Então comigo, porque nos deixámos de ver desde os 11 anos e só nos
revíamos aos dezanove, tratava-me com cerimónia e até com certo distanciamento.
Tratava-me por senhor como se eu fosse totalmente estranho o que me obrigou a
dar-lhe igual tratamento cerimonioso.
Mas nunca
mais me saiu da cabeça. Terminado o Grande Encontro o grupo de Penamacor
apanhou o autocarro de regresso a casa e eu fui para a casa de uma prima de meu
pai no Bairro de Santa Ana quase ao lado da Faculdade de Medicina, com o plano
de, no dia seguinte, atravessar o Tejo no cacilheiro e apanhar uma camioneta da
carreira que me levasse até Vila Nova de Mil Fontes onde desempenha funções de
Guarda Fiscal, o meu tio Joaquim, irmão do meu pai, único que não fora para
Angola devido ao cargo que desempenhava.
Na terra
também ficara a minha tia Joaquina a mais velha do rancho de oito filhos da
parte paterna porque o marido não tinha capacidade de iniciativa para arriscar
vida noutro local. Mais tarde, bastante mais tarde todos os filhos dessa minha
tia foram parar a Luanda e lá fizeram vida.
Mas
voltemos à ida para Vila Nova de Mil Fontes – a vila mentirosa, como dizia o
povo – porque não era, verdadeiramente e estatutariamente vila, não era nova
mas velha, e não tinha fonte nenhuma quanto mais mil, para visitar o meu Tio,
de quem eu tinha muitas saudades.
Por lá me
demorei quase uma semana mas a lembrança da Teresa não me largava o pensamento
o que acicatava o desejo de ir para a Terra para ver a minha tia e os meus tios
maternos mas, principalmente, para poder voltar a ver e a falar com quem tanto
tinha mexido com os meus sentimentos, ainda que ela de nada desconfiasse. Julgo
mesmo que nunca mais pensou em mim pois andava preocupada com os estudos e
triste com o falecimento da sua avó tão querida.
Assim,
matadas as saudades do tio e posta a conversa em dia contando como decorria a
vida da família em Luanda lá me pus a caminho de Lisboa onde cheguei ao fim do
dia e no dia seguinte pus-me a caminho do combóio que me levasse até Castelo
Branco e depois a camioneta que me levasse até à Meimoa.
Outros
tempos, outras estradas, outros meios de transporte, a mesma miséria que deixei
oito anos antes. Por isso eram tão difíceis as deslocações e as comunicações de
toda a ordem.
Em finais
de Abril lá cheguei à Meimoa onde tive uma recepção quase apoteótica da família
e dos amigos pois, na altura, quem ia para a África nunca mais voltava e este
regresso era uma façanha que toda a gente queria conhecer de perto, a começar
pelo tal sacerdote que não me deixou ir para o Seminário do Tortosendo.
As
perguntas sucediam-se em catadupa. Como vão os teus pais, os teus tios, como é
que é a vida lá, não tens medo dos pretos etc. etc. etc.
À noite fui
visitado pelos amigos João, Norberto, e outros que não me recordo dos nomes que
me levaram ao clube – único local onde havia televisão – e se reunia o povo que
podia ou era sócio para ver as séries Bonanza e outras similares. Para mim
também era novidade a televisão porque em Angola não existia este meio de
difusão. Apenas a rádio era semelhante à existente em Portugal.
Logo ali
estabelecemos um conjunto de noitadas e de borgas que iriamos fazer para
recordar os velhos tempos.
No dia
seguinte incentivaram-me a matricular-me no colégio de penamacor onde eles
estudante durante o dia e assim passávamos mais tempo juntos. Mesmo que não
obtivesse aproveitamento, dado o escasso tempo que faltava para os exames que
se realizavam em princípios de Julho, pelo menos passávamos bons bocados,
bebíamos uns copos e tentávamos conquistar umas miúdas. Estive de acordo e logo
a 1 de Maio, naquele tempo esse dia não era feriado nem se festejava o dia do
trabalhador porque o Salazar não permitia ajuntamentos, lá me apresentei no
colégio onde me matriculei como aluno externo, maior, o que me dava total
liberdade de acção, inclusive de faltar a aulas sem reprimendas.
Quanto à
conquista das miúdas não me interessava pois só uma trazia no pensamento e isso
era segredo só meu. Mas convivia mais com a Teresa que, apesar do tratamento
continuar a ser cerimonioso, me aceitava melhor dada a educação com que eu tratava
toda a gente. Uma senhora fosse de que estatuto social fosse era por mim
tratada por Dona. Enquanto, a generalidade tratava por tia isto ou tia aquilo.
Um Cavalheiro, desde que mais velho eu tratava por Senhor Fulano em vez de Tio
isto ou aquilo. Mais novos ou mais velhos, salvo se fossem dos meus tempos de
criança, portanto amigos de sempre, tratava toda a gente por Senhor o que
encanta a Teresinha por não estar habituada a tais deferências o que em mim era
a situação normal e a que estava habituado desde a minha infância em Luanda.
Continua
com o capítulo IX…
No comments:
Post a Comment